O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 13 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Onze

Louisa acabou prim eiro de lavar um a travessa e colocou-a para secar.

— A m ãe de Eugene m orreu nova. tom deixou o bebê com um a irm ã e foi para Bristol, no Tennessee, atrás de trabalho. Ele era m ineiro de carvão, m as m uita gente com eçou a chegar procurando trabalho nas m inas daqui e eles sem pre vão colocando os negros na frente.

tom m orreu num acidente em Bristol antes de poder m andar buscar Eugene.

Quando a tia de Eugene faleceu, eu fiquei com ele. O resto é pura m entira de gente que tem ódio no coração.

— Eugene sabe o que houve? — Claro que sabe! Contei quando ele cresceu.

— Então por que não conta a verdade às pessoas? — As pessoas não querem ouvir, não dão a m ínim a para o que se tenta explicar. — Atirou um olhar para Lou. — com preende isso, não é? Lou abanou a cabeça, m as não estava lá m uito convencida de ter com preendido.

CAPÍTULO ONZE

Ao sair, Lou viu Diam ante e Oz debruçados na cerca quebrada do estábulo onde o cavalo pastava. Assim que a viu, Diam ante tirou do bolso um pedaço de papel e um pouco de tabaco, enrolou o cigarro, lam beu o papel para colar e riscou um fósforo num a ripa. Quando acendeu o cigarro, Oz e Lou abriram a boca de espanto.

— E m uito garoto para fazer isso! — exclam ou Lou. Diam ante sacudiu a m ão, rej eitando o protesto. No rosto, um sorriso de satisfação.

— To crescendo faz tem po. E um hom em é sem pre um hom em .

— Som os praticam ente da m esm a idade, Diam ante.

— Sou um pouco m ais velho, cê sabe...

— Onde você e sua fam ília m oram ? — perguntou Lou.

— Lá em baixo na estrada, um pouco antes de se chegar a algum lugar.

Diam ante tirou do bolso um a bola de beisebol e j ogou-a para cim a. Jeb correu atrás e trouxe-a de volta.

— Um hom em m e deu essa bola porque li o futuro dele.

— E o que dizia o futuro dele? — perguntou Lou.

— Que ele ia dar a um suj eito cham ado Diam ante sua velha bola de beisebol.

— Está ficando tarde — disse Lou. — Seus pais não ficam preocupados? Diam ante soprou a fum aça do cigarro dom éstico dentro do m acacão e, enquanto se preparava para atirar novam ente a bola, pôs o cigarro atrás da orelha.

— Bem , com o eu disse, to crescendo faz tem po. E num vou fazer nada só porque eles querem .

— O que é isso? — disse Lou apontando para um a coisa que trem ia sobre o m acacão de Diam ante. Ele baixou os olhos e riu.

— Pata esquerda traseira de um coelho do cem itério. Depois de um coração inteiro de bezerro, é a coisa que dá m ais sorte. Ei, será que não ensinaram nada a vocês na cidade? — Um coelho do cem itério? — disse Oz.

— Sim , senhor. Apanhado e m orto no cem itério, na calada da noite. — Soltou a pata da pequena corrente e entregou-a a Oz. — Tá aqui, filho. Posso conseguir outra na hora que quiser.

— Puxa — disse Oz, pegando reverentem ente o pé de coelho. — Obrigado, Diam ante. — E acrescentou, vendo Jeb correr atrás da bola: — O Jeb é m esm o um cachorro incrível! Pega sem pre a bola.

Jeb trouxe a bola e depositou-a na frente do dono. Diam ante, então, j ogou-a para Oz.

— Provavelm ente não tem m uito espaço pra se j ogar nada na cidade, m as procure se m exer, filho.

Oz encarava a bola com o se nunca tivesse segurado um a. Depois olhou para Lou.

— Vá em frente, Oz— disse ela. — É só j ogar.

Oz tom ou posição e atirou a bola, o braço subindo com o um chicote, a bola disparando de sua m ãozinha com o um pássaro libertado, subindo m ais e m ais. Jeb correu atrás, m as a bola parecia ter sido lançada com m uita força. Atônito, Oz se lim itou a apreciar o que tinha feito. Lou tam bém .

O cigarro caiu da orelha de um assustado Diam ante: — Deus m eu, onde aprendeu a atirar desse j eito? Oz pôde apenas exibir o esplêndido sorriso de quem acabava de pressentir que talvez tivesse um a vocação atlética. Depois se virou e correu atrás da bola. Lou e Diam ante ficaram um instante em silêncio, e logo a bola veio j ogada de volta. Não conseguiram sequer enxergar Oz na escuridão crescente, m as ouviram a corrida dos dois, dele e de Jeb, um total de seis vigorosas pernas disparando atrás da bola.

— Então o que as pessoas fazem para se divertir por aqui, Diam ante? — perguntou Lou.

— Geralm ente pescam . Ei, você j á desceu num a m ina? — Não existem m inas na cidade de Nova York. Algum a outra ideia? — Bem — ele fez um a pausa de efeito —, tem os, é claro, o poço assom brado.

— Um poço assom brado? — exclam ou Oz, que acabara de com pletar a corrida, Jeb nos calcanhares.

— Onde fica? — perguntou Lou.

— Vam os lá agora.

O capitão Diam ante e sua com panhia de infantaria ultrapassaram a fileira de árvores e com eçaram a atravessar um cam po aberto. Havia ali um a relva alta, tão fina e tão uniform e que lem brava cabelo penteado. O vento era frio, m as estavam em polgados dem ais para se preocuparem com esse ligeiro desconforto.

— Onde é? — perguntou Lou, correndo ao lado de Diam ante.

— Xiii! Calem a boca, não podem os fazer barulho. Há fantasm as em volta.

Continuaram avançando. De repente, Diam ante gritou: — Abaixem ! — Com o se estivessem atados por um a corda esticada, pararam todos ao m esm o tem po.

— Que foi, Diam ante? — perguntou Oz num tom pouco firm e.

— Achei que tinha ouvido algum a coisa, só isso. — Diam ante escondeu um sorriso. — Todo cuidado é pouco com relação a fantasm as. Eles sem pre gostam de provocar.

— O que estão fazendo aqui? O hom em tinha saído de trás de um grupo de nogueiras, a espingarda na m ão direita. Lou percebeu, sob a luz da Lua, o clarão de um m al-intencionado par de olhos cravados neles. Ficaram os três paralisados quando o suj eito se aproxim ou. Lou pôde reconhecê-lo. Era o m aluco do trator que passara em disparada descendo a serra. O hom em parou na frente deles e a boca cuspiu um naco de gom a de m ascar j unto de seus pés.

Não têm nada que fazer por aqui — disse erguendo um pouco a espingarda e encostando o cano no braço esquerdo; a boca da arm a, assim , ficava apontada para os garotos. O dedo indicador do suj eito estava perto do gatilho.

Diam ante deu um passo à frente: — Não estam os fazendo nada, George Davis, só dando um a volta e não há nenhum a lei contra isso.

— Cale a boca, Diam ante Skinner, antes que eu ponha o dedo nisto! — Ele estreitou os olhos para Oz que, sem parar de trem er, recuou para agarrar o braço da irm ã.

— São os guris que Louisa pegou. Aqueles da m ãe que ficou aleij ada, não é? — tornou a cuspir.

— Tu não tem nada a ver com isso — disse Diam ante. Deixa eles em paz.

Davis se aproxim ou de Oz.

— Tem um pum a por aqui, garoto — disse num tom baixo e zom bador. De repente um grito: — Já pensou se ele cerca você? — E então Davis sim ulou um a arrem etida contra Oz, que se atirou no chão, curvando-se na relva alta. Ele deu um a gargalhada perversa ao ver o pavor do m enino.

— Fique longe de nós! — disse Lou se colocando entre o suj eito e o irm ão.

— Vá para o inferno, garota — disse Davis. — Dizendo a um hom em o que fazer? — Olhou para Diam ante. — Está na m inha terra, rapaz.

— Esta terra não é sua! — berrou Diam ante, as m ãos se transform ando em punhos cerrados, o olhar ansiosam ente fixado na espingarda: — Não é de ninguém ! — Me cham ando de m entiroso? — explodiu Davis num tom de dar m edo.

Então o grito veio. Ficou cada vez m ais alto até Lou achar que seria certam ente capaz de derrubar as árvores ou soltar as rochas lá em cim a, fazendo-as rolar pela m ontanha e talvez, com sorte, liquidar aquele adversário. Jeb se aproxim ou rosnando, o pêlo arrepiado. Davis olhou nervoso para as árvores.

— Tem um a espingarda — disse Diam ante. — Por que não vai pegar esse gato velho? Claro, pode tá com m edo.

Davis cravou furioso os olhos no rapaz, m as então o grito voltou para afetar todos eles com a m esm a intensidade. Davis, então, com eçou a se afastar num m eio trote em direção às árvores.

— Vam os agora! — berrou Diam ante, e correram o m ais que puderam por entre árvores e novas clareiras. Coruj as piavam e um a codorna deu um grito. Coisas que não podiam ver subiam e desciam pelos troncos altos dos carvalhos ou atravessavam correndo o cam inho. Nada, porém , chegava nem perto de assustá-los com o George Davis e sua espingarda haviam conseguido. Lou era um borrão no escuro, m ais rápida até m esm o que Diam ante. Quando Oz, porém , tropeçou e caiu, ela voltou para aj udá-lo.

Finalm ente pararam e se abaixaram na relva alta, respirando forte, prestando atenção para ver se algum tratorista m aluco ou algum gato selvagem vinha atrás.

— Quem era m esm o aquele suj eito horrível? — perguntou Lou.

— George Davis. — Diam ante tinha olhado para trás antes de responder. — Tem um sítio ao lado da dona Louisa. É um cara tinhoso. Um cara m au! Deve ter caído de cabeça quando era bebê ou levado um coice de m ula, não sei. Tem um a destilaria de bebidas aqui por perto, num a das grotas, por isso não gosta de gente m etendo o nariz.

Devia levar um tiro.

Logo atingiram outra pequena clareira. Diam ante ergueu a m ão para que parassem e, orgulhoso, apontou para a frente, com o se tivesse acabado de descobrir a arca de Noé num a crista de um m onte da Virginia.

— Está ali.

Era um poço de tij olos com crostas de lim o, desm oronando em certos pontos e inegavelm ente assom brado. Os três se aproxim aram furtivam ente; Jeb guardando a retaguarda do grupo enquanto procurava farej ar pequenas presas na relva.

Olharam os três pela borda do poço. Era negro, aparentem ente sem fundo; podiam estar olhando para o outro lado do m undo. Coisas de todo tipo tam bém podiam estar espreitando de lá.

— Por que disse que é assom brado? — perguntou Oz esbaforido. ' Diam ante se deitou na relva ao lado do poço, no que foi im itado pelos outros.

— Cerca de m il m ilhões de anos atrás — com eçou num a voz densa, vibrante, que fez os olhos de Oz sim ultaneam ente se arregalarem , piscarem rápido e se encherem de lágrim as —, m oravam aqui um hom em e um a m ulher. Claro, estavam apaixonados, não há com o negar. E assim queriam j untar os trapos. Só que as fam ílias se odiavam e não queriam deixar os dois se casarem . Não senhor. Então eles tram aram um plano pra fazer a coisa na m oita. Só que num deu certo e, na opinião do cara, por culpa da m ulher. Então ele perdeu a cabeça, veio até este poço e se j ogou. Foi um a queda funda, vocês viram a fundura, e ele se afogou. Quando a guria descobriu o que tinha acontecido, tam bém veio até aqui e tam bém se j ogou. Nunca foram achados; foi com o se os dois tivessem se evaporado no sol. Nem um a m igalhinha sobrou.

— É m eio parecido — disse Lou, radicalm ente intocada pela tristeza da narrativa — com Rom eu e Julieta.

— Parentes seus? — Diam ante parecia confuso.

— Você só inventou — disse ela.

Por toda a volta, brotaram ruídos m uito curiosos. Com o m ilhões de pequenas vozes, todas querendo falar ao m esm o tem po. Eram com o form igas que tivessem adquirido laringes.

— Que é isso? — disse Oz, agarrando-se a Lou.

— Não duvide de m inhas palavras, Lou — soprou Diam ante, o rosto da cor de sorvete branco. — Está irritando os espíritos.

— Sim , Lou — disse Oz olhando em volta, com m edo que dem ônios do inferno viessem pegá-los. — Não fique irritando os espíritos.

Os ruídos finalm ente cessaram e Diam ante, recuperando a autoconfiança, olhou triunfante para Lou.

— Droga! Qualquer tolo percebe que este poço é m ágico. Consegue ver algum a casa por perto? Não, e vou lhe dizer por quê. Este poço brotou sozinho de dentro da terra, é por isso. E não é apenas um poço assom brado. É o que as pessoas cham am de poço dos desej os.

— Um poço dos desej os? — disse Oz.

— Ora! — Duas pessoas se separaram , m as ainda se am am . Sabe com o é, as pessoas m orrem , m as o am or nunca. Isto fez a m agia do poço. Quem tem um desej o, vem até aqui, faz o pedido e o pedido acontece. Sem pre. Faça chuva ou faça sol.

— Qualquer desej o? — perguntou Oz lhe agarrando o braço. — Tem certeza?

— Bissoluta. Só que tem um pequeno problem a.

— Já im aginava — m anifestou-se Lou. — Qual é?