O Poço dos Desejos
Capítulo Catorze
— De vez em quando falo com ela. Oz tam bém . Mas Am anda nunca diz nada. Não m exe um único dedo.
— E Lou? — perguntou Cotton. Louisa sacudiu a cabeça.
— Um dia essa criança vai botar para fora tudo que está guardando lá dentro.
— Louisa, pode ser um a boa ideia trazer o Travis Barnes, de Dickens, para dar um a olhada em Am anda.
— Médicos custam dinheiro, Cotton.
— Travis m e deve um favor. Ele virá.
— Obrigado — disse Louisa em voz baixa.
Cotton deu um a olhada no quarto e reparou que havia um a bíblia em cim a da côm oda.
— Posso voltar? — ele perguntou e Louisa encarou-o com ar curioso. — Quem sabe eu não poderia, bem , não poderia ler para ela. Estim ulação m ental. Já ouvi falar. Não há garantias. Mas se não puder fazer m ais nada, pelo m enos posso ler.
Antes que Louisa tivesse tem po de responder, Cotton olhou para Am anda.
— Será um grande privilégio ler para a senhora.
CAPÍTULO CATORZE
Quando a aurora surgiu, Louisa, Eugene, Lou e Oz se achavam num dos cam pos. Hit, a m ula, estava presa no balancim de um arado com um a roda m etálica.
No café da m anhã, Lou e Oz j á tinham tom ado seu leite com broa de m ilho com m elado. A com ida era boa, enchia a barriga e com er à luz de lam pião j á se tornara coisa com um . Oz tinha apanhado os ovos das galinhas enquanto Lou, sob o olhar atento de Louisa, ordenhara as duas vacas saudáveis. Eugene cortara lenha; Lou e Oz a tinham levado para o fogão e depois carregado baldes d'água para dar aos anim ais. A criação fora reunida e a forragem servida. Mas só agora, ao que parecia, o verdadeiro trabalho ia com eçar.
— Vam os passar o arado em todo esse cam po — disse Louisa.
— Que cheiro horrível é esse? — Lou farej ava ao redor. Louisa se curvou, pegou um pouco de terra e esm agou-a entre os dedos.
— Esterco. Quando encontrar nas baias, traga para cá. Torna o solo ainda m ais fértil.
— Com o fede — disse Lou.
Olhando atentam ente para a m enina, Louisa abriu a m ão e deixou os grãos de terra rodopiarem na brisa da m anhã.
— Logo estará adorando esse cheiro.
Eugene com eçou a em purrar o arado com Louisa e as crianças cam inhando a seu lado.
— Isto é um arado a disco — disse Louisa apontando para o estranho disco de m etal. — Você vira essa ponta, abre, prende a m ula e ara o terreno. Depois abre de novo, afrouxa o anim al e abaixa a ponta. O disco abre sulcos dos dois lados. Ele tam bém tira do cam inho as pedras de terra. Então, depois que aram os, batem os a roça para esfarelar os torrões. Depois passam os a grade, deixando a terra realm ente fofa.
Por fim usam os o que cham am os de carrinho. Ele faz carreiras finas. Aí plantam os. Louisa m andou Eugene arar um a fileira para m ostrar com o era; depois bateu com o pé no arado.
— Você parece bem forte, Lou. Não quer experim entar? — Claro — disse ela. — Vai ser
fácil.
Eugene colocou-a na posição certa, pôs os arreios em volta de sua cintura, entregou-lhe o chicote e deu um passo atrás. Hit aparentem ente encarou-a com o um a boa m udança, pois arrancou com inesperada rapidez. A forte Lou m uito rapidam ente sentiu o gosto do solo fértil.
Quando a suspendeu e lim pou seu rosto, Louisa fez um com entário: — Desta vez, a velha m ula levou a m elhor. Faça com que não aconteça no próxim o assalto.
— Não quero fazer m ais isto — disse Lou, escondendo o rosto na m anga, a cabeça se enchendo de um m onte de coisas em que não queria pensar. Seu rosto ficara verm elho, e lágrim as despontavam em baixo das sobrancelhas.
Louisa se aj oelhou na frente dela.
— Da prim eira vez que seu papai tentou arar, ele tinha a sua idade. A m ula levou-o num a carreira que acabou m uito m al. Dem orei quase um dia inteiro para tirar seu pai e o m aldito anim al do barranco. Jack disse a m esm a coisa que você. E decidi deixá-lo cum prir a palavra.
Lou parou de esfregar o rosto e os olhos secaram .
— E o que aconteceu?
— Durante dois dias ele nem chegou perto dos cam pos. Muito m enos da m ula. E então, num a bela m anhã, quando com ecei a trabalhar, lá estava ele.
— E arou todo o cam po? — perguntou Oz.
Louisa balançou a cabeça. — A m ula e seu pai acabaram m ergulhando no chiqueiro. A lavagem que saiu dos dois daria para sufocar um urso. Oz e Lou riram e Louisa continuou: — Na vez seguinte, o m enino e a m ula chegaram a um acordo. O garoto tinha levado um castigo e a m ula se divertido. A partir daí, os dois form aram a m elhor dupla de arado que j á vi.
Do outro lado do vale, veio o som de um a sirene. Era tão alto que Lou e Oz taparam os ouvidos. A m ula resfolegou e se sacudiu nos arreios. Louisa franziu a testa.
— O que é? — perguntou Lou gritando.
— A sirene da m ina de carvão — disse Louisa.
— Será que houve um desm oronam ento? — Não, m as fiquem quietos — disse Louisa, os olhos esquadrinhando as encostas. Cinco m inutos nervosos se passaram e a sirene finalm ente parou. E então, de todos os lados veio um ronco baixo. Mas um ronco que foi crescendo em volta deles com o um barulho de avalanche. Lou achou que podia ver as árvores, até a m ontanha, trem erem .
Agarrou a m ão de Oz e pensou em correr, m as não o fez porque Louisa não tinha se m exido. E de repente o silêncio voltou.
— O pessoal da m ina toca a sirene antes de cada explosão — disse Louisa se virando para eles. — Usam dinam ite. Às vezes usam dem ais e acabam provocando deslizam entos. O resultado é gente ferida. Não m ineiros. Sitiantes trabalhando a terra. — Louisa fez novam ente cara feia na direção de onde parecia ter vindo a explosão e todos voltaram ao trabalho.
No j antar, havia travessas fum egantes de feij ão-fradinho ao lado de broas de m ilho, banha de porco e leite, tudo lavado com um a água de nascente tão gelada que m achucava. A noite estava m eio fria, com o vento uivando alto e atacando a construção. As paredes e o telhado, no entanto, resistiam bem . As brasas da lareira aqueciam , e a luz do lam pião não m achucava os olhos. Oz estava tão cansado que quase adorm eceu em cim a de seu prato da aveia Cry stal Winters, um prato da cor do céu.
Depois do j antar, Eugene foi até o celeiro, enquanto Oz ficou parado na frente do fogo, o corpinho obviam ente dolorido e exausto. Louisa viu Lou se aproxim ar do irm ão, pôr a cabeça dele no colo e acariciar-lhe o cabelo. Cobrindo os olhos com óculos de aro de ferro, Louisa pegou um a cam isa e com eçou a rem endá-la j unto à lareira. Pouco depois, parou e sentou-se ao lado das crianças.
— Ele só está cansado — disse Lou. — Não está acostum ado a isso.
— Talvez ninguém consiga se acostum ar de todo a um trabalho duro. — Louisa tam bém fez carinho no cabelo de Oz. Era com o se o garotinho tivesse um a cabeça que as pessoas gostassem de tocar. Talvez para dar sorte. — Estão fazendo um bom trabalho. Realm ente bom . Melhor do que eu quando era nova. E olhe que não vim de um a cidade grande. Isso torna as coisas m ais difíceis, não é? A porta se abriu e o vento penetrou na casa. Eugene parecia preocupado.
— O bezerro vai nascer.
No celeiro, um a vaca cham ada Purty estava deitada de lado num a grande baia, arfando e se contorcendo de dor. Eugene se aj oelhou e a segurou, enquanto Louisa colocou-se atrás dela e sondou-a com os dedos, procurando o volum e m eloso de um novo bezerro em ergindo. Um a árdua batalha, pois o bezerro ainda não parecia disposto a entrado m undo. Eugene e Louisa, porém , acabaram conseguindo persuadi-lo. Era um a m assa escorregadia de m em bros ao redor de olhos m uito apertados. O evento tinha sangue e os estôm agos de Lou e Oz deram outra reviravolta quando Purty com eu a placenta, em bora Louisa tenha lhes dito que isso era norm al. Purty com eçou a lam ber o bebê e só parou quando o pêlo j á estava colado por todo o corpo. com a aj uda de Eugene, o bezerro se equilibrou nas pernas finas e trôpegas, enquanto Louisa aj udava Purty a se colocar em posição para a etapa seguinte, um a etapa que o novilho inaugurou com a m ais natural das atitudes: m am ar. Eugene continuou ao lado da m ãe e do filhote enquanto Louisa e as crianças voltavam para casa.
Lou e Oz estavam agitados, m as tam bém exaustos, e o relógio da bisavó m ostrava que j á era quase m eia-noite.
— Eu nunca tinha visto um a vaca nascer — disse Oz.
— Você nunca tinha visto nada nascer — disse a irm ã.
Oz pensou naquilo.
— Sim , tinha visto. Estive lá quando eu nasci.
— Isso não conta — revidou Lou.
— Bem , devia contar — contra-atacou Oz. — Deu m uito trabalho. Mam ãe m e disse.
Louisa pôs outra pedra de carvão no fogo, atiçou as cham as com um garfo de ferro e recostou-se para rem endar. As m ãos cheias de veias pretas e calom bos m oviam -se devagar, m as com precisão.
— Agora vão para a cam a, vocês dois — disse ela.
— Prim eiro vou ver a m am ãe — disse Oz. — Contar sobre a vaca. — Olhou para Lou. — Minha segunda vez. — Ele se afastou.
A irm ã não m ostrou nenhum a disposição de sair de perto do calor do fogo.
— Lou, vá ver sua m ãe tam bém — disse Louisa. Lou cravou os olhos no fundo do carvão em brasa.
— Oz é novo dem ais para entender, m as eu não. Louisa pousou a blusa que estava
rem endando.
— Entender o quê?
— Os m édicos em Nova York disseram que a cada dia haveria m enos chance da m am ãe voltar a si. Agora j á se passou m uito tem po.
— Mas não se pode perder a esperança, querida. Lou se virou para olhá-la.
— Você tam bém não entende, Louisa. Nosso pai m orreu. Eu o vi m orrer. Talvez... — Lou engoliu com dificuldade —, talvez tenha m orrido parcialm ente por m inha causa.
— Ela esfregou os olhos e depois seus punhos com eçaram a se fechar. Não é com o se m am ãe estivesse deitada se recuperando. Prestei atenção no que os m édicos disseram . Ouvi tudo que os adultos disseram sobre ela, em bora eles tentassem esconder de m im . Com o se não fosse da m inha conta! Nos deixaram levá-la para casa porque não podiam fazer m ais nada. — Lou fez um a pausa, respirou fundo e foi aos poucos se acalm ando. — E você não conhece Oz. Ele m antém suas esperanças num nível tão alto que com eça a fazer coisas m alucas. E depois... — A voz de Lou fraquej ou; ela baixou os olhos. — A gente se vê de m anhã.
Sob a luz fraca do lam pião e o trem ular do fogo da lareira, Louisa ficou observando a m enina se afastar. Quando os passos cessaram , ela tornou a pegar no rem endo, m as a agulha não se m exeu. Eugene entrou, foi dorm ir e Louisa continuou lá, o fogo cada vez m ais fraco, os pensam entos a absorvendo com o ela se deixava absorver contem plando as m ontanhas.
Daí a pouco, no entanto, Louisa se levantou e foi para o quarto, onde tirou da côm oda um pequeno m aço de cartas. Subiu a escada que levava ao quarto de Lou e encontrou a m enina bem acordada, fitando a j anela.
Lou se virou e viu as cartas.
— O que é?
— Cartas que sua m ãe m e escreveu. Quero que as leia.
— Por quê?
— Porque as palavras dizem m uito sobre um a pessoa.
— As palavras não alteram nada. Oz, se quiser, que tenha esperanças. Que continue m al inform ado.
Louisa pôs as cartas na cam a.
— Às vezes as pessoas m ais velhas deviam seguir as m ais j ovens. Talvez aprendessem algum a coisa.
Depois que Louisa saiu, Lou guardou as cartas na antiga escrivaninha do pai e fechou, com toda a firm eza, a gaveta.