O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 29 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Vinte e Sete

— Nem cheguei a ter. Nunca conheci a m ulher. — Ele passou a m ão pelo tij olo lascado do fogão à lenha e os traços de seu rosto revelaram perturbação. — Sabe, ela m orreu quando eu nasci...

— Tudo bem , Diam ante, m as você pode sentir falta dela, m esm o que nem a tenha conhecido.

O m enino abanou a cabeça, o polegar agora ociosam ente esfregando o rosto encardido.

— Às vezes eu realm ente im agino com o ela devia ser. Não tenho retratos. Meu pai m e contou com o ela era, m as não é a m esm a coisa, claro. — Ele interrom peu o que dizia e m exeu num pedaço de lenha com o galho. — O que m ais penso é com o sua voz devia ser. E o cheiro com o devia ser. E com o seria o tom do cabelo e dos olhos quando ela estava no sol. Mas sinto falta tam bém do papai porque ele era um bom suj eito. Me ensinou tudo que eu precisava saber. A caçar, a pescar. — Olhou para Lou. — Aposto que tam bém sente falta de seu pai.

Lou parecia constrangida. Fechou os olhos por um instante e abanou a cabeça.

— Sinto falta.

— A sorte é que ainda tem sua m ãe.

— Não, não tenho. Já não tenho m ais, Diam ante.

— Agora ela parece que está m al, m as vai m elhorar. As pessoas nunca nos deixam , a não ser que a gente se esqueça delas. Não sei de m uita coisa, m as sei disso.

Lou teve vontade de dizer que não era bem assim . A m ãe dele se fora, sem discussão, m as Lou andava em areia m ovediça quando se tratava de Am anda. A única coisa segura era a necessidade de tom ar conta de Oz.

Ficaram parados ouvindo os ruídos da m ata, onde árvores, insetos, pássaros e anim ais m aiores cuidavam de suas vidas.

— Por que não vai à escola? — perguntou Lou.

— Já tenho catorze anos e estou indo m uito bem sem ela.

— Disse que tinha lido a Bíblia.

— Bem , algum as pessoas leram partes pra m im .

— Será que sabe pelo m enos assinar o nom e? — Ora, todos sabem quem eu sou. — Ele se levantou, tirou um canivete do bolso e riscou um "X" num canto da parede.

— Foi assim que m eu pai assinou a vida inteira, e se foi bom pra ele tam bém vai ser bom pra m im .

Lou pôs o cobertor nos om bros e ficou contem plando a dança das labaredas. Um a desagradável friagem tom ara conta dela.

CAPÍTULO VINTE E SETE

Num a noite particularm ente quente, quase no m om ento em que Lou estava pensando em subir para seu quarto, houve um a batida na porta. Billy Davis quase caiu no chão da sala quando Louisa abriu.

— O que houve, Billy ? — disse Louisa agarrando o braço trêm ulo do rapaz.

— Meu irm ãozinho está vindo.

— Sabia que estava quase na hora. A parteira j á chegou? O garoto tinha os olhos arregalados, as pernas e os braços se contorcendo com o num ataque de epilepsia.

— Não existe nenhum a. Papai não m andou cham ar.

— Meu Deus, por que não? — Diz que cobram um dólar. Ele não quer pagar.

— E m entira! Nenhum a parteira daqui j am ais cobrou um centavo! — O pai diz que cobram . Mas a m ãe diz que o bebê não está direito na barriga. Então peguei a m ula e vim buscar a senhora.

— Eugene, vá prender o Hit e o Sam no balancim da carroça — disse ela. — Rápido! Antes de sair, Eugene tirou o rifle do gancho e estendeu-o para Louisa.

— Melhor levar isso. Afinal, vai ter de lidar com aquele hom em .

Louisa, porém , balançou a cabeça sem parar de olhar para o nervoso Billy .

— Estarei bem acom panhada, Eugene — disse ela sorrindo Para o garoto. — Sinto isso. Vai sair tudo bem .

— vou com a senhora, então. — Eugene não largara a arm a.

— Aquele hom em é m aluco.

— Não, você fica com as crianças. E vá logo, apronte a carroça! — Eugene hesitou um instante, m as acabou fazendo o que ela m andava.

Louisa pegou algum as coisas e colocou-as num balde de m adeira. Depois enfiou no bolso um a porção de panos, j untou tam bém alguns lençóis lim pos e avançou para a porta.

— Louisa, vou com você — disse Lou.

— Não, aquilo não é um bom lugar para você.

— Eu vou, Louisa. Na carroça ou no lom bo da Sue, não im porta, m as eu vou. Quero aj udá-la. — Olhou de relance para Billy . — E aj udar a eles.

— Provavelm ente — disse Louisa depois de pensar um pouco —, vou precisar de outro par de m ãos. Billy , seu pai está j unto dela? — Tem um a égua parindo no celeiro. O pai diz que não vai sair de lá até o potro nascer.

Louisa encarou o garoto. Depois, balançando a cabeça, encam inhou-se para a porta.

Seguiram Billy na carroça. Ele ia m ontado num a velha m ula de focinho branco, que tinha parte da orelha direita dilacerada. Num a das m ãos, levava um lam pião de querosene para aj udar a guiar o grupo. Naquele escuro, dizia Louisa, alguém poderia lhe dar um tapa que você nem veria a m ão.

— Não bata nas m ulas, Lou. Não seria nada bom para Sally Davis se acabássem os num a vala.

— Sally é a m ãe de Billy ? Louisa abanou a cabeça, enquanto a carroça sacolej ava entre o m ato rente de um lado e de outro. A única luz vinha do lam pião. Para Lou parecia tanto um farol, real e confiável, com o um a espécie de sirene anunciando um naufrágio.

— A prim eira m ulher m orreu durante um trabalho de parto e os filhos que ele teve com a infeliz foram em bora assim que puderam . Não queriam ser espancados nem escravizados por ele. Não queriam que os deixasse m orrer de fom e.

— Por que Sally se casou com George se ele era tão ruim ? — Porque ele tinha sua própria terra, seu gado e era um viúvo com braços para o trabalho. Acho que foi isso. Acho que Sally não conseguiu ver nada além disso. Ela só tinha quinze anos.

— Quinze! Só três anos m ais velha que eu.

— As pessoas se casam cedo por aqui. Querem ter logo filhos, um a fam ília para aj udar no trabalho da terra. É assim que funciona. com catorze anos eu j á estava na frente do padre.

— Ela podia ter deixado a serra.

— Deixar tudo que conhecia? Um a coisa assustadora, não acha? — Você nunca pensou em deixar as m ontanhas? Louisa passou algum as voltas da roda da carroça pensando nisso.

— Se quisesse, eu podia ter ido em bora. Mas nunca cheguei realm ente a acreditar que seria m ais feliz em outra parte. Um dia desci o vale. É estranho o sopro do vento nas terras planas. Não gostei m uito. Eu e estes m ontes nos dem os m uito bem durante m uito tem po. — Ela ficou em silêncio, os olhos contem plando o subir e descer da luz do lam pião que ia na frente.

— Vi os túm ulos atrás da casa — disse Lou.

— Viu m esm o? — Louisa se enrij eceu um pouco.

— Quem era Annie? Louisa olhou para baixo.

— Annie era m inha filha.

— Achei que só tinha tido Jacob.

— Não. Eu tive m inha pequena Annie.

— Ela m orreu quando criança? — Só viveu um m inuto.

— Desculpe. — Lou pôde sentir a tristeza. — Só estava querendo saber m ais algum a coisa a respeito da m inha fam ília.

Louisa se recostou na m adeira dura do banco da carroça e contem plou o escuro do céu com o se fosse a prim eira vez que o visse.

— Meus períodos de gravidez foram sem pre m uito difíceis. Quis ter um a fam ília grande, m as continuei perdendo as crianças m uito antes da hora do parto. Achei que ia perder o próprio Jake nos últim os m eses. Bem , Annie nasceu num a fria noite de prim avera. Tinha um cabelo preto m uito cheio e veio rápido, sem dar tem po para a parteira chegar. Foi um parto extrem am ente difícil. Mas oh, Lou, ela era tão bonita! Tão quente! Os dedinhos se enroscavam em volta dos m eus, as pontas quase não tocando a pele. — Então Louisa parou. O único som vinha das m ulas trotando e do giros da roda da carroça. Ela finalm ente continuou em voz baixa, observando a escura profundeza do céu: — Seu pequeno peito subia e descia, subia e descia, e de repente se esqueceu de subir de novo. Foi incrível a rapidez com que ela ficou fria, m as era tão pequena. — Louisa respirou algum as vezes depressa, com o se ainda tentasse respirar pela criança. — Foi com o se eu estivesse num dia quente com um pouco de gelo na língua. Pareceu gostoso, m as acabou tão depressa que cheguei a duvidar que tivesse m esm o estado lá.

— Sinto m uito — disse Lou tocando a m ão de Louisa.

— Foi há m uito tem po, m as parece ter sido ontem . — Louisa passou rapidam ente a m ão nos olhos. — O pai dela fez a urna, não m ais que um pequena caixa. E eu fiquei a noite inteira acordada, fazendo para ela o m ais belo vestido que j am ais costurei em toda a m inha vida. Na m anhã seguinte, vesti-a com ele. Eu teria dado tudo para ver seus olhos m e olhando pelo m enos m ais um a vez. Não parecia j usto que um a m ãe não pudesse ver os olhos de seu bebê ao m enos m ais um a vez. E então o pai dela colocou-a na pequena caixa, nós a conduzim os para aquele outeiro, a sepultam os para descansar e rezam os por ela. Depois plantam os um pé de m adressilva na ponta da cova para que Annie ficasse o ano inteiro sob sua som bra. — Louisa fechou os olhos.

— Costum a ir lá em cim a? — Costum ava subir todo dia. — Louisa abanou a cabeça.

— Mas não voltei desde que enterrei um outro filho m eu. Sim plesm ente com ecei a achar a cam inhada m uito penosa. — Tom ou as rédeas de Lou e, apesar de seu próprio conselho, chicoteou as m ulas. — Melhor andar depressa. Esta noite tem os de aj udar a pôr um a criança no m undo.

Por causa da escuridão, Lou não podia ver quase nada das terras ou das benfeitorias do sítio. Ela só rezava para que George Davis ficasse no celeiro até o bebê nascer e as duas irem em bora.

A casa era surpreendentem ente pequena. No aposento por onde entraram , obviam ente a cozinha, havia um fogão, em bora houvesse tam bém alguns catres com colchões, m as sem lençóis. Em três das cam as havia um igual núm ero de crianças. Duas delas, parecendo gêm eas em torno dos cinco anos, dorm iam nuas. A terceira criança, um m enino da idade de Oz, vestia um a cam iseta de hom em , suj a e m anchada de suor, e contem plava Lou e Louisa com olhos espantados. Louisa reconheceu-o com o o outro garoto que vinha no trator descendo a m ontanha. Perto do fogão, num caixote de m açãs, debaixo de um cobertor m anchado, havia um bebê de no m áxim o um ano. Louisa foi até a pia, bom beando água e usando a barra de sabão de lixívia que tinha trazido para lim par eficientem ente as m ãos e os braços. Então Billy conduziu as duas por um corredor estreito e abriu um a porta.

Sally Davis estava deitada na cam a de j oelhos erguidos. Gem idos baixos saíam de sua boca. Descalça, em pé ao lado da m ãe, havia um a m enina m agra, com uns dez anos de idade. Tinha o cabelo cortado curto e seu vestido lem brava um saco de sem entes. Lou reconheceu-a do terrível encontro com o trator. Parecia tão apavorada com o quando em cim a do trator.

— Jesse — disse Louisa, saudando-a com um gesto de cabeça —, m e aqueça um pouco d'água. Duas chaleiras, querida. Billy , pegue todos os lençóis que encontrar, querido.

E eles têm de estar realm ente lim pos.

Louisa pôs os lençóis que tinha trazido nas tabuinhas de carvalho de um a cadeira bam ba, sentou-se ao lado de Sally e pegou-lhe a m ão.

— Sally , é Louisa. Você vai ficar bem , querida.

Lou olhou para Sally . Os olhos da m ulher estavam verm elhos, os poucos dentes e as gengivas tinham m anchas escuras. Certam ente ainda nem teria trinta anos, m as parecia duas vezes m ais velha. O cabelo era grisalho, a pele repuxada, enrugada, e as veias azuis latej avam na carne subnutrida. O rosto parecia m irrado com o um a batata no inverno. Louisa ergueu as cobertas e viu o lençol ensopado em baixo dela.

— Quanto tem po faz que sua bolsa d'água estourou? — Foi depois que Billy saiu para ir buscar a senhora disse Sally num tom ofegante.

— As dores ainda estão espaçadas? — perguntou Louisa.

— Agora j á parece um a dor só. E m uito forte. — A m ulher gem ia.

— Acha que o bebê não está querendo vir? — perguntou Louisa, apalpando a barriga inchada. Sally agarrou a m ão dela.

— Deus, espero que não, ou ele vai m e m atar.

Billy entrou com alguns lençóis, j ogou-os na cadeira, olhou um a vez para a m ãe e fugiu do quarto.

— Lou, m e aj ude a colocar Sally de lado para que possam os estender lençóis lim pos. — Foi o que fizeram , m anipulando o m ais gentilm ente possível a m ulher. — Agora vá aj udar Jesse com a água. E pegue isto. — Ela passou a Lou alguns panos que estavam em pilhados uns sobre os outros e um rolo fino de barbante. — Ponha o barbante no m eio dos panos, coloque tudo no forno e esquente até a parte de fora ficar corada.

Lou foi até a cozinha para aj udar Jesse. Nunca vira a m enina na escola, nem o m enino de sete anos que olhava para as duas com ar assustado. Jesse tinha um a grande cicatriz rodeando o olho esquerdo, m as Lou não quis se aventurar a adivinhar com o a m enina tinha ficado assim .

O fogo j á estava quente e alguns m inutos depois a chaleira com eçou a ferver. Lou continuou verificando a cor do pano que tinha colocado no forno e logo ele ficou suficientem ente m arrom . Usando trapos, elas carregaram as chaleiras e o m onte de panos para o quarto, colocando-os ao lado da cam a.

Louisa lavou Sally com sabão e água quente no lugar por onde ia passar o bebê e atirou o lençol sobre ela. Murm urou para Lou: — O bebê está tirando sua últim a soneca agora, ele e Sally . Não sei exatam ente em que posição está, m as não está atravessado. — Lou olhou-a curiosam ente e ela explicou: — Quer dizer, deitado na horizontal na barriga. Cham o você quando precisar.

— Quantas crianças você j á aparou? — Trinta e duas em cinquenta e sete anos — disse ela. Cortando o um bigo de todas.

— Todas viveram ? — Não — respondeu Louisa em voz baixa e depois m andou Lou sair, dizendo que a cham aria quando fosse preciso.

Jesse estava na cozinha, encostada num a parede, as m ãos entrelaçadas na frente do corpo, a cabeça baixa, um a franj a de cabelo cobrindo a cicatriz e parte do olho.

Lou olhou para o m enino na cam a.

— Com o você se cham a? — perguntou Lou, m as ele não respondeu. Quando deu um passo na direção dele, o m enino deu um berro e j ogou o cobertor na cabeça. Trem ia m uito.

Lou acabou saindo daquela casa m aluca.

Ela olhou em volta até ver Billy no celeiro, à espreita na abertura da porta dupla. Avançou em silêncio e, de repente, George Davis não estava a m ais que três m etros.

A égua estava no chão de palha. Saindo dela, e coberto por um a espécie de casulo branco, havia um a pata dianteira e o om bro do potro. Praguej ando, Davis puxava a pata oleosa. O piso do celeiro era de m adeira, não de terra. Sob o clarão de alguns lam piões, Lou pôde ver fileiras de ferram entas brilhantes cuidadosam ente penduradas nas paredes.

Incapaz de suportar a linguagem grosseira de Davis e o sofrim ento da égua, Lou foi se sentar na varanda da frente. Billy veio e sentou perto dela.

— Seu sítio parece m uito grande — disse ela.

— Papai paga hom ens para aj udá-lo no trabalho. Mas quando eu crescer, ele não vai m ais precisar fazer isso. Eu farei o trabalho.

Ouviram George Davis gritar do celeiro e os dois estrem eceram . Billy parecia em baraçado e cavava a terra com o dedão do pé.

— Desculpe por eu ter posto aquela cobra na sua lancheira — disse Lou.

Ele a olhou espantado.

— Fui eu quem fez prim eiro.

— Isso não elim ina o que eu fiz.

— Papai m ataria a pessoa que fizesse isso com ele.

Lou pôde ver o terror nos olhos de Billy Davis e seu coração se com oveu.

— Você não é seu pai. E não precisa ser. Billy pareceu nervoso.

— Ainda não disse a ele que fui buscar a dona Louisa. E não sei o que ele vai dizer quando encontrar vocês aqui.

— Só estam os aqui para aj udar sua m ãe. Não acredito que ele crie problem as.

— Será que não? Os dois ergueram o rosto para George Davis, parado diante deles, sangue e visgo de cavalo ensopando sua cam isa e gotej ando dos braços. A poeira rodopiava em volta de suas pernas com o ondas de calor, com o se a m ontanha tivesse gerado um deserto. Billy se colocou na frente de Lou.

— Pai. Com o está o potro? — Morto. — O m odo com o ele disse isso fez cada parte de Lou trem er. George apontou. — Que diabo ela está fazendo aqui? — Fui buscar as duas para aj udarem com o bebê. A dona Louisa está com a m ãe.

George olhou para a porta e depois novam ente para Billy . O brilho em seu olhar foi tão terrível que Lou achou que o hom em ia m atá-la naquele instante.

— Aquela m ulher em m inha casa, garoto? — Está na hora. — Todos olharam para a porta onde Louisa estava agora de pé. — O bebê está chegando — dizia ela.

Davis em purrou o filho para o lado e Lou saiu do cam inho quando ele com eçou a avançar para a porta.

— Maldição, você não tem nada a fazer aqui, m ulher! Tire o rabo da m inha terra antes que eu pegue a espingarda e lhe dê um a coronhada na cabeça. Em você e nessa m aldita garota.

Louisa não deu um único passo atrás.

— Se quiser venha m e aj udar com o bebê. Se não quiser, o problem a é seu. Venham cá, Lou, e você tam bém , Billy . vou precisar de vocês dois.

Estava, no entanto, bem claro que George não ia deixá-los ir. Quanto a Louisa, em bora ela fosse m uito forte para sua idade, e m ais alta que Davis, um a luta entre os dois estaria fora de cogitação.

E então, vindo da m ata, eles ouviram o grito. Era o m esm o som que Lou tinha ouvido na prim eira noite que fora ao poço, só que agora parecia ainda m ais horripilante, com o se a coisa, fosse o que fosse, estivesse m uito perto e pronta para se lançar sobre eles. Mesm o Louisa olhou apreensivam ente para a escuridão.

George Davis deu um passo atrás fechando a m ão, com o se esperasse que houvesse um revólver ali. Louisa agarrou as crianças e levou-as com ela. Davis não fez qualquer m ovim ento para detê-los, m as gritou: — Garanta que desta vez vai ser a droga de um garoto. Se for um a m enina, deixe que m orra. Está m e ouvindo? Não preciso de m ais um a m aldita garota! Enquanto Sally fazia força, o coração de Louisa se acelerava. Foi ela a prim eira a ver as nádegas do bebê, seguidas por um dos pés. Sabia que não tinham m uito tem po.

Era preciso tirar a criança antes que o cordão um bilical ficasse im prensado entre a cabeça do bebê e os ossos de Sally . Enquanto ela olhava, as dores em purraram o outro pé.

— Lou — disse ela —, venha aqui, m enina, depressa! Louisa pegou o pé do bebê com a m ão direita e levantou o corpo para que as contrações não tivessem de carregar todo o peso da criança e para que se form asse um ângulo m elhor para a saída da cabeça. Por sorte, após tantos partos, os ossos de Sally Davis tinham se alargado bastante. — Em purre, Sally , em purre, querida — pedia Louisa.

Louisa pegou as m ãos de Lou e dirigiu-as para um ponto no baixo-ventre de Sally .

— Vam os tirar rapidam ente a cabeça — disse ela a Lou.

— Com ece a em purrar aí, o m ais forte que puder. Não se preocupe porque não está m achucando de j eito nenhum o bebê. A parede da barriga é m uito resistente.

Lou com eçou a aplicar toda a sua força enquanto Sally fazia força e gritava, e Louisa erguia cada vez m ais o corpo do bebê.

Louisa ia proclam ando a saída com o se estivesse m arcando a profundidade da água no casco de um barco de rio. O pescoço, dizia ela, o cabelo! De repente, a cabeça inteira apareceu. Ela estava segurando a criança no ar, dizendo que Sally podia descansar, que havia acabado.

Louisa fez um a prece de agradecim ento ao ver que era um m enino. A criança, porém , era terrivelm ente pequena, e m uito pálida. Ela m andou Lou e Billy esquentarem vasilhas de água, am arrou o cordão um bilical em dois pontos com o novelo de barbante e depois cortou o cordão entre esses pontos com um a tesoura fervida. Enrolou o cordão num dos panos lim pos e secos que Lou tinha dourado no fogão e encaixou cuidadosam ente outro desses panos contra o lado esquerdo do bebê. Usou um óleo adocicado para lim par o bebê, lavou-o com sabão e água quente, depois enrolou-o num cobertor, e o entregou à m ãe.

Louisa pôs a m ão na barriga de Sally e percebeu que o útero continuava duro e pequeno, exatam ente com o ela queria. Se estivesse grande e m acio, talvez houvesse algum a hem orragia interna, ela m urm urou para Lou. A barriga estava baixa, firm e.

— Tudo em ordem — disse, para alívio de Lou.

Então Louisa pegou o recém -nascido e colocou-o na cam a. Tirou um a pequena am pola de cerâm ica do balde de m adeira, e de dentro da am pola um pequeno frasco com um a solução. Mandou Lou m anter abertos os olhos do bebê enquanto pingava duas gotas dentro de cada um . A criança se sacudia e gritava.

— Assim o bebê não ficará cego — disse Louisa. — Quem m e deu foi Travis Barnes. Os m édicos dizem que se deve fazer isso.

Usando as vasilhas de água quente e alguns cobertores, Louisa im provisou um a tosca incubadeira e colocou o bebê lá dentro.

A respiração da criança estava tão superficial que ela passou um a pena de ganso na boca para ver se o fluxo de ar a encrespava.

Quinze m inutos depois das últim as contrações terem concluído o parto, Louisa e Lou j á tinham arrum ado tudo, trocado de novo os lençóis e lim pado a m ãe com os últim os panos que Lou levara ao forno.

As últim as coisas que Louisa tirou de seu balde de m adeira foram um lápis e um a folha de papel, passando-os a Lou. Mandou que a m enina escrevesse a data e a hora.

Louisa tirou um velho relógio de corrente do bolso da calça e disse a Lou qual fora a hora do nascim ento.

— Sally , com o o bebê vai se cham ar? — perguntou Louisa. Sally olhou para Lou.

— Ela cham ou você de Lou. Esse é o seu nom e, m enina? — perguntou Sally num a voz fraca.

— É. Bem , é m ais ou m enos.

— Então ele tam bém vai ser Lou. Em hom enagem a você, criança. E obrigada.

Lou ficou m uito espantada.

— E seu m arido não vai dar opinião? — Ele pouco se im porta se o bebê tem nom e ou não tem . Só vai querer saber se é um garoto capaz de trabalhar. Além disso, nem veio para aj udar. O nom e dele é Lou.

Coloque aí, m enina.

Louisa sorriu quando Lou escreveu o nom e Lou Davis.

— Vam os dar isso ao Cotton — disse Louisa. — Ele vai registrá-lo no fórum para que todo m undo saiba que tem os outra bela criança nesta m ontanha.

Sally adorm eceu e Louisa ficou ali sentada com a m ãe e o filho a noite inteira, acordando Sally para dar de m am ar quando Lou Davis chorava e seus lábios estalavam .

George Davis não entrou no quarto um a única vez. Puderam ouvi-lo andar algum tem po na sala, e depois a porta da frente bater.

Louisa foi várias vezes ver as outras crianças. Deu a Billy , Jesse e ao outro m enino, cuj o nom e Louisa não sabia, um vidrinho com m elado e alguns pãezinhos que tinha trazido. Cortoulhe o coração ver com que rapidez as crianças devoraram aquela refeição tão sim ples. Deu tam bém a Billy um potinho de geleia de m orango e um a broa de m ilho, m andando que ele guardasse para quando as outras crianças acordassem .

Foram em bora no final da m anhã. A m ãe estava bem e a cor do bebê tinha m elhorado consideravelm ente. Ele estava m am ando com avidez e os pulm ões pareciam fortes.

Sally e Billy agradeceram e m esm o Jesse conseguiu dar um resm ungo de gratidão. Mas Lou reparou que o fogão estava frio e que não havia cheiro de com ida.

George Davis fora para as roças com os peões que estava pagando. Antes, no entanto, que Billy fosse se j untar a eles, Louisa cham ou o m enino de lado e conversou com ele sobre coisas que Lou não pôde ouvir.

Na carroça, no cam inho de volta, as duas passaram por currais onde o núm ero de vacas era suficiente para ser qualificado com o rebanho. Viram tam bém porcos, ovelhas, um cim entado cheio de galinhas, quatro bons cavalos e um as oito m ulas. As plantações se estendiam até onde os olhos podiam ver e o perigoso aram e farpado circundava tudo. Lou viu George e seus hom ens trabalhando nas roças com equipam ento m ecanizado. A rapidez das m áquinas ia levantando nuvens de terra.

— São donos de m ais terras e gado que nós — disse Lou.

— Com o é possível que não tenham nada para com er? — Porque George Davis quer assim . E o pai de George agiu da m esm a m aneira com ele. Segurar cada dólar. Não deixar escapar um a só raiz.

Louisa m ostrou o grande cadeado na porta do barracão na beira da estrada.

— George prefere deixar a carne apodrecer neste defum ador a dá-la aos filhos. Ele vende o que produz até a últim a m igalha. Vende para os lenhadores, os m ineiros e leva um a boa parte para Trem ont e Dickens. — Ela apontou para um a grande construção com um a fileira de portas no andar de baixo. As portas estavam abertas e via-se claram ente, no interior, grandes folhagens verdes penduradas em ganchos. — Isto é tabaco de folha fina. Um a variedade que enfraquece o solo, m as ele tam bém vende tudo, fora, é claro, o que m asca. Tinha aquela destilaria e nunca tom ou um a única gota do uísque. Mas vendia a m aldita coisa para hom ens que deviam gastar seu dinheiro e passar suas folgas com as fam ílias. E George andava por aí com um gordo rolo de dólares no bolso, tão gordo que deu para com prar esta bela fazenda, com tantas m áquinas incríveis. E é aqui que ele deixa a fam ília m orrer de fom e. — Ela agitou as rédeas. Bem , em certo sentido não deixo de sentir pena dele. George Davis é a alm a m ais m iserável que j á encontrei. Um dia Deus deixará George saber exatam ente o que Ele pensa de tudo isso. Mas esse dia não acontecerá aqui.