Educação universitária: práxis coletiva

Pedro Bergamo · Capítulo 4 de 40

Páginas do PDF

Educação universitária: práxis coletiva

B. Situação local-regionalmente interiorizada

Antes que estivesse sequer cogitada a instalação da IES em causa no Oeste Baiano e em Barreiras, precedeu-lhe uma diagnose a respeito do impasse da sustentação real do intencionado desenvolvimento socioeconômico do Brasil ao longo das décadas que sucederam as mudanças decorrentes da depressão mundial ocorrida em 1929. Esse impasse acabou confrontado com a residual alternativa de se apelar para poupanças financeiristas internas e/ou externas, alternativa que acabou por prevalecer, uma vez que saída oportuna e propriamente real acabou preterida ao longo dos anos 40 e 50 do século recém-findo.

A diagnose apontava para omissões que persistiam nos bastidores políticos em que triunfou o “Plano de Metas”, implantado a partir de 1956, tendo por eixo locacionaldesenvolvimentista a transferência da Capital Federal para Brasília.

Nos mencionados bastidores, poderiam ter sido apontados dois fenômenos a serem, à época e regional-politicamente, aquilatados

nas perspectivas de “saída mineira” x “omissão baiana”2. A primeira, vitoriosa nas eleições de 1955, representou notórios desdobramentos em termos de lançamento de infraestrutura de energia e transportes, assim como um nada surpreendente descaso em termos político-educacionais. Quanto a este descaso, não era considerado, à época, o aprofundamento do já inegável desencontro entre, de uma parte, ensino – peculiarmente, enquanto acesso a especificidades científico-tecnológicas – e, de outra, desenvolvimento socioeconômico regional-nacional. Presumia-se, político-inercialmente, que fosse possível dar continuidade ao velho modelo de exploração e apropriação metropolista de resultados do trabalho de fonte humana sem tal ensino, bem como de gratuitas contribuições de recursos naturais (fertilidade natural do solo, depósitos minerais e flora, basicamente) em novas fronteiras, sobretudo na Amazônia e a começar por aqueles disponíveis ao

longo do eixo Belém-Brasília 3.

Entretanto, a principal questão social dos tempos então em curso derivava do desequilíbrio entre população e produção, estando praticamente ainda restrita ao Nordeste, de onde sucessivas levas de migrantes, sem perspectivas de retorno, aportavam no Sudeste e, a seguir, seriam desviadas, ao menos parcialmente para o Centro-Oeste, na esteira das influências decorrentes da construção da nova Capital.

Era, então, gritantemente óbvio que aquele ensino precisasse ser priorizado no Nordeste, emblematicamente no Estado da Bahia, onde (ainda hoje, 2008) ocorre o mais expressivo bolsão de pobreza rural. Este Estado também é aquele de maior contingente de eleitores da Região Nordeste, sendo possível à sua representação política liderar regionalmente as demais.

Por que, afinal, priorização do processo educativo no Nordeste não foi atendida, junto aos prepostos do Poder Público e nas pertinentes esferas? Resposta a esta indagação deveria incidir no esgotamento do secular modelo de exploração da gratuidade da natureza livre e da fonte humana de trabalho. A continuar tal modelo, seriam implantadas capitais de novos estados, reproduzindo-se, no eixo Brasília-Nordeste, o que sucedera com os artifícios urbanos de Belo Horizonte e Goiânia. De fato, o artifício veio a acontecer com a implantação de Palmas no novo Estado de Tocantins. E também viria a ocorrer com a (tacitamente possível) implantação de uma capital para o futuro Estado do São Francisco (extremo oeste da Bahia). Logo a seguir, esgotou-se de vez o modelo em questão.

A ocupação do extremo oeste da Bahia teve sua remota origem nos mais isolados e distantes sertões da antiga Capitania Hereditária de Pernambuco. Ao longo dos séculos XVI a XVIII, para lá se deslocavam foragidos do regime escravagista, assim como criadores de gado, na antiga tradição extensiva da “Casa da Torre”. Estes últimos se expandiram, conforme Rocha (1983, 26-7), a partir da atual cidade de Barra (antiga São Francisco de Chagas da Barra do Rio Grande). Na virada do Século XVIII para o XIX, migrantes procedentes de Barra subiram o Rio Grande até onde era possível navegá-lo (as barreiras), onde passaram a produzir alimentos para suprir populações exploradoras de depósitos minerais e de pedras preciosas, destacando-se a garimpagem de diamantes na Chapada Diamantina.

Esses migrantes acabaram por implantar, a pouca distância antes das referidas barreiras, um avançado e pioneiro entreposto de

comércio entre Nordeste e Brasil Central 4, cuja história faz lembrar uma temporã “feitoria” lusitana. Junto a esse entreposto surgiu o povoado, depois a vila e finalmente a cidade de (São João das) Barreiras. Foi a partir desse entreposto que, gradativamente, Barreiras veio a se tornar polo de outros núcleos urbanos regionais, vindo a criar e concentrar uma cultura que, por sua vez, é traduzida por uma peculiar busca de romper com o isolamento dos migrantes, cuja origem os caracterizou como ribeirinhos, denominação já atribuída aos residentes ao longo da calha do médio Rio São Francisco e do Rio Grande. Um traço marcante, talvez o mais representativo dessa busca, sempre se manifestou por uma interiorana e silenciosa epopeia, tecida de persistência, ousadia e suor, em prol de soluções para romper com o seu isolamento sociogeográfico. Essa epopeia deixou seus vestígios nas relações sócio-locais de produção, vestígios que se caracterizam, de uma parte, por englobarem esforço produtivo e mercado local e, por outra parte, por desenvolverem intercâmbio orgânico com a natureza, sob notório risco de não acabarem compensados, peculiarmente no devotamento de meeiros à pecuária extensiva e à navegação fluvial

(ROCHA, 1983, p. 32-34)5. A necessidade de produzir e intercambiar determinou o atributo de “produtivos” até aos grandes proprietários (“coronéis”) por ali instalados. Estes proprietários não costumavam cercar suas propriedades, mantendo-as peculiarmente abertas à cooperação de despossuídos.

Ao se iniciar o “ciclo da borracha”, a coleta de látex de mangabeiras acarretou notório impulso à vila de Barreiras, na qual também veio a surgir um surpreendente surto industrial entre as décadas de 1920 e de 1960, a par da implantação de um aeroporto (financiada pelos EUA), para embarcar alimentos nas aeronaves que se deslocavam para o “front” na Europa. Porém, logo ao início do regime militar, os barreirenses vieram a sofrer o maior dos golpes nas suas conquistas contra seu originário isolamento, pois foram desativadas as barcas de navegação fluvial, assim como a usina hidroelétrica e o aeroporto internacional.

Desde essa época, acentuaram-se na cultura local-regional os impactos de um (até precoce) processo de globalização, inicialmente de cunho religioso procedente do Sul dos EUA e, a seguir, com a chegada de um batalhão rodoviário do Exército, o qual se instalou em vila própria, ameaçando deflagrar, localmente, o contraste entre o “novo” e o “velho”, conforme categorias utilizadas pelo geógrafo-humano Milton Santos. Com a abertura de estradas, interligando Barreiras com Salvador (BR 242) e com Brasília (BR 020), o comércio e a prestação de outros serviços urbanos passaram a se expandir, enquanto aqueles resíduos de cultura autóctone vieram a se defrontar com uma espécie de crise. Por outra parte, a predominante influência de Salvador veio a ser contrabalançada pela acentuada polarização ao eixo Brasília-Goiânia e ao “enxerto” regional de aspectos culturais ditos “sulistas”, sobremaneira após a criação do Município de Luís Eduardo Magalhães, a 92 km a oeste de Barreiras e na rota migratória para o Centro-Oeste.

A presente situação sociogeográfica de Barreiras e do Oeste Baiano responde a dois supervenientes e cumulativos impulsos de abertura, os quais atropelam, ou ao menos ameaçam, o sentido da busca, até então prevalecente, de ultrapassar o referido isolamento e, com isto, passam a determinar questões de desenvolvimento humano de significado pouco ou nada perceptível aos olhares habituais: (a) impulso produtivo-tecnicista: avanço, ainda em realimentação, da fronteira agrícola do Centro-Oeste até os cerrados baianos, em cujo apoio local-regional, o comércio e a infraestrutura de serviços urbanos, por insatisfatórios que ainda hoje se os julguem, foram os poucos disponíveis até a recente emancipação do referido Município de Luís Eduardo Magalhães; e, (b) impulso educacional, em plena ocorrência, devido à atuação de campos avançados de duas instituições públicas – Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA) – e à presença de cinco IES privadas, com destaque para a Faculdade São Francisco de Barreiras (FASB).

A inserção local-regional da educação superior precisaria ocorrer no sentido de remediar e prevenir, a partir das suas ambiências interna e externa, implicações injustificadas e injustificantes do impulso produtivo-tecnicista. É peculiarmente em tal sentido que cumpre ao menos intuir a presença local-regional de uma IES privada sem fins lucrativos, como tem sido o caso da FASB.

No caso de traços culturais, ainda cabe ter em conta que se reproduzem notórios resíduos da mencionada “cultura do isolamento”, porém em circunstâncias sempre mais adversas às condições em que emergiram. Nos bastidores das estórias a comporem a cultura regional-local, a educação almejada nos tempos de isolamento era a oferecida em Salvador e chegava até o

nível universitário 6. Localmente, apresentou certo viés voltado para a conquista de “status” social, excetuando-se os pioneiros esforços da UNEB em promover formação de professores.

Nas circunstâncias atuais desse contexto, educação tem prioridade extremamente díspar no nível das pessoas e criticamente precária, para não dizer que é nula, junto aos poderes local-regionalmente constituídos. Ainda é incipiente uma socializada percepção de significado para categorizar educação no plano sócio-representativo de “bem público” de “elevado valor científico e social” – conforme termos dos textos oficiais. Paralelamente, não é claramente percebido pela juventude local-regional, candidata ao ensino superior, o “guiso” metropolístico a impelir jovens por força de que “ruim com diploma, pior sem ele”, cuja exploração vem permitindo que a mera “dação de aula” seja apregoada por sua “excelência” e seduza a juventude em seu já emblemático impasse (auto)-orientativo. De outra parte, à conta do alcance institucional dos propósitos avaliativos do macrossistema oficial (MEC e órgãos conexos), é difícil não admitir que atributos de qualidade do ensino superior, no Brasil, não estejam a (re)-produzir superioridade metropolista.