Educação universitária: práxis coletiva
V. Das percepções sincréticas à síntese
V. Das percepções sincréticas à
síntese
A. Autoridade educacional e a questão do valor
intangível da liberdade
Da perspectiva da juventude e na ausência de também cultural despossessão do coletivo natural-mínimo, educação sempre se desvelou como algo de antemão impingível por autoridade que se faz valer já em tal coletivo e na ambiência escolar. Não fosse algo assemelhado com inata generosidade, a provir da própria subjetividade e em resposta a atenções a ela eventualmente devotadas, educar teria de acabar incidindo em uma espécie de “injeção indolor” de imaterialidades (signos e seus significados, ideias, conceitos, valores, hábitos, atitudes e habilidades). É que, por paradoxal que o seja, estudantes têm precisado ser generosos para se capacitarem, não apenas para não mais o serem, mas inclusive para darem conta de como quantificar e aquilatar o quanto lograrão fazer do que seja contrário à sua juvenil generosidade.
Educadores se encontram condicionados por uma pregressa formação. Ainda que esse condicionamento não esteja a contribuir para injetar gananciosidade em seus alunos, não há como negar insuficiência de capacitação pedagógica para evocar generosidade. Já a formação dos alunos tem ocorrido curricularmente determinada no sentido de chegar a um perfil de egresso que manifeste assimilação das mencionadas imaterialidades, ao tempo em que esta assimilação não ocorre mediada nem mesmo por discurso sobre gratuidade da perspectiva de quem a gera. Cabe, então, indagar: haveria na ambiência assim formativa uma omissão a se traduzir como “venda e compra” de uma sócio-subjetivada antítese da generosidade? Tratar-se-ia de uma fenomênica particularização do sentido comunicativo do intercâmbio, pela qual esse sentido se torna manifesto à custa de ocultar o alcance também material deste mesmo intercâmbio?
Admissibilidade desses questionamentos e de correspondentes respostas passa pela desocultação da “vontade” humana que tem estado recorrentemente subsumida ao alcance “‘privacional’ do modo de existir” da “escassez criada”.
Com efeito, a condição “ausencial” do sentido do modo de ser da “vontade” tem impedido que se avalie o grau de influência da inequivocação quanto a efetivamente produzir na ambiência acadêmica. Já este impedimento tem desandado em prevalência da liberdade como questão de valor intangível. Por sua vez, a prevalência desta questão de valor tem feito com que indiferenciação entre apropriar e produzir se encontre, por tácito ou inconfesso que o ocorra, convenientemente insignificante.
Em contraponto a tal conveniência, a própria insignificância constitui mote para a práxis coletiva de gerar gratuidade se autoafirmar sem risco de se expor a usuais intolerâncias. Ademais, a opcionalidade quanto a ser partícipe de tal autoafirmação acomoda as ideologias que se escudam no intangível valor da liberdade, enquanto, por si mesma, a opcionalidade não frustra, antes até previne, inequivocação quanto a caráter veraz de qualidade educacional. Assim, para convalidar sua “historicidade”, a autoafirmação daquela práxis há de presumir que se perscrute a questão da liberdade nos labirintos ideológicos em que esta mesma questão acabou instalada desde tempos imemoriais.
Alcance intangível da liberdade tem sido realização cultural-civilizatória. Já inequivocação quanto a ser livre presumiria percepção e interpretação da diferença entre apropriar e produzir, ambas – percepção e interpretação – a decorrerem de a “crítico-teoria” se traduzir em práxis coletiva de gerar gratuidade, mesmo que esta tradução tenha que ser conjunturalmente experienciada pelo educando sob a conotação de mero rito de passagem ao longo da frequência à academia.
Já a procedência desta assertiva reside na circunstância de que o exercício da liberdade teria que ocorrer em reciprocidade de coerência com sustentabilidade também coletiva, sob pena de inescapável incidência em injustificações. Por sua vez, tal circunstância não viria a “cair do céu” e a sua eventual existência significaria “alteridade institucional”, ou seja, produção inequívoca acabaria opcionalmente empreendida por ser interpretada como imprescindível à liberdade de todos, em vez daquela “historizada” para ser efetiva apenas a poucos, ou mesmo a um só – o senhor, o rei ou o dono do poder.
Assim, a opcionalidade de produzir de modo inequívoco comporia o exercício da liberdade, em vez de o suprimir tal como vem sendo cultural-civilizatoriamente assumido. Trata-se de supressão que tem sido insistentemente criada, à base de sempre mais privilegiada autoinclusão em direitos e autoexclusão das obrigações que são imprescindíveis ou naturalmente institucionais, além de se reportar a ideologias que apregoam universal inclusão em direitos e silenciam sobre discriminada heteroincludência em obrigações não rejeitáveis, mesmo que se perceba e se interprete como injustificada a atribuição (destas mesmas obrigações) apenas aos politicamente menos iguais.
É em tal perspectiva que nada há de estranho em a mediação político-dominativa, com sua intencionalidade recorrentemente imperceptível nos bastidores do atual e globalista abstracionismo econômico, estar acompanhada por um (místico) encantamento com a prerrogativa científica do método e com os avanços científico-técnicos. É que ambos – método e avanços – vêm perfazendo condições liberatórias da fonte humana de obrigações inequivocamente produtivas, além de incidir em oportunidade de os liberalistas “salvarem positividade de saldos” para a expansão dos seus patrimônios em sentido o mais amplo possível. Para tanto, esta expansão tem de estar cabalmente ideologizada como produção, ainda que, para tanto, os partícipes das ideologias precisem se esconder atrás de biombos organizacionais e ali se transformarem em fontes de recorrentes e multifacetadas condutas apropriativo-particularistas, hoje denominadas capitalísticas. Afinal, não têm existido melhores condições do que aquelas dos labirintos das organizações para, inadvertida e facilitadamente, a pessoa humana se alienar em propriedades que lhe são extrínsecas e ter como se devotar a nada mais do que criar obrigações para estranhos, para despossuídos de tais propriedades e de, a estes, transferir a direta e inequívoca obrigação de obter meios de vida em reciprocidade de coerência com intercâmbio orgânico com a natureza e com o caráter também coletivo da sustentabilidade.
Alterinamente, ainda há de fundamentar-se a única autoridade procedentemente real, ou seja, a educativa, pois a nenhuma outra cumpre arbitrar suspensão da liberdade, por mais que isto ainda precise se delimitar a mero rito de passagem. Já a necessidade ou o problema da passagem por esse rito tem a ver com as recorrentes oportunidades para egressos consentirem em acabar sustentados de forma injustificada e injustificante, à conta da sujeitação de outrem que lhes gere sobras de produção, a tanto, cultural-institucionalmente transformadas em direitos. Por seu turno, esta transformação desanda em requisito para silenciar a respeito do sentido de aquelas sobras serem gratuitas. E este silêncio perfaz condição para que essas sobras sejam forçosamente impingidas. Todavia, à base de autoridade educacional, torna-se oportuno, imprescindível inclusive, o apoio do caráter dialético da razão.
Perceber, conhecer e remediar, ou mesmo prevenir, exercício equivocado da liberdade, a desandar em obrigações discriminatórias contra outrem, têm sido desafios cujo enfrentamento talvez precise ocorrer sob efetiva influência de minorias aborígenes, peculiarmente de pele parda e negra, porque ainda não aceitaram as lições de como se obcecarem por ilimitada acumulação de propriedades. É que, à conta dessa obcecação, seria ingênuo admitir que tais desafios sejam encarados até mesmo no discurso politicamente correto, inclusive naquele da razão comunicativa oriunda da teoria crítica e mediadora de uma teoria educacional também igualmente crítica. Por indispensável que esse discurso tenha sido à busca reconstrutiva do conhecimento, cumpre alertar que ainda se encontra tergiversantemente liberalista ao se omitir de imputar significância ao discernimento entre apropriar e produzir, assim como à práxis deste discernimento.
Em sentido inequivocamente alterino e apesar de ainda não se ter sobressaído na história, uma (eventual e assim aborígene) razão há de se refletir e de se realizar em três horizontes do “espaço vital” para o futuro da própria espécie: (a) horizonte em que há de se tornar acentuadamente visível a absurdidade da ilimitável exploração humana, associada à da natureza livre; (b) horizonte em que acabará ridícula a mesmice comportamental de fontes de poder e de (re)-concentração sincrônico-topocêntrica (metropolista) da fixação, obtenção e destinação de excedentes gratuitamente obtidos, (re)-concentração atualmente puxada por economicismo precificista e financeirista; e, (c) horizonte de contraposição, a ambos os anteriores, da alteridade atitudinal de assumida fonte de gratuidade, o que, em sentido desalheadamente emancipatório, há de se tornar imprescindível à instauração de sintonia entre as gratuidades de fonte humana e natural-livre.
Apelo à procedência aborígene da “dialeticidade da razão”, conquanto de antemão excluso da superioridade cultural, há de reforçar acesso à alteridade de opções curriculares, pois está em pauta a íntegra inteiridade do processo educativo. Ademais, e apesar de o fenômeno pedagógico compreender comunicação interpessoal e estimulação biológico-psíquica, os saberes aprendidos na academia se expõem a estar mediados por opaca intencionalidade político-administrativa e a incidirem em riscos de serem totalizados em alcance tão somente particularizado e específico, ou seja, são ameaçados de redução a estrito teor científico-técnico. Já os riscos, em apreço, têm origem em descolamento, a ocorrer por recurso à comunicação e à estimulação, assim como, e em decorrência deste recurso, a desandar em geração de “lacuna metafísica” por entre forma e conteúdo. Recorrendo-se ao sentido estritamente comunicativo do intercâmbio, tal descolamento tem acontecido por entre significado e significante e em resposta a um outro que tem sido criado à base de estímulos, aquele entre significante e seu real-concreto artificial e só posteriormente (pseudo)-fundamentante. Ambos são descolamentos que não passam de insignificâncias disjuntivas e, por isso, implicam em instituir a (in)-justificação de si mesmos, tendo-se em conta que esta (in)-justificação se faz mediante (re)-apropriação de imaterialidades, estas a se multiplicarem - fragmentadas e fragmentárias - como condições existenciais inercial e institucionalmente também criadas.