Educação universitária: práxis coletiva

Pedro Bergamo · Capítulo 33 de 40

Páginas do PDF

Educação universitária: práxis coletiva

2. Sentido propositivo-pedagógico de transitar por entre política e ética

Em decorrência, e na presença daquela autoafirmação pedagógica, um projeto político-pedagógico teria como visar tal proteção, sem que esta, para subsistir, tenha que ser invasora da oportunidade de gerenciar “impulsão para o ganho”.

2. Sentido propositivo-pedagógico de transitar por entre política e ética

Extemporaneidade usurpadora da relação entre prole ainda naturalmente autoinsustentável e quem a sustenta tem sido culturalmente reproduzida, para não dizer salva, por força da (inercialmente exercida e convenientemente irreconhecível) relação entre dominação política e exterioridade (à pessoa) dos objetos apropriados. Tal reprodução tem ocorrido à conta da incontinência apropriativa que sempre desandou em fortalecimento de poucos e enfraquecimento de muitos. Por sua vez, esse fortalecimento tem ocorrido em alcance como que genético-cultural, cuja inercial prevalência na história tem implicado interdependência entre fortes e fracos. É que os fortes têm transferido para os fracos o enfrentamento da inequivocação quanto a efetivamente produzir. Todavia, tal transferência e privilegiada distância desse enfrentamento, além de se equivalerem, têm implicado omissão educacional. Já esta omissão tem correspondido a não compensar redução da natural-finita autoinsustentabilidade juvenil por capacitação adulta a se autossustentar em reciprocidade de coerência com a coletividade e com o intercâmbio orgânico em relação direta ou indireta com a natureza.

A princípio, cabe afirmar que padecimento da sustentação alheia pelos despossuídos de fontes de meios de vida e transferência da sustentação própria pelos possuidores têm sido gestos antieticamente políticos e sempre careceram de uma inversão dialética que os transmute em antipoliticamente éticos, vale dizer, em universal enfrentamento da sustentação própria, assim como da prole ainda disto incapaz e do soerguimento das condições para existir a coletividade em que tal inversão se reproduza incessantemente.

a) Da política à ética

A exemplo do que já ocorre desde tempos imemoriais, peculiarmente do que acontecia ao longo da Antiguidade Clássica, tem coincidido com dominação política o modo de vida cuja dinâmica presume excedentes de alimentos gerados no exterior das cidades. Em rigor, a geração desses excedentes tinha e ainda tem por contrapartida a prestação de garantias a direitos de propriedade sobre os resultados do trabalho alheio. Já estes resultados vêm sendo obtidos à conta de potencial ou efetiva exclusão do acesso à propriedade das fontes de meios de vida – da própria corporeidade (no caso de escravos) e dos recursos naturais. Ao longo da história, gratuidade de capazes de produzir tem sido imprescindível ou institucional. Por ocorrer tão só no interior da propriedade, ela há de destinar-se a outrem que não seja a sua própria fonte, enquanto a pertinente geração também há de ser forçosamente impingida. Neste caso, sua imprescindibilidade está usurpada e seu caráter institucional é alternativo, pois, à medida que ninguém a gera opcionalmente, resta explicada a pertinente imposição, além de apenas ideologicamente justificado o alcance improdutivo do trabalho correspondente àquele de impingi-la.

Todavia, caso fosse possível saber que gratuidade opcionalmente gerada signifique não mais ser explicável sua imposição e acabe por injustificar o alcance improdutivo do trabalho de impingi-la, então os (enfim) sábios se deparariam com “alteridade institucional”, no sentido de que a imprescindibilidade de serem gratuitos explique a singularidade pessoal por sua relação com a coletividade e a suficiência desta justifique tal singularidade. Neste caso, os beneficiários teriam que ser crianças e/ou pessoas incapazes de autossustentação, assim como o soerguimento de radicalmente inovadas condições da existência da coletividade.

Na histórica vigência do alcance alternativo da institucionalidade, negar-se a ser parcialmente gratuito tem desandado em ameaça e efetividade de heteroexclusão por parte de possuidores de fontes objetivas de meios de vida, por força da recorrente e implacável ameaça de os despossuídos de tais fontes não terem como acabar beneficiários de resultados do processo produtivo. Este desfecho tem evocado o medo da privação, inclusive extrema, insuflando-se o instinto de preservação. Assim, a necessidade de remediar e de prevenir tal privação passa a favorecer estratégias de impor geração de gratuidade aos despossuídos. Trata-se de seguir difusas estratégias político-dominativas, as quais sempre implicaram capacitações para perceber, observar, interpretar e conceituar o potencial e/ou a efetividade de esforço produtivo, porém, tão somente no exterior de si mesmo e no interior das propriedades dos próprios estrategistas. Por sua vez, essas capacitações têm incidido em fenômenos pedagógico-epistemológicos, dos quais derivam insuficiências, ou mesmo ausências, dos presumidos esforços gratuitos, implicando, da parte dos incapacitados, esforços gratuitos maiores do que os justificáveis, ou seja, do que os inequivocamente devidos.

Cabe, então, questionar a recorrência da falta de uma conceituação de injustiça, cujo fundamento real-concreto coincida com a renitente omissão quanto a se comprometer com a devida gratuidade do esforço próprio e com o indevido excesso do esforço alheio. E a resposta há de incidir na inferência de que essa omissão quanto a se comprometer denote falta de autoconhecimento enquanto fonte de dominação política.

A respeito de tal recorrência, resta ao menos admissível que os remotos antecessores do pensar hoje denominado epistemológico (os pais da nova paideia clássico-antiga: filósofos, legisladores e mercadores) passaram a exercer dominação política contra as fontes da mitologia (os pais da velha paideia: sacerdotes, reis antigos e poetas). Entrementes, na história da pessoa singular, tal passagem é recorrente, pois, insuficiência ou mesmo falta total de gratuidade, na esfera desta história, tem desandado em incontrolável “criação de escassez” de espaço vital, a partir de difusos e localizados esgotamentos e/ ou “cercamentos” da gratuidade provinda de fontes naturallivres, estas sob acentuada pressão para contrarrestarem com ilimitados aumentos de produtividade. Mediante tal “criação de escassez”, a político-dominativa transferência da geração de gratuidade de fonte própria para fonte alheia sempre precisou ocorrer com o apoio de potencial ou efetiva epistemologia, vale dizer, mediada por concretos de pensamento, aos quais correspondem reais-concretos humanamente objetivos – pessoas inequivocamente produtivas, inclusive por insuficiência ou mesmo falta de acesso à própria epistemologia.

Com efeito, significam autodenegações de se tornarem fontes de gratuidade os atos de perceber, observar, interpretar e conceituar reais-concretos apenas transcendentes às pessoas que assim atuam, inclusive os reais-concretos correspondentes a estas mesmas pessoas. Ocorrem tais autodenegações, porque a imprescindibilidade de a pessoa se tornar parcialmente gratuita se encontra liminarmente marginalizada, informalizada e sócio-subjetivada, apesar, ou por conveniência político-dominativa, de se constituir na fundante contraparte de tributos e demais lucros, a decorrerem de (também político-dominativamente criados) direitos de estrita propriedade sobre resultados da produção.

A via de marginalizar, informalizar e sócio-subjetivar a geração de gratuidade, a começar pela pessoal, desanda em obsessão por excedentes que, em decorrência, acabam de antemão justificados, para não dizer que se autoimpõem sob fetichização da produtividade.

A via, em foco, tem estado escondida sob proporção do preço final dos bens e serviços, os quais, para tanto, precisam ser levados a mercado. Neste, o ato político da anuência a contratos de compra e venda, característica de cada uma e de todas as transações, difunde-se e se perpetua, transformando conjunturas sincrônico-topocêntricas (ao mesmo tempo e, de preferência, em um único lugar) na estrutura diacrônicotopocêntrica (em épocas sucessivas e, de preferência, em um único lugar) das acumulações de propriedades disparmente acessadas. Porém, é dessas acumulações de propriedade que emana o critério de acesso aos resultados da produção, ou seja, ao sempre mais predominante alcance artificial dos reais-concretos, estes com origem em significantes (pseudo)-fundamentais. E é assim que também emana a crescente proporção de tributos e demais direitos de estrita propriedade, proporção que ocorre embutida nos preços monetizados dos meios de trabalho. Já estes meios, que também perfazem aqueles mesmos resultados, desandam em suporte procedimental para a criação do absurdo de se ter que, sempre mais, “pagar para produzir”, vale dizer, tornar-se vítima da mais decisiva causa da exclusão social.

Assim, as pessoas que dependem de produzir para acessar resultados, inclusive das próprias atividades, prefeririam também se ocupar com impingir e usar tributos e demais lucros, os quais são criados como direitos a se transformarem em propriedade. Já criação de direitos incide em ato políticodominativo a desandar em “arrogância reivindicalista”.

A urgência em obter excedentes sempre mais amplos pressiona por avanços científico-tecnológicos em ciências naturais e em automação, apontando para uma relação direta entre desumanização e depredação da natureza, pelo menos enquanto persistir a político-dominativa insistência em ideologizar desumanização e depredação como se fossem os pertinentes inversos (humanização e produção). Neste caso, ficará ainda mais fenomenicamente oculta a circunstância de que escolha – ato político - de objetos de saber precede ciências e estas jamais tenham sido neutras, ainda que reduzidas a estritos instrumentos.

Em perspectiva “crítico-teórica”, sempre houve coincidência entre, de um flanco, a incapacidade de a própria pessoa se descobrir e se efetivar fonte de gratuidade e, de outro, o alcance epistemológico da racionalidade em cujas implicações o jugo patronal se torna individualisticamente “menos pior” do que o jugo das necessidades. Já o sentido de “menos pior” adentra valor e, por isso, responde à ética, inclusive enquanto pretexto para perpetuar a moderna vitória da burguesia em bastidores pouco ou nada sondados do individualismo sustentatório, a se refugiar por trás de biombos empresariais e até institucionais.

Quanto ao caráter epistemológico da racionalidade, é imperativo considerar que a condicionalidade da originária “situação epistêmica” tem como acabar reforçada pelo “gosto de viver”, ou seja, pelo alcance prazeroso do atendimento das necessidades próprias, a começar por aquelas de contar com a familiaridade do esforço de outrem, isto é, com o que é estrita e endogenamente vivenciado desde a concepção. Trata-se de atendimento que se esgota naturalmente, emergindo contradição como concreto de pensamento a corresponder ao contraditório real-concreto entre escassez potencial ou efetiva e disponibilidade efetiva ou potencial. Escassez há de advir do subjetivo para o objetivo e à conta de desconforto, peculiarmente insegurança subsistencial, enquanto disponibilidade terá de provir do objetivo para o subjetivo e de coincidir com o restabelecimento do conforto, graças a doações, aquisições ou mesmo conquistas. Por sua vez, ao não ter como provir do “gosto de viver”, o esforço tem implicado em um recorrente e predizível retardamento cultural – não natural – da percepção do contraditório entre escassez e disponibilidade, incidindo-se na propensão pela qual a faculdade de se impulsionar (intencionar-se) e a de racionalizar (relacionar idealmente) se autoentregam a nada mais do que ao atendimento das necessidades próprias, às custas de prévia prontidão dos meios a tanto imprescindíveis e disponibilizados por outrem.

Tal racionalidade tinha que usurpar o espaço da razão em si mesma, ou seja, daquela que confronte, entre si, “criação de escassez” e disponibilidade, além de dialetizá-las genética e genericamente e, com isto, produzir em sentido intelectualinquívoco.

Quanto às implicações epistemológico-racionais de o jugo patronal se tornar “menos pior” do que o jugo das necessidades, elas se desvelam como criação de valores predominantes, segundo três estratos: (a) hedonismo – valoração pela qual o “gosto de viver” desanda em obsessão pelo estritamente prazeroso e, com isso, conserva o contraditório à superfície da realidade, reduzindo-o a falsas dicotomias e destinando o sentido produtivo da dialeticidade para uma “pseudo-transcendência” (princípios ou leis evolutivas; “mão invisível do mercado”; apriorística autonegação da gratuidade humana); (b) fechamento racionalista às relações entre meios e fins – valoração que adentra visões de mundo de conotação excludentemente sistêmica; e (c) material ou subsistencial – obsessão pelo estrito atendimento das necessidades próprias e históricoculturalmente criadas (nunca foram valoradas as necessidades por si mesmas), de forma que acabe inadmissível que seja diretamente assumido o atendimento das necessidades vital-básicas próprias, mas deixado para trás, em uma condição tirante a “aquencendência” (por aquém do próprio “não ser”).

Valores predominantes traduzem éticas que estão descoladas de um produzir dialético, pelo qual o indivíduo se descobriria singular e se aperceberia da sua relação com as fontes dos meios de atendimento das próprias e vital-básicas necessidades. E, dada a ausência deste indivíduo, sempre houve como coincidirem ética e política, para não dizer que ambas jamais se tenham diferenciado. É que, sem disponibilizada contrapartida subjetiva em idear, intencionar e aprontar meios de vida, sempre houve que ocorrer inevitável e objetiva escassez da imediata presença desses meios, na perspectiva da melhor para a pior prontidão. Cria-se, em decorrência, antagonismo entre interesses para acessar a melhor prontidão e, à conta de “acessar antes” (chegar primeiro), o real-concreto da incontinência apropriativa. Sucesso de uns em assim apropriar desanda em insucesso de outros para “chegarem primeiro” ao prontamente melhor, depois ao que é “menos melhor”, a seguir ao necessário, até que o acesso ao imprescindível adentra o dilema entre disputar – criar o antagônico – ou perecer. É o que caracteriza o fenômeno político: vitória ou derrota, de tal forma que, na derrota, cumpre construir a vitória e, na vitória, cumpre prevenir a derrota – a paz implica a guerra por antecipação. Sucesso, por vezo de origem, é não universalizável e, todavia, solitariamente descabido. Ademais, buscar sucesso tornou-se arriscado e, sobretudo, esfalfante, convindo autoentrega à instintividade de atribuir a outrem o inequívoco ônus de chegar até ele e de concentrar, preferencialmente em si mesmo como único beneficiário, o acesso aos resultados, inclusive como alternativa de hierarquizar interesses. Em desfecho, valoração sincreticamente hedonista, racionalista e materialista é presumida à substituição do jugo das necessidades por outro, desde aquele de conotação hierárquica (caso das castas indianas), passando pelo alcance coercitivo-estatista (caso da cidadania na “pólis” helênica) e chegando ao vezo político-epistemológico-econômico (caso das modernas relações sociais).

Historicamente, a vitória da burguesia tem evitado sua própria derrota pela racionalidade sistêmica de promover alianças em duas frentes, às quais é comum a valoração ao mesmo tempo materialista e hedonista do “gosto de viver”: (a) cumpre extirpar as oportunidades de aprender a produzir no âmbito familiar, microempresarial e comunitário, estimulando-se a preferência pela renda nominal-monetarizada em dicotomia com acentuado descrédito da renda real-concreta; e, (b) criam-se oportunidades de os prepostos do poder regulamentar-político endividarem o Estado para atender demandas sociais em franca inchação, o que pressiona o aumento da carga tributária e da margem de rendas privadas líquidas; estrategicamente, da margem que incide sobre serviços de dívidas públicas, precipitando-se, não só o imperativo de pagar sempre mais para se ter acesso a ocupações formalmente remuneradas, como também a competição precipitadora de interesses individualistas em busca de imprescindível saída (auto)-sustentatória.

É na trama daquela preservação da vitória da burguesia que urge entender a transformação da escola em departamento a dar conta da especialidade de promover valoração do “gosto de viver”, a par da capacitação para a cidadania confundida com “arrogância reivindicalista”, ambas – valoração e capacitação – socialmente funcionais ao incremento de tributos e/ ou do endividamento do Estado. Para tanto, há de acabar de antemão preterido o contraditório entre o permanecer no que é familiar (no “gosto de viver”) e adentrar estranheza (participar de um processo de produção cuja dinâmica implica renúncia à inconfessa melhor parte dos imprescindíveis resultados). É em tal contraditório que se configura a tendência à metropolização do modo político ou antiético de conviver. Cria-se uma realidade em que a imprescindível sustentação pessoal se torna acentuadamente privilégio, à medida que direitos se tornam propriedade a se reconcentrar, graças à garantia conferida à propriedade exterior à pessoa, ou seja, ao “norte” sistêmico.

Entretanto, universalizar (democratizar) acesso à propriedade não tem como incidir em questão de direito, pois feriria, custosa ou proibitivamente, interesses vitoriosos e, como tais, transformados na propriedade de direitos. Com efeito, remediar conflitos apropriativos tem implicado a própria e onerosa existência das instituições e, por isso, inexiste algo de mais custoso do que a contestação da propriedade, sobremaneira aquela de direitos. Ademais, a recorrente remediação de conflitos contestatórios da propriedade de direitos tem incidido, prévia e calculadamente, no impingimento à produção de acentuada produtividade e isto, ao presumir ilimitação de excedentes, não passa de saída cuja enigmática teleologia permanece inacessível aos (próprios e elitistas) beneficiários.

Em desfecho, apropriação privilegiada se torna tão imprescindível quanto a produção mesma, o que implica estimular retornos privados líquidos como requisito, também imprescindível, para que tributos sejam gerados.

Na modernidade ora vivenciada, a história pessoal continua totalmente à mercê do epistemologismo, cujo reflexo tem estado no político-dominativo apelo a avanços em ciência e tecnologia, na (ainda irreconhecível e ilusória) pressuposição de que, para vitoriosos inclusive, não sobrevenha o “inferno” (abundância da escassez criada, a coincidir com gratuidade negada, apesar de o real-concreto da própria gratuidade se constituir na imprescindível contrapartida dos componentes da mais-valia – tributos e rendas privadas líquidas). Em desfecho, política tende a desandar em antiética “arrogância reivindicalista”, peculiarmente ao se tentar democratização do pertinente exercício.

b) Da ética à política

A emergência do contraditório conflituoso presume a escassez que, por sua vez, é criada pela incapacidade de a pessoa descobrir-se e se efetivar fonte de imprescindível gratuidade. O efetivo alcance humano da situação dessa pessoa é aquele de incapacidade de obrigações (antieticidade) ou de inescapável cessão parcial da capacidade própria de direitos (heterocondicionamento político).

Já a “criação de escassez” coincide com efetiva e/ou desejada autonegação da gratuidade de fonte própria nas relações sociais de produção, negação cuja efetividade procede de precoce anuência a valores na esfera da subjetividade e é inercializada como fenômeno sociocorporativo. Inferência de tal efetividade presume recurso à dialética que perfaz a dinâmica do desejo, uma vez que o caráter coletivamente imprescindível da geração de gratuidade tem sido cultural-institucionalmente atribuído aos mais fracos e estes jamais deixaram de almejar a situação oposta. Por isso, e se os atores em jogo forem adultos capazes, a dicotomia fraco-forte há de compreender contato, ou mesmo intercessão, dos contrários. Em tal jogo, ninguém é suficientemente forte que previna toda ameaça de assalto às propriedades extrínsecas a própria pessoa. Da mesma forma, nunca se é tão fraco que não seja possível exercer funções em algum proveito próprio.

Na perspectiva de que é inevitável enfrentar o jugo da necessidade e na anuência à “sujeitação” (preferência pela relação patrão-empregado), a experiência da involuntária produção inequívoca não faculta intuir a “situação diastêmica” (situação mediativo-dialética) da pessoa por entre as abstrações correspondentes à prole e a quem 'sustenta. Nesta “diastemia”, ao contrário do que ocorre naquela “sujeitação”, a espécie será perpetuada à conta de relações entre espécimes que, por sua vez, hão de explicar-se como fonte da gratuidade que é absolutamente imprescindível à prole e serão justificados pela suficiência das condições de perpetuação da espécie da qual procedem. Explicação e justificação da pessoa singular hão de ocorrer em bases “sincrônico-topomúltiplas” (ao mesmo tempo e em muitos lugares) e “diacrônico-topoúnicas” (em tempos sucessivos e em um mesmo lugar, vale dizer, em bases que precisam caracterizar o modo urbano de convivência). Escassez terá como ser prevenida; porém em acordo com limitações que são naturais ao sentido inequívoco e opcionalmente empreendido do produzir.

Um ainda irreconhecível determinante das limitações do poder e da fraqueza tem emergido na trama das relações sociais implicadas no modo urbano de vida, tendo-se em vista que a ambiência citadina presume “intercâmbio material-comunicativo” em cuja dinâmica sempre surgiram oportunidades de ultrapassagem do “panóptico” controle da produção campesina que não prescinde de um durável e exposto acesso à condição objetiva da terra em que tem seu lugar.

A propósito do esgotamento de tal controle, já as antigas cidades helênicas encontraram precedentes de suas constituições em suas similares no imemorial “berço” (terras adjacentes e águas do Mediterrâneo Oriental) do “intercâmbio materialcomunicativo”.

Controlar de modo “panóptico” as relações sociourbanas incidiria em “insustentabilidade coletiva” (em custo proibitivo, por presumir exacerbação de conflitos apropriativos nos contrafortes sociais da obtenção dos meios a tanto imprescindíveis). A avolumação dessas relações veio a ser a principal característica da urbanização, que se acentuou com a modernidade. Na história atual, até as atividades rurais já assumiram conotação urbana, na perspectiva de que se tornou impraticável a autossuficiência do pertinente empreendimento.

Em decorrência, a insustentabilidade material do controle social como real-concreto da prática política tende a incidir em insustentabilidade institucional, cujo reflexo é incidência em abertura de espaços democráticos como precedentes da oportunidade para autogoverno – este, a requerer um humanismo de perfil mais universalista no nível da singularidade pessoal.

Todavia, a busca de um tal humanismo resulta inconciliável com o reducionismo tecnicista que está a absorver todo o potencial de aprendizagem da pessoa para que esta se garanta sua mera subsistência, inclusive enquanto partícipe da elite a se esfalfar para manter e ampliar propriedades com as quais chega a até mesmo se confundir. Insuficiência de percepção dessa inconciliabilidade traduz-se na disputa entre maximização do Estado e minimização do Mercado ou inchação deste e minguamento daquele, disputa que houve de ocorrer de forma alheia à emergência de oportunidades emancipatórias a serem assumidas como “ínferos referenciais” de “alteridade institucional”, de incondicionamento político, ou ainda, de referenciação ética.

Eticidade se torna historicamente oportuna na acentuação da insustentabilidade institucional. A rigor, ela procede do questionamento das instituições, à medida que estas são apropriadas pelos seus prepostos, o que houve de acabar subsumido nas injustificações que decorrem da forma de obtenção dos meios sustentatórios de tal apropriação, tendo por inescapável desfecho a valoração da sincrônico-topocentria do metropolismo, a decorrer da involuntária inserção dos sustentadores nas relações sociais, a partir daquelas de produção.

Eticidade e involuntariedade são radicalmente antitéticas. Todavia, eticidade há de emergir consentânea com “alteridade institucional”, bem ainda com subjetividade e com emancipação. Assim, para que ética entre em pauta como “assunto socrático”, torna-se imprescindível que se questione uma institucionalidade que sempre se impôs de modo topocêntrico, bem como a cumplicidade entre o exclusivismo da objetividade da Ciência, em apontar o que “teria de” fazer história, e o legalismo da Norma, em coibir o que “deveria não” fazer história.

Institucionalidade e eticidade carecem de inequivocação quanto ao que seja “o” imprescindível, pois este facultaria a ambas uma referência comum. Sabe-se, antes de tudo o mais, que “o” imprescindível é a espécie se reproduzir, mediante produção de meios de vida “por aquém” dos requisitos sustentatório-metropolísticos – estes, estritamente individualistas e/ou corporativistas. De fato, este “por aquém” coincide com atitudes (como que) “aquencendentes” à racionalidade precificista e/ou financeirista, esta a se caracterizar por funcionalidade sociológica à obtenção de tributos e demais rendas de estrita propriedade e por disfuncionalidade humana a dar conta da autoinsustentabilidade da prole. Por sua vez, esta prole tem de subsistir mediante excedente de produção a se originar em outrem que, ao prescindir de parte do que lhe pertence por inequívoco mérito, assume gratuidade de parte do seu próprio esforço produtivo ou dos resultados deste. Na ausência de tal “irracionalidade”, a procriação teria de conformar-se a interesses e incidir em contrassenso emancipatório e em sócio-subjetivação sustentatória da prole. Já esta conformação, ao avançar do metropolismo, passa a ser fonte de inusitados contraditórios, a começar por aquele de “impositividade de emancipação”. Paralelamente, autoinsustentabilidade se transmuta em violência, à conta, não apenas da postergação cultural do seu natural esgotamento à chegada da adultez humana, como também da perda das suas referências moral-culturais.

Em suma, incide-se em situação existencial-pessoal que tende a se traduzir como “estar demais”, por implicar competir por um (tácito) absurdo que é inerente à circunstância de a emancipação ser compulsória em vez de opcional ou de a dependência ser livre em vez de involuntária. Trata-se de circunstância que desanda em falta de autenticidade no “intercâmbio material-comunicativo” (“afetividade” apenas nas aparências e a refletir agressividade latente, ou então, agressividade nas aparências a refletir “afetividade” latente). Esse “estar demais” é patogênico, ao transformar o “escapismo” mítico de antanho em “internalizacionismo” alheante (a pessoa tem que existir como “sendo” o que, não importa como, lhe seja inicialmente inculcado e finalmente por ela mesma buscado, apropriado, conquistado,

sequestrado, consumido, conhecido enfim2), assim como em “apetite” para construir o absurdo, mediante obsessão por estrita prática. Aproxima-se, caso não já estiver efetiva, uma crise de referenciação cuja ultrapassagem requer que a imprescindibilidade de inequivocação quanto a produzir se torne comum ao que é institucional e ao que é ético, incidindo em mediação dialogal-dialética entre ambos.

A rigor, está a emergir uma crise da falta de discernimento entre o restar absurdo do “estar demais” e o fazer sentido do “gosto pela vida”. A persistência dessa crise se traduz em uma encruzilhada entre, em uma direção, incondicionalidade política enquanto eticidade não mediada por inequivocação quanto a produzir e, em outra direção, condicionamento político enquanto eticidade mediada por essa mesma inequivocação, questão que se candidata a incidir em “assunto socrático”.

Nesta última direção, entraria em questionamento o dilema entre ser ou não ser absurdo “estar demais”, a menos que persista uma pertinente autoentrega ao “gosto pela vida”, assim como uma conexa inciência. É que emerge, ainda na adolescência, a natural necessidade de emancipação autossustentatória, necessidade que, após a Revolução Industrial, se defronta com sempre mais abrangente impasse resolutivo quanto ao pertinente atendimento, evocando o dilema entre “ser” ou “não ser” absurdo “estar demais”. E, na ausência de resposta à altura do pertinente problema, uma eventual e radicalmente “crítico-teórica” percepção do absurdo quanto a “estar demais” tem como desandar em precoce desespero. Caberia, então, questionar: até que ponto seria possível prevenir a percepção do “estar demais”? Qual a influência do “internalizacionismo” dos fatos culturais? Não se estaria a evocar o “estar demais” para precipitar violência juvenil? Seria de antemão descartável a hipótese de que a violência seja ao menos correlata ao “internalizacionismo” que caracteriza a pedagogia colonizada por psicologismo histórico-cultural?

A propósito de tais questões, seria utópico retornar aos tempos em que a autossustentação se diluía naquela domiciliar e/ou comunitária. Em contraponto, o novel e metropolístico isolamento pessoal, peculiarmente em alcance também autossustentatório, induz à percepção do atendimento da estranha necessidade de não se ter as demais, a partir das básicas e daquelas da própria espécie na imediata condição do espécime. E isto constitui a esteira cujo movimento faz adentrar ao contraditório de se incidir em vítima ou em algoz da “sujeitação” própria ou alheia, respectivamente.