O Poço dos Desejos
Capítulo Trinta e Seis
— Bem , tem os de nos aj udar por aqui — disse pouco depois —, senão ninguém vive. Perguntem à m inha m ulher se não tenho razão. E só Deus sabe com o Louisa gostava de aj udar as pessoas deste lugar. — Ele olhou para Cotton, que o saudou inclinando a xícara de café.'— Eu sabia do que estava falando, Cotton, quando dizia a você que tudo pode ser pago com trabalho e há gente que paga m uito m ais que eu. Meu irm ão, por exem plo, tem um gadinho de leite lá em baixo no vale. Quase j á nem pode andar de tanto ficar sentado naquele banco, os dedos curvados com o raiz de urtiga. As pessoas, você sabe, dizem que há duas coisas que alguém que tira leite nunca vai ter: roupas bonitas e um lugar para dorm ir em paz. — Ele arrancou outra fatia do pão.
— Bem , a dona Louisa aj udou no m eu nascim ento — disse um rapaz. — Minha m ãe diz que eu não teria vindo a esse m undo se ela j á não estivesse aqui. — Os outros abanaram a cabeça e riram com a observação. Um dos hom ens olhou para Eugene. Ele estava sentado perto da construção, m astigando um pedaço de frango e pensando nas tarefas que tinham pela frente.
— Dois anos atrás — disse o suj eito —, Eugene m e aj udou a levantar um novo celeiro. O hom em é realm ente bom com um m artelo e um a serra. Acreditem nisso.
Por baixo de gom os revoltos de sobrancelhas, Buford Rose estudou a fisionom ia de Lou.
— Me lem bro bem de seu pai, m oça. Você é bem parecida com ele. Aquele m enino não parava de am olar as pessoas com perguntas. Um dia tive de dizer a ele que todas as palavras que havia na m inha cabeça tinham se esgotado. — Deu um sorriso quase desdentado e Lou retribuiu.
O trabalho continuou. Um grupo instalou as tábuas do telhado e calafetou as fendas com gesso. Outra equipe, encabeçada por Eugene, trabalhou nas portas duplas das duas extrem idades da construção e nas portinholas do paiol, enquanto um terceiro grupo acertava o alinham ento e o encaixe das paredes externas. Quando ficou escuro dem ais para as pessoas verem o que estavam deslocando ou cortando, lam piões de querosene ilum inaram a noite. O barulho dos m artelos e das serras chegava a ser quase agradável ao ouvido. Quase. Ninguém se queixou ao ver a últim a tábua encaixada e o últim o prego colocado. Já estava bem escuro quando o trabalho foi de fato concluído e as carroças partiram .
Fazendo um últim o esforço, Eugene, Cotton e as crianças levaram os anim ais para sua nova casa e forraram o chão e o paiol com feno trazido dos cam pos. O palheiro, as baias, as m anj edouras e outros detalhes ainda precisavam ser construídos, e o teto talvez precisasse ser adequadam ente revestido de telhas de m adeira. Os anim ais, contudo, estavam abrigados e aquecidos. com um grande sorriso de alívio, Eugene trancou com m uito cuidado as portas do celeiro.
CAPÍTULO TRINTA E SEIS
Cotton estava levando as crianças para visitar Louisa. Já estavam em pleno inverno, m as a neve pesada ainda não chegara, só precipitações de alguns centím etros.
Era, no entanto, apenas um a questão de tem po para que as nevascas, caindo com força, form assem espessas cam adas de neve. Ultrapassaram a vila da com panhia de carvão onde Diam ante adornara o novo Chry sler Crown Im perial do superintendente com esterco de cavalo. O lugar agora estava deserto, as casas abandonadas, o arm azém vazio, as garrafas de bebida j ogadas no chão e a entrada da m ina fechada com tábuas. O fantástico Chry sler do superintendente da m ina, suj o de m erda de cavalo, havia m uito desaparecera.
— O que aconteceu? — disse Lou.
— Fechada — respondeu Cotton num tom som brio. — A quarta m ina em poucos m eses. Os veios j á estavam se esgotando, m as para piorar as coisas descobriu-se que o coque que saía daqui era fraco dem ais para a produção de aço. Então a m áquina m ilitar da Am érica foi procurar em outra parte este tipo de insum o. Muita gente ficou sem trabalho nessa região. E a últim a em presa m adeireira m udou-se há dois m eses para o Kentucky . Um duplo golpe. Os lavradores da serra tiveram um bom ano, m as nas cidades as pessoas estão passando o diabo. Geralm ente é assim , a coisa acerta de um lado ou do outro. Aqui a prosperidade parece chegar sem pre pela m etade. — Cotton balançou a cabeça. — Sabem que aquele incrível prefeito de Dickens renunciou ao cargo, vendeu seus bens a preços altos antes da crise e foi procurar nova fortuna na Pensilvânia? Muitas vezes os que m ais fazem propaganda do j ogo são os que correm na frente ao prim eiro sinal de perigo.
Enquanto desciam a serra, Lou reparou que havia m enos cam inhões de carvão e que m uitas das vendas na encosta da m ontanha j á não funcionavam . Ao passarem por Trem ont, viu que m etade das loj as estava fechada e que havia pouca gente nas ruas; Lou percebeu que não era apenas por culpa do tem po frio.
Quando chegaram a Dickens ela ficou chocada, pois tam bém ali m uita coisa fechara, incluindo o bar onde Diam ante havia aberto um guarda-chuva. Sem dúvida a m á sorte caíra sobre ele, e Lou não achava isso engraçado. Havia hom ens m al vestidos sentados nos m eios-fios e nos degraus das casas, olhando para o vazio. Os carros, que costum avam estacionar obliquam ente na frente das calçadas, agora eram poucos e só se viam com erciantes parados na frente das loj as vazias, as m ãos na cintura, um olhar nervoso no rosto. Tam bém não eram m uitos os hom ens e m ulheres andando pelas ruas, e tam bém seus rostos revelavam um a ansiosa palidez. Um ônibus cheio de gente ia saindo lentam ente da cidade e um trem de carvão vazio se arrastava atrás da linha dos prédios, paralelam ente à estrada. A faixa que dizia "O Carvão é o Rei" não flutuava m ais, solene e orgulhosa na rua, e provavelm ente a Miss Carvão Betum inoso de0 tam bém tinha fugido.
Enquanto seguiam , Lou viu m ais de um grupo de pessoas apontarem para eles e trocarem com entários.
— Esse pessoal não parece m uito contente — disse Oz num tom nervoso ao saltarem do Oldsm obile de Cotton. Do outro lado da rua, outro aj untam ento de hom ens tinham os olhos fixos neles. Na frente do grupo, nada m ais nada m enos que George Davis.
— Vam os em frente, Oz — disse Cotton. — Estam os aqui para visitar Louisa, m ais nada.
Cotton entrou com os dois no hospital, onde foram inform ados por Travis Barnes que o estado de Louisa não havia se alterado. Lou segurou um a das m ãos dela, Oz a outra. Os olhos estavam vidrados e m uito abertos. Era evidente que Louisa não os reconhecia. Só um a respiração m uito leve indicava que ainda não m orrera. Foi com grande ansiedade que a m enina ficou acom panhando o subir e descer daquele peito, pedindo com toda a sua alm a que ele não parasse de se m over. Finalm ente Cotton lhe disse que era tarde e Lou, espantada, descobriu que j á estavam lá havia m ais de um a hora.
Quando voltaram ao Oldsm obile, o grupo de hom ens continuava à espera. George Davis pousara a m ão na porta do carro de Cotton.
Cotton avançou coraj osam ente para eles.
— Com o posso aj udá-los, pessoal? — perguntou num tom gentil, m as tirando com firm eza a m ão de Davis do Olds.
— Conseguindo que aquela m aluca venda sua terra, é assim que pode! — gritou Davis.
Cotton encarou os hom ens. Além de Davis, eram todos da cidade, não dos m ontes. Nem por isso, no entanto, estariam m enos desesperados que as pessoas cuj a sobrevivência dependia da terra, da força das sem entes, da constância da chuva. Todas as esperanças deles haviam repousado no carvão. Mas o carvão era diferente do m ilho; um a vez extraído, não tornava a brotar.
— Já discuti o assunto com você, George, e a resposta continua sendo a m esm a. Agora, se m e desculpar, tenho de levar as crianças para casa. ^ — A cidade inteira está indo pró buraco! — disse outro hom em .
— E acham que a culpa é de Louisa? — perguntou Cotton.
— Ela está m orrendo. Não precisa m ais da terra — disse Davis.
— Ela não está m orrendo! — exclam ou Oz.
— Cotton — disse um hom em bem -vestido de uns cinquenta anos de idade. Cotton o conhecia. Era o dono da agência de autom óveis de Dickens. Tinha om bros estreitos e braços finos. A lisura das palm as das m ãos m ostrava claram ente que nunca havia erguido um fardo de feno, m anej ado um a foice ou arado um cam po. — vou perder m eu negócio.
Se o carvão não for substituído por algum a coisa, vou perder tudo que tenho. E não sou o único nessa situação. Olhe em volta, estam os passando o diabo! — O que vai acontecer quando o gás natural se esgotar? — revidou Cotton. — Acham que vai aparecer outra coisa para salvá-los? — Não vou olhar assim tão para a frente. O que m e interessa é o que tem os agora e o que tem os agora é o gás! — declarou Davis num tom de raiva. — Todos nós podem os ficar ricos. Por m im não há problem a. Vendo m inha terra, aj udo m eu vizinho! — Verdade? — disse Lou. — Não vi você construindo o novo celeiro, George. Na realidade, nem apareceu no nosso sítio desde que Louisa o botou para correr. A não ser, é claro, que tenha tido algum a participação no fogo do celeiro.
Davis cuspiu, enxugou a boca e apertou o cinto. Sem dúvida teria estrangulado a m enina ali m esm o se Cotton não estivesse ao lado dela.
— Lou — disse Cotton firm em ente —, j á basta.
— Cotton — com eçou o hom em bem -vestido —, não posso acreditar que estej a nos abandonando por causa de um a estúpida m ulher da roça. Diabo, acha que terá algum a causa a defender se a cidade m orrer? — Não se preocupem com igo. — Cotton sorriu. — Iam se adm irar se soubessem com o posso m e arranj ar com pouca coisa. E com relação à Sra. Cardinal, prestem atenção, pois é a últim a vez que vou dizer isto: ela não quer vender sua terra para a Southern Valley ! É o direito dela e o m elhor que vocês têm a fazer é respeitá-lo. Agora, se realm ente não puderem sobreviver aqui sem o pessoal do gás, sugiro que vão em bora. Porque entendam : a Sra. Cardinal não tem esse problem a. Se am anhã desaparecesse da face da terra cada restinho de carvão e gás, e toda a eletricidade, e todos os telefones, nada disso iria alterar a vida dela. — Cotton olhou diretam ente para o hom em bem vestido. — E agora m e diga, quem está parecendo ser o estúpido aqui? Cotton m andou as crianças entrarem no carro e, no instante exato em que os hom ens avançaram um pouco m ais e com eçaram a cercá-lo, ele se instalou no banco do m otorista.
Alguns recuaram e foram bloquear a traseira do carro. Cotton ligou o m otor do Olds, baixou a j anela e pôs a cabeça de fora.
— Escutem , a em breagem desta coisa é m uito especial! Às vezes ela se descontrola e faz a perereca voar por quase dois quilôm etros de cam po. Um dia quase m atou um hom em que ficou atrás. Não estão acreditando? Dêem um a olhada! Ele soltou a em breagem . O Olds realm ente deu um salto para trás e os hom ens tam bém pularam . com o cam inho livre, Cotton continuou de ré até que todos se afastassem .
Quando um a pedra atingiu o banco de trás, Cotton pisou firm e no acelerador e m andou Lou e Oz se abaixarem e ficarem quietos. Várias outras pedras atingiram o carro antes que eles se vissem fora de alcance.
— E Louisa? — perguntou Lou.
— Ela vai ficar bem . Travis geralm ente está por perto. É um suj eito que sabe m anej ar um a espingarda e, quando ele não está de plantão, a enferm eira tam bém é excelente atiradora. Já avisei o xerife que as pessoas estavam ficando um tanto irritadas. Tudo será acom panhado de perto. De qualquer m odo, essa gente não vai fazer nada com um a m ulher indefesa num a cam a. Estão com raiva, m as dentro de certos lim ites.
— Será que vão nos atirar pedras sem pre que form os visitar Louisa? — perguntou Oz, apreensivo.
— Bem — disse Coton pondo o braço em volta do garoto —, se fizerem isso, aposto que são eles que terão de largar as pedras e correr. Nós não vam os desistir das visitas.
Quando voltaram ao sítio, Eugene correu de olhar ansioso em direção a eles. Na m ão, um pedaço de papel.
— Um hom em da cidade passou por aqui com isto, Dr. Cotton. Não sei o que é. Mandou que eu desse rapidam ente ao senhor.
Cotton abriu o papel e leu. Era um a notificação por não pagam ento de im posto. Ele esquecera que Louisa não pagava o im posto territorial havia três anos. Não tinha havido colheitas e, portanto, tam bém não houvera dinheiro. O condado agora a notificava, a ela e aos sitiantes que estavam na m esm a situação. Queriam que pagassem , é claro, m as sem pre concediam um certo tem po. Aquela notificação, no entanto, exigia pagam ento im ediato do total da dívida. Um a dívida de duzentos dólares. E com o Louisa ficara m uito tem po inadim plente, poderiam entrar em j uízo e vender a terra m uito m ais depressa que em outras circunstâncias. Cotton pôde sentir a m arca corrupta da Southern Valley cobrindo o papel de cim a a baixo.
— Algum problem a, Cotton? — perguntou Lou.
Cotton olhou para ela e sorriu.
— Eu cuido disso, querida. É só a papelada do escritório.
Cotton contou os duzentos dólares diante do oficial de j ustiça e ganhou um recibo selado. Voltou cansado a seu apartam ento e encaixotou a últim a pilha de livros.
Daí a alguns m inutos, ao erguer os olhos, viu Lou parada na soleira da porta.
— Com o chegou aqui? — perguntou ele.
— Dei um passeio com Buford Rose em seu velho Packard. Não havia portas na coisa. A vista era linda, m as eu quase saía voando nas curvas. E tam bém fazia m uito frio.
Olhou ao redor, vendo a sala vazia. — Cadê os livros, Cotton? — Estavam ocupando m uito espaço. — Ele riu e bateu na testa. — E, por falar nisso, tenho de continuar cuidando deles! Lou balançou a cabeça.
— Passei pelo fórum . Im aginei que havia m ais naquele papel do que você queria m e dizer. Duzentos dólares por todos os seus livros. Não devia ter feito isso.
— Ainda m e sobraram alguns. — Cotton fechou a caixa.
— E gostaria que ficasse com eles.
— Por quê? — disse Lou entrando na sala.
— Porque são livros de seu pai. E não conheço ninguém m elhor para tom ar conta deles.
Em silêncio, Lou viu Cotton fechar a caixa com fita adesiva.
— Vam os fazer um a visitinha a Louisa — disse Cotton.
— Estou ficando assustada. Novas loj as estão fechando. E acabou de partir outro ônibus cheio de gente. Você não im agina os olhares que as pessoas m e atiram na rua.
Estão realm ente irritadas. E Oz brigou na escola com um garoto. Ele disse que estávam os arruinando as vidas das pessoas ao não vender o sítio.
— Oz está bem ? — Ele venceu a briga. — Lou deu um sorriso fraco. — Acho que o próprio Oz se surpreendeu com o resultado. Ficou de olho roxo e está bem orgulhoso disso.
— Tudo vai ficar bem , Lou. As coisas vão dar certo. Vam os superar esta fase.
Ela deu m ais um passo à frente, a fisionom ia séria.
— As coisas não estão dando certo desde que chegam os aqui. Talvez devêssem os vender tudo e ir em bora. Talvez fosse o m elhor para todos nós. Incluindo m am ãe e Louisa, que teriam o cuidado m édico de que precisam . — Ela fez um a pausa e acrescentou sem conseguir olhar para Cotton: — Poderíam os procurar outro lugar. ,,.
— É m esm o isso que você quer? Cansada, Lou desviou o olhar.
— Às vezes o que eu quero é subir no m orrote atrás da casa, deitar naquele chão e não acordar nunca m ais. Sim ples assim .
Cotton pensou um pouco e com eçou a recitar: — No vasto cam po de batalha do m undo,/ No acam pam ento da Vida,/ Não sej a com o gado estúpido, sem vontade!/ Sej a um herói na refrega!/ Não confie no Futuro, por m ais agradável que lhe pareça!/ Deixe o Passado m orto enterrar seus m ortos!/ Aj a — aj a no glorioso Presente!/ O coração em nosso íntim o e Deus sobre nós!/ As vidas de grandes hom ens nos fazem lem brar/ Que podem os transform ar nossas vidas em algo sublim e,/ E, ao partir, deixar para trás... Pegadas nas areias do tem po.
— "Um Salm o de Vida", Henry Wadsworth Longfellow — disse Lou sem m uito entusiasm o.
— O poem a continua, m as sem pre considerei que esses versos eram a parte essencial.
— A poesia é um a coisa bonita, Cotton, m as não sei se ela pode consertar a vida real.
— A poesia não precisa consertar a vida real, Lou, só precisa existir. O conserto cabe a nós. Deitar-se no chão para nunca m ais acordar ou fugir dos problem as são atitudes que não com binam com a Lou Cardinal que conheço.
— Muito interessante o que você disse. — Era Hugh Miller, parado no um bral da porta. — Fui procurá-lo no escritório, Longfellow. Aí soube que estava no fórum , pagando dívidas de outras pessoas. — Deixou transparecer um sorriso torto. — Um a boa ação de sua parte, ainda que equivocada.