Educação universitária: práxis coletiva

Pedro Bergamo · Capítulo 25 de 40

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Educação universitária: práxis coletiva

4. Ultrapassagem de equívocos quanto a identificar faculdades humanas

Faz sentido assumir opcionalmente geração de gratuidade, porque tal atitude há de coincidir com o exercício da inequívoca “vontade” pessoal-humana. Neste seu sentido, “vontade” seria denotada pela circunstância de ser efetiva a práxis pela qual se dissolvem entre si desequivocação quanto a produzir e ocorrência deste mesmo produzir, ou seja, com a ultrapassagem da “historização” da pessoa que se vitima à exploração, inclusive “de” e “por” ela própria. Isto presume autopoliciamento a favor do que é liminarmente indesejável, por ser inclusive antiprazeroso, vale dizer, a favor de assumir, também fora da propriedade própria, esforço e/ou resultados deste. Ademais, inequívoca identidade do que é assim indesejável terá de substituir o absoluto prático ou histórico-dialético do materialismo, ao facultar que se interprete divisão do trabalho enquanto também trabalho e este se anule por compreender tese e antítese de si mesmo. Com tal substituição seria visualizável o que signifique propriamente “vontade”, tendo-se em conta impulsão para exercer atividades humano-produtivas a acontecerem, em boa parte, fora da propriedade e, sobremaneira, fora do desejo de a pessoa se restringir ao alcance prazeroso do apropriar.

Em uma situada perspectiva alternativo-institucional, somente antipredação incidiria em justificativa para a “vontade” restar como que subsumida à perceptibilidade de exercício de poder, pois, neste caso, ela teria que se “historicizar” como impulsão para coibir abuso de incontinência do desejo ou de ilimitação do acesso a propriedades. Ausência de antidepredação, a par da circunstância de a geração de gratuidade estar sendo postergada para a esfera do liminarmente irreconhecível, ambas – ausência e circunstância – são situações em que se torna sobre-humano exercer inequívoca “vontade”. Todavia, o que faz propriamente sentido é a sobrehumanidade desse exercício, pois somente ela há de ao menos tanger inequivocação quanto à própria questão de sentido. Dentre as procedentes oportunidades de produzir de modo inequívoco e parcial-opcionalmente gratuito, há de advir, antes das demais, a busca de veraz qualidade de uma educação pelos próprios educadores. Nesta perspectiva, a busca, por ela mesma, terá de se voltar para a “individuação íntegra” do educando, ou seja, para a ultrapassagem da sua originária autoinsustentabilidade ainda a corresponder ao estado caótico das interações entre as suas potenciais e represadas faculdades. Trata-se de procedimento que visa a abrir oportunidades para a “vontade” pessoal evadir-se de equivocações sobre si própria e seu exercício, o que significará prevenir vitimação do educando à extemporânea continuação daquela sua autoinsustentabilidade. Neste horizonte procedimental, terão que fazer sentido, tanto a utilidade que é inerente às questões sustentatórias (abertura à crítica na condição de teoria), quanto a despossessão do coletivo (desafio de pedagogia propriamente “crítico-teórica”), ambas – utilidade e despossessão – pertinentes à construção de condições que favoreçam acesso, o quanto possível precoce e aprofundado, ao “discernimento entre apropriar e produzir”, ou seja, à via “crítico-teórica” para autoconhecimento e à via interpretativa para heteroconhecimento.

A “individuação íntegra” ocorrerá, porque o “ausencial” sentido do modo de ser da “vontade” implicará em a sua inequívoca identidade vir a ser, não apenas a antítese da identidade do “modo de existir ‘privacional’” da “escassez criada”, como também o vértice em que virá a se tornar inferível uma cabal incontinuidade – minimalidade de distância e duração – por entre aquele sentido e tal escassez. E será concomitante, a tal inferência, a oportunidade de a escassez deixar de ser criada ou de produção ser opcionalmente empreendida, tornando-se enfim perceptível o “ex-desejo incontido” (a “afetividade”, enfim também inequívoca, graças à generosidade que lhe é característica como “meninice” a jamais se esgotar na “historicidade” da pessoa). Já aquela incontinuidade há de incidir, por si mesma, no momento de a “inteligência” se enxergar “interflexa” (em reciprocidade de coerência e de pertinência) entre “afetividade” e “vontade”, incidência que perfaz, também subjetivamente, a relação espaço-tempo. Por sua vez, a situação assim “interflexa” da inteligência facultará à razão se assumir como “incontinuidade-contato” por entre as autoafirmações do sentido do modo de ser da “vontade inequívoca” (exercício de funções a atenderem necessidades naturais) e da “afetividade inequívoca” (emotividade humana a se externar como congraçamento intersubjetivo no exercício de funções). Então, os signos correspondentes a “forma” e a “formação” também devem se afirmar, uma vez que os correspondentes fundamentos hão de se tornar inferíveis, perceptíveis e interflexos desde o “miolo” da pessoa. Tais fundamentos hão de corresponder a uma tríade minimamente grupal-natural de faculdades humanas, não apenas possíveis, como também entre si irredutíveis (“afetividade-razão-vontade”).