O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 6 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Quatro

Os m esm os dois hom ens estavam no estacionam ento gram ado. Livres do am biente eclesiástico, debatiam em tons norm ais o futuro do que restava da fam ília Cardinal.

— Graças a Deus Jack não m e nom eou com o inventariante — disse o hom em m ais velho, tirando um m aço de cigarros do bolso da cam isa. Acendeu um , apagando a cham a do fósforo entre o polegar e o indicador. — Deve ter im aginado que eu estaria m orto há m uito tem po quando ele batesse as botas.

— Não podem os deixá-los assim , m orando com estranhos — disse o hom em m ais novo, baixando os olhos para os sapatos envernizados. — As crianças precisam de alguém .

O outro hom em soltou um pouco de fum aça e seu olhar resvalou pelo teto arredondado do carro fúnebre. No céu, um bando de m elros parecia estar form ando um a espécie de guarda de honra; com o se quisessem prestar um a hom enagem a Jack Cardinal. O hom em sacudiu a cinza.

— As crianças deviam ficar com gente da fam ília, m as parece que esses dois não têm m ais ninguém .

— com licença.

Quando se viraram , viram Lou e Oz olhando para eles.

— Nós ainda tem os alguém da fam ília — disse Lou. Nossa bisavó, Louisa Mae Cardinal. Ela m ora na Virginia. Onde m eu pai foi criado.

O hom em m ais novo pareceu aliviado, com o se o fardo do m undo, ou pelo m enos das duas crianças, ainda pudesse ser retirado de seus om bros estreitos. O ar do m ais velho, no entanto, foi de desconfiança.

— Bisavó? — perguntou. — Ela ainda vive? — Meus pais estavam falando de um a m udança para a Virginia, para m orar com ela, quando aconteceu o acidente.

— Tem certeza que ela vai querer ficar com vocês? quis saber avidam ente o hom em m ais novo.

— Vai querer — foi a im ediata resposta de Lou, em bora não fizesse a m enor ideia se a m ulher ia m esm o querer.

— Vai ficar com todos nós? — A pergunta vinha de Oz. Lou sabia que o irm ão caçula estava pensando na m ãe, presa à cadeira de rodas. Olhando para os dois hom ens, ela respondeu num tom m uito firm e: — com todos nós.

CAPÍTULO Q UATRO

Quando olhou pela j anela do trem , Lou achou que j am ais se im portara m uito com a cidade de Nova York. Era verdade que, na infância, experim entara m uitas de suas ecléticas oferendas e seus dias foram cheios de visitas a m useus, zoológicos e teatros. Elevou-se acim a do m undo na plataform a de observação do Em pire State Building; passeou pelas ruas rindo e gritando, flagrando os m oradores da cidade em situações engraçadas ou tristes; observou cenas de envolvim ento em ocional e testem unhou apaixonadas exibições de protesto público. Fizera alguns desses passeios com o pai, que costum ava dizer que a opção de ser escritor não era m era seleção de um a ocupação, m as escolha de um estilo de vida totalm ente absorvente. O negócio de um escritor, ele destacava cuidadosam ente, era a tram a da vida, vista em sua enaltecedora glória e com plexa fragilidade. E Lou, inteirada dos resultados das observações do pai, se deixara cativar pela leitura e pelas reflexões dos m ais talentosos escritores da atualidade, chegando a conhecer alguns na privacidade do m odesto apartam ento de dois quartos num prédio antigo do Brookly n, onde m oravam os Cardinal.

A m ãe tam bém levara ela e Oz a todos os recantos da cidade, pondo os dois em contato com os m ais diferentes níveis econôm icos e sociais da civilização urbana. Am anda Cardinal era um a m ulher m uito bem -educada, intensam ente curiosa a respeito de tais coisas, e as crianças haviam recebido um a form ação bastante consistente, que fizera Lou respeitar a vida dos dem ais seres hum anos e se m anter atenta a isso.

Apesar de tudo isso, no entanto, ela nunca chegara realm ente a se deixar em polgar pela cidade. De fato, sua avidez parecia m ais centrada no lugar para onde estavam indo agora. A despeito de Jack Cardinal ter m orado a m aior parte da vida adulta em Nova York (onde estava cercado por um grande suprim ento de m ateriais para novas histórias, um suprim ento que outros escritores tinham sabido colher com sucesso crítico e com ercial através dos anos), ele preferia basear seus rom ances no lugar para onde agora o trem carregava sua fam ília: as m ontanhas da Virginia, que se elevavam no pé da bota topográfica do estado. E desde que o pai querido j ulgara que o lugar podia fornecer inspiração para o trabalho de sua vida, não foi difícil para Lou aceitar a ideia de ir para lá.

Chegou para o lado, pois Oz tam bém queria dar um a olhada pela j anela. Se um dia esperança e m edo fossem com prim idos num a única em oção e revelados por um a única fisionom ia, eles estavam agora no rosto do m enino. Cada vez que respirava, Oz Cardinal parecia à beira de rir até as costelas furarem o peito ou a cair duro no chão em terror extrem o. No total, porém , houve apenas algum as lágrim as.

— Parece m enor daqui. — Ele inclinou a cabeça para a passagem rápida das luzes artificiais da cidade e das placas de aço escoradas em estacas na m argem dos trilhos. Lou abanou a cabeça, m as acrescentou: — Espere até ver as m ontanhas da Virginia... Sim , elas são altas. E ficam sem pre altas, não im porta de onde você as vej a.

— Com o sabe disso? Nunca viu essas m ontanhas.

— É claro que vi. Nos livros.

— Mas elas parecem assim tão grandes no papel? Se Lou não soubesse com o era a coisa, ia achar que Oz estava querendo ser engraçado. O irm ão, no entanto, era desprovido dos pés à cabeça de qualquer traço de m alícia.

— Confie em m im , Oz, são grandes. E tam bém li sobre elas nos livros do papai.

— Não leu todos os livros do papai. Ele dizia que você ainda não tinha idade.

— Bem , li pelo m enos um . E ele leu pedaços dos outros para m im .

— Falou com aquela m ulher? — Que m ulher, Louisa Mae? Não, m as as pessoas que escreveram para ela disseram que Louisa realm ente queria que a gente fosse.

— Isso é um a boa coisa, eu acho — disse Oz, depois de refletir um pouco.

— Sim , é.

— Será que é parecida com o papai? — Acho que nunca vi um a fotografia dela. — A irm ã pareceu m eio confusa e ficou evidente que a resposta deixou Oz m eio perturbado.

— Ela não pode ser grosseira e m al-encarada? E se for, não é m elhor voltarm os para casa? — Agora nossa casa fica na Virginia, Oz — disse Lou, sorrindo. — E tenho certeza que Louisa não é m al-encarada. Nem grosseira. Se fosse, não teria concordado em ficar conosco.

— Mas as bruxas às vezes fazem isso, Lou. Está lem brada da Hansel e do Gretel? Elas enganam você. Porque querem com ê-la. Todas fazem isso. Eu sei; tam bém leio livros.

— Enquanto eu estiver aqui, nenhum a bruxa vai incom odá-lo. — Ela agarrou o braço dele num gesto de solidariedade; Oz finalm ente relaxou e olhou para os outros ocupantes da cabine.

A viagem fora inteiram ente financiada pelos am igos de Jack e Am anda Cardinal. Atuando coletivam ente, eles não haviam poupado despesas. A fam ília seria enviada com conforto para sua nova vida, o que incluía um a enferm eira para acom panhá-los na viagem e para ficar com eles na Virginia por um razoável período de tem po, cuidando de Am anda.

Infelizm ente, a enferm eira parecia acreditar que, além de supervisionar a saúde da m ãe, tam bém lhe com petia disciplinar crianças teim osas. Com preensivelm ente, ela e Lou não andavam se dando m uito bem . As crianças contem plaram a m ulher alta e ossuda inclinar-se sobre sua paciente.

— Podem os ficar um pouco sozinhos com a m am ãe? Oz conseguiu finalm ente perguntar com um fio de voz. Para ele, a enferm eira era parte m egera, parte gênio do m al saída de um conto de fadas. Deixava-o m ortalm ente assustado. Oz pressentia que, a qualquer m om ento, a m ão da m ulher poderia se transform ar num a faca e ele no alvo solitário da lâm ina. Sem dúvida a ideia de um a bisavó com certas características de bruxa não saíra inteiram ente da infeliz história de Hansel e Gretel. Oz não nutria esperanças de que a enferm eira fosse concordar com seu pedido, m as, surpreendentem ente, ela concordou. Quando ela fechou a porta da cabine, Oz se virou para Lou.

— Acho que não é assim tão m á.

— Oz, ela só saiu porque queria fum ar.

— Com o sabe que ela fum a? — Se não bastassem as m anchas de nicotina nos dedos, o hálito só cheira a cigarro.

Oz sentou-se ao lado da m ãe. Am anda estava deitada no leito inferior, os braços sobre o corpo, os olhos fechados, a respiração rasa, m as pelo m enos viva.

— Som os nós, m am ãe, eu e a Lou.

— Oz, ela não pode ouvi-lo — disse Lou num tom exasperado.

— Sim , pode! — Em bora Lou j á estivesse acostum ada a quase todas as variações do com portam ento de Oz, a aspereza da reação a sobressaltou. Ela cruzou os braços e virou o rosto. Quando tornou a olhá-lo, Oz abria um a caixinha que havia tirado da m ala. O cordão que puxou de lá tinha um a pequena pedra de quartzo.

— Oh, por favor — im plorou a irm ã —, quer parar? Ele a ignorou e suspendeu o cordão sobre o peito da m ãe.

Am anda podia com er e beber, m as por algum a razão insondável não conseguia m over os braços, nem as pernas, nem falar, e seus olhos nunca se abriam . Em bora o estado da m ãe deixasse Oz m uito preocupado, ele tam bém tinha esperanças. Im aginava que devia haver algum a coisinha no lugar errado, com o um a pedra num sapato, um a rolha num cano. O que se tinha a fazer era m eram ente rem over a obstrução para a m ãe voltar a conviver com eles.

— Oz, não sej a tolo. Não faça isso. Oz parou e olhou para ela.

— Seu problem a é que você não acredita em nada, Lou.

— E o seu é que você acredita em tudo.

Oz com eçou a balançar o cordão de um lado para o outro sobre o rosto da m ãe. Depois fechou os olhos e com eçou a falar algum a coisa que ninguém , talvez nem ele próprio, conseguiria com preender m uito bem .

Lou se levantou, inquieta, e por fim não pôde m ais tolerar aquela loucura.

— Quem vir você fazendo isso, vai achar que é m aluco. E sabe de um a coisa? Acho que é m esm o! — Bem , estragou tudo. — Oz parou com seus encantam entos e contem plou-a com ar irritado. — Era preciso um silêncio com pleto para a cura dar certo! — Cura? Que cura? Do que está falando? — Quer que a m am ãe fique sem pre assim ? — Bem , se ficar, a culpa foi dela — explodiu Lou. — Se não estivesse discutindo com o papai, nada disso teria acontecido.

Oz ficou chocado com aquelas palavras. Mesm o Lou pareceu espantada por ter tido a coragem de dizer um a coisa daquelas. Mas j á que o dissera, seria incapaz de tirar um a única vírgula. Ela era assim .

Nenhum deles olhou para Am anda nesse m om ento, m as se o tivessem feito veriam algum a coisa, um leve trem or das pálpebras, o que poderia sugerir que ela tivesse conseguido ouvir as palavras da filha e tivesse caído ainda m ais no fundo daquele abism o onde j á se encontrava tão encurralada.

Em bora a m aioria dos passageiros nem se desse conta, à m edida que os trilhos se afastavam da cidade rum o ao sul, o trem ia fazendo um a curva à esquerda. com a inclinação, o braço de Am anda escorregou da barriga e ficou balançando ao lado da cam a.

Por um instante, Oz perm aneceu atônito. O m enino, sem dúvida, acreditava que tivesse acabado de testem unhar um m ilagre de dim ensões bíblicas, com o ver um a pedra se transform ar num gigante.

— Mam ãe! Mam ãe! — Ele gritava, quase arrastando Lou para o chão em seu entusiasm o. — Lou, você viu isso? A princípio Lou nem reagiu, pois se convencera de que a m ãe ficara para sem pre incapacitada de fazer qualquer gesto.

Com eçara, no entanto, a pronunciar a palavra "m am ãe" quando a porta da cabine se abriu e a enferm eira encheu o espaço com o um a avalanche de pedregulhos, o rosto crispado, de m au hum or e aborrecim ento. Filam entos de fum aça de cigarro ainda pairavam sobre sua cabeça, com o se ela fosse entrar em com bustão espontânea. Se Oz não estivesse tão concentrado na m ãe, talvez pulasse pela j anela ante aquela aparição.

— Que está acontecendo aqui? — Ela oscilou para a frente quando o trem , antes de se lançar com o flecha através de Nova Jersey , deu um novo solavanco.

Oz soltou o cordão e apontou para a m ãe. Lem brava um cão de caça esperando algum elogio.

— Ela se m exeu. Mam ãe m exeu o braço! Nós dois vim os, não foi, Lou? Lou, no entanto, ficou calada, o olhar passando da m ãe para Oz e vice-versa. Era com o se alguém tivesse encaixado um a vara em sua garganta; ela não conseguia form ar palavras.

A enferm eira exam inou Am anda e se virou com o rosto ainda m ais azedo, ao que parece achando im perdoável a interrupção de seu intervalo para o cigarro. Tornou a pôr o braço de Am anda sobre o estôm ago e cobriu-a com o cobertor.

— O trem fez um a curva. Foi só. — Ao se inclinar para endireitar a colcha, ela viu o cordão no chão, incrim inadora prova do com plô de Oz para apressar a recuperação da m ãe. CAPÍTULO CINCO

— Que é isso? — perguntou esticando a m ão para a "evidência núm ero um " de seu processo contra o m enino.

— Só usei para aj udar a m am ãe. É um a espécie de... — Oz olhou nervoso para a irm ã. — Um a espécie de m ágica.

— Isso é tolice.

— Gostaria de ficar com o cordão, por favor.

— Sua m ãe está num estado catatônico — disse a m ulher num tom frio, pedante, destinado a produzir absoluto terror em todos os inseguros e vulneráveis; e ela possuía um alvo fácil em Oz. — Há pouca esperança de ela recobrar a consciência. E isto certam ente não vai acontecer por obra de um cordão, m eu j ovem ! — Por favor, devolva — dizia Oz, as m ãos entrelaçadas, com o se estivesse rezando.

— Já disse... — A enferm eira foi interrom pida por um tapa no om bro. Quando se virou, Lou estava parada na sua frente. A m enina parecia ter crescido alguns centím etros nos últim os segundos. Ao m enos era o que sugeria a inclinação da cabeça, do pescoço, dos om bros.

— Devolva! — Não vou receber ordens de um a criança! — A cara da enferm eira ficara verm elha ante aquela afronta.

Rápida com o um chicote, Lou agarrou o cordão, m as a enferm eira, surpreendentem ente forte, conseguiu recuperá-lo e colocá-lo no bolso.

— Isto não vai aj udar a m ãe de vocês — ela explodiu. A cada respiração, exalava um pouco do cheiro dos Lucky Strikes.

— Agora, por favor, sentem -se e calem a boca! Oz olhou para a m ãe, a agonia despontando em seu rosto por ter perdido o precioso cordão por causa de um a sim ples curva nos trilhos.

Lou e Oz instalaram -se perto da j anela e enfrentaram o rolar das próxim as m ilhas contem plando silenciosam ente a m orte do sol. Quando Oz com eçou a ficar inquieto, Lou perguntou qual era o problem a.

— Não m e sinto bem em deixar o papai sozinho lá atrás.

— Oh, ele não está sozinho.

— Mas estava sozinho naquela caixa. E agora está ficando escuro. Ele pode ficar com m edo. Isso não é certo, Lou.

— Ele não está naquela caixa, está com Deus. Agora estão conversando lá em cim a e nos vendo aqui em baixo.

Oz ergueu os olhos para o céu. Sua m ão ergueu-se para acenar, m as ele ficou m eio inseguro.

— Pode dar adeus, Oz. Ele está lá em cim a.

— Jura de verdade? Pela sua m ãe m orta? — Juro por tudo. Ande logo, dê adeus.

Oz obedeceu e abriu um largo sorriso.

— Que foi? — perguntou a irm ã.

— Não sei, m as foi bom fazer isso. Acha que ele tam bém acenou? — É claro. E Deus tam bém . Você sabe com o é o papai, sem pre contando histórias. A essa altura, provavelm ente os dois j á são bons am igos. — Lou tam bém acenou e enquanto seus dedos se sacudiam na frente do vidro frio, ela fingiu, por um instante, ter certeza de tudo que acabara de dizer. E a sensação foi m uito boa.

Desde a m orte do pai, o inverno j á dera quase na prim avera. A cada dia, Lou sentia m ais saudades e o grande vazio aum entava cada vez que respirava. Queria que o pai estivesse inteiro e saudável. E ao lado deles. Mas não era possível. O pai realm ente se fora, o que lhe dava um a sensação incrivelm ente angustiante. Olhou para o céu.

Alô, papai. Por favor, nunca se esqueça de m im , pois eu j am ais vou m e esquecer de você. Apenas m urm urou estas palavras, para Oz não ouvir. Ao acabar, achou que ia chorar, m as se controlou. Não podia chorar, não na frente de Oz. Se com eçasse a chorar, havia um a forte possibilidade de que o irm ão a im itasse e não parasse m ais de chorar pelo resto da vida.

— Com o é estar m orto, Lou? — perguntou Oz, os olhos arregalados para o escuro da noite.

— Bem , acho que parte de estar m orto é não sentir nada — disse ela pouco depois. — Mas sob outro aspecto, é sentir tudo. Tudo de bom . Isto é, se a pessoa levou um a vida decente. Se não..., bem , você sabe.

— O inferno? — Oz perguntou, o m edo lhe alterando as feições enquanto a terrível palavra era pronunciada.

— Você não precisa ficar preocupado com isso. Nem o papai. O olhar de Oz foi avançando, com o num m ovim ento m ecânico, até Am anda.

— E m am ãe vai m orrer? — Todos nós vam os m orrer um dia. — Lou não adoçaria m ais a pílula, nem m esm o para Oz, em bora o tenha abraçado com força. — Vam os dar um passo de cada vez. Tem os m uito terreno pela frente.

Apertando o irm ão, a m enina olhou pela j anela.

Nada era para sem pre e ela não sabia disso.