Educação universitária: práxis coletiva

Pedro Bergamo · Capítulo 38 de 40

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Educação universitária: práxis coletiva

C. Resultados alcançados

Nessa perspectiva, entra em cena a função da responsabilidade social da IES, sob a delimitação da sua missão especificamente educacional. Trata-se de objetivar como a educação universitária há de emancipar-se da sua social e estritamente exógena multideterminação, passando a influir, em sentido acentuadamente dinâmico, no futuro da socioambiência local e regional. É-lhe solicitado reavivar a epopeia anti-isolacionista dos fundadores de Barreiras, graças a “intercâmbio material-comunicativo” por entre os espaços mais centrais do Centro-Oeste e do Nordeste do Brasil.

Cumpre priorizar qualidade e cientificidade do perfil dos egressos, à medida que a mediação dialética do discernimento entre apropriar e produzir vier a perfazer, por hipotético que ainda o seja, não apenas objeto da pedagogia e esta deixe de se resignar à condição de vazio a ser colonizado, como também a especificidade da própria área de conhecimento e esta especificidade deixe de estar marginalizada, informalizada e sócio-subjetivada na totalidade da ambiência acadêmica.

Paralelamente, urge ser confirmado, junto ao caráter opcionalmente empreendido da práxis coletiva, que tal discernimento há de perfazer o “fundo do poço” em termos de fragmentação das humanidades.

Então, o acesso da docência à inequivocação quanto a produzir há de incidir em inusitado caráter “interdisciplinar” do ensino e de facultar avaliação da aprendizagem por produção.

Aos prepostos da IES, assim como aos educadores que nela atuam, cumpre que se apercebam do significado propriamente universitário da qualidade e da cientificidade da educação a ser promovida e que tal significado há de favorecer o desenvolvimento da atual Faculdade para Centro Universitário e finalmente Universidade.

 

C. Resultados alcançados Por sua exposição ao vezo das incontinências apropriativas, resultados costumam ser muito restritos e contar com excludente paternidade que os acredite mais relevantes do que propriamente o sejam. Entretanto, os resultados da pesquisaação acima relatada emergem disfuncionais a esse vezo. Isto se deve, antes de tudo, à sua paternidade, que é um coletivo, e à circunstância de os resultados procederem de empenho inarredavelmente opcional. A par disto, o caráter assim coletivo e opcional lhes constitui inalienável critério de qualidade. Quanto a serem ou não serem restritos, há um paradoxo a ser considerado e que os situa por entre aparente inexpressividade e um ainda incomensurável alcance, ao se ter em conta determinado ponto cego do pensar pós-metafísico, ou seja, ponto que perfaz princípio pelo qual o indivíduo há de se explicar e de se aperceber justificado na sua relação com coletivos sempre mais complexos e a partir do natural-mínimo.

Com efeito, há o princípio segundo o qual produzir de modo inequívoco seria o único fenômeno que caberia ao ser humano ser obrigado a assumi-lo. Todavia, quis a natureza, ou mesmo a própria deidade, que tal obrigação jamais se justifique, pois a atividade de assim obrigar, por mais resultados que possibilite, nunca incidiu diretamente em produção, mas na antítese desta. Por sua vez, tais resultados sempre corresponderam a condições culturalmente criadas, além de admitidas na perspectiva de sujeitar outrem a produzir de modo inequívoco e forçosamente gratuito. Assim, esta sujeitação tem coincidido com o fulcro cultural-civilizatório que perfaz a própria história. Então, em humanidades, caráter inarredavelmente opcional quanto a empreender inequívoca produção é garantia de qualidade enquanto critério de fundamentar caráter também humano de ciências. É que, de per si, cientificidade nada mais traduz do que mera fundamentação de a ciência ser possível, o que, fenomenicamente, tende a estar oculto sob o que tem estado manifesto enquanto ciências humanas.

Então, em perspectiva desocultadora, expressões entre aspas compuseram o contexto das conceituações formuladas ao longo da investigação, assim como emergem recuperáveis no glossário que consta das páginas iniciais deste texto. No caso de corresponderem a propostas de mudança qualitativa e científica do processo educativo, as conceituações são tidas por ainda hipotéticas e precisam, em relação à individualidade humana, guardar reciprocidade de pertinência ao serem corroboradas e de coerência com justificação. Por sua vez, a individualidade humana há de assumir alteridade de relacionamento social na contingência das alternativas deste mesmo relacionamento, alternativas que se caracterizam pela marxiana involuntariedade da inserção nas relações de produção, a começar pela produção de serviços educacionais.

Ao final do processo investigativo, chegou-se ao que veio a ser hipotetizado como “ínfero-referencial”, cujo objeto é projetado como básico e inarredável por desvelar “razão material-comunicativa” no educador e, a partir deste, o potencial de essa “razão” se difundir na ambiência educativa cuja particularização ou especialização precisa ser explicada e, enfim, justificada no contexto social. A expressão “ínfero-referencial” se torna na síntese das demais, precisando ser antecipadamente comunicada, porque este procedimento facilita comunicar e perceber o significado de todas as demais.

Para chegar ao cabal significado de “ínfero-referencial”, o que só ocorreu já ao desfecho da pesquisa-ação, contou-se com um outro, intermediário, aquele de “crítico-teoria”. Por seu turno, este resultado intermediário seguiu a três outros, em uma sequência gnoseogenética que responde à emergência das necessidades a partir do interior da pessoa.

Destes três outros resultados, o primeiro havia emergido já anteriormente e sua observação restava ainda muito tosca. Mas, por incidir em objeto de contínua revisitação ao longo das atividades de pesquisa, veio a ser conceituado como “paradigma da insustentabilidade coletiva”. Assim, o aprofundamento dos teores deste paradigma respondeu à circunstância de que uma primeira percepção e correspondente interpretação vieram a mediar educação universitária, a partir do ensino da economia política, bem como da possibilidade de essa mediação atingir campos de atuação humana ou de cursos profissionalizantes e, no âmbito destes cursos, mediar teores de disciplinas. Em decorrência, o que compunha ainda toscamente a interpretação inicial logrou contínua “crítico-teorização” do seu entendimento, seja em alcance de ciência positiva, seja por confronto com a “dialeticidade da razão”. Esta, por sua vez, passou a mediar a obtenção de conceituações subsequentes, dentre as quais aquela de “discernimento entre apropriar e produzir” e, no bojo deste discernimento, “gratuidade”, ou melhor, resultados e/ou atividades parcialmente fora da propriedade da pertinente fonte.

Por modesta que ocorresse ao seu início e por sua perspectiva de influenciar mudanças na interioridade do processo pedagógico, a práxis (coletiva e assim mediada) da educação universitária veio a favorecer que, sucessivamente, fossem inferidos outros significados: “sustentabilidade também coletiva” – precocemente guindada a paradigma – com os seus pedagógicos componentes de “posse e despossessão do coletivo natural-mínimo”, ambas – posse e despossessão – inerentes à “relação entre prole e quem, direta ou indiretamente, a sustenta”. O significado de “despossessão do coletivo naturalmínimo”, ao ser vislumbrado como mediador de atividades em que convergiam disciplinas do Curso de Comunicação Social, possibilitou que se consolidasse um situado entendimento a respeito de “trabalho interdisciplinar”, cujos resultados práticos se aproximavam de efetiva produção de grupos de alunos, facultando que, mais adiante, fosse projetada a meta institucional de ser feita “avaliação também por produção” e, por inferência, passou a ser possível aprofundar o teor correspondente a tal avaliação.

Entrementes, exercícios de reflexão das práticas docentes, conduzidos por uma experiente pedagoga e educadora à frente do que se convencionou denominar Programa de Apoio aos Docentes (PAD), responderam por certos avanços nos teores da proposta pedagógica. São avanços que apontam para o horizonte da “individuação íntegra” da pessoa, à qual há como chegar mediante determinada revisitação da “maiêutica” socrática. Para tanto, a filosofia procedimental de Sócrates acabou atualizada como desequivocação dolorosamente parida das faculdades humanas da “vontade” (autoimpulsão para assumir “gratuidade”), da “afetividade” (sociabilidade isenta de desejos interesseiros) e da “razão” (inteligência por entre “vontade” e “afetividade”, assim desequivocadas).

A busca de mediação de teorias pedagógicas externas à IES veio a reforçar o teor procedimental-dialético da pesquisa-ação, à base de três temáticas de pesquisa (já referenciadas na Introdução), as quais são investigadas na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE/ UNICAMP): (a) a dinâmica do desejo como “assunto socrático” da filosofia clássico-antiga, dinâmica cujos labirintos disputacionais influenciaram a concepção da (então) nova paideia; (b) a acentuada recorrência à dialética na efetivação de pesquisas educacionais, paralelamente ao avanço da concepção dialética do processo educativo; e, (c) a antisseletividade (tácita às conotações de democrática, ou mesmo de política, da educação) que também diz respeito ao entendimento do sentido histórico-crítico da pedagogia.

Dessa busca resultaram os entendimentos sobre o suporte existencial da “forma por entre opostos”. Trata-se de suporte tão real-concretamente fundamentado quanto os “modos de existir privacional e presencial”, respectivamente, “privacional” enquanto característica dos objetos de desejo ainda não realizado ou irrealizável e “presencial” enquanto característica sensível de propriedades extrínsecas à pessoa.

De modo contraposto, assim como oculto nas dobras do fenômeno da individualidade e assimétrico à “situação epistêmica” do observador, interpreta-se, nos contrafortes do “paradigma da sustentabilidade também coletiva” e à base dos teores da “relação entre prole e quem, direta e indiretamente, a sustenta”, o fulcro essencial da “‘forma’ por entre sentidos” do “modo de ser ‘ausencial’”, respectivamente, sentido da exsurgência das necessidades naturais e da convergência das funções de as atender.

A garantia de cientificidade aos entendimentos a respeito do “paradigma da sustentabilidade também coletiva”, da “gratuidade” e do “discernimento entre apropriar e produzir” resulta ao menos defensável, à base dos teores da “relação entre prole e quem, direta ou indiretamente, a sustenta”. Esses teores constituem referência, a partir da qual se torna possível inferi-los. De fato, resta descabido duvidar da procedência desses entendimentos, salvo direito a dúvidas, ou mesmo, apelo ao livre arbítrio, os quais previnem chegar até eles. Paralelamente, perfazem teores que têm sido reduzidos a nulidades, dada a circunstância de estarem marginalizados, informalizados e sócio-subjetivados no bojo da indiferenciação entre apropriar e produzir.

Em contraponto, cabe ao caráter emancipado – opcional e parcialmente gratuito – do sentido coletivo da práxis pedagógica, assim como à efetividade desta mesma práxis, constituírem garantia da qualidade e, por decorrência desta, da precisão da cientificidade daqueles entendimentos. Assim, nesta práxis, há de acabar interpretável o que permanece oculto, nas dobras do que está manifesto, a respeito do fenômeno da individualidade. Cumpre, então, auscultar tal interpretação, à base das falas dos docentes, constante dos textos-testemunhos que foram produzidos no contexto dos encontros realizados pelo Programa de Assessoramento aos Docentes (PAD).

Com efeito, as expressões acima referenciadas aparecem nesses testemunhos. Dentre elas, as mais recorrentes são as que reportam ao “discernimento entre apropriar e produzir” (68 vezes); “paradigma da sustentabilidade também coletiva” (67); “gratuidade” (42); “avaliação também por produção” (28); “trabalho interdisciplinar” (21); “paradigma da insustentabilidade coletiva” (18); e, antisseletividade (13). Apesar de serem as menos recorrentes, estas duas últimas expressões acabam sendo as mais significativas, pois a antisseletividade constitui a principal interface da proposta pedagógica com o caráter histórico-crítico da pedagogia, enquanto o entendimento do que seja “insustentabilidade coletiva” coincide com o multifacetado determinante da própria seletividade, ou seja, com a circunstância de se ter que pagar acentuadamente mais para apenas produzir, dado o inchaço da proporção correspondente a tributos e demais rendas (isentas de tributos) de estrita propriedade na formação do preço final dos meios de trabalho. Por outra parte, tirante à dificuldade de interpretar textos marxianos de economia política, há veladas reclamações (31 vezes) a respeito de ser inicialmente muito complicado acessar os fundamentos da proposta pedagógica. A este respeito, merece ter em vista que elucidar os fundamentos da economia política, inicialmente junto ao alunado e posteriormente junto à docência, veio a se constituir na razão de a proposta pedagógica ser deflagrada.

A proporção dos testemunhos, em que ocorrem as expressões em causa, também é um indicador do avanço da práxis pedagógica coletivamente assumida. Assim, a porcentagem dos testemunhos em que constam dizeres pertinentes à expressão “paradigma da insustentabilidade coletiva” (inclusa a dificuldade inicial de entender a proposta) é de 67% (31 dos 51 testemunhantes); “discernimento entre apropriar e produzir” também é de 67%; “gratuidade” é de 49%; “avaliação também por produção” é de 33%; “trabalho interdisciplinar” é de 24%; “paradigma da insustentabilidade coletiva” (exclusa a dificuldade inicial) é de 29%; e, antisseletividade é de 16%. A dificuldade inicial de acessar os fundamentos ocorre em 45% dos testemunhos. Os docentes do curso de Pedagogia, os quais compõem 18% dos testemunhos, foram responsáveis por 31% das expressões explicitadas (cerca de dez por testemunho), inversamente ao que ocorreu com os demais, 82% dos testemunhos e 69% das expressões (cerca de cinco por testemunho).

Cabe admitir, afinal, que há indicação de que a proposta pedagógica esteja a vingar na IES, ao se ter em conta que 45% dos docentes se prontificaram a contribuir com a elaboração de testemunhos, a par de que tal contribuição foi mais significativa no curso de Pedagogia do que na média dos demais.

Entretanto, seria até injusto aquilatar as contribuições dos docentes estritamente à base do apelo a algo que tenha como acabar tachado por “chavões”. Estes, ademais, costumam denotar condutas de apropriadores recorrentemente alheios a respeito de que, para tanto, se encontram necessariamente apoiados em “situação epistêmica”, vale dizer, na posse extemporânea do coletivo natural-mínimo ou na usurpação das oportunidades de a suficiência do coletivo implicar explicação e justificação do indivíduo. Assim, urge citar contribuições na perspectiva de suplementar as falas dos docentes.

Nesta perspectiva, faz diferença que não haja explicitação de restrições à proposta. Contrariamente, cabe projetar aceitabilidade em franca difusão.

As contribuições ultrapassam apelo a expressões-chave. Por isso, é delas mesmas que emanam critérios para aquilatálas, sob três posicionamentos medianamente mais assumidos: autoabandono a dificuldades iniciais; rendição ao imperativo da prática ou à defasagem teórica; e, franca abertura a avanço também teórico.

Autoabandono a dificuldades iniciais dá-se a conhecer, ao ser apontada complexidade – complicação a rigor – a respeito das condições de acesso aos fundamentos da proposta. Neste aspecto, resta implícito que muitas falas emergem vitimadas a implicações do “paradigma da insustentabilidade coletiva”, cuja complicação tem respondido, ao menos em parte, pela resistência em admitir que utilidade, economia, ou mesmo produção frequentem ambiências tidas por educacionais. Trata-se de complicação entre cujos determinantes sequer é cogitado que se encontre omissão educacional quanto a dinamizar inata generosidade do educando, mas, ao contrário, que neste esteja a ocorrer internalização de interesse culturalmente criado. Entretanto, interesse não combina com esforço que, por sua vez, é necessário à dinâmica do processo ensinoaprendizagem, seja da parte do educando, seja do educador. De todo modo, não há apelo a desculpas que veladamente rejeitem a proposta educacional, inclusive porque resta a alternativa do anonimato (55% dos professores não formularam textos-testemunhos).

Rendição ao imperativo da prática ou à defasagem teórica aparece em falas, nas quais emerge anuência à proposta porque desta advêm faíscas teóricas que atingem o mundo da prática. A anuência traduz certo substrato histórico da aprendizagem, aquele de que o produzir inequívoco acabou retardado até o limite do possível, graças a oportunidades de tão só apropriar. Disto resultou ideologizada a imediata prontidão dos meios de vida como prevalente determinante da qualidade, ou seja, do que é aquilatado como melhor. Rendição à ideologia desanda na escassez do que é melhor e, com esta escassez, tornou-se também melhor o saber de aprontar aqueles meios. Na verdade, tornou-se melhor para outrem que contasse com poder para transferir o ato de aprontar e até o próprio saber. Assim, resta tácito que a aceitação da proposta sinalize para insuficiência de teorias vigentes e anteriormente acessadas, sem excluir precariedade em tal acesso. Com isso, favoreceu-se percepção e interpretação da relevância da “gratuidade” da perspectiva de quem a gera, com eventual explicitação ou pressuposição do que possibilita fundamentá-la (“discernimento entre apropriar e produzir”) e ao que conduz seu significado (“sustentabilidade também coletiva”). Entusiasmo pela proposta é frequentemente declarado, mas não há como negar que se encontre tacitamente a se generalizar. Não raro, ensaiam-se ajuizamentos de largo alcance sobre o significado da proposta em sua totalidade.

Franca abertura a avanço também teórico emerge como promessa de a proposta vir a vingar, apesar das implicações do “paradigma da insustentabilidade coletiva”. No caso, as próprias contribuições perfazem “avaliação também por produção”, desvelando ou presumindo “interdisciplinaridade” para explicitá-las.

A seguir, são apresentados excertos de textos, os quais traduzem tal promessa e que foram dispostos, segundo três orientações: (a) de direta ou indireta autorrealização da docência; (b) de desempenho do processo ensino-aprendizagem; e, (c) de (ainda escassos) desdobramentos no meio sociogeográfico:

a) de direta ou indireta autorrealização da docência

“A proposta pedagógica da FASB oferece um conjunto de fundamentos capazes de ressignificar nosso modo de interpretar a realidade que nos cerca. (…) acredito piamente na ‘reciprocidade de coerência’ evocada pelas categorias de análise no movimento da práxis educacional”.

“(…) a organização do trabalho pedagógico da Faculdade está alicerçada em termos teóricos, de procedimentos e de hipóteses de trabalho na questão sustentatória, constituída na dinâmica entre apropriar e produzir, traduzida no atingimento da meta de “Avaliar Também por Produção”. Isso implica em lançarmos um olhar investigativo-reflexivo sobre a práxis educativa e necessariamente estabelecermos uma relação dialética entre o processo ensino-aprendizagem e a avaliação. (…) a Proposta constitui uma troca dialógica daquilo que se produz em sala de aula e das dificuldades que o Ensino Superior enfrenta na busca da alteridade educacional, estabelecendo uma relação dialética com os pressupostos do Paradigma da Sustentabilidade Coletiva. Preenche, pois, os vazios existentes no espaço acadêmico, o que somente é possível com o produzir inequívoco e espontaneamente empreendido. Assim, possibilita não apenas a construção dos processos de relações sociais acadêmicas ancoradas na sustentabilidade e comprometidas com o coletivo, como também a modificação dos eixos centrais da gestão, que promove a geração de ideias numa produção social e numa rede de relações campartilhadas. (…) Acredito que, diante da insustentabilidade global, todo gestor comprometido com a sustentabilidade, precisa enxergar o ser humano com necessidades a serem atendidas e as funções de as atender e reconhecer que a gratuidade foi historicamente anulada, negada, extirpada. Daí a importância em encontrar fissuras, brechas, ou frestas, criando espaços vitais que evoquem a potencial fonte humana de gratuidade em termos coletivos”. (…) O trabalho empreendido aqui na FASB é um desafio, uma utopia possível e principalmente um convite a todos os envolvidos a pensarem e a realizarem o quefazer pedagógico de modo a evocar, em cada educando, a potencial fonte humana de gratuidade, ou seja, a produção inequívoca e opcionalmente empreendida”.

“No ano de 2006, com a sistematização dos estudos e discussões pelo Programa de Assessoria ao Docente” a instituição pôde consolidar o processo de construção de sua proposta pedagógica”.

“(…) a Instituição FASB tem uma missão – promover uma educação de qualidade, oferecendo uma ‘economia antisseletiva’ de conhecimento para os menos favorecidos deste patrimônio histórico-cultural e uma grande reflexão para os mais favorecidos, ou seja, ensinar significativamente aqueles que necessitam de melhorar seus conhecimentos e oferecer caminhos que levam à reflexão para aqueles, que porventura detêm certo grau de conhecimento, contudo não sabem utilizá-lo para o bem coletivo”.

“(…) educar é ensinar a alguém a não ser parasita dos outros e/ou da natureza. (…), pois se apenas (nos) apropriamos de verdades estabelecidas estaremos realizando um verdadeiro atentado contra a inteligência humana. (…) necessitamos traduzir o conhecimento em estilo de vida, em comportamento efetivo, numa reinvenção do sentido do mundo”.

“Existe toda uma desconstrução a ser feita em todas as esferas – pessoais e institucionais – para que estes novos paradigmas se concretizem”.

“No meu entender a FASB se diferencia da maioria das instituições educacionais por fomentar a discussão acerca da educação que desenvolve. (…) Uma nova ciência e uma nova conduta devem possibilitar a criação de condições da sustentabilidade coletiva. Compreender e discernir os condicionamentos históricos do apropriar e do produzir foi o ponto mais significativo que inicialmente compreendi e que serviu de referência a meu trabalho pedagógico”. “A primeira visão da gratuidade de um profissional que foi moldado, em sua formação, de que seu trabalho só tem valor quando consegue fazer com que seu patrão obtenha lucros, já é de se esperar que não foi muito fácil, e essa visão aos poucos foi clareando, à medida que somos inseridos nesse processo, e isso aconteceu aqui na FASB. Atualmente, podemos ver resultados de que uma sociedade justa e sustentável não é utopia, e pode facilmente ser implantada, desde que acreditemos nela. (…) Estou grato por poder enxergar algo mais em minha vida, e com certeza, grato de poder devolver parte de minhas experiências com meus alunos, e ainda, poder viver melhor, com minha consciência tranquila e feliz, e assim, é claro produzir mais e cada vez com mais qualidade”.

“Aqui, com essa proposta, deixei de me sentir um tolo, e hoje me considero mais professor do que nunca”.

“(…) a proposta FASB é hoje uma construção a ser trabalhada diariamente, traduz (e com certeza) que os convencimentos em torno das ideias e sua aplicação devam acontecer na vida pessoal primeiramente à sua utilização/aplicação em sala de aula”.

“Fiquei muito surpresa ao perceber que a ideia do Paradigma da Sustentabilidade Coletiva andava lado a lado com algumas concepções que eu havia desenvolvido ao longo do curso de Mestrado, no qual vivenciei um grande processo de desconstrução de uma visão cartesiana da realidade”.

“Entendo os pressupostos teóricos do Paradigma da Sustentabilidade Coletiva como o início de um processo promissor na educação”.

“Hoje, a proposta fasbiana de educação vem tomando formato próprio, já que o paradigma da sustentabilidade coletiva vem gradativamente quebrando paradoxos, substituindo velhos hábitos inseridos nas mentes de educadores e educandos de um grupo numericamente e qualitativamente significativo”.

“A proposta de educação fasbiana tem me ajudado a reconhecer e confirmar que é necessário romper os velhos paradigmas e tem ajudado a aproveitar o que o aluno pode produzir cientificamente no processo de avaliação acadêmica. (…) em princípio ficou claro que não há como se fazer educação sem levar em conta a sustentabilidade coletiva. Este, num futuro próximo, deverá ser um princípio a ser observado em todas as ações dos indivíduos”.

“Em meio a uma enorme diversidade de pensamentos individuais (pessoas), nas mais diversas áreas do conhecimento, cada professor navega conforme seus valores e capacidades, elementos que de certa forma constituem-nos individualmente, mas que através da Proposta Fasbiana criam uma construção coletiva do conhecimento”.

“Os pressupostos (…) permitiram-me a redução dos conflitos com o corpo discente, em especial por estarem promovendo uma educação menos apropriativa – simples reprodução dos conceitos, antes considerados como únicoverdadeiros –, conflitos ainda mais agravados quando não avaliados também por produção, ou seja, que se oportunize ao discente demonstrar sua evolução (crescimento) como pessoa estudante e profissional. (…) Comparando alguns textos destes pensadores (Smith, Malthus, Ricardo e Mill) com a teoria da insustentabilidade coletiva, observei que os problemas que a desencadeiam estão relacionados não só com o modo de produção, mas também com a ausência (ou o ocultamento) do discernimento do produtor inequívoco ‘versus’ apropriador”.

“O exercício da reflexão permitida pela Proposta Pedagógica mostra conquistas seguras, dinâmicas e abertas a novas possibilidades, daí o alcance das perspectivas. (…) Em discussões realizadas, no colegiado, a troca de relatos nos permitiu evidenciar que as angústias não estavam resumidas apenas a um só, coletivo no grupo experimentavam tais situações. A diferença se fez na aceitação da proposta, que a princípio teve de ser internalizada pelo próprio professor para então ser colocada em prática com o nosso alunado”.

b) de desempenho do processo ensino-aprendizagem;

“Os dois primeiros semestres foram difíceis pelo conflito entre professor e alunos. O que me acalentava é que esse problema não se restringia somente à minha pessoa”. (…) A partir da aplicação dessa Proposta, os conflitos foram esvaecendo e as descargas de adrenalina, momentos antes de entrar numa sala de aula e durante a explanação oral de determinado conteúdo, foram, também, despercebidamente esquecidas”.

“Percebo que não devo ser um repetidor de conteúdos inúteis para mim e para os outros, meus alunos”.

“Tratamento e relação aluno-docente passam a ser mais individualizados no sentido do acompanhamento. A metodologia em sala de aula que passa a ser constituída a partir da necessidade de que o aluno gere conhecimento não somente do que está escrito nos livros, mas da observação sistemática; o pensar na perspectiva da mudança, o sentir na dialética da percepção ambiental, etc. A contribuição para autorreflexão e pró-ação dos alunos a partir de trajetórias individuais (autobiografia). A produção, e de sinais desta, quando o aluno deixa de ser o acaso da história e passa a ser o responsável por si mesmo – “autônomos” (agir segundo as leis e com base em princípios que guiem as suas condutas)”.

“(…) enfrentava no curso de Fisioterapia muitas dificuldades com relação à aprendizagem e a falta de interesse de alguns alunos. (…) Hoje verifico que a inserção do projeto interdisciplinar faz com que o aluno se integre mais no mundo acadêmico, com uma versão crítica do seu futuro como profissional. Os professores se sentem mais seguros e incorporam essa atividade como parte de sua disciplina, fazendo com que este projeto seja espelho do desempenho dos alunos e professores no curso”.

“Percebi que os alunos passaram a refletir mais sobre a realidade que os cerca e principalmente, que nós precisamos produzir para o outro, ou seja, para o coletivo, a fim de evitar o colapso das relações humanas de sobrevivência”.

“A forma de moldar os conceitos da nossa proposta para a sala de aula foi e é o grande desafio ainda presente, porém existe uma grande revolução neste sentido, pois a simples internalização das bases teóricas da proposta proporciona uma mudança de atitude espontânea do educador inserido nesta reflexão”.

c) de desdobramentos no meio sociogeográfico:

“A materialidade da produção extrapolou os limites da sala de aula e felizmente temos exemplos de pessoas tomando as rédeas de suas histórias”.

“A proposta me fez perceber com mais clareza a necessidade do ensino se tornar significativo ao estudante, do ponto de vista profissional e humano”.

“A proposta fasbiana favoreceu um melhor planejamento metodológico na medida em que possibilitou instigar o aluno a encontrar o ponto certo ou o encaixe perfeito da disciplina estudada no pragmatismo do dia-a-dia”.

As falas acima apontadas servem para corroborar, por efêmero que o pareça, as hipóteses ainda toscamente formuladas no projeto de pesquisa-ação. Cumpria expô-las à aquilatação, inclusive em alcance também teórico-crítico e fora da IES de origem. Até certo ponto, elas haviam emergido à revelia do metropolismo, além de influenciadas por sociabilidade mais espontaneamente constituída. A rigor, precisam refletir civilidade que surgiu em profundezas isoladas e pouco ou nada controláveis do domínio privado que foi característico da sesmaria nos mais retirados sertões nordestinos.

A primeira dessas hipóteses foi estipulada de forma sintético-referencial e nos seguintes termos.

Conduta coerente com sustentação também coletiva, por mais

que ainda tenha que se restringir a mero “rito de passagem” e

que precise acontecer somente após acesso ao discernimento

entre apropriar e produzir, há de significar instauração de

condições para a qualidade educacional ser assumida em três

perspectivas: (a) da primordialidade da atitude de produzir de

modo inequívoco e opcionalmente empreendido, interiorizando

o sentido emancipatório do conflito na esfera da subjetividade, a

custos materiais insignificantes ou mediante apelo à

imprescindibilidade (= institucionalidade alternativa) do produzir

inequívoco que, inclusive, perfaz substrato animal da condição

humana; (b) de ciência enquanto estrita instrumentalidade para

que o caráter primordial da atitude assim produtiva encontre

chance histórica de ocorrer; e, (c) de mudança ambiental – esta

última perfazendo autossustentação dos egressos, assim como

contribuição destes mesmos egressos a interações humanas

sempre menos conflituosas e a desperdícios sempre menores

no custeio do exercício das funções institucionais.

As demais hipóteses acabaram formuladas em uma perspectiva analítico-constitutiva da generalidade da anterior. Perfazem um conjunto e um subconjunto, este último de alcance mais instrumentalizante.

Em potenciais antípodas da mesmice atitudinal e da

funcionalidade desta ao vezo a-historicamente apropriativo,

inequívoca alteridade de condutas tem tido seu próprio

potencial represado por ausência de historicização da práxis do

produzir enquanto racional-materialmente discernível do

apropriar, apesar de que, ao longo da história, a prática forçosa

desse produzir já tivesse sugerido a condição de utopia-de-

referência à efetivação da alteridade em apreço.

Discernimento entre produzir e apropriar evoca senso natural-

grupal de responsabilidade, a partir do substrato sensitivo-

racional que é comum aos espécimes inequivocamente adultos,

inclusive no contexto da vida animal: a conduta de gerar

gratuitamente excedentes de meios de vida, por além do

necessário à subsistência de quem os gera ou para atender as

necessidades da prole, vale dizer, conduta operante em

coerência com sustentabilidade também coletiva. (Perfazem a

racional-materialidade do discernimento em apreço):

- exercer atividades parcialmente gratuitas ou gerar excedentes

fora da propriedade da respectiva fonte tem sido uma espécie

de tabu cultural, cuja autofundamentação se traduz por conduta

humanamente tão custosa que sempre significou o alcance

penoso de inequívoco trabalho, alcance cujo enfrentamento tem

sido ambientalevolucionistamente postergado, até que ameaça

à autossustentação pessoal-social se configure como fatalidade

tempestivamente visível;

- o alcance humano da interação entre prole e progenitores tem

conotação de propriedade, havendo como afirmar que a prole,

até adquirir capacitação a atuar em grau de

autossustentabilidade, exerce uma posse tácita do coletivo ao

qual pertence, a par de que a extrapolação dessa posse, por

além do período que é necessário e suficiente à efetivação do

potencial de se autossustentar, não apenas coincide com o

vezo a-historicamente apropriativo de atitudes pessoal-

corporativas, como também denuncia omissão educacional à

conta de alheamento profano-científico sobre esse mesmo

vezo; e,

- acumulação de propriedades extrínsecas à pessoa atende a

uma necessidade culturalmente instalada no tecido social e que

corresponde àquela de estar apriormente garantido o

atendimento das demais necessidades, à medida que estas não

fazem sentido senão enquanto meramente instrumentalizadas

como suporte metódico da historização do vezo apriormente

apropriativo.

Esta, forçosa e/ou seduzidamente, fonte de gratuidade tem sido

imprescindível “fundamento real” (artifício culturalmente

soerguido) de uma sociabilidade cuja prevalência sempre

“justificou”, não apenas funções institucionais privilegiadamente

remuneradas, como também conveniência em alhear-se ao

significado da imprescindibilidade de existirem ocupações

parcialmente gratuitas, “fundamento” no qual o sempre esteve

enredado.

Ao se ter em conta a intangível opcionalidade em contribuir para a elucidação dessas hipóteses, custa admitir que elas deixem de ultrapassar a própria condição hipotética, dada a reciprocidade de coerência e de pertinência quanto ao caráter íntegro do todo ao qual se reportam. Desde os primeiros ensaios na pertinente formulação, emergiram mediadas pelo “paradigma da insustentabilidade coletiva” e eram colocadas na perspepctiva de constituírem fissuras no monólito da propriedade a se fazer presente no vezo metropolístico que, por força do próprio marco regulatório, perpassa o ensino superior brasileiro.

Assim, os resultados da pesquisa-ação suprem a necessidade ou o problema de escudar decisões no sentido de buscar inequivocação quanto a veraz qualidade e a precisa cientificidade da educação a ser promovida, até que as (alegadas) ciências da educação estejam disponíveis.