O Poço dos Desejos
Capítulo Nove
— Nunca, em toda a m inha vida! — gem eu ela para os Apalaches. Sem outra palavra ou careta, sem dar um cruzado nem chutar a perna de ninguém , subiu na am bulância, fechou as portas e a brigada de voluntários bateu em tím ida retirada. As portas tinham produzido dois ruídos m odestos quando m etal bateu contra m etal.
Em total perplexidade, Lou e Oz se viraram na direção da casa em busca de respostas e se depararam com a m ulher.
Louisa Mae Cardinal estava parada no um bral da porta. Era m uito alta e, em bora fosse tam bém m uito m agra, parecia forte o bastante para estrangular um urso e suficientem ente coraj osa para fazê-lo. O rosto tinha traços ásperos, pois as rugas o haviam m arcado com a força de um a gravação em m adeira. Mesm o que estivesse se aproxim ando dos oitenta anos, as m açãs do rosto continuavam coradas e no lugar. O queixo tam bém era forte, em bora a boca j á caísse um pouco. O cabelo prateado e com prido estava am arrado com um sim ples cordão na nuca.
Lou achou incrível o fato de ela não estar usando um vestido, m as calças de brim m uito largas, que o desbotam ento tornava quase brancas, e um a cam isa cor de anil com vários rem endos. Sapatos velhos e pesadões lhe cobriam os pés. Em bora lem brasse a m aj estade de um a estátua, o incrível par de olhos castanhos nada perdia do que acontecia em volta.
Lou avançou coraj osam ente enquanto Oz se esforçava para desaparecer atrás da irm ã.
— Eu m e cham o Louisa Mae Cardinal. Este é m eu irm ão, Oscar. — Havia um trem or na voz de Lou; ela, no entanto, se m anteve firm e, a poucos centím etros de sua xará. A proxim idade revelou um fato notável: eram m uito parecidas, com o se fossem gêm eas, separadas m eram ente por três gerações.
Louisa não disse nada, o olhar seguindo a am bulância. Lou reparou no que se passava.
— Ela não devia ficar e aj udar a cuidar de nossa m ãe? perguntou. — Mam ãe tem suas necessidades e tem os de fazer o possível para que sej a atendida.
A bisavó concentrou o olhar no Hudson.
— Eugene — disse Louisa Mae num sotaque que parecia inegavelm ente sulista, apesar de um certo toque de nasalidade —, traga a bagagem , querido. — Só então ela se dignou a olhar para Lou, e algum a coisa atrás daqueles olhos duros deu à m enina a sensação de que era bem -vinda. — Vam os cuidar m uito bem de sua m ãe.
Louisa Mae se virou e entrou em casa. Eugene foi atrás com a bagagem . Oz estava inteiram ente concentrado no urso e no polegar. Seus grandes olhos azuis piscavam rapidam ente, indicação certa de que os nervos disparavam num ritm o febril. Na verdade, Oz tinha vontade de voltar correndo, naquele m inuto m esm o, para Nova York. E podia m uito bem ter feito isso se ao m enos soubesse em que direção Nova York ficava.
CAPÍTULO NOVE
O quarto reservado a Lou era espartano e era tam bém o único côm odo que havia em cim a do andar térreo. O acesso se dava por um a escada nos fundos. Havia um a grande j anela com vista para o gram ado. A m adeira em penada das paredes e o teto baixo estavam cobertos por páginas de revistas e j ornais velhos, em grande parte j á am areladas. Tinham sido coladas com o papel de parede e, onde a cola cedera, havia pontas penduradas. A m obília era um a cam a de solteiro com estrado de cordas e cabeceira de nogueira e um arm ário de pinho m eio riscado. Havia tam bém um a pequena escrivaninha de m adeira crua ao lado da j anela, sobre a qual caía a luz da m anhã. A peça nada tinha de especial, m as atraiu a atenção de Lou com o se tivesse sido talhada em ouro e adornada por barras de diam antes.
As iniciais do pai continuavam m uito nítidas: "JJC". John Jacob Cardinal. Tinha de ser a escrivaninha onde ele com eçara a escrever. Lou im aginava o pai com o um garotinho, feições sérias, m ãos trabalhando com precisão ao gravar aquelas iniciais na m adeira e ao inaugurar a carreira dele com o contador de histórias. Ao tocar o sulco das letras e ter a sensação de encostar nas costas da m ão do pai, Lou pressentiu que não fora por acaso que a bisavó a colocara naquele quarto.
O pai fora reservado a respeito dos tem pos em que vivera ali. Sem pre, no entanto, que Lou perguntava sobre a m ulher de quem ela herdara o nom e, Jack Cardinal dava um a resposta esfuziante: "Nunca houve pessoa m elhor sobre a terra." Nessas ocasiões, ele contava algum a coisa sobre sua vida na m ontanha, m as só algum a coisa. Sem dúvida, deixava os detalhes m ais íntim os para os livros, livros que, com exceção de um , Lou teria de esperar até a idade adulta para ler. Assim ela foi deixada com m uitas perguntas intrigantes na cabeça.
Lou rem exeu na m ala e pegou um pequeno porta-retrato de m adeira com um a foto. O sorriso da m ãe parecia m uito brilhante e, em bora a fotografia fosse em preto e branco, Lou sabia que a tonalidade âm bar dos olhos da m ãe era quase hipnótica. Lou sem pre adorara aquela cor, ansiando, às vezes, que o azul de seus próprios olhos sum isse um a bela m anhã para dar lugar àquela colisão de m arrom com dourado. A fotografia havia sido tirada no aniversário da m ãe. Um a Lou ainda m uito pequena estava sentada na frente de Am anda, que tinha os dois braços em volta da filha. Na foto, os sorrisos das duas ficaram para sem pre congelados, m as Lou frequentem ente lam entava não se lem brar de m ais nada daquele dia.
Oz entrou e Lou tornou a guardar a fotografia na m ala. Com o de hábito, o irm ão parecia preocupado.
— Posso ficar aqui? — perguntou ele.
— Qual é o problem a com seu quarto? — Fica j unto do dela.
— Dela quem ? Louisa? — Oz respondeu m uito solene que sim , com o se estivesse prestando depoim ento num tribunal. Lou continuou: — Bem , o que há de errado com isso? — Tenho m edo dela — disse Oz. — Tenho m esm o, Lou.
— Louisa nos deixou vir m orar aqui.
— E estou m uito contente por terem vindo. — Saindo do um bral da porta, Louisa deu um passo à frente. — Desculpe, não falei direito com vocês. Estava pensando na m ãe dos dois.
— Olhou para Lou. — E nas necessidades dela.
— Está tudo bem — disse Oz, passando rapidam ente para o lado da irm ã. — Acho que a senhora deixou m inha irm ã um pouco apavorada, m as agora ela j á m elhorou.
Lou exam inou as feições da m ulher, com o se quisesse descobrir algum a coisa do pai. Concluiu que não havia nada.
— Não tínham os m ais ninguém — disse Lou.
— Sem pre vão ter a m im , todos vocês — respondeu Louisa Mae. Ela chegou m ais perto e, de repente, Lou percebeu certos traços de Jack Cardinal. Tam bém com preendeu por que a boca da m ulher era caída; só havia alguns dentes lá dentro, todos am arelos ou pretos.
— Desculpem por eu não ter ido ao enterro. Notícias chegam devagar aqui e às vezes nem chegam . — Baixou um instante os olhos, com o se atraída por algo que Lou não pudesse ver.
— Você é o Oz. E você a Lou. — Louisa apontou para os dois enquanto dizia os nom es.
— Bem — com entou Lou —, acho que as pessoas que com binaram nossa vinda fizeram as apresentações.
— Já os conhecia faz tem po, e m e cham em só de Louisa. Todos os dias tem os tarefas a fazer. A gente faz ou cria praticam ente tudo que é preciso. O café da m anhã é às cinco. O j antar no cair da noite.
— Cinco horas da m anhã! — exclam ou Oz.
— E a escola? — perguntou Lou.
— É cham ada de Pinheiro Grande. A poucos quilôm etros daqui. No prim eiro dia, Eugene vai levá-los na carroça, nos outros vocês vão a pé. Ou peguem a égua. As m ulas não podem ir porque são anim ais de serviço. Mas a cavalinha vai funcionar.
— Não sabem os andar a cavalo — disse Oz, m uito pálido.
— Vão aprender. Fora dois pés em ordem , cavalo e m ula são os m elhores veículos para rodar por aqui.
— E o carro? — perguntou Lou. Louisa balançou a cabeça.
— Não é prático. Gasta dinheiro que a gente não tem . Eugene sabe com o funciona e fez um telheiro pra ele ficar. Às vezes até liga o m otor. Diz que se não fizer isso a coisa não anda quando se precisa. Não se devia ter um a porcaria dessas, m as o William e a Jane Giles, gente que m orava em baixo da estrada, nos deu de presente quando se m udaram . De qualquer m odo, eu não sei dirigir, nem tenho a m enor intenção de aprender.
— Pinheiro Grande é a escola onde m eu pai estudou? — perguntou Lou.
— É, só que o prédio original não existe m ais. Era velho com o eu e desabou. Mas a professora é a m esm a. As m udanças, com o as notícias, chegam devagar por aqui. Tão com fom e?
— Com em os no trem — disse Lou, incapaz de tirar os olhos do rosto da m ulher.
— Tá bom . A m ãe de vocês j á está instalada. Não querem ir ver?
— Gostaria de ficar aqui, dando um a olhada no quarto — disse Lou.
Louisa m anteve a porta aberta para os dois passarem . A voz foi gentil, m as firm e. — Prim eiro vá ver sua m ãe.
O quarto era confortável — bem ilum inado, j anela aberta. Cortinas costuradas em casa, enrugadas pela um idade e descoradas pelo sol, batiam levem ente na brisa. Ao olhar em volta, Lou percebeu que talvez não tivesse sido fácil adaptar o lugar para abrigar um doente. Parte da m obília parecia ter recebido lustre, o piso fora esfregado e o cheiro de tinta ainda não saíra das paredes; no canto, havia um a cadeira de balanço m eio lascada e, j ogado sobre ela, um cobertor grosso.
Nas paredes, em m olduras ovais de m etal, havia fotografias m uito antigas de hom ens, m ulheres e crianças, todos vestindo o que, provavelm ente, seriam suas m elhores roupas: cam isas brancas de colarinho duro e chapéus-coco para os hom ens; saias com pridas e gorros para as m ulheres; babados de renda para as m ocinhas; pequenos ternos e gravatas-borboleta para os m eninos. Lou exam inou as pessoas. As expressões cobriam toda a gam a de variações entre tristeza e alegria, as crianças sendo as m ais anim adas e as m ulheres adultas parecendo as m ais desconfiadas, com o se tem essem que suas vidas, e não apenas suas fotos, estivessem sendo tiradas.
Num a cam a de choupo am arelo, Am anda se recostava em grandes travesseiros de penas e tinha os olhos fechados. O colchão, tam bém de penas, irregular m as m acio, estava aloj ado num forro de listas. Um a colcha de retalhos cobria Am anda. Um tapetinho desbotado j azia sob a cam a para que nenhum pé descalço tivesse de tocar, logo de m anhã, a m adeira fria do chão. Lou, porém , sabia que a m ãe não poderia usá-lo. Nas paredes, havia cabides com peças de roupa. Num canto, sobre um a velha côm oda, havia um j arro e um a bacia de louça pintada. Lou rodou preguiçosam ente pelo quarto, olhando e tocando as coisas. Reparou que a m oldura da j anela era ligeiram ente torta e as vidraças estavam em baçadas, com o se um a névoa tivesse conseguido se infiltrar nas coisas.
Oz sentou-se ao lado da m ãe, inclinou a cabeça e lhe deu um beij o.
— Ei, m am ãe! — Não pode ouvi-lo — m urm urou Lou para si m esm a, parando de andar pelo quarto e olhando pela j anela. O ar parecia m ais puro que qualquer coisa que tivesse sentido antes; havia, na correnteza, um a m istura de árvores e de flores, de fum aça de lenha, pastos altos e anim ais grandes e pequenos.
— Sem dúvida é bonito aqui... na... — Oz olhou para Lou.
— Virginia — ela respondeu sem se virar.
— Virginia — Oz repetiu, pegando então seu cordão. Da porta, Louisa observava o m ovim ento.
— Oz — disse Lou se virando para ver o que o irm ão estava fazendo —, esse estúpido cordão não funciona! — Então por que o pegou de volta? — ele perguntou asperam ente, e Lou ficou paralisada, pois não soube o que responder. Oz tornou a se virar para Am anda e deu início ao ritual. A cada balanço do cristal de quartzo, a cada palavra sussurrada por Oz, Lou repetia para si m esm a que o irm ão estava tentando derreter um iceberg com um fósforo; e não queria participar daquilo. Passou correndo pela bisavó e desceu o corredor.
Louisa entrou no quarto e sentou-se ao lado de Oz.
— Para que serve, Oz? — perguntou apontando para o cordão.
Oz segurou com cuidado o cordão e observou-o atentam ente. Com o se o cordão fosse um relógio e ele estivesse querendo ver as horas.
— Um am igo m e falou nele. Pode aj udar a m am ãe. Lou não acredita nisso. — Fez um a pausa.-Tam bém não sei se acredito.
Louisa passou a m ão em seu cabelo.
— Dizem que a crença de um a pessoa j á é m eio cam inho andado. Sou um a das que apoiam essa ideia.
Felizm ente para Oz, alguns segundos de desespero eram geralm ente seguidos por um a renovação das esperanças. Ele pegou o cordão e colocou-o sob o colchão da m ãe.
— Talvez ele continue exalando seu poder assim . Ela vai se curar, não vai?
Louisa olhou para o m enino e depois para a m ãe dele, ali deitada tão quieta. Tocou o rosto de Oz com a m ão — pele m uito velha contra pele m uito nova, um a m istura que aparentem ente agradou aos dois.
— Continue acreditando nisso, Oz. Não deixe nunca de acreditar.