Educação universitária: práxis coletiva
3. Autoconstituição da práxis educativa
Entra em pauta a autoconstituição da práxis educativa, em sentido que seja, o menos possível, eivado de equívocos. Não por mero acaso, tal pauta é aberta pela procedência, mesmo que ainda intuitiva, de um determinado limite das tendências de tal práxis, as quais conduzem ao esgotamento da esperança ou ao
aprofundamento do desespero, ambos a serem radicalizados6. Com efeito, no âmbito da mera nominalidade da transformação, não tem existido esperança que não se contraponha a desespero, por imperceptível que isto esteja a ocorrer. É que tudo tem tido que acontecer no bojo da propriedade e ali constituir expressão da autoanulativa dualidade compreendida por inclusão e excludência.
Assim, ou melhor, com o fim dos presumidos e incessantemente (re)-apropriados fundamentos do desespero e da esperança, abrem-se horizontes para alteridade de práxis educativa sempre menos eivada de equívocos. Da mesma forma, e antes de tudo o mais, o sentido desta alteridade há que ocorrer fora da propriedade, ou seja, totalmente exterior aos onipresentes tentáculos da incontida conduta (re)-apropriativa.
Os (potenciais) promotores do sentido da alteridade sempre foram os despossuídos de fontes de meios de vida exteriores às próprias pessoas – os inequívocos e anônimos produtores. Eles têm sido vítimados à ilimitação (re)-apropriativa dessas fontes, especificamente por também constituírem-nas. Trata-se de vitimação que, da perspectiva “crítico-teórica”, jamais os inocentou em relação ao desejo de também contarem com oportunidades de acessar propriedades assim exteriores e ilimitadas. Têm sido pessoas incessantemente tangidas por necessidades, peculiarmente pelas subsistenciais, situação que coincide com aquela de não se dispor de condições para transferir a outrem a direta ou inequívoca obtenção dos meios de as atender, apesar e até por conta do avanço científico-tecnológico. Entretanto, e por isso mesmo, não lhes tem sido possível visualizar sentido nas próprias necessidades, inclusive porque sempre ficaram a mercê dos abortadores deste mesmo sentido, vale dizer, dos algozes recorrentemente sovados por eternos e incautos desejosos de imitá-los na busca de lucros a todo preço. Tais abortadores têm sido pessoas que usualmente não deixam de se esfalfar, por além inclusive do que tem ocorrido com as suas vítimas, para promoverem o que, por isto e de modo inconfesso, lhes houve de restar, antes de tudo o mais, conveniente – a ocultação do absurdo que é, para eles, nascer e subsistir tendo necessidades naturais, a serem atendidas, rotineiramente e sob pena de perecimento. E é tal transferência que, em primeiro e pessoal ato “historizado”, tem sido uma espécie de confissão da absurdidade em causa.
Na (vigente) pedagogia, por oculto que ainda o esteja, incide-se em “blasfêmia humanista”, ao se admitir que, em alcance propriamente econômico de atividades humanas, a utilidade faça sentido e, por isso, sua inequívoca geração venha a se tornar mediadora do processo educativo. Exemplo de tal incidência, certamente não contextualizada, é a seguinte citação de Erich Fromm (apud SILVA: 1995, 9): “A economia como essência da vida é uma enfermidade mental”. Em contraponto, ao menos duas nuances da admissão desse sentido da utilidade precisam vir mais esclarecidas: (a) cumpre não subestimar as circunstâncias sob as quais, na modernidade, os povos que superaram a (elitista e hegemônica) vergonha por avocarem a si condutas abertamente utilitaristas (peculiarmente Grã-Bretanha, sucedida pelos Estados Unidos da América) tornaram-se potências mundiais no exercício do domínio político, do abstracionismo econômico e da objetivação científico-técnica; e, (b) em recôndita e pouco ou nada conhecida instituição de ensino superior, ultrapassa-se essa mesma vergonha, ao se assumir que a utilidade adentre sentido, porque, e antes de tudo o mais, também o fazem a pessoa ter nascido e subsistir tendo necessidades, a começar pelas básicas e por aquelas da reprodução da espécie.
Por inaudito que o precise ser, tal sentido se volta para admitir como será possível abalar a sincrônico-topocentria a se originar no bojo da tríade conformada por imperialismo político, epistemismo lógico-formal e objetivismo econômico. Para tanto, basta que sejam abertos horizontes para inequivocação quanto a produzir, enquanto alteridade atitudinal de “crítico-teoricamente” perceber e interpretar fenômenos cuja determinação tem precisado, incondicionalmente inclusive, proceder daquele bojo.
Em alcance “crítico-teórico”, faz sentido assumir condutas coerentes com íntegra inteiridade da questão sustentatória, ou seja, constata-se que gratuidade opcionalmente gerada sempre foi imprescindível à subsistência do coletivo natural-mínimo e passa a ser paradigma do soerguimento de coletivos mais complexos, em que a “injustificação” ainda deixará de ser solução à conta de esta somente ser possível ao implicar tantos problemas quantos o forem necessários ao vezo particularista da apropriação das fontes dos meios de vida, dado que inercial autoinsustentabilidade tem incidido em extemporânea e antinatural relação de parentesco com propriedades extrínsecas à pessoa. Ademais, gratuidade forçosamente gerada acabou em injustificável solução sustentatória da complicação institucional que tem sido inerente aos coletivos de existência mais complexa que aquela do natural-mínimo. E a mais convincente das explicações da forçosidade em apreço reside em o processo de gerar gratuidade implicar inevitável e a tanto imprescindível exercício de poder. À base deste processo é que o poder houve de ser impingido como solução à custa de criar a própria falta de soluções. Em contraponto, à luz de gratuidade opcionalmente gerada, uma forma acentuadamente “menos pior” do exercício do poder teria como advir de opcional devotamento à antidepredação da própria espécie humana. Caso isto ocorra, será anulada a absurdidade de precisar ser forçosa a geração de gratuidade.