Educação universitária: práxis coletiva
2. Práxis coletiva, conexa à “interdisciplinaridade” e à “avaliação também por produção”
Cumpre referenciar tais momentos a condições vivenciadas por correspondentes avanços em aprontamento educacional: (a) estudante a frequentar, desde pré-escola, passando por educação fundamental, até concluir o ensino médio; (b) universitário, ou indivíduo, em fase de assumir condição de inequívoca adultez; e, (c) egresso do processo educativo, desde o nível universitário até pós-doutoramento, assim como especificidade da pós-graduação para educadores que sejam capacitados a fazer com que o real-concreto do campo da pedagogia passe a mediar, sobremaneira em sentido autodescolonizante, todo o complexo de uma universidade à altura dos desafios ora enfrentados pela humanidade.
Em desfecho, a cientificidade do saber escolar, uma vez dialeticamente entendida, há de assumir condição categorial de área de saberes, ao par com as demais. Então, os reaisconcretos que perfazem o campo da práxis educativa teriam como não continuarem reduzidos a pedestais de dominação. A contextualização desses saberes tem como prevenir a reprodução das injustificações, mas, para tanto, o momento da instrumentalização da pedagogia histórico-crítica incidiria em criticidade, carecendo da aprofundada mediação a provir de especificidade dialética, tirante à acima apresentada.
2. Práxis coletiva, conexa à “interdisciplinaridade” e à “avaliação também por produção”
Práxis coletiva, em reciprocidade de coerência e de pertinência ao caráter íntegro da individuação, há de ancorar-se em inequivocação ou “crítico-teoria” quanto a efetivamente produzir, ancoragem que requer “interdisciplinaridade” e “avaliação por produção”. Em seu sentido propriamente “crítico-teórico” e por denotar atitude a ocorrer emancipada e emancipadora, tal práxis precisa emergir ancorada no caráter opcional da geração de gratuidade, o que lhe constitui “vacina” contra vezo injustificador das relações sociais. Por sua vez, essa ancoragem passa a servir de referência, fundamento, base e até espaço vital, para que seja constatável produção de índole “interdisciplinar”.
Nas antípodas da pretensiosa intencionalidade de sobrepor-se a quaisquer totalidades, há o sentido do inequívoco modo de ser da “vontade”, cuja “ausencialidade” (direto ou imediato caráter imperceptível) guarda reciprocidade de coerência e de pertinência à opção de se ser parcialmente gratuito nas atividades de cunho educativo, diretas ou indiretas. Percepção e interpretação do sentido do modo de ser da “vontade” tornam-se imprescindíveis para que ocorram atitudes, ou mesmo condutas, as quais denotem caráter verazmente coletivo das atividades assim educativas. É que esse caráter não significa presença dos educadores em reuniões, porém “dialeticidade da razão” enquanto “incontinuidadecontato” por entre “vontades” e “afetividades”, denotando caráter íntegro de cada qual e de todas as pessoas empenhadas em buscar veraz qualidade e precisa cientificidade da educação a promover.
Chegar a essa denotação é processo que presume reflexão a respeito da prática docente, aquilatando-se grau de acesso ao sentido do modo de ser da “vontade”, ou seja, à inequivocação quanto a efetivamente produzir. Por sua vez, esta inequivocação se dá a conhecer, mediante real-concretizações a perfazerem produção de índole “interdisciplinar” e prontamente exposta a ser avaliada. Paralelamente, “afetividade” se torna inequívoca ou livre de interesse, ao ser consentânea com produção e à medida que produzir coincida com subtração da “vontade” ao desejo não realizado e/ou irrealizável. Enquanto tal produção não acontecer, a “vontade” continuará fadada a emprestar o inalienável sentido do seu (homogêneo, incomensurável e aberto) modo de ser à incontinência apropriativa da dinâmica do desejo, nos modos e na forma de esta dinâmica existir. Então, para a “vontade” coincidir com sua subtração ao desejo torna-se imprescindível que haja oportunidade de educandos e educadores produzirem de modo inequívoco e opcionalmente empreendido, ainda que este produzir tenha que ocorrer enquanto mero rito de passagem. Para tanto, cumpre recorrer a “trabalhos interdisciplinares”, em cuja execução incidam duas ou mais disciplinas. Assim, a aplicabilidade de teores disciplinares passa a ser aquilatada em um único produto que, já ao ser projetado, confere sentido também operativo às especificidades dos conteúdos de ensino.
Na (pós)-modernidade, produzir implica que reais-concretudes correspondentes a objetos de ciências venham a se constituir em um amálgama, ao longo da produção de um bem ou serviço, ambos a deterem utilidade. Todavia, esses objetos correspondem a fundamentos reais-concretos que subsistem, cada qual segundo modos e forma especificamente determinados e que, por si sós, não perfazem tal amálgama. Têm de entrar em contato uns com os outros, o que se traduz como objetivos cuja efetivação depende de suas diferenças – entre si incontínuas e reciprocamente inferíveis – corresponderem a determinadas funções. Assim, tem de existir profissionais, ou seja, pessoas conhecedoras de fundamentos reais-concretos para que estes entrem em mútuo contato, à base das funções que lhes expressem as especificidades. No caso, e antes de acontecer esta ou aquela produção de um bem ou serviço, aquele “tem de existir” corresponde à necessidade-problema cujo atendimento-solução implica em “interdisciplinaridade” e que, ao longo do processamento do bem ou serviço, há de perfazer “interdisciplinarização”.
Em tal contexto, “interdisciplinaridade” responde à necessidade-problema de se chegar, antes de tudo o mais, à “individuação íntegra” desta ou daquela pessoa. Trata-se, então, de educar de modo inequívoco e opcionalmente empreendido. Todavia, educar só ultrapassa mera intencionalidade, porque “tem de existir” (é “interdisciplinar”) sua própria utilidade, determinação que é deflagrada (“interdisciplinarizada”) pela mediação do discernimento do que seja produzir em contraponto a apropriar, no âmbito de cada campo de atuação e de cada real-concreto ou fundamento de disciplina. Para tanto, é insuficiente, apesar de imprescindível, o mero ensino de tal discernimento. Atividades-fim “têm de existir” (perfazem caráter “interdisciplinar”), a par de que as pertinentes produções têm de coincidir com o que fundamenta o significado do que cumpre ser admitido como “avaliação por produção”.
A propósito desse fundamento, resta até mesmo truístico sopesar que esteja presumido entendimento sobre inequivocação quanto a efetivamente produzir, a começar pelo produzir serviços educacionais.
Caráter “interdisciplinar” de trabalhos implica produção e esta faculta aquilatar aprendizagem, em sentido que previna reducionismo avaliativo, a exemplo de prevenir apelo a um escalar em que notas restem hierarquizantes de diferenças de pessoas e de coisas, diferenças que acabem (pseudo)-identificadas por funções generalizadamente atribuídas. Contrariamente a tal reducionismo, produção inequívoca e opcionalmente empreendida denota “individuação íntegra”. E é em prol desta individuação que se torna admissível o caráter propriamente “interdisciplinar”, à medida que este caráter traduza autoafirmação de inequívocas faculdades humanas.
Com efeito, as energias vitais da pessoa se esgotam até mesmo em pleno repouso do organismo, fenômeno cuja emergência faculta conceituar necessidades, a exsurgirem do interior para a aparência da pessoa. Entretanto, energias vitais precisam ser repostas no sentido do exterior para o interior do indivíduo e à conta de funções a serem exercidas coerentemente com este mesmo sentido. Para tanto, ao menos três faculdades humanas “têm de se fenomenizarem” em alcance mais inferível: (a) “afetividade” (desvelamento da necessidade de outrem, no congraçamento entre pessoas e a provir da subjetividade); (b) “razão dialética” (fulcro da interpretação dos sentidos entre si contrários, segundo os quais se movem as energias vitais); e, (c) “vontade” (vértice, a partir do qual as energias vitais acabam por seguir sentido contrário àquele das energias em esgotamento).
Reciprocidade de coerência e de pertinência, quanto ao mover-se das energias no âmbito de uma mesma pessoa, coincide com a faculdade de aplicar tais energias, ainda antes que se esvaeçam mecanicamente, para que outras tenham oportuna reposição. Há, ao final, real-concretização do indivíduo, porém o caráter íntegro do pertinente fenômeno responde primordialmente à autoafirmação da “vontade”, uma vez que reversão do sentido das energias vitais precisa ocorrer no exterior da pessoa, ocorrência que fundamenta o significado do que seja utilidade. Diz-se no exterior da pessoa, porque o inevitável esgotamento das energias vitais tem como ser preventivamente aplicado no sentido inverso àquele do emergir das necessidades, desde que sejam despendidas na obtenção de fontes de reposição daquelas que se esvaem, o que tem de ocorrer com sobras em relação às efetivamente esgotadas. Todavia, ao ocorrer no exterior da pessoa e dada a multiplicidade de pessoas, tal obtenção de fontes tem sido transferida a outrem, cuja sujeitação tem como substituir a (inequívoca e denegada) “vontade” do sujeitador e do próprio sujeitado. Neste caso, energias vitais de sujeitados “têm de estar” aplicadas em lugar daquelas de pessoas que denegam a própria “vontade”, por subsumirem-na como “motor” do próprio desejo. Para tanto, e por si mesma, a utilidade se torna “pomo da discórdia”, o que explica, sem que se justifique, a intrigante conveniência de ela não compor educação. É que essa conveniência tem ocorrido como educação “cidadã”, própria da “pólis” a se metropolizar e do apelo a uma determinada democracia que “tem de se historizar” como igualdade de oportunidades não universalizáveis. Já esta igualdade tem emergido (aparentemente) fundamentável tão só em direitos e, em contrapartida, houve de ocorrer escudada na desigualdade do exercício de obrigações, exercício que, apesar de obviamente passível de universalização, tem sido represado no âmbito da subjetividade. Assim, o sujeitado tem incidido em exclusão do acesso à gnoseologia, o que presume a preterição da gnoseogênese ou do específico meio para a atuação da pedagogia.
Em síntese, a “maiêutica da vontade” (subtração do mover-se pessoal para fora da dinâmica do desejo, vale dizer, dispor-se, opcionalmente, a gerar “gratuidade”) coincide com o deflagrar do processo de o ser humano e de a sociabilidade se tornarem íntegros. Apesar disso, “vontade” tem sido forçada a não se manifestar em sua inequívoca identidade, pois, no caso de se manifestar, não subsistiria o que persiste de oculto na “historização” da política e da pólis. Para uma desequivocação do que seja propriamente “vontade” cumpre aventar brechas, fissuras ou poros, os quais têm sido ocultados pela incontida apropriação do “intercâmbio material-comunicativo”.