Educação universitária: práxis coletiva

Pedro Bergamo · Capítulo 26 de 40

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Educação universitária: práxis coletiva

C. Projeto pedagógico, a abrir-se à própria alteridade

C. Projeto pedagógico, a abrir-se à própria

alteridade

1. “Alteridade de concepção dialética” de ser humano e de sociabilidade

A individualidade humana nasce potencialmente capaz de se reproduzir e de cooperar na reprodução da totalidade da qual emerge e na qual subsiste. Trata-se de potencialidade que se efetiva, à base de “intercâmbio material-comunicativo” e em reciprocidade de coerência e de pertinência quanto ao fazer sentido das próprias e naturais necessidades, uma vez que a condição para ele começar e permanecer a existir implica a natureza, a livre e a de seus semelhantes.

Todavia, não lhe é de antemão facultado efetivar tal potencialidade, porque, nesta questão e ao exercer liberdade que também lhe é característica, somente lhe tem sido possível remediar, em vez de prevenir, implicações quanto a incidir em omissão própria ou dos seus pares. Ademais, a natural condição de o indivíduo nascer e subsistir tendo necessidades, a começar pelas básicas e de atendimento rotineiro, constituilhe vivência cuja interpretação ele conceitua, não apenas a partir do seu interior ou em circuito fechado, como também do seu exterior ou em circuito aberto. Em ambas estas procedências, há um ativo adentramento em estranheza, ruptura, ou mesmo violência, com relação à natureza, inclusive à de seus semelhantes, sendo que, em relação a si mesmas, pessoas têm transferido e/ou padecido este mesmo adentramento, em vez de encará-lo.

As concepções pessoais, correspondentes às vivências, tornam-se marcos subjetivos e, nesta condição, facultam à pessoa se situar, assim como inferir e aquilatar decorrências de se posicionar, ativa ou passivamente. Caso se negasse a assim se situar, necessitaria que algo ou que outrem lhe fizesse as vezes, ou então, pereceria. Mas, tal situar-se tem como ser aquilatado, pela própria pessoa, em uma dualidade de perspectivas: (a) assumir diretamente intercâmbio orgânico com a natureza; ou, (b) agir no sentido de condicionar algo ou outrem a dar conta de tal intercâmbio, o que, por seu turno, tem incidido no alcance mais originário do significado de (auto)-instrumentalização.

Não restam quaisquer dúvidas de que instrumentalização tem prevalecido. Com efeito, a evolução da sociedade se desvela ou se “historiza” como criação de instrumentos e como apelo a estes, ou mesmo a outrem que a tanto tem estado coagido e/ou sujeitado, para que o alcance orgânico daquele intercâmbio com a natureza tenha como indiretamente se efetivar. E, a prosseguir tal “historização”, o desfecho há de incidir em substituição do ser humano por robô, por este emergir de antemão apropriado e, desta forma, conceder a seu senhor a condição de “eleito” para o adventício “paraíso” da automação.

Entretanto, este desfecho não deve terminar em soluções nas quais cumpriria apenas acreditar, mas em problemas a se enredarem em uma espiral de contraditórios e de correspondentes contradições. É que inequívoca solução implicaria em alteridade de questionamento das vigentes formas de propriedade, as quais têm constituído excludentes critérios de acesso aos resultados de atividades em processo preferencialmente automatizado de obtenção dos meios de vida. Trata-se de questionamento cuja intestina conflituosidade há de se defrontar com uma provável combinação de duas renovadas circunstâncias: (a) desperdícios ecossocialmente insustentáveis para remediar conflitos em acentuada proliferação; e, (b) explicação em bases científico-tecnológicas das recorrentes injustificações.

Com efeito, beiraria contrassenso duvidar de que aumente a probabilidade de se incidir em tal combinação, tendo-se em conta a drasticidade de adentramento em estranhezas, rupturas e violências, cujos reais-concretos os indivíduos hão de abstrair nos circuitos dos seus pensamentos, sem ainda terem ultrapassado o primitivismo de seus critérios no condicionar algo ou seus semelhantes a dar conta da reciprocidade de coerência e de pertinência quanto ao alcance orgânico do intercâmbio com a natureza.

Qual ser humano e qual sociedade seriam capazes de se familiarizar com um tal contexto das relações de apropriação dos resultados do processo produtivo?

Busca de resposta a esta indagação não tem como ser deflagrada, sem que se recorra a alguma especulação filosófica em relação ao mundo do trabalho. Por sua vez, esta especulação se limitará a propor que tão somente no exterior de toda propriedade será possível aventar alteridade de saída para ultrapassar o primitivismo de critérios no condicionar algo ou seus semelhantes a meros instrumentos. Aventa-se, para tanto, insuficiência da positividade das ciências, inclusive das requeridas metodologias, adentrando-se dialeticidade inerente ao real-concreto da dinâmica do desejo e ao da “individuação íntegra”, assim como à fenomênica estrutura entre o que se encontra oculto e o que está manifesto na vigente sociabilidade.

A extemporânea continuidade da “posse do coletivo natural-mínimo”, à base da relação entre pessoa e suas extrínsecas propriedades, coincide com a reprodução de um condicionamento do pensar. Assim, descondicionar o pensamento do educando em tempo oportuno há de significar cooperação com a natureza que lhe é estrutural, assim como oportuna abertura cultural à despossessão daquele coletivo. Todavia esta abertura tem tido como acabar prevenida, mediante criação de injustificações a coincidirem com prevalência de privilégios no âmago da vigente sociabilidade. Trata-se de prevenção que denota, aponta e até delata omissão educacional, no sentido de antecipar “discernimento entre apropriar e produzir” com inusitados desdobramentos atitudinais, a partir do que ocorre na própria relação ensinoaprendizagem.

Ultrapassar tal omissão adentra desafio que, ao ser enfrentado, prenuncia três e sucessivos momentos na relação entre ser humano e sociedade: (a) individualidade ainda naturalmente autoinsustentável, com seu pensamento a ter origem na situação tempestivamente epistêmica, assim como na incondicional “posse do coletivo natural-mínimo”, coletivo este que lhe constitui experiência de sociabilidade alterina e carente de evocação; (b) indivíduo que já intenciona buscar autossustentação em alcance também coletivo, com sua “dialeticidade da razão” já biogeneticamente madura para confrontar, de uma parte, autoentrega à dinâmica do desejo “versus” parcial-opcional empenho na geração de gratuidade, e de outra, despossessão do coletivo natural-mínimo “versus” substituição da posse deste coletivo por propriedades extrínsecas à própria pessoa; vale dizer, em vias de conceber e assumir sociabilidade aberta à sua própria alteridade; e, (c) “individuação íntegra” com sua “crítico-teoria” em plena evidenciação, a assumir sustentação também coletiva e a vivenciar situação básica e inarredável, tão duradoura quanto a própria espécie humana – aquela situação que há de corresponder a uma espécie de “ínfero-referencial” (“incontinuidade-contato”) por entre, de uma parte, apetite para construir a absurdidade, e de outra, “afetividade inequívoca” (congraçamento) a se apoiar em razão dialética paradoxalmente ousada e modesta, além de favorecedora, respectivamente, de alteridade de relações humanas e de enfrentamento do desafio de produzir de modo inequívoco e opcionalmente empreendido.