O Poço dos Desejos
Capítulo Trinta e Oito
— Muito pelo contrário. Fui um com pleto fracasso.
— Mas o j ulgam ento ainda não com eçou.
Ele tirou os óculos e esfregou-os com a gravata.
— A verdade é que há anos eu não enfrento um a ação de verdade, e j á não era m uito bom quando enfrentava. Só tenho arquivado docum entos, redigido escrituras e testam entos, esse tipo de coisa. Nunca enfrentei um advogado com o Goode. Ele tornou a pôr os óculos, vendo claram ente talvez pela prim eira vez naquele dia. — Não gostaria de fazer prom essas que não vou poder cum prir.
Essas palavras ficaram entre eles com o um a parede de cham as.
— Confio em você, Cotton. Aconteça o que acontecer, confio em você. Queria que soubesse disso.
— Mas por que diabo você haveria de confiar em m im ? Não fiz nada além de desapontá-la. E citei uns pobres poem as que nada podem m udar.
— Não, você tentou aj udar ao m áxim o.
— Jam ais poderei ser o hom em que seu pai era, Lou. Na realidade, parece que fiquei m uito abaixo de todas as expectativas.
Lou continuou parada ao lado dele.
— Me prom ete um a coisa, Cotton? Prom ete que nunca vai nos deixar? Após alguns m om entos, Cotton pôs a m ão no queixo da m enina e disse num a voz baixa, m as que de m odo algum perdeu sua energia: — vou ficar com vocês pelo tem po que vocês quiserem .
CAPÍTULO TRINTA E OITO
Na frente do fórum , havia Fords, Chevy s e Chry slers estacionados ao lado de carroças puxadas por m ulas e cavalos. A neve fina tinha deixado um a cam ada m uito branca sobre tudo, m as ninguém prestava m uita atenção. Estavam todos se dirigindo para o fórum , onde haveria um show m uito m ais grandioso. ':) A sala de audiências nunca com portara tantas alm as. Todos os lugares do grande saguão estavam ocupados. Havia gente em pé nos fundos e até m esm o entupindo, com o sardinha em lata, um balcão do segundo andar. Eram hom ens da cidade, de terno e gravata, m ulheres com os vestidos que usavam na igrej a e chapéus quadrados com véus, flores artificiais ou cachos de frutas. Perto delas havia sitiantes com m acacões lim pos e chapéus de feltro na m ão, o fum o de m ascar guardado nos bolsos. Suas m ulheres estavam ao lado, com vestidos Chop até os tornozelos e óculos de aro fino em rostos cansados, enrugados. Todos olhavam ansiosam ente ao redor, com o se em breve algum a rainha ou algum a estrela do cinem a fosse entrar pela porta.
As crianças se apertavam entre os adultos com o cim ento entre tij olos. Para ver m elhor, um m enino subiu no parapeito de um a galeria e se agarrou a um a das colunas.
Um hom em o puxou para baixo, advertindo-o num tom severo que aquilo era um tribunal de j ustiça, onde as pessoas tinham de se com portar com decoro, não de m odo idiota. Envergonhado, o garoto saiu de m ansinho. O hom em , então, subiu no parapeito, para pelo m enos ele ter um a visão m elhor.
Quando Cotton, Lou e Oz subiam a escada do fórum , um m enino de capa, calça com prida e brilhantes sapatos pretos correu na direção deles.
— Meu pai diz que vocês estão prej udicando a cidade inteira por causa de um a m ulher. Ele acha que tem os de fazer o m áxim o para que o pessoal do gás não saia daqui. — O garoto olhava para Cotton com o se o advogado tivesse cuspido na m ãe dele e rido depois.
— Será que é isso m esm o? — disse Cotton. — Bem , eu respeito a opinião de seu pai, em bora não concorde com ela. Mas diga a ele que estou à disposição se ele quiser discutir o assunto pessoalm ente com igo. — Cotton olhou em volta e viu alguém que certam ente era o pai, pois a criança não parava de encará-lo. O hom em , no entanto, logo desviou o olhar. Cotton olhou de relance para os carros e carroças e disse para o m enino: — É m elhor você entrar agora com seu pai ou vão ter de ficar em pé. Parece que o fórum virou um lugar m uito popular.
Cotton entrou na sala de audiências im pressionado com o núm ero de espectadores. Sem dúvida, a fase m ais dura do trabalho na terra j á acabara e as pessoas tinham tem po disponível. Para os citadinos era um show acessível, prom etendo fogos de artifício a um preço j usto. Parecia que eles não estavam determ inados a perder um único artifício legal, um único subterfúgio sem ântico. Para m uitos, aquele seria provavelm ente o m om ento m ais vibrante de suas vidas. E isso não era m au, Cotton pensou.
Mas Cotton sabia que as apostas eram altas. Um lugar m orrendo, à espera de ser ressuscitado por um a em presa de bolso recheado. E tudo que ele tinha para opor a isso era um a senhora idosa deitada num a cam a, cuj os sentidos aparentem ente não funcionavam m ais. Claro, havia tam bém duas crianças ansiosas contando com ele e, j azendo em outra cam a, um a m ulher a quem talvez entregasse o coração se um dia ela despertasse. Deus, será que teria forças para enfrentar tanta coisa? — Procurem um lugar — disse Cotton às crianças. — E fiquem quietas.
— Boa sorte. — Lou deu-lhe um beij o no rosto e cruzou os dedos, enquanto um lavrador conhecido abria espaço para os dois num a das fileiras de bancos.
Cotton subiu o corredor, acenando para as pessoas que reconhecia na m ultidão. Chapados na prim eira fila, estavam Miller e Wheeler.
Goode se achava na m esa da prom otoria, feliz com o um hom em fam into num piquenique de igrej a. Seus olhos contem plavam a m ultidão ansiosa para testem unhar a contenda.
— Está pronto para chutar a bola? — disse Goode.
— Tão pronto quanto você-respondeu Cotton heroicam ente. Goode deu um a risada.
— com todo o devido respeito, eu duvido disso.
Fred, o oficial de j ustiça, apareceu e disse suas palavras oficiais. Logo todos se levantavam . A corte do m eritíssim o Henry J. Atkins estava agora em sessão.
— Mandem entrar o j úri — disse o j uiz a Fred.
O j úri ocupou seus lugares. Cotton exam inou um por um dos j urados, e quase caiu no chão quando viu George Davis com o um dos escolhidos.
— Juiz — trovej ou ele —, George Davis não era um dos j urados que tínham os selecionado! Ele tem um nítido interesse no resultado desta ação.
Atkins se inclinou para a frente: — Escute, Cotton, você sabe da dificuldade que tivem os para conseguir os j urados. Tivem os que dispensar Leroy Jenkins porque ele levou um coice da m ula. Sei que George Davis não é exatam ente o suj eito m ais popular do local, m as tem tanto direito de estar aqui quanto qualquer outro. — O j uiz se virou para o lado. — Você acredita, George, que será capaz de m anter a m ente aberta e analisar com j usteza este caso? com sua roupa de m issa, Davis parecia inteiram ente respeitável.
— Sim , senhor — respondeu ele num tom gentil e olhou em volta.— Ora, todos nós frequentávam os a casa de Louisa, bem ao lado da m ina. Sem pre nos dem os bem . — Mostrou um sorriso com dentes escuros. Foi um m ovim ento difícil, com o se ele nunca tivesse tentado fazer aquilo antes.
— Tenho certeza que o sr. Davis será um excelente j urado, m eritíssim o — disse Goode. — Nenhum a obj eção de m inha parte.
Cotton olhou para Atkins e a curiosa expressão na cara do j uiz o fez pensar duas vezes no que realm ente estava acontecendo ali.
Lou observava lá de trás, resm ungando em silêncio. Aquilo estava errado. Teve vontade de se levantar e dizer isso, m as pela prim eira vez na vida sentiu-se bastante intim idada. Afinal, estava num tribunal de j ustiça.
— Ele está m entindo! — A voz ecoou e todas as cabeças ali presentes se viraram para o ponto de onde ela vinha.
Quando Lou olhou para o lado, Oz, parecendo m ais alto que todo m undo na corte, estava de pé na frente de seu banco. Os olhos pareciam em brasa e o dedo apontava direto para George Davis.
— Ele está m entindo! — Oz berrou de novo com um a voz tão forte que m esm o Lou teve dificuldade em reconhecê-la com o a voz do irm ão. — Ele odeia Louisa. É errado ele estar aqui! Pasm ado com o todos os outros, Cotton olhava ao redor. O j uiz Atkins encarava o m enino, e não era de m odo algum um a expressão satisfeita. Goode estava prestes a saltar de pé. O olhar de Davis parecia tão febril que Cotton deu graças a Deus pelo hom em não estar segurando um a arm a. Cotton correu para Oz e pegou-o pela m ão.
— Ao que parece, a propensão para espetáculos públicos corre no sangue da fam ília Cardinal — rosnou Atkins. — Não podem os ter isto aqui, Cotton! — Eu sei, m eritíssim o. Eu sei.
— Não está certo — gritava Oz. — Esse hom em é um m entiroso! Lou parecia assustada.
— Oz — dizia ela —, por favor, j á chega! — Não, não chega, Lou — respondia Oz. — Aquele hom em é detestável. Deixa a fam ília passar fom e. F m au! — Cotton, tire agora esta criança daqui! — berrou o j uiz. Neste m inuto! Cotton levou Oz para fora, com Lou correndo atrás.
Sentaram -se na escadaria fria do tribunal. Oz não estava chorando. Ficou apenas sentado, os pequenos punhos esm urrando as coxas m agras. Lou sentiu as lágrim as correrem pelo rosto ao ver o estado do irm ão. Cotton pôs o braço em volta dos om bros de Oz.
— Isso não é direito, Cotton — disse Oz. — Sim plesm ente não é. — O m enino continuava socando as pernas.
— Eu sei, filho. Eu sei. Mas tudo vai dar certo. Sabe, ter George Davis naquele j úri pode ser um a boa coisa para nós.
— Com o assim ? — Oz parou de se esm urrar.
— É um dos m istérios da lei, Oz, m as quanto a isso você vai ter de confiar em m im . Bem , suspeito que vocês dois continuam querendo assistir ao j ulgam ento. — Am bos disseram que realm ente estavam m uito dispostos a ver.
Cotton olhou em volta e viu o subdelegado Howard Walker parado j unto à porta. — Howard, está um pouco frio para essas crianças esperarem aqui fora. Se eu garantir que elas não vão m ais se m anifestar, será que não acharia um m eio de escondê-las em algum lugar? Eu não posso dem orar m ais, percebe? Walker sorriu e pôs a m ão no cinto de m unições.
— Venham com igo, crianças. Vam os deixar Cotton fazer sua m ágica.
— Obrigado, Howard — disse Cotton —, m as saiba que aj udar-nos pode lhe custar algum a im popularidade nesta cidade.
— Meu pai e m eu irm ão m orreram naquelas m inas. Quero que a Southern Valley vá para o inferno. Pode ir tranquilo e m ostrar a eles com o é bom advogado.
Depois que Cotton se afastou, Walker levou Lou e Oz por um a entrada dos fundos e, após ouvir de Oz a solene prom essa de que ele não voltaria a se m anifestar, instalou-os num canto do balcão reservado para visitantes especiais.
Lou se virou para o irm ão e sussurrou: — Oz, você foi realm ente coraj oso em fazer o que fez. Eu fiquei com m edo. — Quando Oz sorriu, Lou percebeu o que estava faltando. — Ei, onde está o urso que eu lhe dei? — Droga, Lou, j á estou velho dem ais para ursos ou para chupar o dedo! Lou olhou para o irm ão, percebendo de im ediato com o ele tinha razão. E um a lágrim a se agarrou no seu olho, pois im aginara Oz crescido, forte, sem precisar m ais do seu apoio de irm ã m ais velha.
Na frente da sala de audiências, Cotton e Goode estavam tendo um caloroso debate com o j uiz Atkins.
— Agora escute aqui, Cotton — dizia Atkins. — Não m e esqueci do que disse sobre George Davis e sua obj eção foi devidam ente registrada nos autos, m as Louisa trouxe ao m undo dois daqueles j urados e a prom otoria não se opôs. — Ele olhou para Goode. — Dr. Goode, será que nos perm itiria um m inuto de conversa a sós? O advogado pareceu chocado.
— Meritíssim o, um a conversa separada com um a das partes? Não fazem os esse tipo de coisa em Richm ond.
— Bem , a droga do lugar em que vivem os não é Richm ond. Agora, por favor, nos dê um instante. — Atkins sacudiu a m ão com o se enxotasse m oscas, e Goode voltou relutantem ente à sua m esa.
— Cotton — disse Atkins —, nós dois sabem os que há m uitos interesses envolvidos neste caso e nós dois sabem os por quê: dinheiro! Vej a, Louisa está internada no hospital e a m aioria das pessoas acha que ela nunca vai se recuperar. E enquanto isso a Southern Valley fica contando as suas notas na cara de todo m undo.
Cotton abanou a cabeça.
— Então acha que o j úri vai se colocar contra nós a despeito dos m éritos do caso? — Bem , não tenho certeza absoluta, m as se você perder neste tribunal...
— A presença de George Davis no j úri m e daria um a base realm ente sólida para um a apelação — concluiu Cotton.
— Ora, eu nem tinha pensado nisso... — Atkins pareceu satisfeito pelo fato de Cotton ter apreendido tão rapidam ente a estratégia. — Felizm ente você pensou. Agora vam os abrir o show.
Cotton voltou para sua m esa enquanto Atkins batia o m artelo e anunciava.
— O j úri considere-se então referendado. Podem se sentar. O j úri obedeceu coletivam ente. Atkins exam inou-os devagar até seu olho pousar em Davis.
— Agora m ais um a coisa antes de com eçarm os. Há trinta e quatro anos m e encosto nesta cadeira e nunca um m em bro do j úri foi desonesto ou ardiloso nas dependências de m inha corte. Isto nunca aconteceu nem acontecerá, pois se acontecer os responsáveis vão achar um a brincadeira passar a vida inteira num a m ina de carvão, um a festa de aniversário com parado ao que vou fazer com eles. — Deu m ais um a boa olhada em Davis, virou-se com ar sem elhante para Goode e Miller, e depois concluiu: — Com o as partes abriram m ão dos libelos iniciais, a prom otoria pode cham ar sua prim eira testem unha.
— A prom otoria cham a o Dr. Luther Ross — disse Goode.
O pesadão Dr. Ross se levantou e foi para o banco das testem unhas. Tinha a gravidade de que os advogados gostavam , pelo m enos quando o suj eito estava do lado deles; caso contrário, seria apenas um m entiroso bem pago.
Fred aj udou-o a prestar j uram ento.
— Levante sua m ão direita e ponha a esquerda sobre a Bíblia. Jura solenem ente dizer a verdade, som ente a verdade, nada m ais que a verdade com a aj uda de Deus? Ross garantiu que, com toda a certeza, diria a verdade, nada m ais que a verdade e encaixou-se no banco das testem unhas. Fred deu m eia-volta e Goode se aproxim ou.
— Por favor, Dr. Ross, poderia declarar suas excelentes credenciais ao j úri? — Sou diretor do asilo que fica abaixo de Roanoke. Tenho m inistrado cursos de avaliação m ental no Instituto Médico de Richm ond e na Universidade da Virginia. E cuidei pessoalm ente de m ais de dois m il casos com o este.
— Bem , tenho certeza de que o Dr. Longfellow e esta corte concordariam que o senhor é realm ente um perito na área. Na realidade, talvez possam os considerá-lo a autoridade núm ero um em seu cam po e eu diria que este j úri m erece ter um a testem unha do seu nível.
— Protesto, m eritíssim o! — disse Cotton. — Não tem os nenhum a evidência de que o Dr. Goode estej a gabaritado para atribuir posições num a escala de perícia.
— Protesto aceito, Cotton — disse Atkins. — Continue, Dr. Goode.
Goode sorriu m aliciosam ente, com o se tivesse provocado aquele pequeno conflito para avaliar a fibra de Cotton.
— Diga-m e, Dr. Ross — com eçou Goode —, o senhor j á teve oportunidade de exam inar Louisa Mae Cardinal? — Já.
— E na condição de especialista, qual é sua opinião quanto à com petência m ental daquela senhora? Ross bateu no parapeito da grade de m adeira com um a das m ãos gorduchas.
— Ela não é m entalm ente capaz. De fato, m inha opinião abalizada é que devia ser interditada.
Houve um rum or alto na assistência e Atkins bateu im pacientem ente o m artelo.
— Silêncio! — Interditada? — continuou Goode. — Ora, ora. Mas isso é um assunto um tanto sério. Acha, então, que ela não está em condições de cuidar dos próprios negócios? Cuidar, por exem plo, da venda da propriedade? — Absolutam ente não está. Poderia ser facilm ente enganada. Entendam , aquela pobre m ulher não consegue sequer assinar o próprio nom e. Provavelm ente nem sabe com o se cham a.
— Ross encarou o j úri com ar de extrem a autoridade e, no tom estudado de um ator no palco, repetiu: — Interditada.
Goode fez um a série de outras perguntas, todas cuidadosam ente m ontadas, e para cada um a recebeu as respostas que queria: Louisa Mae Cardinal estava sem dúvida m entalm ente incapacitada, segundo o valoroso perito Dr. Luther Ross.
— Sem m ais perguntas — disse Goode por fim .
— Dr. Longfellow? — disse Atkins. — Acredito que desej e inquirir a testem unha...
Cotton se levantou, tirou os óculos sem fechar as hastes e se dirigiu à testem unha.
— O senhor disse que exam inou m ais de duas m il pessoas? — Exatam ente — disse Ross em pinando ligeiram ente o peito.
— E quantas o senhor j ulgou incapazes? O peito de Ross de im ediato se esvaziou. Sem a m enor dúvida ele não esperava aquela pergunta.
— Hum , bem , é difícil dizer.
Cotton olhou de relance para o j úri e m oveu-se na direção dele.
— Não, realm ente não é. O senhor tem m eram ente de dizer. Deixe-m e aj udá-lo um pouco. Cem por cento? Cinquenta por cento? — Cem por cento não.
— Nem cinquenta.
— Não.
— Vam os vasculhar m ais um pouco. Oitenta por cento? Noventa? Noventa e cinco por cento? Ross pensou alguns m om entos.
— Noventa e cinco por cento parece razoável.
— Está bem . Então vam os ver. Acho que isso corresponde a m il e novecentas pessoas dentre duas m il. Deus, é um m onte de gente m aluca, Dr. Ross! A assistência riu e Atkins bateu o m artelo, em bora um leve sorriso tenha escapado de seus lábios. Ross encarou o advogado.
— Me lim itei a registrar o que vi — disse ele.
— Dr. Ross, quantas vítim as de ataque cardíaco o senhor exam inou para determ inai se eram m entalm ente com petentes? — Hum , bem , não posso m e lem brar de repente. Cotton com eçou a andar de um lado para outro diante do banco das testem unhas. Ross não tirou os olhos do advogado e um fio de suor apareceu em sua testa.
— Suponho que a m aioria das pessoas que o senhor exam inou tivessem de fato algum problem a m ental. Aqui, no entanto, tem os um a vítim a de ataque cardíaco cuj a incapacidade física pode fazê-la parecer m entalm ente incapaz, em bora ela possa estar plenam ente consciente. — Cotton procurou e descobriu Lou no balcão. — Quero dizer, o fato de um a pessoa não poder falar ou se m exer não indica que não possa com preender o que acontece à sua volta. Ela pode m uito bem estar vendo, ouvindo e entendendo tudo.
Tudo! Cotton recuou um pouco e encarou a testem unha.
— E se lhe for dado tem po, pode m uito bem se recuperar inteiram ente...
— Não é adm issível que a m ulher que eu vi se recupere.
— O senhor tam bém é doutor em m edicina ou especialista em ataques cardíacos? — perguntou Cotton num tom agudo.
— Bem , não. Mas...
— Então gostaria que o tribunal instruísse o j úri para não levar em conta este depoim ento.
Atkins se virou para o grupo de j urados.
— Quero instruí-los para que não sej a considerada a afirm ação do Dr. Ross segundo a qual a Sra. Cardinal não poderia se recuperar. Está m ais do que claro que ele não é com petente para testem unhar a esse respeito.
Goode e Ross trocaram olhares ante a escolha de palavras do j uiz e Cotton pôs a m ão na boca para esconder o sorriso.
— Dr. Ross — continuou Cotton —, na realidade o senhor não pode nos garantir que hoj e, am anhã ou depois de am anhã Louisa Mae Cardinal não estará perfeitam ente habilitada para cuidar de seus negócios, certo? — A m ulher que eu exam inei...
— Por favor responda à pergunta que eu fiz, senhor.
— Não.
— Não o quê? — Cotton acrescentou num tom gentil. Declare para este ótim o corpo de j urados.
com ar frustrado, Ross cruzou os braços. ! — Não, não posso dizer com certeza que a Sra. Cardinal não vá se recuperar hoj e, am anhã ou depois de am anhã.
Goode se levantou de im ediato.
— Meritíssim o, percebo onde a defesa quer chegar e acho que tenho um a solução. Por ora devem os acatar o testem unho do Dr. Ross sobre a incapacidade da Sra. Cardinal.
Se ela m elhorar, e todos esperam os que isso aconteça, o tutor designado por este tribunal poderá ser dispensado e, a partir de então, ela própria passará a gerir os seus negócios.
— Quando isto acontecer — disse Cotton —, ela j á não será dona de terra algum a.
Goode aproveitou a deixa.
— Nesse caso a Sra. Cardinal poderá certam ente ter o consolo do m eio m ilhão de dólares que a Southern Valley ofereceu pela propriedade.
Um a grande arfada atravessou a m ultidão com a m enção da im piedosa som a. Um hom em quase caiu de um balcão e seus vizinhos tiveram de puxá-lo para a segurança. As crianças, tanto de cara suj a quanto de cara lim pa, olhavam um as para as outras, olhos esbugalhados. E as m ães e os pais estavam fazendo exatam ente a m esm a coisa.
Os j urados tam bém olharam uns para os outros em nítido assom bro. George Davis, contudo, se conservou im passível, os olhos fixos num ponto à frente, sem deixar transparecer qualquer em oção.
Goode continuou quase de im ediato: — E tenho certeza que outros tam bém ficarão consolados quando a com panhia fizer a eles ofertas sem elhantes.
Ao olhar em volta, Cotton concluiu que em breve sua carreira de advogado estaria term inada. Viu tanto os m oradores da m ontanha quanto os citadinos abrirem a boca para ele: o único hom em que se colocava no cam inho da fortuna que m ereciam ter. Mesm o, no entanto, com todo esse peso, Cotton conseguiu m anter a m ente clara: — Juiz — bradou ele — o Dr. Goode está tentando subornar o j úri com essa declaração! vou pedir anulação do j ulgam ento. O que m inha cliente pode esperar de quem vive sacudindo a bolsa de dólares da Southern Valley ? Goode sorriu para o j úri.
— Retiro a declaração. Desculpe, Dr. Longfellow. Não pretendi causar dano.
Atkins se recostou na cadeira.
— Não vai conseguir um a anulação, Cotton. Pois onde m ais irá j ulgar esta coisa? Todo m undo num raio de cem m etros com pareceu a esta corte e o próxim o fórum está a um dia de distância, um dia de trem . Para com plicar, o j uiz de lá não é de m odo algum com preensivo com o eu. — Ele se virou para o j úri. Agora escutem . Quero que ignorem a declaração do Dr. Goode sobre a oferta de com pra da terra da Sra. Cardinal. Ele não devia ter dito isso e vocês têm de esquecer o que ouviram . E estou falando sério! Em seguida Atkins se concentrou em Goode.
— Sei que tem ótim a reputação, doutor, e de j eito nenhum gostaria de ser o prim eiro a m anchá-la. Mas se tocar novam ente num a coisa dessas, vou conseguir um a cela neste prédio para o senhor cum prir um a pena por desacato. E vou m e esquecer que o coloquei lá dentro. Está m e entendendo? Goode abanou a cabeça e disse hum ildem ente: — Sim , m eritíssim o.
— Cotton, tem m ais perguntas a fazer ao Dr. Ross? — Não, j uiz — disse Cotton deixando-se cair em sua cadeira.
Goode cham ou Travis Barnes para depor. Em bora quisesse aj udar Louisa, o bom dr Barnes, engenhosam ente m anobrado por Goode, acabou apresentando um diagnóstico não m uito bom . No final, Goode sacudiu um a foto diante dele.
— Esta é sua paciente, Louisa Mae Cardinal? — Sim — disse Barnes olhando a fotografia.
— Tenho perm issão para m ostrá-la ao j úri? — Vá em frente, m as sej a rápido — disse Atkins. Goode j ogou um a cópia da foto diante de Cotton. Cotton nem sequer a olhou. Sim plesm ente rasgou-a em dois pedaços e j ogou-os na escarradeira perto de sua m esa. Enquanto isso, Goode fazia o original desfilar na frente do rosto dos j urados. A j ulgar pelos ruídos, resm ungos m udos e balanços de cabeça, a m anobra teve o efeito pretendido. O único que não parecia im pressionado era George Davis. Ele segurou a foto por um tem po particularm ente longo e Cotton achou que devia estar se esforçando trem endam ente para esconder sua satisfação. Feito o prej uízo, Goode voltou a se sentar.
— Travis — disse Cotton, erguendo-se para ficar ao lado de seu am igo —, j á tinha tratado de algum problem a de saúde de Louisa Cardinal? — Sim , j á. Duas vezes.
— Pode nos contar sobre esses problem as, por favor? — Há cerca de dez anos, ela foi m ordida por um a cobra. Ela m esm a m atou a m aldita com a enxada e desceu a serra a cavalo para m e consultar. Quando chegou lá, a inchação j á havia deixado o braço do tam anho de m inha perna. O estado dela parecia realm ente grave. Eu nunca vira um a febre tão alta. Passou dias voltando a si e perdendo a consciência.
Mas conseguiu sarar, j usto quando achávam os que não ia conseguir. Lutou com o um a m ula para sobreviver.
— E da outra vez? — Pneum onia. Naquele inverno, quatro anos atrás, quando caiu m ais neve que no Pólo Sul. Estão lem brados? — Na audiência, todos abanaram a cabeça. — Ficou im possível subir ou descer da m ontanha. Dem oraram quatro dias para se com unicar com igo. Cheguei lá e tratei-a quando a tem pestade term inou, m as ela j á havia superado sozinha a fase pior. A coisa teria acabado com um a pessoa j ovem , m esm o tom ando rem édios, e lá estava Louisa com seus setenta anos e sem um a única gota de qualquer rem édio.
Só com sua vontade de viver. Nunca tinha visto algo assim .
Cotton deu alguns passos para o lado e parou perto do j úri.
— Ela parece, então, um a m ulher de espírito indom ável. Um espírito que não pode ser derrotado.
— Protesto, m eritíssim o — disse Goode. — Está fazendo um interrogatório ou um pronunciam ento divino, Dr. Longfellow? — Espero que am bos, Dr. Goode.
— Bem , vam os pôr a coisa assim ... — disse Barnes. — Se eu fosse de apostar, j am ais apostaria contra aquela m ulher.
Cotton olhou para o j úri.
— Nem eu. Sem m ais perguntas.
— Quem vai cham ar agora, Dr. Goode? — perguntou Atkins. O advogado da União se levantou e deu um a olhada na sala. Continuou sondando e sondando até fixar os olhos no balcão, m ovê-los pelas beiradas e pousá-los nos rostos de Lou e Oz. Por fim , só no rosto de Oz.
— Ei, rapaz, por que não desce até aqui e conversa conosco? Cotton ficara de pé.
— Meritíssim o, não vej o j ustificativa...
— Juiz — interrom peu Goode —, se trata das crianças que terão um tutor nom eado e por isso acho razoável ouvir pelo m enos um a delas. E para um m enino pequeno ele tem um a voz bastante potente. Todos nesta corte j á tiveram a oportunidade de ouvi-lo em alto e bom som .
Houve um m urm úrio de riso na assistência e Atkins bateu o m artelo com ar distraído. Durante seis rápidas batidas do coração de Cotton, ele avaliou a petição de Goode.
— vou autorizar. Mas lem bre-se, Goode, ele é apenas um m enino.
— Tem toda a razão, m eritíssim o.
Lou pegou Oz pela m ão. Os dois desceram lentam ente a escada e passaram por cada um dos bancos. Todos os olhos repousaram neles. Enquanto Oz punha a m ão sobre a Bíblia e j urava, Lou retornava a seu lugar. Oz se em poleirou na cadeira. Parecia tão pequeno e indefeso que o coração de Cotton se contraiu quando Goode se m oveu na direção dele.
— Vam os com eçar, sr. Oscar Cardinal.
— Meu nom e é Oz e o nom e de m inha irm ã é Lou. Não a cham e de Louisa Mae ou algo parecido porque ela vai ficar furiosa e lhe dar um soco.
Goode sorriu.
— bom , não se preocupe com isso. Então é Oz e Lou. Ele se debruçou no parapeito do banco de testem unhas. — bom , você sabe que toda a corte lam enta que o estado de sua m am ãe continue tão ruim ...
— Ela vai m elhorar.
— Verdade? É o que dizem os m édicos? Oz virou os olhos para Lou, m as Goode pôs o dedo em seu rosto e o fez olhar de novo para a frente.
— Filho, aqui no banco das testem unhas você tem de dizer a verdade. Não pode olhar para sua irm ã m ais velha à procura de respostas. Jurou por Deus que ia dizer a verdade.
— Eu sem pre digo a verdade. Juro pela m inha m ãe m orta! — bom garoto. Então, vam os lá. Os m édicos dizem que sua m ãe vai m elhorar? — Não. Eles diziam que não tinham certeza.
— Então com o sabe que ela vai m elhorar? — Porque... porque fiz um pedido. N.
— Poço dos desej os? — disse Goode olhando para o j úri.
Sua expressão revelava claram ente o que ele achava daquela resposta. — Há um poço dos desej os por aqui? Eu desej aria m uito que tivéssem os um em Richm ond.
A assistência riu e o rosto de Oz ficou m eio rosado.
— Existe um poço dos desej os — disse ele se contorcendo na cadeira. — Meu am igo Diam ante Skinner nos contou. Você faz um pedido, entrega a coisa m ais im portante que tem e seu desej o será atendido.
— Parece realm ente ótim o. E você m e disse que fez um pedido?
— Sim , senhor.
— E entregou a coisa m ais im portante que tinha. O que era? — Oz deu um a olhada nervosa na sala. — A verdade, Oz. Lem bre que prom eteu a Deus, m eu filho!
Oz respirou fundo. — Meu urso. Entreguei m eu urso.
Houve risos abafados da assistência até as pessoas verem a lágrim a escorrer pelo rosto do m enino. Aí não houve m ais graça.
— Seu desej o j á foi atendido? — perguntou Goode. Oz balançou a cabeça.
— Não.
— Fez seu pedido há m uito tem po?
— Sim — respondeu Oz em voz baixa.
— E sua m ãe continua m uito doente, não é?
— Continua — disse Oz num a voz m uito fraca, curvando a cabeça.
Goode pôs as m ãos nos bolsos.
— Bem , a triste verdade, filho, é que as coisas não acontecem só porque desej am os que aconteçam . Não é assim na vida real. E você sabe que sua bisavó tam bém está m uito doente, não sabe?
— Sei, sim , senhor.
— Fez tam bém um pedido por ela?
— Esqueça isso, Goode — disse Cotton se levantando.
— Está bem , está bem . Oz, você sabe que não pode viver sozinho, certo? Se sua bisavó não m elhorar, vocês terão, pela lei, de ter um adulto em casa... ou irem para um orfanato. Você não quer ir para um a porcaria de orfanato, certo?
— Orfanato?
— De novo Cotton se levantara. — Quando se falou nisso?
— Bem — disse Goode —, se a Sra. Cardinal não tiver outra m aravilhosa recuperação, com o no caso da cobra e da pneum onia, as crianças terão de ir para algum lugar. E a não ser que os dois tenham algum dinheiro escondido, terão de ir para um orfanato, pois é para onde vão as crianças que não têm m ais parentes que possam tom ar conta delas nem pessoas de bom caráter, dispostas a adotá-las.
— Podem ir m orar com igo — disse Cotton.
— Com você? — Goode olhou em volta com um ar de deboche. — Um hom em solteiro? Advogado num a cidade que está m orrendo? Acho que seria a últim a pessoa da terra a quem um tribunal concederia a guarda destas crianças. — Goode se virou para Oz. — Você não gostaria de viver num a casa de verdade, com alguém que se preocupasse realm ente com você? Gostaria disso, não é?
— Não sei.
— É claro que sim . Orfanatos não são exatam ente os lugares m ais agradáveis do m undo. Algum as crianças ficam lá para sem pre.
— Meritíssim o — disse Cotton —, isso tem algum outro sentido além de aterrorizar a testem unha?
— Era j ustam ente o que eu ia perguntar ao Dr. Goode — declarou Atkins.
Foi Oz, no entanto, quem prosseguiu.
— E Lou tam bém poderia ir? Quer dizer, não para o orfanato, m as para o outro lugar?
— Ora, claro, m eu filho, claro que sim ! — disse Goode rapidam ente. — Jam ais se deve separar irm ão e irm ã — acrescentou em voz baixa. — Mas não há garantias de que isso não aconteça num orfanato. — Fez um a pausa. — Com você, então, não haveria problem a, certo, Oz?
Oz hesitou e tentou olhar para Lou, m as Goode foi m ais rápido e bloqueou sua vista.
— Acho que tudo bem — disse finalm ente o m enino, em voz baixa.
Cotton ergueu os olhos para o balcão.
Lou estava de pé, os dedos agarrados no corrim ão, o olhar ansioso fixado em Oz.
Goode se aproxim ou do j úri e passou espalhafatosam ente a m ão nos olhos.
— É um bom garoto. Sem m ais perguntas.
— Cotton? — disse Atkins.
Goode se sentou e Cotton se levantou. Ficou um instante im óvel, os dedos agarrando a ponta da m esa, os olhos fixos no m enino arrasado que ocupava a grande cadeira das testem unhas; um m enino que, Cotton sabia, só queria se levantar e voltar para perto da irm ã, pois devia estar com um m edo m ortal de orfanatos, de enorm es salas cheias de estranhos olhando para ele e de advogados gordos, cheios de palavras e de perguntas com plicadas.
— Nenhum a pergunta — disse Cotton em voz m uito baixa e Oz voltou correndo para j unto da irm ã.
Novas testem unhas desfilaram ante a corte, deixando claro que Louisa era absolutam ente incapaz de tom ar qualquer decisão consciente. Cotton só conseguiu neutralizar detalhes ou pequenos lapsos dos depoim entos. Por fim , os trabalhos daquele dia foram suspensos e Cotton deixou a corte com as crianças. Do lado de fora, foram interceptados por Goode e Miller.
— Está travando um a boa batalha, Dr. Longfellow — disse Goode —, m as todos sabem os no que isto vai dar. O que acha de colocarm os agora um ponto final nesta coisa? Poupar as pessoas de novos constrangim entos. — Disse isto olhando para Lou e para Oz. Quando com eçou a dar tapinhas na cabeça de Oz, o m enino atirou-lhe um olhar febril, um olhar que fez Goode tirar a m ão antes que algo acontecesse com ela.
— Escute, Longfellow — disse Miller, tirando um pedaço de papel do bolso. — Tenho aqui um cheque de m eio m ilhão de dólares. Basta term inar com este espetáculo ridículo e ele é seu.
Cotton olhou para Oz e para Lou.
— Escute aqui, Miller — disse. — vou levar isto até o fim pelo bem das crianças. Digam o que disserem , é o que vou fazer.
Miller se abaixou e sorriu para Lou e Oz.
— Este dinheiro pode ser de vocês agora. Para que com prem o que quiserem . Vão poder m orar num a grande casa com um carro fantástico na porta e gente paga tom ando conta de vocês. Um a vida realm ente m uito boa. O que m e dizem , crianças?
— Já tem os um a casa — respondeu Lou.
— Tudo bem , o que m e dizem então da m am ãe? Gente no estado dela precisa de m uitos cuidados m édicos e eles não são baratos. — Miller sacudia o cheque na frente da m enina. Isto resolve todos os seus problem as, senhorita! Goode tam bém se abaixou e olhou para Oz.
— E isto vai deixar longe, bem longe de você aqueles horríveis orfanatos. Quer ficar ao lado de sua irm ã, não quer?
— Pode guardar a droga do seu dinheiro — disse Oz. — Não querem os nem precisam os dele. E Lou e eu sem pre vam os ficar j untos. No orfanato ou não!
Oz pegou a m ão da irm ã e com eçou a se afastar com ela. Cotton observou os hom ens se levantando, Miller furioso, tornando a guardar o cheque no bolso.
— Ouvim os o que era preciso da boca das crianças — disse Cotton. — Acho que devíam os aprender com elas. — E tam bém se afastou.
De volta ao sítio, Cotton discutiu o assunto com Lou e Oz.
— A não ser que Louisa possa entrar andando am anhã naquela corte, acho que ela vai perder sua terra. — Olhou para os dois. — Mas aconteça o que acontecer, estarei sem pre aqui. vou tom ar conta de todos vocês. Disso não tenham m edo. Jam ais irão para um orfanato! E nunca serão separados. Eu j uro! — Lou e Oz deram o abraço m ais apertado do m undo em Cotton, que foi em bora para preparar o últim o dia do j ulgam ento. Talvez seu últim o dia naquela m ontanha.
Lou preparou o j antar para Oz e Eugene e foi alim entar a m ãe. Depois sentou-se um longo tem po na frente do fogo enquanto deixava as ideias correrem . Em bora fizesse m uito frio, tirou Sue do celeiro, m ontou e subiu com ela na colina atrás da casa. Rezou diante de cada túm ulo, dem orando-se m ais no m enor deles: o de Anniei Se tivesse sobrevivido, Annie teria sido sua tia-avó. Lam entava que o pequeno bebê de Louisa não tivesse crescido e que nunca as duas tivessem tido oportunidade de se encontrar. Havia m uitas estrelas naquela noite e Lou observou as m ontanhas esbranquiçadas. A claridade m ultiplicava m ilhares de vezes o brilho do gelo pousado em cada galho, tornando-o quase m ágico. Naquele m om ento a terra não podia oferecer qualquer aj uda à m enina, m as havia um a coisa que ela, Lou, podia fazer sozinha. Algo que há m uito tem po j á devia ter sido feito.
Um erro, no entanto, só seria um erro enquanto não fosse corrigido. Fez Sue voltar, guardou a égua no celeiro e foi para o quarto da m ãe. Sentou-se na beira da cam a, pegou a m ão de Am anda e ficou um instante sem se m exer. Por fim se inclinou e beij ou o rosto da m ãe, enquanto as lágrim as lhe corriam pelo rosto.
— Aconteça o que acontecer, sem pre estarem os j untos. Eu prom eto. Você sem pre poderá contar com igo e com o Oz. Sem pre! — Enxugou as lágrim as. — Sinto m uita saudade de você.
— Lou tornou a beij á-la. — Am o você, m ãe! — A m enina saiu correndo do quarto e por isso não viu a lágrim a caindo solitária do olho de Am anda.
Quando Oz entrou, Lou estava deitada na cam a, soluçando baixo. Ela nem tentou parar de chorar e Oz se deitou a seu lado, abraçou-a.
— Tudo vai ficar bem , Lou, você vai ver.
Lou se sentou, enxugou o rosto e olhou para o irm ão.
— Acho que precisam os de um m ilagre.
— Posso fazer outra tentativa n — disse ele.
Lou balançou a cabeça.
— E o que iríam os entregar em troca do pedido? Já perdem os tudo.
Ficaram alguns m inutos em silêncio até Oz ver a pilha de cartas na escrivaninha de Lou.
— Leu todas elas? — perguntou ele, e Lou respondeu que sim com um m ovim ento de cabeça. — Gostou? A cara de Lou era de quem com eçaria de novo a chorar.
— São m aravilhosas, Oz. Papai não era o único escritor da fam ília.
— Não pode ler m ais algum as para m im ? Por favor? Lou acabou dizendo que sim , ia ler, e Oz se instalou na cam a e fechou com força os olhos.
— Por que está fazendo isso? — perguntou ela.
— Se fecho os olhos quando você está lendo é com o se m am ãe estivesse bem aqui, falando com igo.
— Oz, você é um gênio! — Lou olhou para as cartas com o se fossem barras de ouro.
— Sou? Por quê? O que eu fiz? — Acabou de resolver o problem a do nosso m ilagre.
Densas nuvens tinham parado sobre as m ontanhas e pareciam não ter a m enor intenção de sair tão cedo dali. Sob um a chuva m uito fria, corriam Lou, Oz e Jeb. Gelados até os ossos, logo atingiram a clareira onde ficava o velho poço seco. Correram até a beira. O urso de Oz e a foto ainda estavam lá, ensopados, cobertos de suj eira da chuva. Oz olhou para a foto e sorriu para a irm ã. Ela se curvou e pegou o urso, passando-o a Oz.
— Pegue seu urso de volta — ordenou ela com carinho. Mesm o que agora j á estej a crescido.
Ela pôs a foto na bolsa que trouxera. Depois rem exeu lá dentro e puxou as cartas.
— Tudo bem , Diam ante, digam os que estam os dispostos a entregar a coisa m ais im portante que tem os no m undo para funcionar. Não posso conceber nada m ais im portante que as cartas da m am ãe. Pois aqui estão elas! Lou pousou com cuidado o m aço de cartas na beirada do poço. Depois colocou um a pedra pesada em cim a delas, para que o vento não as levasse. , — Agora tem os de fazer o pedido.
— Que a m am ãe fique boa? Lou balançou devagar a cabeça.
— Tem os de pedir, Oz, que Louisa vá até aquele fórum . Cotton tem razão. E a única m aneira dela conservar sua casa.
— Mas e a m am ãe? — Oz parecia chocado. — Podem os não ter outra chance de fazer um pedido.
— Eu sei — disse Lou, abraçando o irm ão —, m as depois de tudo que Louisa fez por nós, pelo m enos isso tem os de fazer por ela. Louisa tam bém faz parte da fam ília.
E essa terra na m ontanha é tudo para Louisa.
Oz acabou abanando tristem ente a cabeça.
— Você fala então...
Lou segurou a m ão de Oz e fechou os olhos. Ele fez o m esm o.
— Desej am os que Louisa Mae Cardinal se levante da cam a e m ostre a todos com o está bem .
— Am ém , Jesus — disseram os dois j untos e logo estavam correndo o m ais depressa que podiam , fugindo dali, rezando para que pelo m enos um desej o fosse atendido por aquela pilha de tij olos velhos e água estagnada.
No final da noite, Cotton atravessava a deserta rua principal de Dickens, m ãos enfiadas nos bolsos, com o o m ais sozinho hom em do m undo. A chuva fria caía sem parar, m as ele parecia indiferente a ela. Sentou-se num banco e ficou observando o brilho dos lam piões atrás da cortina de chuva. A placa nos postes eram espalhafatosas de tão nítidas: "Southern Valley — Carvão e Gás". Um cam inhão de carvão passou vazio pela rua, estouros saindo do cano de descarga. As pequenas explosões quebravam violentam ente o silêncio da noite.
Cotton ficou vendo o cam inhão se afastar e vergou os om bros. Seu olhar, porém , se concentrou de novo no brilho dos lam piões de luz e foi nesse m om ento que o lam pej o de um a ideia penetrou em sua m ente. Ele se aprum ou, fitou a traseira do cam inhão de carvão e voltou a olhar para o lam pião. E então o lam pej o se transform ou num a ideia firm e. Por fim , ensopado de chuva, Cotton Longfellow se levantou do banco e bateu palm as, o que soou com o poderoso estouro de trovão. E a ideia firm e tinha se transform ado num a verdadeira im agem de m ilagre.
Minutos m ais tarde, Cotton entrou no quarto de Louisa, parou ao lado da cam a e agarrou a m ão da m ulher inconsciente.