O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 28 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Vinte e Seis

Daí a um a sem ana, Cotton apareceu com Diam ante e entregou bandeirinhas am ericanas a Lou, a Oz e a Eugene. Trouxe tam bém um a lata com quase vinte litros de gasolina, que derram ou no tanque do Hudson.

— Não cabem os todos no Oldsm obile — explicou ele. Resolvi o problem a de um im óvel para o Leroy Meekins, que é o gerente do posto Esso. Leroy não gosta de pagar as coisas na hora e acho que ainda tenho um bom saldo com produtos do petróleo.

com Eugene no volante, foram os cinco ver a parada em Dickens. Louisa ficou no sítio, tom ando conta de Am anda, m as o grupo prom eteu que lhe traria algum a coisa da cidade.

Com eram cachorros-quentes com grandes borrifos de m ostarda e ketchup, espirais de algodão-doce e soda lim onada em quantidade suficiente para fazer as crianças correrem com grande frequência para o banheiro público. Havia concursos de habilidade em barracas instaladas onde quer que sobrasse espaço e Oz participou de todos onde fosse preciso atirar algum a coisa para derrubar um a outra. Lou com prou um bonito gorro para Louisa e deixou que Oz o levasse num a sacola de papel.

A cidade estava toda decorada de verm elho, branco e azul, e, enquanto passavam os carros do desfile, tanto os habitantes locais quanto os que tinham vindo da serra am ontoavam -se dos dois lados da rua. As grandes alegorias eram puxadas por cavalos, m ulas ou trator e exibiam os m om entos m ais im portantes da história am ericana, m om entos que, para a m aioria dos que nasceram na Virginia, tinham , obviam ente, ocorrido sem pre no Sul. Havia um grupo de crianças no carro que representava as treze colônias originais e um m enino carregava a bandeira com as cores da Virginia. Ela era m uito m aior que as bandeiras das outras crianças e a roupa do m enino era a m ais colorida. Um regim ento de condecorados veteranos de guerra tam bém desfilava. Entre eles se incluíam hom ens com barbas com pridas e corpos enrugados que alegavam ter servido tanto com o venerável Bobby Lee quanto com o fanaticam ente religioso Stonewall Jackson.

Um dos carros, patrocinado pela Southern Valley , era dedicado à m ineração de carvão e puxado por um a carreta Chevrolet pintada de dourado. Não se via nenhum m ineiro de rosto encardido ou costas curvadas. No lugar deles, plantada no centro do carro, num a plataform a elevada sim ulando um a balança para o carvão, via-se um a bela j ovem de cabelo louro, corpo perfeito e dentes m uito brancos. Ela trazia um a faixa com os dizeres "Miss Carvão Betum inoso 1940". Sua m ão acenava, um gesto m ecânico com o o de um a boneca. Mesm o as pessoas m ais ignorantes conseguiriam provavelm ente apreender a conexão sugerida entre os pedaços de rocha negra e o pote de conteúdo dourado pousado nelas. E os hom ens e m eninos tinham a esperada reação de aprovação e davam alguns assobios ante a beldade que passava.

Ao lado de Lou havia um a m ulher velha e corcunda. Ela disse que o m arido e seus três filhos trabalhavam nas m inas. A m ulher contem plava a rainha da beleza com olhos desdenhosos, com entando que aquela j ovem obviam ente j am ais chegara perto de um a m ina de carvão em toda a sua vida. E não reconheceria um a pedra de carvão m esm o se tropeçasse nela e caísse no betum e do chão.

Representantes das autoridades da cidade fizeram im portantes discursos, provocando explosões de entusiásticos aplausos entre os cidadãos. O prefeito pregou de um estrado de m adeira. Segundo Cotton disse a Lou, os hom ens sorridentes e vestidos com roupas caras ao lado dele eram altos funcionários da Southern Valley . O prefeito era j ovem e dinâm ico, com cabelo liso e brilhante. Usava um belo terno e um bonito relógio com corrente, e sugeria ilim itado entusiasm o no brilho do sorriso e nas m ãos se elevando para o céu. Era com o se estivesse pronto para agarrar algum arco-íris que estivesse passando por ali.

— O carvão é o rei — anunciava o prefeito em um m icrofone barulhento, quase tão grande quanto sua cabeça. — E com a guerra esquentando do outro lado do Atlântico e os poderosos Estados Unidos da Am érica construindo navios, canhões e tanques para nossos am igos que lutam contra Hitler, a dem anda de coque das siderurgias, do bom e patriótico coque da Virginia, baterá recordes. E dizem que em breve nos j untarem os à luta. Sim , a prosperidade está aqui realm ente em abundância e aqui perm anecerá — dizia o prefeito. — Não apenas nossos filhos viverão o glorioso sonho am ericano, m as tam bém os filhos de nossos filhos. E deverem os tudo isso ao generoso trabalho de pessoas com o os funcionários da Southern Valley , em sua incansável disposição de trazer à superfície a rocha negra que está levando esta cidade à grandeza. Tenham certeza, am igos, vam os nos tornar a Nova York do Sul. Um dia, alguns de nós vão olhar para trás e dizer: "Quem poderia saber que o destino reservava coisas tão espantosas para a gente de Dickens, na Virginia?" Mas vocês j á sabem , porque estou lhes dizendo agora. Hip-hip hurra para a Southern Valley e Dickens, na Virginia! — E o exuberante prefeito atirou para o alto o chapéu de palhinha com aba dura. Nesse m om ento, a m ultidão j untou-se a ele nas m anifestações de alegria e m ais chapéus foram atirados no rodopio da brisa. Em bora Diam ante, Lou, Oz, Eugene e Cotton tam bém aplaudissem , e as crianças sorrissem felizes um a para a outra, Lou reparou que a expressão de Cotton não era exatam ente de um desenfreado otim ism o.

Quando a noite caiu, contem plaram os fogos de artifício colorindo o céu e logo subiram no Hudson, com eçando a sair da cidade. Tinham acabado de passar pelo fórum quando Lou interrogou Cotton sobre o discurso do prefeito e sua m uda reação a ele.

— Bem , j á vi m uitas esperanças desta cidade se esborracharem no chão — disse. — E isso geralm ente acontece quando políticos e hom ens de negócios põem a boca no m undo para dizer que tudo está indo de vento em popa. Por essa razão eu sim plesm ente não sei o que dizer do discurso. Talvez desta vez sej a diferente, m as eu sim plesm ente não sei.

Lou ficou pensando nisso enquanto a barulhenta com em oração foi ficando cada vez m ais distante, até todos os ruídos serem substituídos pelo vento que soprava entre as rochas e as árvores. Eles agora voltavam a subir a serra.

Não andava chovendo m uito, m as Louisa ainda não estava preocupada, em bora rezasse todas as noites para os céus se abrirem , derram ando um dem orado e forte aguaceiro.

Estavam tirando o m ato da roça de m ilho e era um dia quente, em que m oscas e m osquitos pareciam incom odar um bocado. Lou m exia irritada na terra, pois algum a coisa não parecia certa.

— Já plantam os as sem entes. Será que não podem crescer sozinhas? — Muitas coisas am eaçam as plantações e um a ou duas sem pre conseguem criar problem as — respondeu Louisa. O trabalho nunca para, Lou. As coisas são assim aqui.

— Bem , que pelo m enos este m ilho sej a gostoso — disse Lou brandindo a enxada.

— Esta roça de m ilho é especial — disse Louisa. — É para os anim ais.

Lou quase j ogou a enxada no chão.

— Estam os tendo todo esse trabalho para alim entar os anim ais? — Eles trabalham duro para nós; tem os de fazer o m esm o para eles. Os anim ais tam bém precisam com er.

— É isso, Lou — disse Oz atacando o m ato com vigorosos golpes. — Com o os porcos vão ficar gordos se não com erem ? Me diga! Continuaram trabalhando nos canteiros de m ilho, sob o sol forte, um ao lado do outro. O sol parecia tão próxim o que Lou teve a sensação de poder pegá-lo e colocá-lo no bolso. De todos os cantos, gafanhotos e grilos cantavam para eles. Lou parou de cavar e viu Cotton chegar de carro.

— O fato de Cotton estar vindo todo dia ler para a m am ãe está fazendo Oz acreditar que ela vai m elhorar — disse Lou a Louisa, falando baixo para o irm ão não ouvir.

Louisa m anej ava a enxada com a energia de um a pessoa j ovem m as com a habilidade de um a pessoa m ais velha.

— Tem razão, é tão terrível ver Cotton querendo aj udar sua m ãe.

— Não foi isso que eu quis dizer. Gosto de Cotton. Louisa parou e se apoiou no cabo da enxada.

— E deve, porque Cotton Longfellow é um bom hom em , tenha certeza. Desde que veio pra cá j á m e aj udou em m uita ocasião difícil. Não apenas com seu trabalho de advogado, m as com a força do braço. Quando Eugene m achucou a perna, ele ficou um m ês vindo aqui para trabalhar na terra. Um tem po que podia ter gasto em Dickens, ganhando um bom dinheiro. Está aj udando sua m ãe porque quer vê-la m elhor. Quer que ela sej a capaz de voltar a abraçar você e o Oz.

Lou não disse nada, m as estava tendo dificuldade em trabalhar com a enxada e apenas cortava o m ato, em vez de arrancá-lo. Louisa só levou um m inuto para m ostrar de novo com o ela devia fazer e Lou aprendeu rapidam ente a técnica adequada.

Trabalharam m ais um pouco em silêncio, até Louisa se endireitar e pôr a m ão nas costas.

— O corpo está m e dizendo que devo ir um pouco m ais devagar. Mas o problem a é que ele vai querer com er no inverno que vem .

Lou contem plou as roças. Naquele dia o céu parecia pintado com tinta lustrosa e as árvores cobriam cada centím etro quadrado de um esplêndido verde.

— Por que papai nunca voltou para cá? — perguntou Lou em voz baixa.

Louisa seguiu o olhar de Lou.

— Não existe nenhum a lei que obrigue um a pessoa a voltar ao lugar de origem — disse ela.

— Mas o papai escreveu sobre esses m ontes em todos os livros. Sei que gostava daqui.

Louisa olhou para a m enina.

— Vam os tom ar algum a coisa gelada — disse ela. Mandou Oz descansar um pouco e disse que iam lhe trazer um pouco d'água. Im ediatam ente o m enino largou a enxada, pegou um as pedras e com eçou a pular e a gritar, sem dúvida de um m odo ainda típico dos m eninos pequenos. Ele costum ava colocar um a lata em cim a da estaca da cerca e depois atirava pedras até derrubá-la. Ficara tão bom nisso que às vezes fazia a lata voar logo no prim eiro arrem esso.

As duas deixaram Oz se divertindo e foram para a casa de refrigeração, que ficava num dos lados de um a encosta íngrem e, logo abaixo da casa, à som bra de nogueiras, de um carvalho torto e de um a m uralha de gigantescos rododendros. Perto dessa cabana havia um toco de choupo, a ponta de um grande favo de m el se proj etando dele e um enxam e de abelhas voando sobre tudo.

Elas tiraram canecas de m etal de ganchos na parede e as m ergulharam na água. Depois se sentaram do lado de fora e beberam . Louisa pegou as folhas verdes de um a cam élia da m ontanha que brotara ao lado da casa de refrigeração e que m ostrava belos brotos arroxeados, m as ainda bem escondidos.

— Um dos segredinhos de Deus — explicou ela. Lou continuava sentada, "a caneca encaixada entre os j oelhos curvados, vendo e ouvindo a bisavó naquela som bra agradável.

E Louisa ia apontando outras coisas de interesse. — Ali está um papafigo. Andavam m eio sum idos. Não sei por quê. — Apontou para outro passarinho no galho de um bordo.

— É um curiango ou bico-de-viúva. Não m e pergunte com o o bendito pássaro ganhou esse nom e porque não sei.

Finalm ente seu rosto e tom ficaram sérios.

— A m ãe de seu pai — continuou ela — nunca foi feliz aqui. Era de Shenandoah Valley . Ela e m eu filho Jake se conheceram num concurso de dança de que ela participou.

Os dois se casaram depressa dem ais e arrum aram um a pequena choupana perto daqui. Mas sei com o ela queria viver na cidade. Achava o vale um lugar atrasado. Deus, essas m ontanhas deviam parecer os confins do m undo para a pobre m oça! Mas então ela teve seu pai, e nos anos seguintes houve a pior seca que j á se viu. Quanto m enos chovia, m ais a gente trabalhava. Meu m enino, então, logo perdeu seu pouso e os dois vieram m orar com igo. E nada de chuva. A seca dava cabo dos anim ais. Cabo de quase tudo que a gente tinha. — Louisa apertou as m ãos e depois as soltou. — Mas conseguim os superar. E de repente as chuvas vieram e tudo ficou bem . Mas quando seu pai tinha sete anos, a m ãe dele se fartou de vez da vida que estava levando e partiu. De qualquer m odo, ela nunca quis aprender a fazer nada no sítio. Nem na cozinha, onde m al sabia m exer num a frigideira. Acho que nunca foi de grande valia para Jake.

— Mas Jake não quis ir com ela? — Oh, achei que ia querer, pois ela era realm ente um a bela coisinha e um hom em novo é um hom em novo. Os dois não chegaram exatam ente a brigar, m as ela não quis ficar com ele, se é que você m e entende, pois ele era da roça e tudo m ais. E ela abriu m ão do próprio filho.

A lem brança era dolorosa e Louisa balançou a cabeça antes de continuar: — Jake, é claro, nunca ia superar isso. E ainda por cim a o pai dele m orreu logo depois, o que não tornou as coisas m ais fáceis nem para ele nem para m im . — Louisa sorriu. — Mas seu pai, Lou, foi a estrela que brilhou naquele tem po, m esm o que eu e ele tivéssem os de ver o hom em que am ávam os ir m orrendo aos poucos. Nada havia que pudéssem os fazer. Dois dias depois de seu pai ter feito dez anos, Jake m orreu. Alguns dizem que foi ataque do coração. Eu digo que foi por causa do coração partido.

Aí só sobram os eu e seu papai por estas bandas. Mas foi bom , Lou, pois estávam os unidos por m uito am or. Seu pai, é claro, sentiu m uito a m orte de Jake. — Ela se interrom peu e tom ou um gole da água fria. — Mas ainda não sei lhe responder por que ele se foi e nunca voltou. Nem um a vez.

— Acha que tenho traços dele? — perguntou Lou em voz baixa.

— O m esm o fogo no olhar, a m esm a obstinação. Um grande coração tam bém . E vej o com o tom a conta de Oz. — Louisa sorriu. — Seu pai sem pre m e fazia rir duas vezes por dia. Quando eu acordava e pouco antes de ir para a cam a. Dizia que eu devia com eçar e term inar o dia rindo.

— Acho que m am ãe devia ter nos deixado escrever para você. Dizia que um dia ia deixar, m as isso nunca aconteceu.

— O choque de receber um a carta de vocês seria com o apanhar de vara. Cheguei a responder a algum as cartas dela, sabia? Mas m eus olhos j á não aj udavam . E tam bém havia falta de papel e selo.

Lou j á parecia m uito à vontade.

— Minha m ãe pediu ao papai para se m udar para a Virginia.

— E o que seu pai disse? — Louisa parecia surpresa.

— Não sei. — Lou não podia dizer a verdade.

— Ah — foi tudo que Louisa proferiu com o resposta. Quando deu por si, Lou sentia-se cada vez m ais inquieta com certas atitudes do pai, um a inquietação que não se lem brava de ter sentido antes.

— Não posso acreditar que ele a tenha deixado aqui sozinha.

— Eu o obriguei a ir. A serra não era um lugar para alguém com o ele. Eu tinha de com partilhar aquele m enino com o m undo. E seu papai não parou de m e escrever todos esses anos. E m e m andava um dinheiro que não tinha. Agiu m uito bem com igo. Quanto a isso, nunca pense m al dele.

— Mas não ficou m agoada por ele nunca ter vindo? Louisa pôs um braço em volta da m enina.

— De certa form a ele veio agora. Mandou-m e as três pessoas que m ais am ava no m undo.

Fora um a dura j ornada por um a trilha estreita que frequentem ente sum ia num em aranhado de m ato, forçando Lou a desm ontar e puxar a égua. Tinha sido, porém , um belo passeio, pois era a época em que os pássaros m ais cantavam e os ram os de hortelã floresciam entre as rochas de ardósia. Ela passara por grutas desconhecidas cavadas em pedras calcárias e escondidas atrás de grandes salgueiros. Em m uitas dessas grutas havia fontes de água espum ante. Ao redor, viam -se os m atagais de propriedades há m uito abandonadas, as ervas daninhas florescendo em volta dos esqueletos de pedra das cham inés que sobravam das casas.

Finalm ente, seguindo as instruções que Louisa lhe dera, Lou se viu na pequena casa da clareira. Ela exam inou o lugar.

Provavelm ente, em m ais um ou dois anos tam bém aquela casa ia sucum bir ao m ato selvagem que a pressionava por todos os lados. Arvores estendiam seus galhos pelo telhado, onde parecia haver m ais buracos que telhas. Faltavam m uitos pedaços de vidro na j anela; um broto de árvore crescia através de um a fenda na parede da varanda e um a trepadeira de sum agre corria pelo parapeito lascado. A porta da frente estava sustentada por um único prego; na realidade encontrava-se toda puxada para trás, de m odo que sem pre perm anecia aberta. Havia um a ferradura pregada sobre o um bral, um talism ã para dar sorte, Lou presum iu, e o lugar bem parecia estar precisando dela.

O terreno em volta tam bém , pois nele só havia m ato alto. E no entanto o quintal de terra estava bem varrido, não havia lixo espalhado e havia um canteiro de peônias ao lado da casa, com um pé de lilases no fundo e um a grande roseira de gueldres florindo ao lado de um pequeno poço com m anivela. Um a trepadeira florida subia por um caram anchão num dos lados da casa. Lou ouvira dizer que as flores se desenvolviam m elhor quando ninguém cuidava delas. Se isto fosse verdade, aquela devia ser a m ais ignorada trepadeira com que Lou j á deparara, pois chegava a vergar com o peso dos botões m uito verm elhos das suas rosas. Jeb apareceu no canto da casa, latindo para Lou e para a égua. Quando saiu da casa, Diam ante parou de im ediato e olhou nervoso em volta, com o se procurasse um lugar para se esconder. Não havia, porém , nenhum .

— O que está fazendo aqui? — finalm ente ele perguntou. Lou desceu do cavalo e se aj oelhou para brincar com Jeb.

— Só vim fazer um a visita. Onde está sua fam ília? — O pai está trabalhando. A m ãe desceu para ir ao McKenzie's.

— Vam os dar um alô para eles? Diam ante enfiou as m ãos nos bolsos e pousou um pé sobre o outro.

— Olhe, eu tenho coisas a fazer.

— Com o o quê? — perguntou Lou se levantando.

— Com o pescar. Tenho de ir pescar.

— Bem , eu vou com você.

— Sabe pescar? — disse ele em pinando a cabeça na direção da m enina.

— No Brookly n há m uitos lugares bons para se pescar.

Estavam parados num a precária plataform a feita de tábuas ásperas de carvalho. As tábuas nem estavam pregadas, m as m eram ente apoiadas nas pedras da m argem do riacho.

Diam ante esticava a linha com um a m inhoca rosada que se contorcia enquanto Lou olhava com aversão. Um a m enina coraj osa era sem pre um a m enina coraj osa, m as um a m inhoca tam bém era sem pre um a m inhoca. Ele passou para ela um a segunda vara de pescar.

— Atire o anzol lá em baixo. Lou pegou a vara e hesitou.

— Quer que eu aj ude? — perguntou Diam ante.

— Posso fazer sozinha.

— Sei. Isto é um a vara de pescar do Sul e acho que você está acostum ada àquelas m odernas, do Norte.

— Tem razão, só uso delas. Varas do Norte. Diam ante parecia ter acreditado, pois não esboçou o m enor sorriso. Lim itou-se a pegar a vara, m ostrar com o devia ser segurada e, para exem plificar, fez um arrem esso quase perfeito.

Lou observou cuidadosam ente sua técnica, fez alguns arrem essos para treinar e acabou conseguindo executar um belo m ovim ento.

— Ora, j á está quase tão boa quanto eu — disse Diam ante com a devida m odéstia sulista.

— Daqui a pouco vou estar m elhor que você — disse ela num tom de m alícia.

— Mas ainda tem que pegar o peixe — replicou Diam ante. Meia hora m ais tarde, com m ovim entos precisos, Diam ante tinha pegado e j ogado na m argem a terceira truta. Lou o observava, sem dúvida adm irada com a evidente habilidade, m as sua disposição com petitiva falou m ais alto e ela redobrou os esforços para pegar algum a coisa m aior.

Por fim , sem aviso, a linha do anzol de Lou levou um tranco e a m enina foi puxada para a água. com um m ovim ento brusco, ela conseguiu trazer o anzol e a m etade de um grande bagre veio à tona.

— Santo Deus! — disse Diam ante vendo a criatura se elevar e depois cair na água. — O m aior bagre que j á vi. — Estendeu a m ão para a vara de Lou.

— Deixe com igo! — gritou ela. Diam ante recuou e ficou vendo a m enina e o peixe se engalfinharem num a luta quase equilibrada. De início, Lou parecia que ia vencer.

Ela puxava e depois afrouxava a linha, enquanto Diam ante gritava palavras de conselho e encoraj am ento. Lou, no entanto, escorregava cada vez m ais sobre o precário píer e m ais de um a vez quase caiu dentro d'água. Diam ante agarrava Lou pela calça com prida e a puxava para trás. Finalm ente, ela ficou cansada e ofegante.

— Preciso de aj uda, Diam ante.

com os dois agarrados no caniço, o peixe foi rapidam ente trazido para perto da m argem . Diam ante estendeu a m ão, tirou o bagre da água e j ogou-o nas tábuas, onde ele ficou se agitando de um lado para o outro. Gordo e grosso, seria gostoso de com er, pensou Diam ante. Lou se abaixou e olhou orgulhosa para sua conquista, por m ais que tivesse sido aj udada. E enquanto ela se curvava para observar ainda m ais de perto, o peixe se sacudiu outra vez, deu um salto cuspindo água e conseguiu arrancar o anzol da boca. Lou gritou e pulou para trás, esbarrou em Diam ante e os dois foram aos tram bolhões para dentro d'água. Vieram à tona cuspindo e vendo o bagre se j ogar na beira do píer, cair na água e desaparecer num piscar de olhos. Diam ante e Lou se entreolharam por um torturante m om ento e depois deram início a um a titânica batalha de j ogar água um no outro. Provavelm ente o barulho de seus risos seria ouvido na m ontanha ao lado.

Lou estava sentada diante do fogão enquanto Diam ante alim entava as cham as para as roupas secarem . Ele pegou um velho cobertor que, para Lou, tinha o cheiro de Jeb, de m ofo ou das duas coisas, m as ela agradeceu quando ele o pôs em volta de seus om bros. O interior da casa de Diam ante a surpreendeu, pois era arrum ado e lim po, em bora as peças de m obília fossem poucas e obviam ente im provisadas. Na parede, havia um a velha foto de Diam ante e de um hom em que Lou presum iu que fosse o pai dele. Não viu nenhum a foto da m ãe. Em bora o fogo estivesse m uito alto, Jeb deitou perto dela e com eçou a catar algum as pulgas no pêlo.

Com o um perito, Diam ante tirou as escam as das trutas que havia pescado, abriu-as com um galhinho de nogueira, da boca até a cauda, e cozinhou-as no fogo. Depois cortou um a m açã e esprem eu o suco no peixe. Ele m ostrou a Lou com o lidar com as vértebras do peixe, conseguindo tirar gordos pedaços de carne branca do m eio de m inúsculas espinhas. Com eram com os dedos, o que foi m uito gostoso.

— Seu pai era realm ente bonito — disse Lou, apontando para o retrato.

Diam ante olhou para a foto.

— Sim , era. — Ele respirou fundo e olhou para Lou.

— Louisa m e contou — disse ela.

Diam ante se levantou e atiçou o fogo com um graveto de ponta torta.

— Não precisa ficar m e j ogando verde.

— Por que você m esm o não m e disse? — Por que deveria? — Porque som os am igos.

Isso abriu as defesas de Diam ante, que voltou a se sentar.

— Você tam bém ficou sem sua m ãe? — perguntou Lou.