O Poço dos Desejos
Capítulo Trinta e Sete
— O que você quer, Miller? — disse Cotton.
— Bem — disse o hom em entrando na sala e olhando para Lou —, prim eiro quero dizer que lam ento o que aconteceu com a Sra. Cardinal.
Lou cruzou os braços e olhou para o lado.
— Mais algum a coisa? — disse Cotton asperam ente.
— Tam bém quero fazer outra oferta pela propriedade.
— Quem pode vender a propriedade não sou eu.
— Mas a Sra. Cardinal não está em condições de exam inar a oferta.
— Ela j á se recusou a vender um a vez, Miller.
— E é por isso que resolvi cortar cam inho e aum entar m inha oferta para quinhentos m il dólares.
Cotton e Lou trocaram olhares de sobressalto antes do advogado dizer: — Repito, quem pode vender a propriedade não sou eu.
— Presum i que tivesse um a procuração para agir em nom e dela.
— Não. E m esm o que tivesse, não ia lhe vender a propriedade. Há m ais algum a coisa que eu possa ou não fazer por você? — Não, Cotton, j á m e disse tudo que eu precisava saber.
— Miller entregou-lhe um m aço de docum entos. — Considere sua cliente servida.
O hom em saiu com um sorriso na boca e Cotton ficou exam inando os docum entos. Nervosa, Lou continuava parada a seu lado.
— O que é, Cotton? — Não é coisa boa, Lou.
Cotton agarrou bruscam ente o braço de Lou, desceu a escada com ela e os dois rum aram para o hospital. Cotton escancarou a porta do quarto de Louisa e o flash estourou assim que eles entraram . O hom em olhou para os dois e tirou outra foto de Louisa na cam a. Havia outro hom em perto dele, um suj eito alto, de om bros largos; Am bos usavam belos ternos e chapéus vincados no m eio.
271 — Saiam daqui! — gritou Cotton.
Ele correu e tentou pegar a câm era, m as o fortão o em purrou, dando tem po para o parceiro escapar. Em seguida, o hom em se retirou sorrindo do aposento.
Cotton ficou parado, respirando com dificuldade, parecendo indefeso entre Lou e Louisa.
CAPÍTULO TRINTA E SETE
Era um dia particularm ente frio, m as sem nuvens, quando Cotton entrou no tribunal. Ele parou quando viu Miller ao lado de outro hom em , um suj eito alto, de ar distinto e m uito bem vestido, o fino cabelo grisalho cuidadosam ente penteado. A cabeça, no entanto, era tão grande que quase parecia anorm al.
— Tinha absoluta certeza — disse Cotton a Miller — que ia encontrá-lo hoj e.
Miller inclinou a cabeça para seu acom panhante.
— Provavelm ente j á ouviu falar de Thurston Goode, prom otor público de Richm ond...
— Na verdade j á. Recentem ente, o senhor esteve à frente de um a ação na Suprem a Corte dos Estados Unidos, estou certo, doutor? — Para ser m ais preciso — disse Goode num profundo e confiante tom de barítono —, ganhei a ação, Dr. Longfellow! — Parabéns. Se bem que agora o senhor está m uito longe de casa.
— A Secretaria de Justiça teve a gentileza de perm itir que o Dr. Goode viesse defender os interesses da União nesta im portantíssim a m atéria — explicou Miller.
— Desde quando um sim ples processo para declarar um a pessoa m entalm ente incapaz exige a presença de um dos m elhores advogados da União? Goode sorriu calorosam ente.
— Com o funcionário da prom otoria, não tenho de lhe explicar por que estou aqui, Dr. Longfellow. Basta dizer que estou.
Cotton pôs a m ão no queixo e fingiu estar refletindo.
— Vam os ver... A Virginia elege os funcionários da prom otoria. Posso perguntar se a Southern Valley fez algum a doação para sua cam panha, doutor? A cara de Goode ficou verm elha. <"> — Não gosto do que está insinuando! — Não falei com o insinuação.
— Todos de pé — disse Fred, o oficial de j ustiça. — A corte do m eritíssim o Henry J. Atkins está agora em sessão. Todos os que têm pendência nesta corte devem se aproxim ar para serem ouvidos.
O j uiz Henry Atkins, um hom em baixo com barba curta, cabelo ralo e grisalho e olhos castanho-claros entrou na sala vindo de um gabinete adj acente. Ele tom ou assento na bancada. Antes que se levantasse, parecia pequeno dem ais para a toga preta. De pé, pareceu grande dem ais para a sala de audiências.
Foi neste ponto que Lou e Oz se introduziram na sala sem serem vistos por ninguém . Usando casacos pesados e m eias grossas dentro de enorm es botas, tinham seguido através da ponte feita pelo galho do choupo, descido a m ontanha e pegado carona num cam inhão que ia para Dickens. Por causa do tem po frio, a viagem fora m uito m ais difícil que da prim eira vez, m as com o Cotton explicou, o resultado daquele processo teria efeitos m uito nítidos na vida dos dois. Eles se deixaram afundar num banco nos fundos da sala, as cabeças pouco visíveis sobre as costas dos bancos que ficavam na frente deles.
— Cham e o próxim o caso — disse Atkins. Era o único caso naquele dia, m as a corte tinha seus rituais.
Fred anunciou a ação m ovida pelo Estado contra Louisa Mae Cardinal.
De seu assento na bancada, Atkins deu um sorriso largo.
— Dr. Goode, m e sinto honrado em ter o senhor no m eu tribunal. Por favor declare a posição da prom otoria/ Goode se levantou e enfiou um dedo na lapela do paletó.
— Certam ente isto não é um a tarefa agradável, m as algo que a prom otoria tem o dever de executar. A Southern Valley Carvão e Gás fez um a oferta para adquirir a propriedade que se encontra em nom e exclusivo da Sra. Cardinal. Acreditam os que, devido a seu recente ataque, ela não está legalm ente capacitada a tom ar um a decisão com relação a essa oferta. Seus únicos parentes vivos são m enores de idade e estão, portanto, im possibilitados de agir em nom e dela. E sabem os que o parente sobrevivente das crianças sofre de um a severa incapacidade m ental. Tem os tam bém o fato rigorosam ente com provado de que a Sra. Cardinal não assinou qualquer procuração concedendo poderes para que algum advogado representasse seus interesses.
Neste m om ento, Cotton lançou um olhar agudo a Miller, que acabara de levantar a cabeça com seu j eito convencido.
— Assim — continuou Goode —, de m odo a proteger plenam ente os direitos da Sra. Cardinal, solicitam os que ela sej a declarada m entalm ente incapaz e que tenha um tutor designado pelo tribunal. Deste m odo seus negócios poderão ser sensatam ente conduzidos, incluindo a oferta extrem am ente lucrativa feita pela Southern Valley .
Atkins abanou a cabeça enquanto Goode se sentava.
— Obrigado, Dr. Goode. Cotton? Cotton se levantou, avançou um passo e parou diante do j uiz.
— Meritíssim o, o que vem os aqui é um a tentativa de desprezar, não de cum prir os desej os da Sra. Cardinal. Ela j á havia rej eitado um a oferta da Southern Valley de com pra de sua terra.
— Isto é verdade, Dr. Goode? — inquiriu o j uiz. Goode parecia confiante.
— A Sra. Cardinal rej eitou um a prim eira oferta; a presente oferta, no entanto, envolve um a som a consideravelm ente m aior de dinheiro, e deve ser analisada em separado.
— A Sra. Cardinal deixou bem claro que não venderia o sítio à Southern Valley , por m elhor que fosse a proposta disse Cotton. Ele fez um gancho com o dedo em volta da lapela do paletó, exatam ente com o Goode tinha feito. Depois pensou m elhor e tirou o dedo dali.
— Tem algum a testem unha para corroborar sua afirm ação? — perguntou o j uiz Atkins.
— Ha... só eu.
Goode revidou de im ediato.
— Bem , se o Dr. .Longfellow pretende arrolar a si m esm o com o testem unha m aterial neste caso, insisto para que abdique de sua posição com o advogado da Sra. Cardinal.
— É o que você quer fazer? — perguntou Atkins olhando para Cotton.
— Não, não é. Pretendo representar os interesses de Louisa até ela m elhorar.
Goode sorriu.
— Meritíssim o, o Dr. Longfellow expressou claram ente, perante esta corte, pontos de vista preconcebidos com relação a m eu cliente. Dificilm ente ele poderia ser considerado um hom em suficientem ente independente para representar de form a adequada os interesses da Sra. Cardinal.
— Estou inclinado a concordar com ele, Cotton — disse Atkins.
— Bem , então quero sustentar que a Sra. Cardinal não está m entalm ente incapaz — disparou Cotton.
— Agora tem os um a verdadeira disputa, cavalheiros disse o j uiz. — O j ulgam ento da causa será em um a sem ana.
— Não é tem po suficiente! — exclam ou Cotton, atônito.
— Um a sem ana está bom para nós — disse Goode. — Os assuntos da Sra.
Cardinal m erecem ser tratados com o devido respeito e a devida presteza.
— Cotton — disse Atkins pegando o m artelo —, passei no hospital para ver Louisa. Não sei até que ponto ela está consciente, m as acho que aquelas crianças vão precisar de um tutor. É um a situação que tam bém deveríam os resolver o m ais breve possível.
— Podem os cuidar de nós m esm os.
Olharam todos para o fundo da sala, onde Lou tinha se levantado.
— Podem os cuidar de nós m esm os — repetiu ela. — Até Louisa m elhorar.
— Lou — disse Cotton —, não é hora ou lugar de falar assim . Goode sorriu para os dois.
— Vej o que são crianças adoráveis. Meu nom e é Thurston Goode. Com o vão vocês? Nem Lou nem Oz responderam .
— Senhorita — disse Atkins —, venha até aqui.
Lou engoliu o caroço em sua garganta e cam inhou até a bancada, onde o olhar de Atkins, com o o olhar de Zeus exam inando um m ortal, caiu atentam ente sobre ela.
— A senhorita é m em bro da Ordem dos Advogados? — Não. Eu pretendia... não.
— Sabe que só m em bros da Ordem podem se dirigir ao j uiz, exceto em circunstâncias m uito especiais? — Bem , com o tudo isso diz respeito a m im e a m eu irm ão, acho que as circunstâncias são m uito especiais! Atkins olhou para Cotton e sorriu antes de voltar a Lou.
— É esperta, isso é fácil ver. Despachada. Mas a lei é a lei, e crianças da sua idade não podem viver sozinhas.
— Tem os Eugene.
— Ele não é parente de vocês.
— Bem , Diam ante Skinner não vivia com ninguém . Atkins olhou para Cotton.
— Cotton, quer explicar a ela, por favor.
— Lou, o j uiz tem razão, vocês não têm idade suficiente para viver sozinhos. Precisam de um adulto.
De repente os olhos de Lou se encheram de lágrim as.
— Fom os perdendo todos os nossos adultos. — Ela se virou, disparou pelo centro da sala, escancarou as portas duplas e desapareceu. Oz fugiu atrás.
Cotton tornou a olhar para o j uiz Atkins.
— Um a sem ana — disse o j uiz. Ele bateu o m artelo e, com o um m ago querendo descansar depois de um encantam ento particularm ente difícil, voltou para seu gabinete.
Do lado de fora da sala de audiências, Goode e Miller esperavam por Cotton. Goode se inclinou ao vê-lo.
— Vej a bem , Dr. Longfellow, o senhor pode tornar as coisas m uito m ais fáceis para todos nós. Basta cooperar. Sabem os o que um exam e m ental vai revelar. Por que subm eter a Sra. Cardinal à hum ilhação de um j ulgam ento? Cotton chegou ainda m ais perto de Goode.
— O senhor, Dr. Goode, está pouco se im portando se os assuntos de Louisa vão ou não receber o respeito que m erecem .
Está aqui com o serviçal de um a grande em presa, um a em presa que espera burlar a lei para tirar sua terra.
— Vam os nos encontrar na corte — disse Goode sorrindo.
Naquela noite, Cotton trabalhou em pé, ao lado da escrivaninha entulhada de papéis. Resm ungava, fazia anotações que logo rasgava, andava de um lado para o outro com o um pai esperando o bebê nascer. De repente a porta se abriu e Cotton deparou com Lou. Ela trazia um a cesta de com ida e um bule de café.
— Eugene m e trouxe de carro para ver Louisa — explicou a m enina. — Peguei isto no Restaurante Nova York. Achei que provavelm ente tinha esquecido de j antar.
Cotton baixou os olhos. Lou abriu um espaço na escrivaninha, pousou a com ida e serviu o café. Depois, no entanto, não deu m eia-volta para sair.
— Estou m uito ocupado, Lou. Obrigado pela com ida. Cotton foi para trás da escrivaninha e sentou, m as não m oveu um a única folha de papel, não abriu um só livro.
— Desculpe por eu ter falado na audiência — disse Lou.
— Não faz m al. No seu lugar, acho que teria feito a m esm a coisa.
— Você estava realm ente m uito bem .