O Poço dos Desejos
Capítulo Vinte e Quatro
— Deixe eu ver — disse Davis após um m om ento de silêncio.
— Diam ante — gritou Lou —, não faça isso! — Um hom em tem de pagar o que deve. — Diam ante se aproxim ou da carroça m as, quando Davis estendeu a m ão para a m oeda, ele recuou.
— Vej a bem , George Davis, isto significa que estam os quites. Se eu der a m oeda, você não procura nunca m ais dona Louisa. Precisa j urar.
Davis tinha o ar de quem se preparava para aplicar um a chicotada nas costas de Diam ante.
— Juro — disse ele. — Agora m e dê! Diam ante atirou a m oeda. Davis exam inou-a, m ordeu e, por fim , a m eteu no bolso.
— Agora vá em bora — ordenou Louisa.
— Da próxim a vez não vou esquecer o m eu revólver disse Davis sem tirar os olhos dela.
O hom em fez as m ulas e a carroça darem a volta e partiu num a nuvem de pó. Lou ficou olhando para Louisa, que m anteve o rifle apontado até o hom em sum ir.
— Teria realm ente atirado nele? — perguntou Lou. Louisa abaixou o rifle e entrou sem responder à pergunta.
CAPÍTULO VINTE E Q UATRO
Duas noites m ais tarde, enquanto Lou lavava os pratos do j antar, Oz escrevia cuidadosam ente suas cartas num pedaço de papel na m esa da cozinha. Louisa o aj udava, sentada ao seu lado. Parecia cansada, Lou pensou. Era idosa e a vida não era fácil na serra. A própria Lou, sem dúvida, estava experim entando isso na própria pele.
A pessoa tinha de lutar por cada pequena coisa. E Louisa passara a vida inteira lutando. Quanto tem po m ais ia aguentar? Quando Lou acabou de enxugar o últim o prato, houve um a batida na porta. Oz correu para abrir.
Cotton estava parado na porta da frente, de terno e gravata, com um a grande caixa nos braços. Atrás dele vinha Diam ante. O garoto vestia um a cam isa branca e lim pa, tinha o rosto lavado, o cabelo penteado com água e talvez com brilhantina. Lou quase engasgou, pois o m enino estava de sapatos. Era verdade que os dedos saíam pela frente, m as a m aior parte dos pés estava coberta. Diam ante m ovim entou tim idam ente a cabeça saudando as pessoas, com o se o fato de estar lim po e arrum ado o transform asse num a espécie de atração de circo.
— O que tem aí? — perguntou Oz olhando para a caixa. Cotton pôs a caixa na m esa e com eçou a abrir devagar.
— Em bora m uito possa ser dito a favor da palavra escrita — disse ele —, nunca devem os esquecer um a outra grande e criativa fonte de inspiração. — com um gesto m aj estoso, capaz de rivalizar com a m elhor perform ance de um teatro de revistas, Cotton revelou... o gram ofone. — Música! Tirou um disco de um pequeno estoj o e colocou-o com cuidado no prato. Depois girou vigorosam ente a m anivela e pôs a agulha no lugar. Por um instante, a agulha só arranhou o disco m eio trêm ulo, m as logo a sala se encheu com o que Lou reconheceu com o um a m úsica de Beethoven. Cotton olhou ao redor e encostou as cadeiras na parede.
— Cavalheiros, por favor — disse olhando para os outros hom ens. Oz, Diam ante e Eugene perceberam e logo abriram espaço no m eio da sala. Cotton entrou no corredor e abriu a porta de Am anda.
— Sra. Am anda, hoj e à noite trouxem os um repertório bem variado para satisfazê-la.
Cotton voltou à sala da frente.
— Por que encostou as cadeiras? — perguntou Lou. Cotton sorriu e tirou o paletó.
— Porque não se pode só ouvir a m úsica; é preciso fundir-se com ela. — Ele inclinou ostensivam ente a cabeça para Lou.
— Posso ter a honra desta dança, senhora? Quando deu conta, Lou estava ficando verm elha com aquele convite form al.
— Cotton, você é m aluco, realm ente é...
— Vá em frente, Lou — disse Oz —, você dança m uito bem . — Ele acrescentou: — Mam ãe ensinou a ela.
E eles dançaram . A princípio desaj eitadam ente, m as logo acertaram o passo e com eçaram a girar pela sala. Todos sorriam para a dupla, e Lou com eçou a rir.
Num daqueles surtos de entusiasm o que costum ava ter, Oz correu para o quarto da m ãe.
— Mam ãe, estam os dançando, dançando. — E então disparou para a sala para ver m ais um pouco.
Ao som da m úsica, Louisa m ovia as m ãos e os pés m arcavam o ritm o no chão. Diam ante se aproxim ou.
— Vam os girar pelo salão, Sra. Louisa? Louisa pegou as m ãos dele.
— Há anos não escuto um a proposta tão boa. Enquanto os dois se j untavam a Lou e a Cotton, Eugene colocou Oz em cim a de seus sapatos e com eçou a rodar com o os outros.
Avançando pelo corredor, a m úsica e os risos chegaram ao quarto de Am anda. Desde que estavam ali, o inverno j á se transform ara em prim avera e a prim avera dera lugar ao verão. Durante todo esse tem po, o estado de Am anda não se alterara. Lou interpretou isso com o prova positiva de que a m ãe j am ais ia se recuperar, enquanto Oz, sem pre otim ista, via a coisa com o um bom sinal, pois ao m enos a m ãe não ficara pior. A despeito, no entanto, da opinião negativa sobre o futuro de Am anda, todo dia Lou aj udava Louisa a dar banho de esponj a na m ãe e, um a vez por sem ana, a lavar seu cabelo. E tanto Lou quanto Oz m udavam frequentem ente as posições de descanso de Am anda, exercitando diariam ente seus braços e pernas. Nunca houve, contudo, qualquer reação de Am anda; ela estava sim plesm ente ali, de olhos fechados, de braços e pernas im óveis. Não estava "m orta", m as tam bém não se podia dizer que estivesse "viva". Algum a coisa, porém , ficou m eio estranha quando a m úsica com eçou a tocar e os risos se filtraram para o quarto. Talvez, se fosse possível sorrir sem m exer um único m úsculo da face, Am anda Cardinal tivesse acabado de fazê-lo.
Na sala da frente, alguns discos m ais tarde, a m úsica tinha entrado por m elodias bem m ais agitadas. Os parceiros tam bém tinham m udado: Lou e Diam ante pulavam e giravam com a m ais j ovial energia; Cotton rodopiava com Oz; Eugene — a despeito da perna ruim — ensaiava com Louisa alguns m odestos passos de j azz.
Pouco depois, Cotton deixou a pista de dança, foi para o quarto de Am anda e sentou-se a seu lado. Falou m uito carinhosam ente com ela, contando as novas do dia, falando das crianças e do próxim o livro que lhe pretendia ler. Tudo apenas um a conversa norm al, sem dúvida, e Cotton torcendo para que ela fosse capaz de ouvi-lo e pudesse ser encoraj ada.
— Tenho gostado im ensam ente das cartas que escreveu para Louisa. Suas palavras revelam um a verdadeira nobreza de espírito. Mas aguardo ansioso a oportunidade de ouvi-la frente a frente, Am anda. — Ele pegou suas m ãos m uito suavem ente e com eçou a m ovê-las no ritm o da m úsica.
Os sons escaparam pela varanda e a luz da sala se derram ou no escuro. Por um m om ento furtivo, tudo na casa pareceu feliz e seguro.
A pequena m ina de carvão que havia nas terras de Louisa ficava a cerca de três quilôm etros da casa. Para ir do sítio até lá se pegava um a sinuosa estradinha de chão e depois um a trilha cheia de m ato. A entrada da m ina tinha largura e altura suficientes para a carroça entrar com a m ula, e por isso ficava fácil se abastecer todo ano de carvão para as lareiras de inverno. com a lua agora tapada por grandes nuvens, a entrada da m ina era invisível a olho nu.
Na distância havia um a cintilação de luz, com o a luz de um vaga-lum e. De repente surgiu outro lam pej o, depois outro. O grupo de hom ens em ergiu lentam ente da escuridão e se aproxim ou da m ina, os clarões de luz agora se revelando com o lam piões. Eles usavam chapéus duros com lam piões de carbureto presos nas abas. Com o preparação para entrar na m ina, cada um tinha tirado o chapéu, abastecido o depósito do lam pião com bolinhas úm idas de carbureto, virado a rosca que suspendia o pavio, riscado um fósforo e logo um a dúzia de lam piões havia se acendido.
Um hom em m aior que todos os outros cham ou os trabalhadores, que form aram um círculo apertado. Seu nom e era Judd Wheeler, alguém que passara a m aior parte da vida adulta explorando terras e pedras para ver se encontrava algo de valor. Num a das m ãos, segurava um com prido rolo de papel. Ele abriu o rolo e um dos hom ens ilum inou-o com o lam pião. O papel continha num erosas m arcas e dizeres, além de desenhos. O cabeçalho, no alto, ia de um a ponta à outra: "Southern Valley , Pesquisa Geológica de Carvão e Gás".
Enquanto Wheeler instruía seus hom ens sobre as tarefas daquela noite, outro hom em saiu do escuro e se j untou a eles. Usava o m esm o chapéu de feltro e as m esm as roupas velhas. George Davis tam bém levava um lam pião e parecia bastante entusiasm ado por participar de toda aquela atividade. Davis conversou anim adam ente com Wheeler durante alguns m inutos; depois avançaram todos para o interior da m ina.