O Poço dos Desejos
Capítulo Vinte e Cinco
Lou acordou cedo na m anhã seguinte. Os sons da m úsica tinham perm anecido a noite inteira com ela e seus sonhos haviam sido agradáveis. Ela se espreguiçou, pisou cuidadosam ente no chão e foi dar um a olhada na j anela. O sol j á tinha com eçado a se elevar e ela precisava ir até o celeiro para fazer a ordenha, um a tarefa que havia m uito Lou assum ira com o sua. Passara a gostar da friagem do celeiro de m anhã cedo e tam bém do cheiro das vacas e da forragem . Às vezes subia até o depósito de feno, abria a j anela do paiol e sentava-se no parapeito, contem plando a roça de seu poleiro alto, ouvindo o barulho dos passarinhos e dos pequenos anim ais que corriam por entre as árvores, entre as m udas da plantação e o m ato alto, sentindo a brisa que sem pre parecia estar ali.
Aquela era apenas outra m anhã de céus flam ej antes, de m ontes solenes, do vôo alegre dos pássaros e da com petente luta pela sobrevivência de anim ais, árvores e flores. Contudo, Lou não estava preparada para a visão de Diam ante e Jeb saindo furtivam ente do celeiro e tom ando a direção da estrada.
Vestiu-se rapidam ente e desceu. Louisa tinha posto o café na m esa, em bora Oz ainda não tivesse aparecido.
— Foi divertido ontem à noite — disse Lou, sentando à m esa.
— Provavelm ente você vai achar graça, m as quando eu era m ais j ovem , sabia dançar m uito bem — com entou Louisa enquanto punha um pãozinho coberto com geleia e um copo de leite na m esa para Lou.
— Diam ante deve ter dorm ido no celeiro — disse Lou dando um a m ordida no pão. — Será que os pais dele não ficam preocupados? — Ela olhou de lado para Louisa e acrescentou: Ou talvez eu devesse perguntar se ele tem pai e m ãe. Louisa suspirou e encarou a m enina.
— A m ãe m orreu quando ele nasceu. Isso é com um aqui. Muito com um . O m arido j untou-se a ela quatro anos depois.
— Com o o pai dele m orreu? — Lou pousou o pãozinho.
— Isso não lhe interessa, Lou.
— Tem algum a relação com o que Diam ante fez no carro daquele hom em ? Louisa sentou-se e bateu com os dedos na m esa.
— Por favor, Louisa, por favor! Eu quero m esm o saber. Estou preocupada com Diam ante. Ele é m eu am igo.
— Foi um a explosão num a das m inas — disse bruscam ente Louisa. — Levou um a encosta. Um a encosta onde Donovan Skinner estava trabalhando.
— E com quem Diam ante ficou m orando? — Diam ante é um pássaro selvagem . Se o puserm os num a gaiola, vai atrofiar e m orrer. Quando precisa de algum a coisa, ele sabe que pode contar com igo.
— A com panhia de carvão não teria de pagar pelo que aconteceu? Louisa balançou a cabeça.
— Recorreram a subterfúgios legais. Cotton tentou aj udar, m as não pôde fazer m uita coisa. A Southern Valley é um a força poderosa nestas redondezas.
— Pobre Diam ante.
— O garoto sem dúvida não esqueceu a coisa — disse Louisa. — Certa vez as rodas de um a carreta caíram quando o veículo saía da m ina. Outra, um dispositivo para m udar o ram al das carretas não funcionou e tiveram de m andar cham ar pessoas de Roanoke para consertar. Encontraram um a pedra enfiada nas engrenagens. Aquele m esm o superintendente tam bém j á viveu um aperto num pequeno depósito na entrada da m ina. A m aldita porta sim plesm ente não abria e ele passou m aus m om entos preso ali. Até hoj e ninguém sabe quem fechou a porta e com o aquela fechadura em perrou.
— Diam ante nunca teve algum problem a m ais sério? — Não, graças a Henry Atkins, o j uiz. É um bom hom em , sabe o que Diam ante passou, e nada de ruim se pode esperar dele. Mas Cotton continuou conversando com Diam ante e as travessuras finalm ente cessaram . — Ela fez um a pausa. — Pelo m enos era o que parecia até terem achado o esterco de cavalo no carro do hom em .
Louisa virou o rosto, m as Lou j á tinha visto o largo sorriso da m ulher.
Lou e Oz m ontavam diariam ente em Sue e um dia Louisa teve de adm itir que tinham se transform ado em bons e com petentes cavaleiros. Lou adorava cavalgar com Sue.
Visto lá do alto, o lom bo da égua era tão largo que sim plesm ente parecia im possível cair.
Após as tarefas da m anhã, costum avam ir nadar com Diam ante na Cova do Scott, um trecho de água que Diam ante m ostrara, garantindo que não tinha fundo. À m edida que o verão avançava, Lou e Oz foram se tornando cada vez m ais bronzeados, enquanto Diam ante só adquiria sardas m aiores.
Sem pre que podia, Eugene os acom panhava, e Lou ficou surpresa quando ouviu dizer que ele só tinha vinte e um anos. Eugene não sabia nadar, m as as crianças rem ediaram isso. Logo Eugene estava executando diferentes estilos de braçada e m esm o m ergulhos na água gelada. A perna ruim não lhe im punha qualquer lim itação naquele am biente.
Jogavam beisebol num cam po de capim que haviam aparado. Eugene fizera um bastão com um a tora de carvalho lascada num a das pontas e usavam duas bolas, a que Diam ante ganhara e outra feita de um pedaço de borracha e lã de ovelha enroladas com barbante. As bases eram punhados de barro enfileirados, sendo esta, segundo Diam ante, a m aneira adequada de se j ogar. Era o que ele cham ava de autêntico beisebol. Lou, torcedora dos Yankees de Nova York, não com entou esse ponto, deixando o garoto se divertir. O fato é que nenhum deles, nem m esm o Eugene, conseguia rebater as bolas atiradas por Oz, tão rápidos e espertos eram seus arrem essos.Passaram m uitas tardes revivendo as aventuras de O m ágico de Oz, inventando as partes que tinham esquecido ou que achavam , com anim ada confiança, que podiam ser m elhoradas. Diam ante encarnava fascinado o Espantalho; Oz, é claro, representava o Leão Covarde e, com o últim a alternativa, Lou tom ava o lugar do frio hom em de lata.
Por unanim idade, proclam aram Eugene o Grande e Poderoso Mágico, e ele saía de trás de um a rocha e berrava algum as palavras que eles haviam lhe ensinado. Berrava tão alto e com um a raiva tão profunda, não im porta que fingida, que Oz, na pele do Leão Covarde, pedia a Eugene, o Poderoso Mágico, se ele, por favor, não podia baixar um pouco o tom . Travavam inúm eras batalhas encarniçadas contra m acacos voadores, contra bruxas que se derretiam com o cera, e, com a devida dose de ingenuidade e algum a sorte nos m om entos certos, o bem sem pre triunfava sobre o m al naquele esplêndido m onte da Virginia.
Diam ante contou a eles com o havia patinado, no inverno, em cim a da Cova do Scott. E com o, usando um m achado de cabo, cortara um pedaço da casca de um carvalho, que passara a usar com o trenó. Assim ele fora deslizando pelas encostas nevadas das m ontanhas a velocidades nunca antes atingidas por um ser hum ano. Dizia que teria m uito prazer de m ostrar a eles com o se fazia isso, m as todos teriam de j urar m anter a coisa em segredo para que tão valioso conhecim ento não caísse nas m ãos das pessoas erradas e fosse usado para dom inar o m undo.
Não houve um a única vez que Lou deixasse transparecer que j á sabia o que acontecera aos pais de Diam ante. Após horas de diversão, os três deram adeus e Lou voltou para casa com Oz no lom bo de Sue, às vezes acom panhando o passo de Eugene. Diam ante ficou para trás, nadando m ais um pouco ou batendo sozinho a bola, fazendo, com o ele gostava de dizer, só o que lhe agradava.
Após um a dessas saídas, Lou decidiu seguir um cam inho diferente. Um a névoa fina caía sobre as m ontanhas quando ela e Oz se aproxim aram por trás da casa. Subiram um a encosta e, no alto de um pequeno outeiro, a uns oitocentos m etros da casa, Lou fez Sue parar. Oz se contorceu atrás dela.
— Vam os, Lou, precisam os voltar. Tem os o que fazer.
A m enina, no entanto, sim plesm ente desceu do lom bo de Sue, deixando Oz agarrado sozinho nas rédeas, quase caindo do anim al. Ele gritou irritado para a irm ã, m as parecia que ela nem estava ouvindo.
Lou foi até o trecho de m ato lim po sob a som bra de um abeto e se aj oelhou. As lápides eram sim ples pedaços de m adeira m anchados pelo tem po. E sem dúvida m uito tem po se passara. Lou leu os nom es dos m ortos e suas datas de nascim ento e m orte, am bos profundam ente gravadas na m adeira, provavelm ente ainda tão nítidos quanto no dia em que foram colocados ali.
O prim eiro nom e era Joshua Cardinal. As datas fizeram Lou acreditar que ele devia ter sido m arido de Louisa, ou sej a, bisavô dela e de Oz. Morrera aos cinquenta e dois anos — não fora um a vida assim tão longa, pensou Lou. A segunda placa era um nom e que Lou conhecera por interm édio do pai. Jacob Cardinal era o pai de seu pai, seu avô e avô de Oz. Enquanto Lou recitava o nom e, Oz se j untou a ela e se aj oelhou na gram a. Ele tirou o chapéu de palha e não disse nada. O avô m orrera ainda m uito m ais j ovem que o pai. Haveria algum a coisa estranha com sua fam ília? Mas então Lou se lem brou de com o Louisa tinha idade e parou de se preocupar.
A terceira lápide parecia a m ais velha. Só tinha o nom e escrito, sem datas de nascim ento ou m orte.
— Annie Cardinal — disse Lou em voz alta. Por algum tem po, os dois ficaram aj oelhados, contem plando os pedaços de tábua m arcando os restos da fam ília que eles nunca haviam conhecido. Então Lou se levantou, cam inhou até Sue, agarrou a crina espigada da égua, subiu e aj udou Oz a m ontar. Nenhum dos dois falou m ais nada pelo resto do cam inho.
No j antar daquela noite, m ais de um a vez Lou esteve à beira de se arriscar a com entar com Louisa o que tinham visto, m as algum a coisa a im pediu. Oz, obviam ente, não estava m enos curioso, m as, com o sem pre, se dispunha a seguir a liderança da irm ã. Eles tinham tem po, Lou im aginou. Podiam esperar com calm a até que todas as perguntas fossem respondidas. Naquela noite, antes de ir dorm ir, Lou foi até a varanda dos fundos e ergueu os olhos para o outeiro. Mesm o com um a bela fatia de lua, não podia ver o pequeno cem itério, m as sabia onde ele estava. Ela nunca se interessara em pensar m uito na m orte, principalm ente desde que perdera o pai. Agora, no entanto, percebeu que não dem oraria a visitar de novo aquelas sepulturas, a contem plar m ais um a vez as placas de m adeira enfiadas na terra e gravadas com os nom es de gente de sua carne e sangue.