O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 42 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Quarenta

CAPÍTULO Q UARENTA

Da j anela do quarto, Lou contem plava a grande extensão de terra que avançava vigorosam ente pelos barrancos e desaparecia sob a vegetação nas encostas das m ontanhas, onde todas as folhas, excluindo as dos sem pre-verdes, tinham caído. As árvores nuas ainda existiam em núm ero suficiente para valer a pena contem plá-las, em bora às vezes parecessem a Lou tristes lápides para m ilhares de árvores m ortas, pobre grupo de sobreviventes para chorar as que tinham caído.

— Você devia ter voltado, papai — disse ela para os m ontes que ele im ortalizara com palavras e dos quais se afastara para o resto da vida.

Ela voltara para o sítio com Eugene depois do j úri ter se retirado para deliberar. Não queria estar lá quando o veredicto saísse. Cotton a inform aria. Segundo ele, a coisa não devia dem orar m uito tem po. Cotton não disse se achava que isso era bom ou m au sinal, m as não parecia m uito esperançoso. Agora só o que Lou podia fazer era esperar. E era difícil, pois tudo à sua volta podia acabar no dia seguinte, dependendo apenas do que um grupo de estranhos decidisse. Bem , um deles não era estranho; seria antes um inim igo m ortal.

Lou traçou com o dedo as iniciais do pai na escrivaninha. Sacrificara as cartas da m ãe por um m ilagre que não acontecera, e se ressentia disso. Descendo a escada, parou no quarto de Louisa. Através da porta aberta viu a velha cam a e a pequena penteadeira com um a bacia e um j arro. Era um quarto pequeno, onde havia pouca coisa, exatam ente com o havia pouca coisa na vida daquela m ulher. Lou cobriu o rosto. Não era direito ficar espiando. Saiu correndo para fazer a com ida na cozinha.

Quando pegava um a panela, ouviu um barulho e se virou. Era Oz. Lou enxugou os olhos, pois ainda queria parecer forte diante dele. Mas enquanto procurava m elhorar sua expressão, percebeu que não precisava se preocupar com o irm ão. Algum a coisa tom ara conta dele; não sabia o quê. Oz, no entanto, nunca tivera aquele ar. Sem um a palavra, o m enino a segurou pela m ão e levou-a pelo corredor.

O j úri, um a dúzia de hom ens da m ontanha e da cidade, voltou à sala de audiências. Cotton tinha esperanças de que pelo m enos onze deles fizessem a coisa certa. Tinham passado m uitas horas em deliberação, m ais tem po do que Cotton acharia plausível. Cotton não sabia se isso era bom ou m au. O verdadeiro trunfo contra ele seria o desespero — um forte oponente, que podia com m uita facilidade se apoderar de quem se m atava todo dia no trabalho apenas para sobreviver ou de quem não via futuro num lugar onde tudo estava fechando e onde todos iam em bora. Cotton odiaria os j urados se eles dessem veredicto contrário, m as isso podia perfeitam ente acontecer.

Bem , pelo m enos a coisa logo estaria acabada.

— O j úri chegou a um veredicto? — perguntou Atkins. O prim eiro j urado se levantou. Era um hom em da cidade, hum ilde dono de um a venda, o corpo inchado de m uita carne com batata e de pouco exercício com os braços e os om bros.

— Sim , m eritíssim o — disse ele em voz baixa. Praticam ente ninguém deixara o salão desde que o j úri fora encarregado pelo j uiz de em itir o veredicto e dispensado para deliberar. Com o se repentinam ente tivessem ficado surdos, todos se inclinaram para a frente.

— E qual foi? — Decidim os a favor da... Southern Valley . — O prim eiro j urado olhou para o chão. Foi com o se tivesse acabado de pronunciar um a sentença de m orte contra um m em bro da própria fam ília.

O barulho irrom peu na sala — alguns aplaudiam , outros não. As próprias colunas pareceram oscilar com o peso da decisão coletiva de um a dúzia de hom ens. Hugh Miller e George Davis trocaram ligeiros acenos, as bocas se abrindo em sorrisos de vitória.

Cotton se recostou. O processo legal tivera sua vez; a única coisa ausente fora a j ustiça.

Miller e Goode trocaram um aperto de m ão. Miller quis se congratular com Wheeler, m as o hom em se afastou com um evidente ar de repulsa.

— Ordem , ordem no tribunal ou m andarei esvaziar a sala! — Atkins bateu várias vezes o m artelo e as coisas se aquietaram .

— O j úri está dispensado. Obrigado pelo serviço dos senhores — concluiu ele num tom não m uito gentil.

De repente um hom em entrou no salão, aproxim ou-se de Cotton e sussurrou algum a coisa em seu ouvido. O desespero de Cotton se tornou visivelm ente m ais intenso.

— Meritíssim o — disse Goode —, agora só falta apontar alguém para representar os interesses da Sra. Cardinal e assum ir a guarda das crianças.

— Juiz, acabo de receber notícias que a corte precisa ouvir.

— Cotton se levantou devagar, de cabeça baixa, a m ão de alguém lhe segurando o braço. — Louisa Mae Cardinal faleceu.

A barulheira tornou a irrom per no salão e, desta vez, Atkins não tom ou qualquer providência para contê-la. O sorriso de George Davis se am pliou. Ele se aproxim ou de Cotton.

— Droga — disse Davis —, este dia está cada vez m elhor. Por um instante, a m ente de Cotton ficou branca, com o se alguém lhe tivesse j ogado um a bigorna na cabeça. Ele agarrou Davis pela cam isa e chegou a pensar em despachá-lo com um único soco para o condado vizinho, m as se conteve e apenas o em purrou. Com o um a pá em purrando um grande m onte de esterco para tirá-lo do cam inho.

— Meritíssim o — disse Goode —, todos nós sem dúvida lam entam os saber da m orte da Sra. Cardinal. Tem os, no entanto, um a lista de pessoas bastante respeitáveis que podem representar essas belas crianças na venda da propriedade que acabou de passar para elas.

— E espero que apodreça no inferno por isso! — gritou Cotton. Ele correu para a bancada, Goode atrás.

O punho de Cotton bateu com tanta força na im ponente m esa do j uiz que Fred, o oficial de j ustiça, deu um nervoso passo à frente.

— George Davis m aculou todo o j úri — bradou Cotton. Sei que tem os dólares da Southern Valley queim ando no bolso! — Desista, Longfellow, você perdeu — disse Goode. Nenhum dos dois reparou nas portas do salão se abrindo.

— Nunca, Goode. Nunca! — gritou Cotton.

— Concordou em respeitar a decisão do j úri! — Receio que ele tenha razão, Cotton — disse Atkins. Triunfante, Goode se virou para Miller e seus olhos quase não acreditaram no que estavam vendo.

— Mas Henry — pedia Cotton —, por favor, as crianças... Deixe a guarda com igo. Eu...

Atkins não estava m ais prestando atenção a Cotton. Tam bém ele abria a boca e arregalava os olhos para o salão.

Cotton se virou devagar para o que Atkins estava olhando e chegou a sentir um a fraqueza nas pernas, com o se estivesse vendo Deus atravessar aquela porta.

Lou e Oz pararam diante de todos.

Entre eles, apoiada quase som ente nos dois, estava Am anda Cardinal.

Lou não tirara os olhos da m ãe desde o m om ento em que Oz a levara pelo corredor até o quarto, onde a vira deitada na cam a de olhos bem abertos, as lágrim as correndo, os braços fracos finalm ente se estendendo para os filhos, os lábios trêm ulos desenhando um sorriso de j úbilo.

E Cotton tam bém não pôde desviar a cabeça. Ele, no entanto, ainda tinha um assunto pendente naquela corte.

— Meritíssim o — disse com um a voz incerta, atônita —, gostaria de lhe apresentar Am anda Cardinal! A verdadeira e legítim a detentora da guarda de seus filhos.

O m ar de gente agora silenciosa se abriu e Cotton pôde avançar lentam ente na direção da m ãe e dos filhos. As pernas dele pareciam trôpegas, com o se tivessem esquecido os m ovim entos que deviam fazer. As lágrim as m anchavam seu rosto.

— Sra. Cardinal — ele com eçou —, m eu nom e é...

Am anda estendeu a m ão e tocou-lhe o om bro. O corpo dela parecia m uito fraco, m as a cabeça estava bem alerta e, quando falou, o tom foi baixo m as claro.

— Sei quem é o senhor, Dr. Longfellow. Estou acostum ada a ouvi-lo.