O Poço dos Desejos
Capítulo Vinte e Nove
"Cara Louisa, espero que estej a tudo bem com você. Estam os bem aqui. Oz superou o crupe e está dorm indo a noite inteira." Oz deu um pulo.
— Sou eu! Mam ãe escreveu sobre m im ! — Ele fez um a pausa e pareceu confuso. — O que é crupe? — Nem queira saber. Mas você quer que eu leia ou não? — Oz tornou a se recostar enquanto a irm ã voltava a ler. "Lou tirou prim eiro lugar no concurso de soletrar e no arrem esso de argolas da festa da escola. Na últim a prova havia até m eninos! Ela é incrível, Louisa! Jack m e m ostrou um a foto sua e acho que Lou é m uito parecida com você. Os dois estão crescendo depressa. Tão depressa que chego a m e assustar. Lou tem m uitas afinidades com o pai. Seu raciocínio é tão rápido que fico com m edo que ela m e ache um tanto m açante. Essa ideia m e faz passar noites acordada. Eu a am o dem ais. Tento fazer o m áxim o que posso, m as m esm o assim , bem , você sabe, um pai e sua filha... Da próxim a vez falo m ais. E m ando fotografias. Am o você, Am anda. P.S.: Meu sonho é visitar os m ontes com as crianças, para que possam os finalm ente conhecê-la. Espero que um dia este sonho se torne realidade." — Foi um a boa carta — disse Oz. — Boa-noite, Lou.
Quando Oz com eçou a m ergulhar no sono, Lou estendeu lentam ente a m ão para pegar outra carta.
CAPÍTULO VINTE E NOVE
Lou e Oz estavam seguindo Diam ante e Jeb pelos bosques num esplêndido dia do início do outono, os salpicos de sol nos rostos, um a brisa fresca os acom panhando com os últim os arom as das m adressilvas e das rosas selvagens do verão.
— Aonde estam os indo? — perguntou Lou.
— Você vai ver — respondeu Diam ante num tom m isterioso. Subiram um a pequena ram pa e pararam . A quinze m etros dali, parado no cam inho, estava Eugene carregando um balde de carvão vazio e um lam pião. Em seu bolso havia um a banana de dinam ite.
— Eugene vai até a m ina — disse Diam ante. — Vai encher aquele balde. Antes da chegada do inverno, ele ainda vai m uitas vezes com as m ulas até lá. É preciso j untar um a boa carga de carvão.
— Bem , ir atrás dele vai ser tão em ocionante quanto ver alguém dorm ir. — Era a opinião abalizada de Lou.
— É? Espere até aquela dinam ite explodir — revidou Diam ante.
— Dinam ite? — perguntou Oz, surpreso. Diam ante abanou a cabeça.
— O carvão está m uito no fundo da rocha. A picareta não pode tirá-lo. E preciso explodir.
— Não é perigoso? — perguntou Lou.
— De j eito nenhum . Ele sabe o que está fazendo. Eu m esm o j á fiz.
Continuaram olhando de longe, vendo Eugene tirar a dinam ite do bolso e prendê-la a um grande pavio. Então ele acendeu o lam pião e entrou na m ina. Diam ante se recostou num a m acieira, tirou um a m açã e cortou-a. Atirou um pedaço para Jeb, que estava cavando em volta de um arbusto. O garoto notou as fisionom ias preocupadas de Lou e Oz.
— Aquele pavio vai queim ar m uito devagar. Dá tem po de ir e voltar até a lua antes da explosão.
Pouco depois, Eugene saiu da m ina e sentou-se num a pedra j unto à entrada.
— Ele não devia sair dali? — Não. Não se usa assim tanta dinam ite para encher apenas um balde. Depois que houver a explosão e a poeira assentar, m ostro a vocês com o é lá dentro.
— O que há para se ver num a velha m ina? — perguntou Lou. Diam ante se inclinou repentinam ente para a frente.
— Quer saber de um a coisa? Certa noite, bem tarde, vi uns suj eitos fuçando por aqui. Se lem bram da dona Louisa m e dizendo para m anter os olhos abertos? Bem , foi o que eu fiz. Eles tinham lanternas e carregaram caixas para a m ina. Vam os entrar e ver o que aprontaram .
— E se eles ainda estiverem na m ina? — Nada disso. Passei há pouco tem po por aqui, olhei em volta, atirei um a pedra lá dentro. E há pegadas frescas na terra na entrada da m ina. Além disso, Eugene os teria visto. — Ele teve um a súbita ideia. — Ei, talvez eles queiram m ontar um a destilaria e estej am usando a m ina pra guardar o alam bique, o m ilho e coisas parecidas! — É m ais provável que fossem pessoas sem -teto usando a m ina para se protegerem do sereno — disse Lou.
— Nunca ouvi falar de pessoas sem -teto por aqui.
— Então por que não contou a Louisa? — desafiou Lou.
— Ela j á tem m uito com o que se preocupar. O certo é dar um a olhada prim eiro. É o que um hom em faz.
Enquanto todos olhavam para a m ina, à espera da explosão, Jeb deu um a corrida num esquilo e ficou rodando em baixo da árvore onde ele subiu.
— Por que não vem m orar conosco? — perguntou Lou. Diam ante a encarou, claram ente perturbado com a pergunta, ele se virou para a cachorro.
— Pare com isso, Jeb. Esse esquilo não está lhe fazendo nada! — Podia nos aj udar, não é? — acrescentou Lou. — Seria m ais um hom em forte em casa. Jeb tam bém podia ir.
— Não. Sou um suj eito que precisa de sua liberdade.
— Ei, Diam ante — disse Oz —, você podia ser m eu irm ão m ais velho. Então Lou não teria de bater em todo m undo sozinha.
Lou e Diam ante sorriram um para o outro.
— Talvez devesse pensar no assunto — disse Lou.
— Talvez pense. — Ele olhou para a m ina. — Agora não vai dem orar.
Recostaram -se e ficaram à espera. Então o esquilo desceu correndo da árvore e disparou para dentro da m ina. Quando Jeb se arrem essou atrás dele, Diam ante deu um pulo: — Jeb! Jeb! Volte aqui! — O m enino saiu correndo. Eugene fez um gesto para pegá-lo, m as Diam ante se esquivou e entrou correndo na m ina.
— Diam ante! — gritou Lou. — Não! Ela tam bém correu para a entrada da m ina.
— Lou, não! — gritou Oz. — Volte! Antes que Lou atingisse a entrada, Eugene a agarrou.
— Fique aqui. Eu vou pegá-lo, dona Lou! Eugene m ancou m uito depressa para o interior da m ina, gritando: — Diam ante! Diam ante! Lou e Oz olharam um para o outro, aterrados. O tem po se escoava. Lou com eçou a andar em círculos nervosos perto da entrada.
— Por favor, por favor. Depressa. — Ela foi até a entrada e ouviu algum a coisa vindo. — Diam ante! Eugene! Mas foi Jeb que saiu correndo da m ina atrás do esquilo. Lou agarrou o cachorro e então o abalo da explosão tirou o equilíbrio dos seus pés. Poeira e grãos de terra saíram da m ina, e o redem oinho fez Lou tossir e se engasgar. Oz correu para aj udá-la enquanto Jeb latia e pulava.
Conseguindo recuperar o fôlego e o equilíbrio, ela cam baleou para a entrada.
— Eugene! Diam ante! Finalm ente, ouviu passos se aproxim ando. Os passos avançavam , m as pareciam instáveis. Lou rezou em silêncio. A coisa pareceu dem orar eternam ente, m as então Eugene apareceu, tonto, coberto de suj eira, sangrando. Olhou para eles com lágrim as no rosto.
— Maldição, dona Lou...
Lou deu um passo atrás, depois outro e m ais outro. Aí se virou e desceu a trilha da entrada o m ais depressa que pôde, seus gritos dom inando tudo.
Alguns hom ens carregaram o corpo coberto de Diam ante para um a carroça. Tinham tido de esperar um pouco até a fum aça se dissipar e poderem ter certeza de que a m ina não ia desabar. Cotton viu os hom ens levarem Diam ante e foi falar com Eugene, que estava sentado num pedregulho, segurando um pano m olhado contra a cabeça ensanguentada.
— Eugene, tem certeza de que não precisa de m ais nada? Eugene olhou para a m ina com o se ainda esperasse ver Diam ante saindo com seu cabelo revolto e sorriso tonto.
— Tudo que eu precisava, Dr. Cotton, era que isto fosse um sonho m au do qual se pudesse acordar.
Cotton deu um tapinha no om bro forte de Eugene e contem plou Lou sentada num grande m onte de terra, de costas para a m ina. Aproxim ou-se e sentou ao lado dela.
Os olhos de Lou estavam inj etados de tanto chorar, o rosto m anchado de lágrim as. Toda curvada, parecia form ar um a pequena bola, com o se cada parte dela sofresse de um a dor lancinante.
— Sinto m uito, Lou. Diam ante era um ótim o garoto.
— Era um hom em . Um ótim o hom em ! — Acho que tem razão. Era um hom em .
Lou olhou para Jeb, sentado pesarosam ente na entrada da m ina.
— Diam ante não tinha nada que entrar naquela m ina atrás de Jeb.
— Bem , esse cachorro era tudo que Diam ante possuía. Quando se am a alguém , não se pode sim plesm ente ficar sentado vendo-o m orrer.
Lou tirou um as folhas de um pé de pinheiro próxim o e deixou-as escorrer entre os dedos. Minutos se passaram antes dela falar de novo.
— Por que essas coisas acontecem , Cotton? Ele suspirou fundo.
— Suponho que sej a o m eio de Deus nos dizer para am ar as pessoas enquanto elas estão aqui, pois am anhã podem não estar. Acho que é um a resposta realm ente deplorável, m as infelizm ente é a única que tenho.
O silêncio se prolongou um pouco.
— Eu gostaria de ler para m inha m ãe — disse Lou.
— É a ideia m ais incrível que j á ouvi.
— Por que incrível? — perguntou ela. — Queria realm ente que m e dissesse! — Bem , se alguém que Am anda conhecesse, alguém que... am asse, lesse para ela, isso podia fazer m uita diferença.
— Acha realm ente que ela sabe? — No dia em que carreguei sua m ãe para fora, eu estava segurando um a pessoa viva, alguém que travava um a batalha feroz para sair daquela situação. Pude sentir a coisa. E um dia ela vai vencer a batalha. Acredito nisso de todo o coração, Lou.
Ela balançou a cabeça.
— É difícil, Cotton, am ar um a coisa que você sabe que pode nunca ter.
— É m uito esperta para a sua idade. — Cotton abanou lentam ente a cabeça. — E é perfeito o sentido do que você disse. Mas acho que, quando se trata das coisas do coração, um a lógica perfeita é a últim a coisa que vai ter im portância.
Lou deixou o resto das folhas caírem e esfregou as m ãos.
— Você é um bom suj eito, Cotton.
Cotton pôs o braço em volta dela e ficaram ali sentados, nenhum dos dois com vontade de olhar para a enorm e cavidade escura da m ina de carvão, o buraco que tinha levado para sem pre o am igo deles.