O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 24 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Vinte e Dois

— E m e m anda vir aqui por causa de um a m aldita briga? — ele rosnou avançando am eaçadoram ente para Billy . — Eu estava no cam po, seu safado, não tenho tem po para um a palhaçada dessas! — Quando George viu Lou, a selvageria de seus olhos ficou ainda m ais perversa. com as costas da m ão, ele deu um tapa no lado da cabeça de Billy , j ogando-o no chão.

— Deixou um a m aldita garota acertá-lo desse j eito? — disse o pai im óvel ante o filho caído.

— George Davis! — gritou Estelle McCoy . — Deixe o m enino em paz! George ergueu a m ão para ela num gesto am eaçador.

— Agora vam os, o garoto vai trabalhar no sítio. Não quero m ais nada com esta m aldita escola! — Por que não deixa o Billy decidir? Louisa dissera isto entrando na sala. Oz ia bem atrás dela, agarrado à perna de sua calça.

— Louisa... — disse a professora com grande alívio.

— Ele ainda é um guri — disse Davis num tom inflexível — e vai fazer o que eu m andar.

Louisa aj udou Billy a se sentar e procurou confortá-lo antes de se virar para o pai.

— Vê um guri? Eu vej o um rapaz feito.

— Ainda não é adulto — insistiu Davis com raiva. Louisa deu um passo na direção dele e falou em voz baixa, m as seu olhar era tão febril que Lou esqueceu de respirar.

— Mas você é. Por isso nunca m ais torne a bater nele! Davis encostou um dedo sem unha na cara dela.

— Não é da sua conta com o eu trato m eu garoto. Você só teve um filho. Eu j á tive nove e tenho outro a cam inho.

— Ter m uitos filhos nada tem a ver com ser um bom pai.

— Vej a quem fala. Um a m ulher que tem um crioulão Diabo-Não m orando com ela. Deus há de lhe castigar por isso! Deve ser seu sangue cherokee. Você não pertence a este lugar. Nunca pertenceu, m ulher ianque! Um a atônita Lou contem plava Louisa. Ianque. E índia.

— O nom e dele é Eugene — disse Louisa. — E m eu pai era parte apache, não cherokee. E o Deus que eu conheço pune os m aus. Com o os hom ens que batem nos filhos. — Louisa deu m ais um passo à frente. — Se tornar a erguer a m ão contra essa criança, é m elhor pedir a sej a lá qual for o seu Deus para que eu não descubra! — Está m e assustando, velha... — disse Davis com um riso m aldoso.

— Então é m ais esperto do que eu im aginava.

A m ão de Davis foi se transform ando num punho fechado e ele parecia pronto a usá-lo quando viu o grande Eugene enchendo o um bral da porta. Então sua coragem pareceu se dissipar.

Davis agarrou Billy .

— Rapaz, você vai j á para casa! — Billy saiu rápido da sala. Davis com eçou a ir atrás, m as devagar, procurando m ostrar-se calm o. Ainda se virou para Louisa. — Isto não vai ficar assim . Não senhora. — Saiu batendo a porta.

CAPÍTULO VINTE E DOIS

O ano letivo term inara e o trabalho duro havia com eçado na roça. Todo dia Louisa se levantava realm ente m uito cedo, antes m esm o da noite atingir seu apogeu, e fazia Lou tam bém se levantar. Com o castigo por ter brigado com Billy , a m enina estava fazendo as tarefas dela e as de Oz. A partir de certa hora, no entanto, iam todos para a roça, onde passavam o resto do dia trabalhando. Faziam um alm oço rápido e bebiam água fria da nascente sob a som bra de um a grande m agnólia, nenhum deles falando m uita coisa. O suor ensopava as roupas. Durante os intervalos, Oz atirava pedras tão longe que fazia os outros rirem e baterem palm as. Ele estava ficando m ais alto e os m úsculos em seus braços e om bros iam ficando cada vez m ais pronunciados. O trabalho árduo parecia estar criando nele um a energia áspera, dura. O m esm o acontecia com a irm ã. E parecia acontecer com a m aioria das pessoas que viviam ali, lutando para sobreviver.

Os dias j á estavam bastante quentes e Oz trabalhava sem cam isa e sapatos, só com a calça de brim . Lou tam bém andava descalça e de calça com prida, m as usando um a velha cam iseta de algodão. O sol era m uito forte naquelas altitudes e, a cada dia que passava, eles iam ficando m enos louros e m ais m orenos.

Louisa continuava ensinando coisas às crianças. Explicava com o a vagem que dava o feij ão-m ulatinho não tinha fio, m as hastes flexíveis que viviam se enroscando nos pés de m ilho, e que podiam engasgar se a pessoa não as tirasse antes de com er. E com o era sem pre possível obter um m aior núm ero de sem entes para a safra, m enos para a safra de aveia, que requeria m aquinário para debulhar, algo que sim ples sitiantes j am ais teriam naqueles m ontes. Ensinava com o lavar as roupas usando a tábua de esfregar e o sabão feito de lixívia e gordura de porco (m as sem desperdiçar). Ensinava a ferver as roupas e a enxaguá-las com cuidado, adicionando anil na terceira enxaguada para deixar tudo bonito e branco. Depois, à noite, j unto à lareira, ensinava a cerzir com agulha e linha. Louisa falava inclusive que ia chegar a hora de Lou e Oz aprenderem as refinadas técnicas de colocar ferraduras nas m ulas ou consertar um arreio.

Louisa tam bém encontrou tem po para ensinar Lou e Oz a m ontarem em Sue, a égua. Eugene m ontou-os um de cada vez, em pêlo, sem ao m enos um cobertor.

— Onde está a sela? — perguntou Lou. — E os estribos? — Sua sela é seu rabo — respondeu Louisa. — O estribo, um par de pernas fortes.

Lou sentou-se em Sue com Louisa parada ao lado da égua.

— Agora, Lou, segure as rédeas com a m ão direita, com o lhe m ostrei — disse Louisa. — Está na hora de praticar! Sue vai dar algum trabalho, m as precisa m ostrar a ela quem está no com ando.

Lou sacudiu as rédeas, cutucou o lom bo da égua, continuou a cutucar, m as Sue perm aneceu absolutam ente im óvel, com o se estivesse adorm ecida.

— Égua burra — Lou finalm ente desabafou.

— Eugene — gritou Louisa na direção da plantação. Pode m e dar um a força aqui, por favor, querido? Eugene veio m ancando e aj udou Louisa a subir no cavalo. Ela se instalou atrás de Lou e tom ou as rédeas.

— Sue não é burra. O problem a é porque você não está sabendo falar com ela. Quando quiser que ela dê a partida, é só dar um bom toque na cintura e fazer um barulhinho, tipo si-su Isto significa vá! Quando quiser que ela faça a volta, não precisa sacudir as rédeas, basta m ovê-las de leve. Para parar, um pequeno e rápido puxão para trás.

Lou fez com o Luisa m ostrara, e Sue com eçou a andar. Lou m oveu as rédeas para a esquerda e a égua seguiu naquela direção. Ela deu um breve puxão para trás e Sue foi logo parando.

— Ei, não acredito! — Lou m ostrou um largo sorriso. Estou cavalgando.

Da j anela do quarto de Am anda, Cotton pôs a cabeça para fora e deu um a olhada. Depois se virou para o céu, m uito bonito, e novam ente para Am anda, na cam a atrás dele.

Daí a alguns m inutos, a porta da frente se abriu e Cotton apareceu com Am anda nos braços. Ele a colocou na cadeira de balanço, ao lado da parreira de m aracuj á que estava em pleno florescer de roxo-averm elhado.

Oz, que agora estava m ontado em Sue j unto com a irm ã, olhou para o lado, viu a m ãe e quase caiu.

— Ei, m ãe, olhe pra m im . Sou um caubói! Louisa perm aneceu ao lado da égua, fitando Am anda. Lou finalm ente olhou, m as não deu m ostras de grande entusiasm o ao ver a m ãe do lado de fora. O olhar de Cotton ia da filha para a m ãe e m esm o ele teve de adm itir que a m ulher parecia dolorosam ente deslocada sob aquele sol, os olhos fechados, a brisa quase nem m exendo o cabelo curto, com o se m esm o os elem entos a tivessem abandonado. Ele a carregou de novo para dentro.

Alguns dias m ais tarde, num a bela m anhã de verão, Lou tinha acabado de ordenhar as vacas e carregava os baldes cheios para fora do celeiro. Parou bruscam ente quando olhou para o outro lado do cam po. Depois correu tão depressa para a casa que derram ou boa parte do leite. Pôs os baldes na varanda e entrou em disparada, passando por Louisa e por Eugene. Desceu o corredor gritando com toda a força de seus pulm ões e escancarou a porta do quarto da m ãe. Lá estava Oz sentado ao lado dela, lhe escovando os cabelos.

— Está funcionando. Lou parecia sem fôlego. — Está verde. Tudo está! As plantas estão nascendo. Oz, vá ver! — Oz saiu tão depressa que esqueceu que só estava de cueca. Lou continuava parada no m eio do quarto, o peito subindo e descendo, o sorriso im enso. Quando sua respiração se acalm ou, ela avançou, sentou-se ao lado da m ãe e pegou-lhe a m ão am olecida.

— Só achei que gostaria de saber. Está vendo? Estam os realm ente trabalhando duro. — Lou perm aneceu ali sentada, em silêncio, por m ais um m inuto. Depois pousou a m ão de Am anda e saiu, j á m enos agitada.

Naquela noite em seu quarto, com o em tantas outras noites, Louisa m ovia o pedal da m áquina de costura Singer que com prara em prestações, num preço total de dez dólares, nove anos antes. Não queria contar às crianças o que estava fazendo e não daria pistas para que pudessem adivinhar. Lou, no entanto, tinha certeza de que era algo para ela e Oz, o que a fazia sentir-se ainda m ais culpada da briga com Billy Davis.

No dia seguinte, depois do j antar, Oz foi ver a m ãe e Eugene foi cortar algum as espigas no depósito de m ilho. Lou lavou os pratos e foi se sentar na varanda da frente, ao lado de Louisa. Por algum tem po, nenhum a das duas se aventurou a falar. Lou viu um a dupla de chapins saírem voando do celeiro para pousar na cerca. A plum agem cinza e as cristas em pinadas eram esplêndidas, m as a m enina não estava m uito interessada.

— Sinto m uito com relação à briga — disse ela depressa, deixando escapar um a respiração de alívio pelo fato de estar finalm ente se desculpando.

Louisa olhou para as duas m ulas no curral.

— É bom saber que sente — disse ela, e depois não disse m ais nada. O sol estava com eçando sua descida e o céu parecia razoavelm ente lim po, com poucas nuvens dignas de nota. Um grande corvo surfava sozinho no céu, pegando um a corrente de vento e depois outra, com o um a folha caindo preguiçosa.