O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 22 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Vinte

Certa m anhã, Lou se levantou cedo, antes m esm o de Louisa e Eugene, pois não havia barulho no andar de baixo. Ela j á tinha se acostum ado a se vestir no escuro e seus dedos se m oviam depressa, aj ustando as roupas e am arrando o cordão das botas. Foi até a j anela e olhou. Estava tão escuro que Lou teve a estranha sensação de estar m ergulhada em água profunda. Logo, no entanto, recuou, achando que tinha visto algum a coisa escapar do celeiro. Fora apenas um lam pej o, com o o riscar de um relâm pago. Ela abriu a j anela para ver m elhor, m as de qualquer m odo a coisa j á não estava lá. Devia ter sido sua im aginação.

Descendo a escada sem fazer barulho, foi acordar Oz no quarto dele. Acabou, no entanto, parando na porta da m ãe. A porta estava m eio aberta e Lou hesitou um m om ento, com o se algo estivesse bloqueando seu cam inho. Ela se inclinou contra a parede, torceu um pouco o rosto e fez as m ãos deslizarem pela m oldura da porta. Quando tentou virar para o lado, não conseguiu. Por fim , avançou para o quarto.

Foi um a surpresa ver dois vultos na cam a. Oz estava deitado ao lado da m ãe. Usava o pij am a de calça com prida e as pontas m agras de suas pernas apareciam onde a calça repuxava. Nos pés, as grossas m eias de lã que tinha trazido ao se m udar para a m ontanha. Estava de bruços, m as com o rosto virado para o lado, de m odo que Lou podia vê-lo m uito bem . Oz tinha um sorriso m eigo nos lábios e estava agarrado ao novo urso.

Lou entrou devagar e pousou a m ão nas costas do irm ão. Oz não se m exeu e Lou deixou a m ão deslizar suavem ente para o braço da m ãe. Quando exercitava os m em bros de Am anda, um a parte de Lou sem pre nutria a esperança de que ela reagisse pelo m enos um pouco. Mas Am anda continuava sendo um peso m orto. E pensar que a m ãe fora tão coraj osa durante o acidente, im pedindo que ela e Oz se m achucassem . Talvez Am anda, para salvar a ela e a Oz, tivesse esgotado de vez todas as suas forças. Lou deixou os dois e foi para a cozinha.

Logo estava descarregando o carvão na lareira da sala, atiçando as cham as e sentando-se um pouco na frente do fogo, para o calor derreter o frio de seus ossos. Ao am anhecer, abriu a porta e sentiu a friagem no rosto. Espessas nuvens cinzentas, saídas de algum a tem pestade passada, atravessavam o céu, fazendo contraste no flam ej ante tom rosa-averm elhado. Logo abaixo, via-se o am plo contorno de um a m ontanhosa floresta verde que avançava direto para o céu. Era um dos m ais esplêndidos finais de noite de que ela podia lem brar. Lou certam ente nunca vira auroras com o aquela na cidade.

Já m uitos anos pareciam ter passado desde a últim a vez em que Lou cam inhara pelas calçadas de cim ento de Nova York, tom ara o m etrô, correra para um táxi com o pai e a m ãe, abrira cam inho entre a m ultidão de clientes do Macy 's depois do Dia de Ação de Graças ou fora ao Yankee Stadium para ver as bolas de couro rolando e devorar alguns cachorros-quentes. Há m uito tudo isso fora substituído por encostas íngrem es, terra, árvores, anim ais que tinham cheiro forte e que acom panhavam a pessoa no trabalho. O café da m anhã da cidade fora trocado pelos pães torrados na brasa e o leite filtrado num pedaço de pano, a água encanada por água bom beada ou trazida num balde, as grandes bibliotecas públicas por um bonito arm ário, m as com poucos livros, e os altos edifícios por m ontanhas ainda m ais altas. Por um a razão que não conseguia entender de todo, Lou não sabia se conseguiria ficar ali m uito m ais tem po. Talvez o pai tivesse realm ente suas razões para nunca ter voltado lá.

Foi até o celeiro e ordenhou as vacas. Levou um balde cheio de leite para a cozinha e outro para a casa de refrigeração, onde o pousou na corrente de água fria. O ar estava ficando m ais quente.

Lou j á tinha o forno quente e o toicinho fritando na frigideira quando sua bisavó chegou. Louisa vinha se lam entando que ela e Eugene tivessem dorm ido tão tarde. Então Louisa viu os baldes cheios na pia e Lou disse que j á tinha ordenhado as vacas. Louisa sorriu adm irada, percebendo a quantidade de trabalho que Lou havia feito.

— Aposto que um dia vai cuidar deste lugar sem m im .

— Duvido que isso aconteça — disse a m enina num tom que fez Louisa parar de sorrir.

Meia hora m ais tarde, Cotton apareceu de surpresa. Vestia um a calça de brim com rem endos, um a cam isa surrada e botinas velhas. Não estava usando os óculos de aro de ferro e o chapéu de feltro fora substituído por um de palha, o que, segundo Louisa, era um a atitude inteligente, pois o dia parecia que ia ser de m uito sol.

Todos deram seus alôs para o hom em , em bora o de Lou não tivesse passado de um resm ungo. Cotton com eçara a ler regularm ente para Am anda, com o prom etera, e Lou, a cada vinda dele, m ais se ressentia disso. Apreciava, no entanto, seus m odos gentis, seus gestos de cortesia. Era um a situação conflituosa, perturbadora para a m enina.

Em bora a tem peratura tivesse caído m uito na noite anterior, o frio estava longe de provocar neve. Louisa não tinha um term ôm etro, m as seus ossos, com o ela costum ava dizer, eram precisos com o o m ercúrio no vidrinho. E estava na hora de cuidar da plantação, Louisa declarou. Plantar tarde em geral significava não ter nada para colher.

Foram para o prim eiro cam po a ser sem eado, um retângulo m eio íngrem e com dez acres. O vento contínuo afugentara as preguiçosas nuvens cinzentas sobre as cristas dos m ontes, deixando o céu lim po. Naquela m anhã, as m ontanhas pareciam extrem am ente planas, com o se fossem m esas de m adeira. Louisa distribuiu cuidadosam ente os saquinhos com sem entes de m ilho da estação passada. O m ilho fora debulhado e depois m antido num depósito no celeiro durante o inverno. Ela instruiu cautelosam ente suas tropas quanto à utilidade das sem entes: Trinta alqueires de m ilho por acre é o que nós querem os disse ela. — Se possível, m ais.

Por algum tem po, as coisas correram bastante bem . Oz cobriu suas fileiras, contando m eticulosam ente três sem entes por m ontinho de terra com o Louisa m andara fazer. Lou, no entanto, m ostrava um certo desleixo, j ogando duas sem entes aqui, quatro ali.

— Lou — disse Louisa num tom enérgico. — Três sem entes por m onte, m enina! Lou a encarou.

— Com o se isso fizesse algum a diferença. Louisa pôs as m ãos na cintura.

— Diferença entre com erem dois e só com er um .

Lou ficou um instante im óvel, m as logo continuou, agora j ogando três sem entes por cova, a uns vinte centím etros um a da outra. Duas horas depois, com os cinco trabalhando firm e, apenas cerca de m etade do cam po fora sem eado. Louisa os m andara passar outra hora usando enxadas para cobrir o m ilho. Logo Oz e Lou tinham bolhas de sangue pisado nas curvas das m ãos, apesar das luvas que estavam usando. E tam bém havia acontecido o m esm o com as m ãos de Cotton.

— A advocacia é um a pobre preparação para um trabalho honesto — ele explicou, m ostrando as cicatrizes de batalha.

As m ãos de Louisa e Eugene estavam tão cheias de calos que eles nem precisavam usar luvas, e podiam trabalhar duas vezes m ais rápido que os outros. Só as palm as ficavam m eio averm elhadas com a fricção dos cabos ásperos das ferram entas.

com a últim a sem ente coberta, Lou, m uito m ais chateada que cansada, sentou-se no chão, sacudindo as luvas contra a perna.

— Bem , isso foi divertido. E agora? Um vulto curvado apareceu na frente dela.

— Antes de ir para a escola, pegue o Oz e vá ver por onde andam as vacas.

Lou encarou os olhos de Louisa.

Lou e Oz avançavam pela m ata. Eugene tinha levado as vacas e o bezerro para o pasto, e as vacas, assim com o as pessoas costum am fazer, com eçaram a rodar pelo cam po à procura dos m elhores lugares.

Lou bateu num pé de lilases com a vara que Louisa lhe dera para afugentar as cobras. Ela não m encionara a am eaça de serpentes a Oz. Se o irm ão soubesse, ela acabaria tendo de carregá-lo nas costas.

— Não posso acreditar que tenham os de ir atrás dessas vacas estúpidas! — disse furiosa. — Se são burras para se perderem , que fiquem perdidas! Os dois avançaram por entre em aranhados de cornisos e loureiros. Oz se balançou no galho m ais baixo de um pinheiro áspero e deu um assobio quando um pássaro esvoaçou.

Era um cardeal, em bora a m aioria das pessoas da m ontanha o conhecesse com o tangará.

— Vej a, Lou, um cardeal atrás de nós.

Voltando a atenção m ais para pássaros que para vacas, eles logo conseguiram distinguir m uitas variedades, a m aioria das quais nem sequer conheciam . Beij a-flores flutuavam sobre as ipom eias e violetas, e os dois enxotaram um bando de coto vias de um a densa cobertura de m oitas. Um pequeno falcão fez questão de m ostrar que estava por perto, enquanto um bando de gaios, com penas m osqueadas de azul, incom odava tudo e todos. Espessos rododendros selvagens estavam com eçando a florir em rosa e verm elho, assim com o se abriam as flores brancas com pontas azuladas do tom ilho da Virginia. No lado dos barrancos, entre am ontoados de pedras escuras e outros afloram entos de rochas, viram a epigeia e o acônito. As árvores estavam em plena form a, m uito copadas; o céu era um boné azul a coroá-las. E ali estavam os dois, correndo atrás de vacas desgarradas, pensou Lou.

Um sininho de gado tocou à direita deles.

— Louisa disse para seguirm os o sino que as vacas usam .

— Oz parecia nervoso.

Lou foi atrás de Oz por arvoredos de faias, choupos e tílias. Fortes trepadeiras de glicínias se agarravam neles com o m ãos irritantes e os pés tropeçavam em em aranhados de raízes presas num solo irregular, perigoso. Chegando a um a pequena clareira cercada por eucaliptos e abetos, ouviram novam ente o sino, m as nada das vacas. Um pássaro dourado passou em disparada, sobressaltando-os.

— Mu. Muuuu! — veio a voz, e o sino tilintava.

A dupla olhou espantada em volta até Lou reparar no tronco curvo de um bordo. Lá estava Diam ante sacudindo o sino e im itando a vaca. com a roupa de sem pre e descalço, trazia um cigarro na orelha. O cabelo, se espigando para o céu, lem brava um esfregão ruivo que estivesse sendo puxado por um anj o m aligno.

— Que está fazendo? — perguntou Lou furiosa. Diam ante passou agilm ente de um galho para outro, pulou no chão e m ais um a vez sacudiu o sino. Lou reparou que havia um a argola em seu m acacão, onde ele am arrara o canivete que ela lhe dera com um pedaço de barbante.