O Poço dos Desejos
Capítulo Trinta e Nove
— Eu j uro, Louisa Mae Cardinal, você não vai perder sua terra!
CAPÍTULO TRINTA E NOVE
A porta da sala de audiências se escancarou e Cotton entrou sabendo m uito bem o que ia fazer. Goode, Miller e Wheeler j á estavam lá. E, ao que parecia, além daquele triunvirato, todos os habitantes da cidade e da serra tinham conseguido se introduzir na sala. O m eio m ilhão de dólares que estava em j ogo conseguira m exer até com os sentim entos de quem vivia durante m uitos anos na apatia. Mesm o um senhor idoso que havia m uito alegava ser o m ais velho sobrevivente dos soldados rebeldes da Guerra Civil tinha se disposto a participar do últim o assalto daquele batalha legal. O hom em chegara m ancando na perna feita de carvalho e m ostrando o toco de m adeira no lugar do braço direito. A barba, branca com o neve, ia até a cintura e a gloriosa m edalha dos soldados da Confederação fora presa no peito. Os que estavam sentados no prim eiro banco tinham respeitosam ente aberto espaço para ele.
Lá fora estava frio e úm ido, m as as m ontanhas, enfim se cansando da chuva, tinham rom pido as nuvens e as m andado pastar em outra freguesia. Na sala de audiências, o acúm ulo do calor dos corpos era tão terrível que a um idade chegava a em baçar as j anelas. Todos, no entanto, continuavam lá, de pé ou sentados, tensos, esprem idos contra seus vizinhos.
— Acho que está m ais ou m enos na hora de fechar a cortina deste show — Goode com entou am igavelm ente com Cotton. Mas o que Cotton viu foi um hom em com o olhar saciado de um m atador profissional, alguém prestes a soprar a fum aça de seu revólver de seis tiros e bocej ar ante um corpo estendido na rua.
— Acho que o show está apenas com eçando — foi a truculenta resposta de Cotton.
Assim que o j uiz foi anunciado e o j úri se instalou, Cotton ficou de pé.
— Meritíssim o, eu gostaria de fazer um a proposta à prom otoria.
— Proposta? — perguntou Atkins. — Onde está querendo chegar, Cotton? — Todos nós sabem os por que estam os aqui. O problem a não se trata de saber se Louisa Mae Cardinal é m entalm ente incapaz ou não. O problem a é o gás.
Goode foi se levantando.
— A prom otoria tem um legítim o interesse em cuidar para que os negócios da Sra. Cardinal...
Cotton interrom peu.
— O único negócio da Sra. Cardinal é saber se ela quer ou não vender sua terra.
Atkins pareceu intrigado.
— Qual é sua proposta? — Estou disposto a adm itir que a Sra. Cardinal é m entalm ente incapaz.
— Bem , agora estam os chegando a algum lugar. — Goode sorria.
— Mas em troca quero exam inar se a Southern Valley é um pretendente adequado para adquirir sua terra.
Goode pareceu atônito.
— Deus, é um a das em presas m ais sólidas do estado! — Não estou falando de dinheiro — disse Cotton. — Estou falando de m oral.
— Meritíssim o — disse Goode num tom indignado.
— Aproxim em -se — pediu Atkins. Cotton e Goode correram para a bancada.
— Juiz — disse Cotton —, um longo dispositivo da constituição da Virginia sustenta claram ente que quem com ete um erro será im pedido de se beneficiar dele.
— Que absurdo!— disse Goode. Cotton se aproxim ou do adversário.
— Se não m e deixar continuar, Goode, tenho m eu próprio perito que vai contradizer tudo que disse o Dr. Ross. E se perder aqui, vou apelar. Até chegar ao Suprem o, se for preciso. Quando o seu cliente conseguir aquele gás, tenha certeza que todos j á estarem os m ortos.
— Mas sou advogado da União. Não tenho autoridade para representar um a em presa privada.
— Nunca ouvi um a declaração m ais cínica — disse Cotton.
— Mas eu desisto de qualquer obj eção e concordo em acatar a decisão deste j úri, m esm o com a deplorável parcialidade de George Davis ali sentado. — Goode estava olhando para Miller em busca de um a orientação e Cotton lhe deu um a cotovelada.
— Oh, Goode, vá falar com seu cliente. Pare de perder tem po.
com um ar de constrangim ento, Goode escapuliu e teve um a acalorada discussão com Miller, que olhava repetidam ente para Cotton. Miller finalm ente abanou a cabeça e Goode voltou.
— Nenhum a obj eção. O j uiz abanou a cabeça.
— Vá em frente, Cotton.
Lou tinha ido até o hospital no Hudson, com Eugene ao volante. Oz, no entanto, ficara em casa. O m enino não queria m ais nada com os tribunais e a j ustiça. A m ulher de Buford Rose se dispusera a cuidar dele e de sua m ãe. No hospital, Lou sentou-se num a cadeira, fitando Louisa, esperando que o pedido fizesse efeito. O quarto era frio, sem vida, de m odo algum propenso a fazer alguém sentir-se bem . Não era porém com a m edicina que Lou estava contando para fazer a m ulher m elhorar. Depositava suas esperanças na pilha de tij olos velhos no m eio da relva de um prado e num m aço de cartas que podiam m uito bem ser as últim as palavras que recebera da m ãe.
Ela se levantou e cam inhou até a j anela. Dali podia ver o cineteatro, onde a longa tem porada de O m ágico de Oz ainda não se encerrara. Lou, no entanto, perdera seu querido Espantalho e o Leão Covarde j á não tinha m edo. E o Hom em de Lata? Teria ele finalm ente encontrado seu coração? Talvez j am ais o tivesse perdido.
Lou se virou, olhou para a bisavó e enrij eceu quando Louisa abriu os olhos e a contem plou. Houve um a forte im pressão de reconhecim ento, a suspeita de um sorriso de carinho e as esperanças de Lou levantaram vôo. Com o se não apenas seus nom es, m as tam bém seus espíritos fossem idênticos, um a lágrim a escorreu pelos rostos das duas Louisas. Lou avançou, agarrou a m ão de Louisa e a beij ou.
— Adoro você, Louisa — disse ela, o coração m uito perto de parar, pois não se lem brava de haver dito antes aquelas palavras. A boca de Louisa se m oveu, e em bora Lou não conseguisse ouvir as palavras, pôde ver claram ente nos lábios o que a m ulher tam bém estava dizendo: Adoro você, Lou.
E então os olhos de Louisa lentam ente se fecharam . Quando eles não tornaram a se abrir, Lou se perguntou se o m ilagre só iria até aquele ponto.
— Sra. Lou, estão nos esperando no fórum .
Ela se virou e viu Eugene parado na porta com olhos arregalados.
— O Dr. Cotton vai cham ar nós dois para prestar depoim ento. Lou soltou lentam ente a m ão de Louisa, virou-se e saiu. Um m inuto m ais tarde, os olhos de Louisa se abriram m ais um a vez. Ela olhou em volta da sala e por um m om ento sua expressão pareceu assustada. Logo, no entanto, a calm a voltou. Louisa com eçou a se erguer na cam a, a princípio confusa, sem entender por que seu lado esquerdo não estava cooperando. Conservou o olhar na j anela enquanto lutava com força para se m exer. Centím etro por precioso centím etro ela progrediu, até que conseguiu ficar m eio sentada, os olhos sem pre pousados naquela j anela. Louisa estava respirando ruidosam ente agora, sua vontade e energia quase esgotadas após a breve luta. Ela, no entanto, se recostava no travesseiro e sorria. Do lado de fora da grande j anela, a m ontanha estava agora francam ente visível. Era um a paisagem belíssim a para Louisa, m esm o que o inverno tivesse levado a m aior parte do colorido. No próxim o ano, tudo certam ente ia voltar. Com o sem pre voltava. Era um a fam ília que nunca ia realm ente em bora. Era o que a m ontanha representava. Os olhos, então, continuaram fitando os fam iliares afloram entos de pedra e de árvores, m esm o que Louisa Mae Cardinal parecesse ter ficado com pletam ente im óvel.
No salão do fórum , Cotton se pôs de pé na frente do j uiz e anunciou em voz alta: — Cham o a Sra. Louisa Mae Cardinal.
Um a arfada brotou da assistência. Nesse m om ento a porta se abriu e Lou e Eugene entraram . Miller e Goode recuperaram a expressão convencida quando viram que se tratava apenas da criança. Eugene sentou-se enquanto Lou se dirigia ao banco das testem unhas.
Fred se aproxim ou.
— Levante sua m ão direita, ponha a esquerda sobre a Bíblia... Jura dizer a verdade, som ente a verdade, nada m ais que a verdade com a aj uda de Deus? — Juro — disse Lou em voz baixa, olhando ao redor, vendo todos os olhares pousados nela. Cotton deu um sorriso tranquilizador. Fora da visão da assistência, ele m ostrou a Lou que seus dedos tam bém estavam cruzados para trazer sorte.
— O que tenho de lhe perguntar, Lou, vai ser doloroso, m as preciso que responda às m inhas perguntas. Está bem ? — Está bem .
— Se lem bra do dia em que Jim m y Skinner m orreu? Você estava com ele, não é? Miller e Goode trocaram olhares m eio espantados. Goode se levantou.
— Meritíssim o, o que isto tem a ver com o que está em pauta? — O Estado concordou em deixar que eu expusesse m inha teoria — disse Cotton.
— Tudo bem — disse o j uiz. — Mas procure não levar o dia inteiro.
Cotton tornou a se virar para Lou.
— Estava na entrada da m ina quando houve a explosão? — Sim .
— Pode nos descrever o que aconteceu? Lou engoliu em seco e seus olhos ficaram úm idos.
— Eugene pôs a dinam ite lá dentro e saiu. Ficam os todos esperando a explosão. Então Diam ante... isto é, Jim m y correu para a m ina atrás de Jeb, seu cachorro, que estava caçando um esquilo. Eugene tornou a entrar para pegar Jim m y . Eu estava parada na frente da boca da m ina quando a dinam ite explodiu.? — O estrondo foi grande? — Foi a coisa m ais forte que j á ouvi em toda a m inha vida.
— Será que não foram duas explosões j untas? — Não, acho que não. — Ela parecia confusa.
— Provavelm ente não. E o que aconteceu depois? — Bem , um a grande nuvem de ar e fum aça saiu e m e derrubou.
— A coisa devia ter algum a força.
— E tinha. Realm ente tinha.
— Obrigado, Lou. Sem m ais perguntas.
— Dr. Goode? — disse Atkins.
— Sem perguntas, m eritíssim o. Ao contrário do Dr. Longfellow, não vou desperdiçar o precioso tem po do j úri com este contra-senso.
— Cham o agora Eugene Randall — disse Cotton. Nervoso, Eugene se instalou no banco das testem unhas. Suas m ãos am assavam com força o chapéu que ele ganhara de Lou.
— Então, Eugêne, no dia em que Jim m y Skinner m orreu você tinha ido pegar um pouco de carvão na m ina, correto? — Sim , senhor.
— Usa dinam ite para extrair o carvão? — Sim , é o que faz a m aioria das pessoas. O carvão faz um bom calor. Muito m elhor que a m adeira.
— Quantas vezes calcula que tenha usado dinam ite naquela m ina? Eugene pensou um pouco.
— Um as trinta vezes ou m ais nos últim os anos.
— Acho que isso o transform a num verdadeiro perito. Eugene sorriu ante o rótulo.
— Acredito que sim .
— Com o exatam ente você age quando usa dinam ite? — Bem , coloco as bananas de dinam ite num buraco na parede, descubro a ponta, desenrolo o pavio e acendo o pavio com a cham a do m eu lam pião.
— E depois? — Aquela galeria faz duas curvas. Às vezes, quando não estou usando m uita dinam ite, espero do outro lado das curvas. Às vezes saio. Estou com eçando a não suportar m ais o barulho. E a poeira de carvão que voa é m uito ruim .
— Aposto que é. Na realidade, no dia em questão, você esperou do lado de fora. Certo? — Sim , senhor.
— E de repente tornou a entrar para pegar o Jim m y , m as não conseguiu.
— Não, senhor — respondeu Eugene olhando para o chão.
— Parece que havia algum tem po que você não ia àquela m ina.
— Sim , senhor. Não ia lá desde o início do ano. O últim o inverno não tinha sido assim tão frio.
— Tudo bem . Então, quando houve a explosão, onde você estava? — A uns trinta m etros da saída. Pouco depois da prim eira curva. Tenho um a perna ruim . Não posso andar m ais rápido.
— O que aconteceu quando houve a explosão? — Ela m e j ogou a três m etros de distância. Bati na parede. Achei que tinha m orrido, m as continuei segurando m eu lam pião. Nem sei com o.
— Meu Deus. Três m etros? Um hom em do seu tam anho? Se lem bra onde colocou a carga de dinam ite? — Nunca vou esquecer, Dr. Cotton. Foi depois da segunda curva. Há cem m etros da entrada da m ina. Há um bom veio de carvão ali.
Cotton fingiu estar confuso.
— Não estou entendendo um a coisa, Eugene. Você afirm ou que de outras vezes estava dentro da m ina quando a dinam ite explodia. E não ficava ferido. E com o é que agora, com você a uns setenta m etros da carga de dinam ite, atrás não apenas de um a m as de duas curvas da galeria, a explosão consegue j ogá-lo três m etros para cim a? Se estivesse m ais perto, provavelm ente estaria m orto. Com o explica isso? Dessa vez era Eugene quem parecia desnorteado.
— Não sei explicar, Dr. Cotton. Mas foi o que aconteceu, j uro.
— Acredito em você. Mas ouviu Lou testem unhar que foi derrubada do lado de fora da m ina. Agora m e diga: quando você esperava do lado de fora da m ina tam bém era derrubado na hora da explosão? Antes de Cotton term inar a pergunta, Eugene respondia que não com um m ovim ento de cabeça.
— A dinam ite que eu usava era m uito pouca. Não dava nem um coice. O único obj etivo era conseguir algum a coisa para colocar no balde. Uso m ais dinam ite no inverno, quando vou até a m ina num trenó puxado pelas m ulas, m as m esm o nessas ocasiões a coisa nunca saiu da m ina daquele j eito. Deus, estam os falando de cem m etros de distância e atrás de duas curvas.
— Você achou o corpo de Jim m y ? Havia pó e pedras em cim a dele? Algum a parte da m ina tinha desabado? — Não, não tinha. Mas vi que estava m orto. Ele não tinha lam pião, percebe? E sem luz, num a m ina com o aquela, o suj eito nunca sabe quando está entrando ou saindo.
A m ente engana a pessoa. Provavelm ente Jim m y nem viu Jeb passar por ele em direção à saída.
— Pode nos dizer exatam ente onde encontrou o corpo de Jim m y ? — A uns quarenta m etros da entrada da m ina. Depois da prim eira curva, m as antes da segunda.
Sentados lado a lado, em presário e advogado observavam o trabalho de Cotton. Batendo com os dedos no chapéu, Miller se inclinou para o lado e sussurrou no ouvido de Goode. Goode abanou a cabeça e olhou para Eugene. Depois sorriu e abanou de novo a cabeça.
— Bem , vam os presum ir — disse Cotton — que Jim m y estivesse próxim o da carga de dinam ite quando ela explodiu. Ela teria lhe dado um coice e tanto, não é? — Se ele estivesse perto, é claro que sim .
— Mas seu corpo estava antes da segunda curva. Goode se levantou.
— Isso é facilm ente explicável. A explosão da dinam ite pode ter atirado o corpo depois da curva.
— Não consigo im aginar — disse Cotton olhando para o j úri — com o um corpo em vôo pode executar um a curva de noventa graus e ainda avançar um pouco m ais antes de parar. A não ser que o Dr. Goode estej a sugerindo que Jim m y Skinner j á estivesse acostum ado a passar voando por aquele túnel.
Ondas de riso flutuaram pelo salão de audiências. Atkins se recostou bruscam ente na cadeira, m as não bateu o m artelo para reprim ir o barulho.
— Continue, Cotton. Isso está ficando um tanto interessante.
— Eugene, você se lem bra de ter se sentido m al quando estava na m ina naquele dia? Eugene pensou um pouco.
— Difícil lem brar. Talvez um pouco de dor de cabeça.
— OK, então, em sua opinião abalizada, só a explosão de dinam ite não poderia ter feito o corpo de Jim m y Skinner parar onde parou? Eugene se virou para o j úri e aproveitou para olhar um por um .
— Não, senhor! — Obrigado, Eugene. Sem m ais perguntas.
Goode se aproxim ou, pôs as palm as das m ãos no parapeito do banco de testem unhas e se inclinou para Eugene.
— Rapaz, você m ora com a Sra. Cardinal, não é? — Sim , senhor — disse Eugene se recostando um pouco, o olhar firm e no hom em . Goode se virou para o j úri com um olhar incisivo.
— Um hom em de cor e um a m ulher branca na m esm a casa? Cotton estava de pé antes que Goode term inasse de falar.
— Juiz, não pode deixá-lo fazer isso! — Dr. Goode — disse Atkins —, vocês podem estar acostum ados a fazer esse tipo de coisa em Richm ond, m as não em m inha corte. Se tem algum a pergunta a fazer referente a este caso, faça-a; caso contrário, vá se sentar! E da últim a vez que verifiquei, o nom e dele era sr. Eugene Randall, não "rapaz".
— Claro, m eritíssim o, tem razão. — Goode lim pou a garganta, deu um passo atrás e enfiou as m ãos nos bolsos. — Então, senhor Eugene Randall, o senhor disse, em sua opinião abalizada, que o senhor estava a uns setenta m etros da carga e que o senhor Skinner estava a cerca de m etade dessa distância da dinam ite. Está lem brado de dizer tudo isso? — Não, senhor. Eu disse que estava a uns trinta m etros da saída da m ina, ou sej a, a uns setenta m etros da carga de dinam ite. Disse que tinha encontrado Diam ante a uns quarenta m etros da entrada da m ina. O que significa que ele estava a uns sessenta m etros de onde eu pus a dinam ite. Eu não teria m eios de dizer em que ponto exato ele foi atingido pela explosão.
— Certo, certo. Agora m e diga, j á esteve na escola? — Não.
— Nunca? — Não, senhor.
— Então nunca aprendeu m atem ática, nunca fez contas de som ar e subtrair. E no entanto está aqui sentado depondo sob j uram ento a respeito de distâncias exatas.
— É.
— Mas com o podem os aceitar isto de um hom em de cor, sem educação, com o você? Alguém que nunca som ou um m ais um sob as vistas de um professor. Por que iria este bom j úri acreditar em todos os núm eros pom posos que está declam ando aqui? O olhar de Eugene não se desviou da confiante fisionom ia de Goode.
— Sei lidar realm ente bem com os núm eros. Incluindo contas. É j ogo rápido, dona Louisa m e ensinou. E tam bém sou bom com pregos e um a serra. Aj udei m uita gente a construir celeiros na m ontanha. Para ser carpinteiro, a pessoa tem de entender os núm eros. Se você cortar noventa centím etros de m adeira para encher um espaço de um m etro e vinte, do que exatam ente vão lhe cham ar? De novo os risos pairaram na sala e de novo Atkins deixou a coisa passar.
— Ótim o — disse Goode. — Então, sabe cortar um a tábua. Mas estar nas curvas de um a m ina, um lugar escuro com o breu, é outra coisa. Com o pode ter certeza do que disse a esta corte? Vam os lá, sr. Eugene Randall, nos conte. — Goode falara olhando para o j úri, um sorriso dançando na boca.
— Tenho certeza porque a coisa estava bem ali na parede — disse Eugene.
Goode o encarou.
— Não entendi.
— Tinha m arcado as paredes da m ina com cal, de três em três m etros, num a extensão de cento e vinte m etros. Muita gente da serra faz isso. Se você vai explodir dinam ite num a m ina, é m elhor saber qual é o cam inho certo para sair de lá. Sei que bastou um erro m eu para m e causar este problem a na perna. Além disso, com essas m arcas eu nunca esqueço onde estão os bons veios de carvão. Se sair daqui agora e entrar naquela m ina com um lam pião, senhor advogado, vai ver que as m arcas são claras com o o dia. Por isso pode aceitar o que eu disse com o a própria palavra do Senhor.
Cotton olhou de relance para Goode. Era com o se alguém tivesse dito àquele senhor que o céu não estava m ais adm itindo m em bros da Ordem dos Advogados.
— Mais algum a pergunta? — Atkins perguntou a Goode. O hom em não abriu a boca. Lim itou-se a deslizar para sua m esa com o um a nuvem errante e desabar na cadeira.
— Sr. Randall — disse Atkins —, está dispensado, senhor, e a corte desej a lhe agradecer por seu abalizado depoim ento! Eugene se levantou e voltou para seu lugar. Do balcão, Lou notou que ele nem parecia m ancar. Cotton, então, cham ou Travis Barnes ao banco das testem unhas.
— Dr. Barnes, a pedido m eu o senhor exam inou os registros referentes à m orte de Jim m y Skinner, não foi? Incluindo um a fotografia tirada fora da m ina.
— Sim , é verdade.
— Pode nos dizer qual foi a causa da m orte? — Ferim entos graves na cabeça e no corpo.
— Qual era o estado do corpo? — Parecia literalm ente despedaçado.
— Já tratou de alguém ferido num a explosão de dinam ite? — Num a região m ineira com o a nossa? Claro que sim .
— Ouviu o depoim ento de Eugene. Em sua opinião, dadas as circunstâncias do acidente, poderia um a carga de dinam ite ter causado os ferim entos que o senhor viu em Jim m y Skinner? Goode protestou, m as nem se preocupou em ficar de pé.
— Está recorrendo a um a especulação da testem unha... disse com voz rouca.
— Juiz, acho que o Dr. Barnes é perfeitam ente com petente para responder à pergunta com o perito! — disse Cotton.
Atkins j á tinha abanado a cabeça.
— Vá em frente, Travis.
Travis olhou com desprezo para Goode.
— Conheço bem o tipo de carga de dinam ite que as pessoas daqui usam para conseguir um balde de carvão. Daquela distância da carga, e do outro lado de um a curva da galeria, era im possível que a dinam ite provocasse os ferim entos que vi. Ninguém pode im aginar o estado em que aquele corpo ficou.
— Bem — disse Cotton —, se a pessoa entra na m ina no m om ento em que a dinam ite explode, todos vão achar que ela m orreu por isso. Algum a vez j á tinha visto ferim entos com o aqueles?
— Sim . Num a explosão nas instalações de um a fábrica. Matou doze hom ens. Ficaram com o Jim m y . Literalm ente despedaçados.
— Qual foi a causa dessa explosão?
— Vazam ento de gás natural.
Cotton se virou e olhou firm e para Hugh Miller.
— Dr. Goode, a não ser que queira tentar algum a coisa com esta testem unha, cham o para depor o sr. Judd Wheeler.
Goode olhou para Miller com um ar de frustração. — Nenhum a pergunta.
Nervoso, Wheeler bateu com os dedos na bancada quando Cotton se aproxim ou.
— É geólogo-chefe da Southern Valley ?
— Sou.
— E chefiou a equipe que investigava a existência de possíveis depósitos de gás natural na propriedade da Sra. Cardinal?
— Sim .
— Sem a perm issão ou o conhecim ento dela?
— Bem , eu não sabia que...
— Tinha a perm issão dela, sr. Wheeler? — bradou Cotton.
— Não.
— Encontraram gás natural, não foi?
— É verdade.
— E isso era um a coisa em que sua em presa estava bastante interessada, certo? — Bem , o gás natural está se tornando m uito valioso com o com bustível para aquecim ento. Geralm ente usam os gás m anufaturado, gás local, com o costum am cham ar. É obtido do carvão aquecido. É o com bustível, por exem plo, dos lam piões de rua desta cidade. Mas não se pode ganhar m uito dinheiro com gás m anufaturado. Agora, felizm ente, tem os gasodutos de aço, sem em endas. E eles nos perm item enviar gás natural para m uito longe. Sim , claro, estam os m uito interessados no gás natural.
— O gás natural é explosivo, certo?
— Se for devidam ente usado...
— É ou não é?
— É.
— Exatam ente o que estavam fazendo naquela m ina? — Fazíam os testes, leituras e conseguim os identificar o que parecia ser um enorm e depósito de gás natural. Estava num a falha não m uito longe do piso. A uns duzentos m etros da entrada. Carvão, petróleo e gás são frequentem ente encontrados num m esm o ponto, pois os três resultam de processos naturais sim ilares. O gás é sem pre encontrado em cim a, porque é m ais leve. Por isso é que se deve ter cuidado quando se está extraindo carvão. A ocorrência de gás m etano constitui um verdadeiro perigo para os m ineiros. De qualquer m odo, perfuram os e atingim os aquele depósito de gás.
— O gás chegou ao poço da m ina?
— Sim .
— Em que data atingiram o depósito de gás? Quando Wheeler disse o dia, Cotton o repetiu em alto e bom som para o j úri.
— Um a sem ana antes da m orte de Jim m y Skinner! Alguém sentiria o cheiro do gás?
— Não. Em seu estado natural o gás não tem cor nem cheiro. Quando é processado, as em presas acrescentam um cheiro característico. Assim , se houver vazam ento, as pessoas poderão detectá-lo antes que o am biente fique im pregnado.
— Ou antes que algum a coisa o inflam e.
— É verdade.
— Se alguém fizesse explodir um a carga de dinam ite num poço de m ina onde houvesse a presença de gás natural, o que aconteceria? — O gás ia explodir. — O próprio Wheeler lem brava alguém que quisesse explodir e sum ir dali.
— Acho — disse Cotton virando-se para o j úri — que Eugene teve realm ente m uita sorte por estar longe do buraco onde o gás estava vazando e a cham a de seu lam pião não ter inflam ado o gás. E deu ainda m ais sorte por não riscar um fósforo para acender aquele pavio. Mas sem dúvida a dinam ite explodindo estragou tudo. — Ele se virou para Wheeler. Com o seria um a explosão de gás? Grande o bastante para provocar a m orte de Jim m y Skinner da form a descrita pelo Dr. Barnes?
— Sim — adm itiu Wheeler.
Cotton pôs as m ãos no parapeito do banco de testem unhas e se inclinou sobre ele.
— Em nenhum m om ento pensaram em colocar tabuletas advertindo as pessoas de que havia gás ali?
— Não podia im aginar que iam colocar dinam ite lá dentro! Não podia im aginar que iam fazer algum a coisa dentro daquela m ina! Cotton achou que Wheeler atirara um olhar furioso para George Davis, m as não teve certeza.
— No entanto, se algum descuidado entrasse, poderia ter problem as com o gás... Não seria bom ter colocado um aviso?
Wheeler respondeu rápido. — O teto no poço daquela m ina é m uito alto e passa algum a ventilação natural através da rocha. A concentração de m etano ali não seria tão perigosa. E íam os tapar o buraco. Estávam os esperando a chegada do equipam ento de que precisávam os. Não queríam os que ninguém se m achucasse. Não tenha dúvida quanto a isso!
— O fato é que não puseram placas de advertência, e não puseram porque estavam ilegalm ente ali. É verdade ou não?
— Eu só estava seguindo ordens.
— E ficava difícil esconder o trabalho que andavam fazendo na m ina, não é?
— Bem , só trabalhávam os à noite. E não deixávam os nenhum equipam ento lá.
— Para que ninguém soubesse que tinham estado ali?
— Sim .
— Porque a Southern Valley esperava com prar o sítio da Sra. Cardinal por m uito m enos dinheiro se ela não soubesse que estava sentada num oceano de gás?
— Protesto! — disse Goode.
— Sr. Wheeler... — Cotton estava a pleno vapor —, o senhor soube que Jim m y Skinner m orreu na explosão que aconteceu na m ina. E certam ente percebeu o papel desem penhado pelo gás. Por que não tom ou a iniciativa de contar a verdade?
— Me disseram para não fazer isto — respondeu Wheeler alisando o chapéu.
— Quem disse?
— O sr. Hugh Miller, vice-presidente da com panhia.
Todos na sala olharam para Miller. E foi tam bém olhando para Miller que Cotton fez as perguntas seguintes.
— Tem filhos, sr. Wheeler?
Wheeler pareceu surpreso, m as respondeu: — Três.
— Todos estão bem ? Com saúde?
O olhar de Wheeler caiu para o chão antes dele responder: — Sim .
— É um hom em de sorte.
Goode se dirigia aos j urados em sua exposição final.
— Tiveram provas de sobra para concluir que Louisa Mae Cardinal é m entalm ente incapaz. Na realidade, seu próprio advogado, Dr. Longfellow, adm itiu este fato. Vej am bem , toda essa conversa sobre gás, explosões e coisas do gênero nada tem a ver com o caso. E se a Southern Valley esteve de algum a form a envolvida na m orte do sr. Skinner, seus descendentes poderão ter direito a um a indenização.
— Ele não tem descendentes — disse Cotton, m as Goode preferiu ignorá-lo.
— O Dr. Longfellow pergunta se m eu cliente é parceiro adequado para estar com prando terras aqui. O fato, pessoal, é que a Southern Valley tem grandes planos para esta cidade. Bons em pregos, trazendo de volta a prosperidade para todos vocês. — Chegou bem perto do j úri, com o se falasse no ouvido de seus am igos do peito. — A questão que se coloca é a seguinte: devem os perm itir ou não que a Southern Valley enriqueça suas vidas e a vida da Sra. Cardinal? A resposta m e parece de todo evidente.
Goode se sentou. E Cotton se aproxim ou do j úri. Cam inhou devagar, um a atitude confiante, ainda que não am eaçadora. com as m ãos nos bolsos, pousou um dos m altratados sapatos na trave de m etal sob a bancada do j úri. Quando falou, o sotaque era m ais do Sul que da Nova Inglaterra e cada j urado, com exceção de George Davis, se inclinou para não perder nada do que ele dissesse. Já tinham visto Cotton Longfellow derrubar a crista de Goode, supostam ente um dos m elhores advogados da grande cidade de Richm ond. E tam bém hum ilhar um a em presa que estava se transform ando num dom ínio m onárquico, pelo m enos até onde isso era possível num país dem ocrático. Sem a m enor dúvida, queriam agora ver o hom em term inar o trabalho.
— Prim eiro, pessoal, quero transm itir a vocês o aspecto legal do caso. Que não é absolutam ente com plicado. Na realidade é com o um bom cão de caça. Ele aponta num a direção, só e unicam ente nessa direção. — Tirou um a das m ãos do bolso e, com o um bom sabuj o, falou apontando claram ente para Hugh Miller.
— As ações im prudentes da Southern Valley m ataram Jim m y Skinner, não tenham dúvidas a esse respeito. A própria Southern Valley não o contesta. Estavam ilegalm ente na propriedade de Louisa Mae. Não colocaram placas advertindo que a m ina se enchera de gás explosivo. Isso fez com que pessoas inocentes entrassem num túnel cuj o ar eles sabiam que era m ortal. Podia ter acontecido a qualquer um de vocês. Não tiveram o brio de dizer a verdade, pois sabiam que estavam errados. E agora procuram usar a tragédia do ataque cardíaco de Louisa Mae para tirar sua terra. A lei diz claram ente que não podem os nos beneficiar do que fizem os de errado. Bem , se o que a Southern Valley fez não se qualifica com o erro, então nada nesta terra é errado.
— Até este ponto ele estava falando devagar, num ritm o contínuo. Agora sua voz subira um pequeno ponto, m as o dedo com eçaria a apontar para Hugh Miller. — Um dia Deus aj ustará contas com quem m atou um j ovem inocente. Mas o trabalho dos senhores é fazer com que eles sej am punidos hoj e.
Cotton olhou para cada j urado, parando em George Davis; dirigiu-se diretam ente a ele.
— Agora vam os chegar à parte não legal deste negócio, pois acho que é o centro das dúvidas que vocês enfrentam . A Southern Valley entrou aqui sacudindo sacolas de dinheiro na nossa frente, dizendo que é a salvadora de toda a cidade. Mas foi a m esm a coisa que o pessoal da m adeira disse a vocês. Eles iam ficar aqui para sem pre, estão lem brados? E de repente todos os acam pam entos m adeireiros foram m ontados sobre trilhos, certo? Por quanto tem po vocês concordarão em ser tratados com o gente tem porária! Onde estão os m adeireiros agora? Da últim a vez que vi no m apa, o Kentucky não fazia parte do estado da Virginia.
Ele estreitou os olhos para Miller e continuou: — As com panhias de carvão disseram a m esm a coisa a vocês, e o que elas fizeram ? Vieram , pegaram o que queriam e deixaram m ontanhas furadas, fam ílias inteiras com os pulm ões negros e sonhos transform ados em pesadelos. Agora é a Southern Valley quem está cantando a m esm a cantiga, só que com gás. É apenas m ais um j ogo, por conta do que ainda resta na m ontanha. Mais um a coisa para sugar sem deixar nenhum a sobra! Cotton se virou e se dirigiu a toda a audiência.
— No fundo não se trata da Southern Valley , do carvão ou do gás. No fundo se trata de todos vocês. Eles podem cortar o topo daquela m ontanha com bastante facilidade, extrair o gás, instalar o incrível gasoduto de aço sem em endas e a coisa pode se prolongar por dez, quinze ou vinte anos. Mas depois tudo isso vai acabar. Vocês percebem , não? O gasoduto vai levar o gás para outros lugares, exatam ente com o os trens levaram o carvão e o rio levou as árvores. E qual é o sentido disto, vocês sabem ? — Ele se dem orou um pouco olhando ao redor da sala. — Vou lhes dizer qual é. O sentido é m ostrar onde está a verdadeira prosperidade, pessoal. Pelo m enos do m odo com o a Southern Valley a define. Todos sabem com o funciona.
Essas m ontanhas só servem para m anter a prosperidade de seus bolsos cheios. Eles vêm até aqui e levam o que podem .
"Dickens, na Virginia", Cotton continuou, "j am ais será um a Nova York, e tenham certeza de que não há absolutam ente nada de negativo nisso. Na realidade, j á tem os um núm ero suficiente de grandes cidades ao lado de um núm ero infelizm ente cada vez m enor de lugares com o este. Vocês j am ais ficarão ricos trabalhando no sopé destas m ontanhas, m as acho que quem precisa de grande riqueza são as Southern Valley s do m undo, que tiram tudo da terra e não lhe devolvem nada. Querem salvadores de verdade! Olhem para vocês m esm os. Confiem um no outro. Façam com o Louisa Mae tem feito sua vida inteira nesses m ontes. Lavradores vivem na dependência do tem po e da terra.
Um ano perdem , outro ganham . Mas para eles, a m ontanha j am ais se esgota, porque eles nunca arrancam a alm a do que nela existe. E a recom pensa que recebem é serem capazes de viver um a vida decente, honesta, pelo tem po que assim o quiserem , sem m edo das pessoas que chegam com grandes prom essas. Elas só pretendem j untar um barril de ouro pilhando os m ontes. Depois vão em bora, quando isso aqui não render m ais nada. No processo, vidas de inocentes serão destruídas." Ele apontou para Lou sentada no m eio do salão.
— Vej am , o pai dessa m enina escreveu histórias m aravilhosas sobre esta área, sobre os verdadeiros problem as da terra e das pessoas que nela vivem . Através de suas palavras, Jack Cardinal capacitou este lugar a viver para sem pre. Exatam ente com o os m ontes. Ele teve um a instrutora exem plar, pois Louisa Mae Cardinal viveu a vida inteira do m odo com o todos nós devíam os viver. Ela aj udou m uitos de vocês em algum m om ento de suas vidas e nunca pediu nada em troca. — Cotton olhou para Buford Rose e para alguns outros lavradores. — E vocês a aj udaram quando ela precisou. Talvez por j á saberem que ela nunca venderia sua terra, pois aquele solo é tão parte de sua fam ília quanto seus bisnetos, que até agora não sabem o que vai acontecer com eles. Não podem deixar a Southern Valley roubar a fam ília dessa m ulher. Aqui em cim a, nos m ontes, o que as pessoas têm é a terra e a com panhia uns dos outros.
Isso é tudo. Pode não parecer grande coisa para os que não m oram aqui ou para quem só procura destruir as rochas e as árvores, m as significa tudo para as pessoas que consideram essas m ontanhas com o seu lar.
Cotton continuou parado diante da bancada do j úri e, em bora sua voz não se elevasse e perm anecesse calm a, o grande salão parecia inadequado para conter suas palavras.
— Vocês não têm de ser peritos em direito para chegar à decisão j usta neste caso. Só precisam ter coração. Deixem Louisa Mae Cardinal conservar sua terra.