Educação universitária: práxis coletiva
B. Uma “pequena narrativa” da (in)-justificação das instituições vigentes
B. Uma “pequena narrativa” da (in)-justificação
das instituições vigentes
Alheamento ao alcance também material do intercâmbio, à conta de estímulos ao descolamento entre significante e seu artificial e (pseudo)-fundamentado real-concreto, tem desandado na preterição do caráter íntegro da totalidade do intercâmbio e favorecido que a racionalidade comunicativa se “historize” como particularização da razão humana, apesar das sinalizações em contrário, as quais, recorrentemente, têm incidido em ensaio para a dialeticidade desta mesma razão ser intuída como alteridade de desalheamento.
A excludente superioridade cultural-civilizatória do Ocidente tem respondido a estado particularizado da razão, o que acarreta o paradoxo de que injustificada e injustificante imaterialidade contraste com abundante riqueza material. É que imaterialidade tem sido indissociável de desejo e de interesse no sentido de constituir e até substituir riqueza e, por isso, houve de persistir como primitivismo de incapacidade quanto a prevenir a usurpação do natural esgotamento do parentesco pelo acesso a propriedades extrínsecas à pessoa. Paralelamente, o que importa considerar é a recorrente autoentrega da política educacional, inclusive da educação política que é inerente à competência pedagógica, à reprodução dessa usurpação e daquela superioridade.
Um sintomático registro de tal primitivismo, a se perpetuar na particularização do alcance comunicativo do intercâmbio, já emergiu em versos do memorável estadista ateniense Sólon (apud ARISTÓTELES, 2007, p. 67): “O homem não conhece, porém, nem fim nem medida Que a natureza imponha a arte de enriquecer”.
Obviamente que nada tem sido mais primitivista do que autoentrega às dinâmicas do desejo e do interesse. Por sua vez, essa autoentrega está sendo estimulada por imaterialidades que perfazem, inclusive na atualidade e segundo Saviani (2005, 12), a natureza da educação, por estranho que ressoe uma tal concepção de natureza. Ademais, estimulação coincide com falso atendimento da necessidade ou falsa solução do problema de o parentesco (ou de a “posse do coletivo naturalmínimo”) não se esgotar em termos culturais, o que, levado às últimas implicações, significaria retornar à condição fetal ou ao reencontro com o “paraíso perdido” do cordão umbilical no ventre materno.
Antítese a essa via de permanecer primitivista acabou também registrada, por inconfesso e tácito que o tivesse de ocorrer, nas entrelinhas de texto sobre intercâmbio entre as tribos dos (ditos) bárbaros, texto da lavra daquele mesmo filósofo.
Na família primitiva, tudo era comum a todos, mas, quando ela
se dividiu em partes, os objetos foram também divididos entre
estas, ficando alguns privados de algumas coisas; daí a
necessidade de trocas. Essa prática é verificada ainda hoje
(época de Aristóteles) entre inúmeros povos bárbaros: se uma
tribo tem de sobra o que falta a outra, elas trocam o que
possuem a mais; por exemplo, trocam vinho por trigo, e assim
por diante. Este gênero de transação não está, pois, contra a
natureza nem constitui uma espécie separada da ciência da
riqueza, visto que, na origem, não tinha outro fim senão o da
satisfação das necessidades da natureza (Aristóteles, 2007. p.
68. Nossos os termos entre parênteses).
A propósito dos teores dessa citação, resta preterido algo que explique, sobremaneira que justifique, a divisão da família primitiva. Esta família era e ainda é, em resíduos aborígenes, “o” todo, cujo fechamento à totalidade tem ocorrido à base de comum familiaridade com fetiches. Os concretos de pensamento estavam a se restringir à produção que, por sua vez, sempre fora determinada por necessidades naturais e atendimento destas. Trata-se de determinação que não tem sido mediada por discernimento entre o particular (propriedade) e o coletivo (devoluto), dado que a vital-fertilidade humana tem como espontaneamente se dividir entre uma parte “propriamente” autorreprodutiva e outra “impropriamente” heterorreprodutiva. Na insuficiência da espontaneidade desta divisão, adentra-se um dilema: ou o parentesco se mantém estreito pela proliferação de meras tribos, ou então, o trabalho é culturalmente criado em seu alcance enfim sígnico, ao compreender o impingimento da obtenção do “impropriamente” heterorreprodutivo também para estranhos, o que houve de fazer com que a estranheza se tornasse objeto cultural de interesse ou de conveniência e a oposição entre a cultural estranheza e o natural parentesco implicasse transformação social do todo em totalidade – sociedade.
Historicamente, não há como admitir que a desventura das Cidades-Estado gregas, assim como a ventura daquelas que as sucederam até o advento do mercantilismo, sejam explicadas por restrição à “arte de enriquecer”, paralelamente à “historização” das venturas e desventuras a que recorrentemente foram expostas as atividades comerciais e bancárias de populações de origem semítica ao longo das suas diásporas, inclusive forçosas e irreversíveis, no Oriente e no Ocidente.
Enquanto separada de conteúdo, forma tem tido sucessivas denominações (notoriamente, a dialética ou ideia superior de Platão, o intelecto agente de Aristóteles e a razão iluminista), o que não impediu a expansão da índole de criar impérios, desde o persa, passando pelos helenistas e romanos, até chegar aos desvarios fascistas e nazistas, entre os anos de 1920 a 1945 do século XX d.C. Durante esse longo período, apropriação particularista da forma em questão só foi ameaçada pela então importância de certo princípio, quando, segundo Russel (1982, p 37), o bispo Ambrósio (340-397 d.C.), em sua popularmente apoiada e heróica não entrega de uma igreja de Milão à ariana imperatriz Justina, deflagrou uma tentativa, conquanto ainda tópica e logo a seguir desvirtuada, de religação entre forma e conteúdo. Ambrósio “demonstrou que havia matérias em que o Estado devia submeter-se à Igreja, estabelecendo, assim, um novo princípio, que mantém até hoje sua importância” (Grifo nosso).
Em tal perspectiva, não resta despropositado recorrer à “dialeticidade da razão” para precipitar alcance íntegro da totalidade do intercâmbio, indo ao encontro de um horizonte que Marx abriu, certamente sem disto se aperceber, à base do que, segundo Manacorda (2007, p. 64), constituiu “flerte” com a dialética no seu pensar por contradições a se fundamentarem na real concretude de contraditórios. Nesse específico recurso, entram em consideração as contradiçõoes que constituem mediação por entre as categorias simples dos valores de uso e de troca.
Com efeito, intercâmbio tem como ser interpretado a partir do miolo da própria totalidade, miolo que coincide com “incontinuidade-contato” (forma) por entre seu alcance material e seu sentido comunicativo ou imaterial. Para tanto, todavia, o valor de uso ou a utilidade das atividades humanas, e/ou dos resultados destas, precisariam guardar consentida reciprocidade de coerência e de pertinência à sustentabilidade também coletiva, o que implica reciprocidade com trocas orgânicas com a natureza, livre e/ou humana.
Assim, ao se considerar que a própria totalidade do intercâmbio ainda tem sido insuficientemente dinamizada na história, torna-se admissível que as instituições tenham apresentado prerrogativas cuja criação ocorra mediada por imaterialidade recorrentemente separada de materialidade e a separação entre ambas tenha permanecido, interesseira e convenientemente, sempre irreconhecível. Paradoxalmente, a socialização do ônus, correspondente aos sempre mais agigantados desperdícios em que incide tal separação, tem implicado excesso de gratuidade forçosamente impingida à fonte humana e à natureza. Já ultrapassar tal paradoxo não significa retornar à precariedade material anterior ao capitalismo, tal como tem sido pronta e convenientemente alegado; mas, engendrar alteridade de processo cultural-civilizatório, a partir da negação do “nada” (do “não ser” a que tem sido reduzida a gratuidade pelo incontido apropriativismo).
Entretanto, a particularização do sentido comunicativo do intercâmbio já emerge omissa, para não dizer contraproducente, quanto a tal negação, e assim tem permanecido na história da proliferação da espécie humana. Tal omissão se “historiza” em cada um e em todos os indivíduos, sem ultrapassar seu mais radical primitivismo, a coincidir com estágio epistêmico ou autoinsustentável das partes, cujas singularidades, por isso mesmo, não se explicam, nem acabam justificadas. Assim, a totalidade humana ainda não se tornou íntegra, porque “incontinuidade-contato”, por entre ambos os principais gêneros de componentes do intercâmbio, ainda não é confrontada com o “estar em situação “‘epistêmica’” em relação à perceptibilidade de objetos apropriados e no bojo da escassez criada, nem é assumida como o “ser dialeticidade da razão” por entre o sentido do modo de ser das necessidades e o sentido do modo de ser das funções que as atendem. Esses “não é confrontada” e “nem é assumida” perfazem condição para aventar uma “pequena” narrativa, a respeito da origem e da “historização” das vigentes instituições, indo-se ao encontro do (pós-modernamente admitido) esgotamento da procedência das correspondentes “grandes narrativas”, ora sob suspeita de incidirem
em meros “fetiches” intelectuais1. Ademais, partindo-se desta “fetichização”, haveria de permanecer inquestionável que a conquista do poder preceda o privilégio de exercê-lo na gênese da própria dominação.
Quanto a esta precedência, cabe, com apelo a admissíveis verossimilhanças, conjeturar que os primitivos humanos acabaram por se deparar com escassez do que pura e simplesmente apropriar, após proliferarem em espaços onde a vital-fertilidade da natureza lhes era fonte dos melhores e mais abundantes meios de vida. Isto sempre significou que suas efetivas referências ou fontes de orientação tenham sido a vital-fertilidade dos corpos das fêmeas, em recorrente e predizível associação com aquela vital-fertilidade da natureza. Ambas essas vitais-fertilidades são espontâneas, materiais e, na pertinente complexidade (ecossistemia, caos e outras propostas de paradigmas), sempre incidiram em heterofagia no nível dos componentes e autofagia enquanto totalidade. Apesar de se dizerem humanos, têm subordinado a tais vitais-fertilidades suas capacidades de pensar, agir e sentir, priorizando, segundo “a lei do menor esforço”, aquilo que já esteja pronto, do melhor ao pior. Em decorrência, e desde tempos imemoriais, emergiram desequilíbrios entre necessidades e disponibilidades dos (naturalmente aprontados) meios de vida. Eram desequilíbrios, cujos determinantes, ao início, incidiam em insuficiências do que lhes fosse melhor. Isto houve de induzi-los a disputas. Todavia, as insuficiências tinham como desandar em falta, inclusive do que veio a ser pior, ou mesmo necessário, radical e fatalmente. Então, aquelas disputas tendiam a se tornar fatais e assim tiveram que permanecer, até que, em oásis isolados ou lugares cuja anterior devastação fosse preventiva da presença de novos predadores, alguém se descobrisse capaz de promover a existência de meios de vida, ou mesmo de prevenir até ameaças de que esses meios viessem a faltar. Mas, a condição objetiva da prontidão desses meios continuava a expô-los ao imediatismo de incontidos predadores. Todavia, por serem humanos e mesmo que ainda primitivos, tais predadores acabaram por atinar para a circunstância de que não lhes convinha matar os assim capazes de obter meios de vida. Convinha, sim, arrebatar-lhes uma parte dos resultados que lograssem obter, porém sem prejudicar o necessário para que continuassem exercendo suas capacidades e seu “gosto pela vida”, este, tão originário, quanto o horror a morrer. Dentro de certos limites, ampliar essa parte arrebatada teria como induzir a que os assim capacitados se tornassem mais produtivos, pois a situação era tal que a única saída possível teria sido aquela de gerarem resultados sempre maiores do que aqueles que lhes tocassem. Então, o próprio predador haveria de se dar conta de que, por força da sua intervenção – estressante, antes de tudo o mais, a ele mesmo e às suas vítimas – teria havido um aumento do exercício das capacidades e dos resultados. Ele próprio passaria a se entender como fonte de referências. E estas, ao serem impingidas, lhe criariam a convicção de serem imprescindíveis, inclusive por ele dispor de meios para evitar que outros predadores ousassem invadir seus domínios, ou mesmo, que constituíssem mera ameaça de tal invasão. Ademais, conviria contar com auxiliares em tais atividades, desde que estes houvessem demonstrado eficiência e jamais viessem a ameaçá-lo, individual ou coletivamente. Tal pactuação entre (um originariamente verossímil) predador-mor e seus cúmplices ter-se-ia “historizado”, desde então, em uma institucionalidade (hoje, constituição) pela qual a divisão dos potenciais oponentes garanta que o poder se consolide e se mantenha. Enfim, não seria estranho que, já em seu imemorial primitivismo ou nas suas plurais e recorrentes “historizações”, os seres humanos tenham deixado de seguir referências natural-originalmente significativas, apesar de que eles já nasçam com ao menos o potencial de se desenvolverem também em sentido produtivo; especificamente, no sentido de toda pessoa associar sua inata vital-fertilidade àquela que é inerente à natureza.
Eventual sucesso de um tal modelo de sociedade teria possibilitado que a população se expandisse e que aparecessem pessoas em situação díspar no contexto dos próprios vitimados por predação. Ter-se-ia então estabelecido favorabilidade de condições para os mais assim vitimados padecerem exploração por parte dos menos vitimados que, por sua vez, teriam tido como se valerem dessas mesmas condições para impingirem a geração de excedentes destinados ao predadormor e a seus prepostos, assim como para quem os explorasse. Enfim, o indubitável produzir teria acabado na hodierna humildade dos extremamente mais vitimados no processo apropriativo, este enquanto organização de todos os predadores, pouco ou nada importando se efetivos (algozes) ou apenas desejosos (vítimas). Mas, limites têm sido inevitáveis, seja à gratuidade, seja à pertinente obtenção. Produtividade nesta obtenção, mediante apoio científico-técnico, torna-se injustificada e injustificante, pela circunstância de esta obtenção só acontecer de antemão e totalmente apropriada, o que implica em incontavelmente mais problemas do que soluções. É que propriedades significam, aos seus detentores, maior probabilidade de acesso a meios de vida, coincidindo com objetos de desejo já realizado. Por sua vez, a incontinência deste desejo faz os objetos apropriáveis se tornarem infinitamente escassos e, como tais, expostos a infindáveis disputas, assim como a recorrentes e sempre mais custosas defesas. Os meios absorvidos no enfrentamento de tais disputas e defesas sempre tiveram como corresponder a meros desperdícios, que são até alargados pela sustentação das instituições voltadas para tal enfrentamento. A insustentabilidade coletiva já é visível em um horizonte em que os conflitos civis passam a substituir as guerras do passado. Disputar e defender propriedades, mesmo que aquelas de estritos direitos, sempre tenderam a usurpar os conteúdos e até o sentido do que propriamente seja educar.
A sustentação dos prepostos do poder sempre jogou papel decisivo na interdependência entre possuidores e despossuídos, o que fez com que esta mesma interdependência se perpetuasse. Mudam esses prepostos, porém não muda a escassez de suportes de poder. Trata-se de escassez que se tornou infinita, assumindo o modo “privacional” (vazio, imaterial e não sensorial) como existe a “escassez criada”, em radical oposição àquele “presencial” (sensorial, material e plenista) como existem as propriedades que, por mais que sejam expandidas, jamais deixam de ser finitas ou insuficientes. E a dialeticidade que perfaz tal oposição tem como ser abstraída no pensamento e, nesta condição, desdobrar-se em quatro hipóteses: (a) a dinâmica do desejo é real-concreto cuja inerente dialeticidade é apreensível e a própria apreensão incide em inequívoco (auto)-produzir intelectual; (b) dessa apreensão resulta a identidade do modo “privacional” como existe a “escassez criada”, identidade que assegura procedência à lógica formal por ter sido, apesar disto ainda ser irreconhecível, a única à qual tem correspondido fundamento real-concretamente inequívoco; (c) quanto ao que acarreta alcance negativo da qualidade em assuntos humanos (dialética do mal), a relação entre perceptível objeto apropriado e “escassez criada” subsiste como via de acesso ao autoconhecimento e ao heteroconhecimento; e, (d) em antítese a esse alcance negativo da qualidade em assuntos humanos, chega-se a alternativas de instituições (fontes de forçosa atribuição de obrigações, a serem inescapavelmente cumpridas por só emergirem no bojo da propriedade) e, por ousado e modesto que o tenha de se “historicizar” (dialética do bem), à “alteridade institucional” (à geração de excedentes de utilidades, fora da propriedade de quem os gera).
A seguir, essas quatro hipóteses se tornam referências de alcance mediativo-dialético. São referências que facultam inferir, às costas ou em ponto cego das alternativas institucionais, o modo “ausencial” como convergem, entre si, os sentidos da exsurgência de necessidades e do exercício de funções para as atender. É inevitável que este sentido e aquela exsurgência guardem, entre si, “incontinuidade-contato” a se desvelar como “razão por entre sentidos” ou como “radicalidade dialética de um determinado real-concreto humanizador”. Para tanto, o ser humano há de dialetizar-se (conceber-se) por entre apropriar e produzir, ambos e entre si radicalmente desequivocados.
Para deflagrar essa autoconcepção, não seria descabido difundir, entre jovens, a questão de virem a se tornar parcialmente gratuitos em suas atividades e de que é desta conduta que lhes advirão os meios de se sustentarem ou de assumirem adultez. Trata-se de difusão que, diversamente de outras, haverá como futuramente ser explicada e justificada, à base de “dialeticidade da razão” que acabará por deparar-se com a procedente diferença entre apropriar e produzir. À luz dessa razão, também material, será evidenciado que o esforço despendido fora de toda propriedade teria como ser diminuído em uma dominante proporção ou facultaria bem-estar várias vezes maior.
Na atualidade, o ingresso na educação universitária é o momento mais propício para experienciar “autodialetização” (concepção da própria individualidade, inequívoca e opcionalmente empreendida), ao menos enquanto “rito de passagem”.
Todavia, em um mundo do trabalho que se “historiza” no inescapável bojo da propriedade, mediado por competição ou por “criação de escassez”, resta óbvio que tal experienciação seja imediatistamente pré-conceituada como disfuncional até a mera sobrevivência.
Nas antípodas de tal disfuncionalidade, certeza sobre a construção do absurdo, em contraponto ao desafio de exercer atividades parcialmente gratuitas, há de gerar tranquilidade e segurança na intimidade da pessoa que passará a entender, em bases real-concretamente fundamentadas, porque têm persistido as injustificações das desigualdades políticas, das disparidades econômicas e dos desníveis de acesso à tecnociência. A par disso, torna-se questão, inclusive de sanidade mental, extirpar ilusões, mediante autoconvencimento sobre o que seja algo inequivocamente ético. Todavia, se o próprio processo cultural-civilizatório tem subsistido até o presente, não há de significar “o fim do mundo” conviver com ilusões, ou mesmo admitir que pessoas façam questão de permanecerem iludidas.
Já a contraposição entre construir o absurdo e exercer atividades parcialmente gratuitas facultará ao indivíduo ficar atento às brechas, poros e interstícios, a cujo acesso o “intercâmbio material-comunicativo” tem como ser favorável, para neles instalar um “fractal” de mudança na devida via “críticoteoricamente” emancipatória. Saberá que o ponto certo para instalar esse “fractal” será um espaço ocupacional em que seja ao menos prudente reduzir o absurdo de se ter que pagar sempre mais para produzir. Para tanto, não importa o tipo de ocupação, pois o que está em foco é a fragilidade de quem se ocupa de modo parcialmente gratuito, fragilidade que carece de inusitada mudança institucional para ser protegida.
Em ambiências educacionais, cumpre reconhecer que chegar a tal mudança institucional é desafio que adentra o dilema segundo o qual, ou é despertada a imprescindível competência política no miolo da competência pedagógica ou incompetência pedagógica há de permanecer no bojo da incompetência política. Ademais, não perder de vista a contraposição em causa significará adentrar (o já acima mencionado) “ínferoreferencial” (situação de certezas básicas e inarredáveis, tão duradouras quanto a própria espécie humana), cuja mediação há de coincidir com inusitado congraçamento entre educadores, tendendo a implodir competição na interioridade da ambiência educativa, sem prejuízo, antes o contrário, à dinamização das atividades em geral. Profissionais da educação, uma vez assim situados, hão de propender ao reconhecimento de que se deparam com um novel dilema entre serem partícipes do que só teria que dar certo, ou então, assumir, de vez, que toda competição tem dois lados, dos quais o indesejável nem sempre coincidirá apenas com aquele do (tido por) perdedor.