Educação universitária: práxis coletiva
C. Especificidade dialética
1. “Forma por entre opostos” inerente ao realconcreto da dinâmica do desejo
Não tem feito sentido algum “o homem” nascer e viver tendo necessidades, sobremaneira as básicas e as da própria espécie, de tal forma que ser livre coincide com o atendimento da (anteriormente mencionada) necessidade histórico-culturalmente criada de avalorar ou mesmo antivalorar o alcance vital-básico de certas necessidades. Esse atendimento significa prevenir inserção em relações de produção, as quais guardem reciprocidade de coerência com intercâmbio orgânico com a natureza. Adentra-se, então, à socrático-platônica dinâmica do desejo, cujo real-concreto se processa dialeticamente. Tal adentramento é logo a seguir apresentado, à base de concepções do que há de perfazer essa dinâmica.
De início, concebe-se um “miolo” de uma totalidade, o qual perfaz, realisticamente, uma forma de existir por entre dois modos. Um destes modos é epistemicamente perceptível, enquanto o outro é ocultamente fenomênico. Ambos se opõem, à base dessa mesma forma e enquanto inescapáveis componentes da própria dinâmica do desejo. Há, então, a condição “presencial” da propriedade – esta, enquanto objetos perceptíveis ou materialmente aparenciais. Trata-se de condição que desperta os sentidos e faz repousar o desejo. Também há a condição “privacional” da falta de objetos, falta esta a incidir em necessidade criada que, de per si, é imperceptível e imaterial. Por sua vez, esta condição contém e delimita os sentidos, o que atiça o desejo a ponto de revesti-lo de ansiedade. Então, aquela forma tem como ser inferida em alcance tão existencial quanto ambos esses modos. Assim, a totalidade percepção-inferência-interpretação incide em efetiva produção cultural, inclusive em horizontes da síntese dos opostos na proposta marxiana de inverter a anterior concepção idealista da dialética em Hegel.
Com efeito, à luz da história filosófica das conceituações da dialética em Abbagnano (2007, p. 315-22), chega-se a tal forma de existir, contando-se com procedimentos cuja aplicabilidade serve de apoio para avançar na busca de qualidade em produção cultural. Para tanto, emergem três momentos: (a) coloca-se algo “abstrato e limitado” (aponta-se uma tese, a exemplo daquela de que, na modernidade, “espírito do capitalismo” seja significativo teor do “assunto socrático-platônico” que é pertinente à dinâmica do desejo e, enquanto tal, perfaz objeto abstrato-intelectualmente disputacional ou erístico); trata-se da ilimitável imaterialidade da “escassez criada” a se fundamentar na oposição à limitada realidade da propriedade; (b) suprima-se essa limitada realidade – a propriedade – e haverá inserção em determinado oposto (antítese); trata-se da inserção na estritamente imaterial existencialidade da “escassez criada” (inserção à qual os despossuídos têm tido que se sujeitar desde tempos imemoriais e que precisaria ser vivenciada pelos capitalistas após a marxiana despossessão das fontes objetivas dos meios de vida); e, (c) resulta, daquele fundamentar-se na oposição e desta inserção na antítese, que a imaterial realidade (dos objetos de desejos irrealizáveis ou ainda não realizados) tem tido, por si mesma, como coincidir com a “situação epistêmica”, esta enquanto circunstância em que é facultado perceber-inferir-interpretar tudo o que apraz a um apropriador; por isso, a “situação diastêmica” há de coincidir com aquela que é imprescindível para se chegar a autoconhecimento (síntese dos opostos, inferencialmente por entre modos de existir e como qualidade na produção cultural de determinado “real-concreto a se humanizar”).
Contando-se com apoio assim inferencial, torna-se possível ao menos aventar uma “forma de existir por entre opostos” que subsista tão radicalmente real-concreta quanto o fazem o “modo de existir ‘presencial’” e o “modo de existir ‘privacional’”, além de os três – ambos os modos e aquela forma – serem inseparáveis por inteirarem um todo abstrato-representado que corresponde a um único real-concreto. Porém, a forma se tornará assim (auto)-inferencial tão somente na “situação diastêmica” (na interioridade desse todo). Em sua realidade, trata-se de forma a refletir co-fundamento de um real-concreto e a se inferir tão somente na sua coincidência com este mesmo co-fundamento.
À base desse todo assim abstrato-representado, autoconhecimento há de coincidir com despossessão de coletivos, ou seja, inverte-se a condição da sustentação individual, antes provinda do coletivo natural-mínimo e, desde agora, tendo que ser entendida como imprescindível, além de procedente tão só da pessoa, da parte ou do componente do coletivo. Trata-se de inversão que só ocorre mediada por inequivocação quanto a produzir autoconhecimento, mesmo que este produzir tenha que fazer sua história à margem dos vigentes modos de produção que, por seu turno, se caracterizam por subsistir inseridos na ainda inescapável dinâmica do desejo. Ademais, produzir é prática carente de reflexão por implicar limites ao apropriar exteriormente às partes e, por reciprocidade de coerência, interiormente a esta ou àquela totalidade.
A forma assim situada há de incidir na própria dialética como qualidade procedimental, instaurando-se uma tríade metódica que se constitui de: (a) constatação – à conta dos sentidos, inclusive mediante instrumentos – do “modo de existir ‘presencial’” dos reais-concretos que são abstraídos no processo de conhecimento (fundamentos, realistamente delimitados, que são percebidos e interpretados a partir do miolo da totalidade correspondente à dinâmica do desejo); (b) interpretação do “modo de existir ‘privacional’” por coincidir com ilimitável e real imaterialidade, externamente à propriedade e essencializando o vazio correspondente aos objetos de desejo ainda não realizado e/ou irrealizável; e, (c) “diastemia” como “situação-limite” (fim-começo ou começo-fim), na qual ocorre “incontinuidade-contato” por entre representações correspondentes ao alcance “presencial” e ao alcance “privacional” de um e outro daqueles modos de existir.