O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 20 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Dezoito

Os piolhos tinham encontrado o cam inho da escola Pinheiro Grande e tanto Lou quanto Oz tiveram de suportar grandes lavadas de cabelo com querosene.

— Não cheguem perto do fogo — advertira Louisa.

— É noj ento — disse Lou, passando os dedos nos fios oleosos.

— No m eu tem po de escola tam bém peguei piolhos e colocaram enxofre, banha de porco e pólvora no m eu couro cabeludo — disse Louisa. — O cheiro era insuportável e fiquei m orrendo de m edo que alguém riscasse um fósforo e m inha cabeça explodisse.

— Existia escola quando você era pequena? — perguntou Oz. Louisa sorriu.

— Tinham o que se cham ava de escola por subscrição, Oz. Um dólar por m ês e você virava um aluno. Cada ano letivo durava três m eses e estudavam um as cem crianças num a cabana de toras com um único côm odo. Havia um piso de tábuas de m adeira crua que lascava nos dias quentes e ficava gelado no inverno. As crianças rebeldes eram castigadas com um pequeno chicote ou um a correia. Depois eram deixadas um a boa m eia hora na ponta do pé, com o nariz enfiado num círculo que a professora desenhava no quadro-negro. Nunca tive de ficar na ponta do pé. Nem sem pre fui boazinha, m as nunca m e apanharam . Alguns alunos eram hom ens adultos, m uito perto da idade de perder braços e pernas na guerra. Eles tam bém iam à escola para aprender as letras e os núm eros. Costum ávam os soletrar os nom es em voz alta e às vezes os cavalos se assustavam com tanto barulho. — O castanho-claro de seus olhos cintilou. Tive um a professora que usava as m arcas de sua vaca para ensinar geografia. Até hoj e, não posso olhar para um m apa sem pensar naquele m aldito anim al. — Olhou para os dois. — Acho que um a pessoa pode ficar de cabeça quente em qualquer escola. O im portante é que vocês aprendam o que é preciso. Exatam ente com o o pai de vocês aprendeu. — Falara olhando principalm ente para Lou, e a m enina parou de se queixar do querosene no cabelo.

CAPÍTULO DEZOITO

Certa m anhã, Louisa ficou com pena dos dois e deu a Lou e a Oz um m uito esperado sábado de folga para que fizessem o que bem entendessem . O dia estava m uito bonito, com um a brisa gostosa do oeste atravessando um céu azul e as árvores cobertas de verde balançando sob seu toque. Diam ante e Jeb vieram buscá-los de m anhã. Diam ante queria m ostrar aos dois um lugar m uito especial que havia na m ata, e assim eles foram .

A aparência de Diam ante pouco m udara: as m esm as calças largas, a m esm a cam isa e nada de sapato. As solas de seus pés deviam ter os nervos am ortecidos. Já deviam ser com o cascos de cavalo, Lou pensou, pois o vira correr por rochas afiadas, pisar em roseiras, atravessar m oitas com grandes espinhos e nem um a única vez o sangue escorreu ou o rosto se contraiu. Usava um boné engordurado puxado sobre a testa. Lou perguntou a ele se o boné não era do pai, m as só recebeu um resm ungo com o resposta.

Chegaram a um alto carvalho que ficava num a clareira, ou pelo m enos num ponto onde a vegetação era bastante baixa. Lou reparou que ripas de m adeira tinham sido pregadas no tronco da árvore, form ando um a escada rústica. Diam ante pôs o pé no prim eiro degrau e com eçou a subir.

— Aonde você vai? — perguntou Lou, enquanto Oz segurava Jeb, pois o cachorro parecia disposto a subir na árvore atrás do dono.

— Visitar Deus — gritou Diam ante, apontando direto para o alto. Lou e Oz olharam para o céu.

Lá no alto, pranchas feitas de pinheirinhos descascados estavam estendidas lado a lado sobre dois galhos grossos do carvalho, form ando um piso. Um a lona fora atirada sobre um ram o resistente m ais acim a e os lados tinham sido am arrados às pranchas do piso com cordas, form ando um a rude tenda.

Em bora sugerindo todo tipo de diversão, a casa na árvore parecia frágil, capaz de despencar à m enor raj ada de vento.

— Venham — dizia Diam ante. Movendo-se com extrem a agilidade, j á subira três quartos do cam inho.

Lou, que teria preferido a m orte m ais terrível a adm itir que não conseguiria fazer algum a coisa, pôs a m ão e um pé nos dois prim eiros degraus.

— Se quiser fique aqui em baixo, Oz — disse ela. — Provavelm ente não vam os dem orar. — E com eçou a subir.

— Arranj ei um lugar incrível aqui, pode crer — disse Diam ante num tom sedutor. Já chegara no alto, os pés descalços balançando na beirada de um galho.

Oz cuspiu ritualm ente nas m ãos, agarrou um degrau de m adeira e escalou o tronco atrás da irm ã. Sentaram -se de pernas cruzadas nas toras de pinho. Era um a área de quase quatro m etros quadrados, onde a cobertura de lona atirava um a bela som bra, e foi lá que Diam ante m ostrou seus troféus. Prim eiro havia um a ponta de flecha de pederneira que, segundo ele, teria pelo m enos um m ilhão de anos e lhe teria sido entregue num sonho. Depois ele abriu um a sacola de pano um tanto úm ida e tirou lá de dentro o esqueleto de um passarinho. Disse que aquele tipo de ave fora visto pela últim a vez pouco depois que Deus criara o universo.

— Quer dizer que foi extinto — disse Lou.

— Negativo, quer dizer que anda m eio sum ido.

Oz estava intrigado com um pedaço oco de m etal. Encaixado num a das pontas, havia um grosso pedaço de vidro. Olhou através dele e, em bora as coisas ficassem um pouco am pliadas, o vidro estava tão suj o e riscado que logo com eçou a lhe dar dor de cabeça.

— Pode se ver alguém avançando a quilôm etros de distância — proclam ou Diam ante fazendo um gesto com a m ão através de seu reino. — Inim igo ou am igo. -Mostrou em seguida um a bala que, segundo ele, teria saído de um rifle U.S. Springfield de 1861.

— Com o sabe disso? — disse Lou.

— Porque m eu bisavô m atou cinco suj eitos com o rifle. E m eu pai m e deu o rifle antes de m orrer. Meu bisavô, que tam bém foi m orto com cinco tiros, lutou pelo Norte, sabiam ? — Puxa! — disse Oz.

— Pois é, estava no tim e do Norte com o os grandes j ogadores daquele tem po. Mas nunca levantou sua arm a para um soldado do Sul. Isso não era certo.

— Fantástico — disse Lou.

— Agora olha aqui — disse Diam ante, tirando um pedaço de carvão de um a pequena caixa de m adeira e entregando a Lou. — O que você acha? Lou exam inou a coisa. A pedra estava toda lascada e áspera.

— É um pedaço de carvão — disse, devolvendo a pedra e lim pando a m ão nas pernas da calça.

— Não, não é apenas isso. Não percebe? Há um diam ante aqui. Um diam ante, exatam ente com o eu.

Oz estendeu a m ão e segurou a pedra.

— Puxa! — foi de novo tudo que ele conseguiu dizer.

— Um diam ante? — disse Lou. — Com o sabe? — Porque o hom em que extraiu a pedra disse que era. E eu não tinha perguntado droga nenhum a. E o hom em nem sabia que m eu nom e era Diam ante. Essa é a verdade — acrescentou ele num tom indignado, vendo a descrença na fisionom ia de Lou e tirando o carvão das m ãos de Oz. — Lasco todo dia um pedacinho. Um dia, quando eu der um corte, ele vai estar lá, o m aior, o m ais puro diam ante que alguém j á viu.

Oz contem plou a pedra com a reverência que costum ava reservar para os adultos e as igrej as.

— E aí o que vai fazer com ele? — perguntou. Diam ante deu de om bros.

— Não tenho certeza. Talvez nada. Talvez deixe guardado aqui em cim a. Talvez dê a você. Gosta da pedra? — Se houver um diam ante aqui dentro, vai poder vendê-lo por m uito dinheiro — disse Lou.

— Num preciso de dinheiro — disse Diam ante esfregando o nariz. — Tenho tudo que quero aqui na serra m esm o.

— Algum dia j á saiu daqui? — perguntou Lou. Ele a encarou, obviam ente ofendido.

— Ei, acha que sou um m atuto ou o quê? Já fui um a tonelada de vezes ao McKenzie, perto da ponte. Fui tam bém a Trem ont.

— E o que m e diz de Dickens? — Lou estendeu o olhar pelo bosque. — Vam os até lá? — Dickens? — Diam ante quase caiu da árvore. — Fica a um dia de cam inhada. E por que alguém ia querer ir a Dickens? — Porque é diferente daqui. Estou cansada de ver terra, m ulas, esterco e carregar água — disse Lou, dando um a batidinha no bolso. — Tenho vinte dólares que trouxe com igo de Nova York. E eles estão fazendo buraco no m eu bolso — acrescentou ela fitando o garoto.

A som a astronôm ica abalou Diam ante, pois m esm o ele era capaz de com preender as possibilidades.

— Fica longe pra se ir a pé — disse alisando o carvão, com o se quisesse induzir o diam ante a sair logo da casca.

— Então não vam os a pé! — respondeu Lou. O garoto atirou-lhe um olhar.

— Trem ont é bem m ais perto.

— Não, Dickens. Quero ir a Dickens.

— Podíam os tom ar um táxi — disse Oz.

— Se chegarm os à ponte ao lado do McKenzie's — arriscou Lou —, talvez se consiga um a carona até Dickens. Quanto tem po a pé até a ponte? — Bem — com eçou Diam ante depois de pensar um pouco —, se form os pela estrada vai levar no m ínim o um as quatro horas. Quando a gente chegar, j á vai estar na hora da volta. Iríam os gastar o dia de folga da m aneira m ais cansativa possível.

— E qual o outro cam inho a não ser a estrada? — Está m esm o querendo ir? — perguntou.

— Estou m esm o querendo, Diam ante.-Lou respirou fundo.

— Bem , então vam os. Conheço um atalho. Rapaz, podem os chegar depressa com o um espirro! Desde que as m ontanhas tinham sido form adas, a água continuara provocando erosão no m acio revestim ento de calcário e cavando ravinas com centenas de m etros de profundidade entre as rochas m ais duras. A fileira de cristas pontudas m archava ao lado dos três enquanto eles andavam . A ravina que finalm ente atingiram era m uito vasta e parecia intransponível até Diam ante m ostrar-lhes a árvore. Naquele ponto, os choupos am arelos atingiam proporções im ensas, sendo preciso pensar em ordens de grandeza de dezenas de m etros. Muitos ultrapassavam em largura a altura de um hom em , chegando a atingir cinquenta m etros de altura. Poderiam ser obtidos 425 m etros cúbicos de m adeira de um único choupo. Um belo espécim e se estendia sobre aquela fenda, form ando um a ponte.

— Atravessar por aqui corta m uito cam inho — disse Diam ante. Ao olhar pela borda, Oz viu apenas rocha e água no fundo de um a longa queda e recuou com o um a vaca assustada. Mesm o Lou parecia hesitar. Mas Diam ante avançou direto para o tronco.

— Não tem problem a. Grosso e largo. Bolas, se pode atravessar de olhos fechados! Vam os logo.

Diam ante fez sua travessia, não olhando um a única vez para baixo, e Jeb trotou facilm ente atrás dele. Diam ante olhou para trás ao pisar de novo em terra firm e.

— Vam os logo! — repetiu ele.

Lou encostou um pé no galho do choupo m as não deu um segundo passo. Diam ante gritou do outro lado do abism o. Só não olhe pra baixo! É fácil! — Você fica aqui, Oz — disse Lou se virando para o irm ão.

— vou ver se é seguro m esm o. — Ela cerrou os punhos, pisou no choupo e com eçou a atravessar, m antendo os olhos fixos em Diam ante. Logo estava se j untando a ele do outro lado. Os dois, então, se concentraram em Oz, que não dava um só passo em direção ao choupo. O olhar do m enino estava cravado no chão.

— Vá em frente, Diam ante. Eu volto com Oz.

— Não, não podem os fazer isso! Num disse que queria ir até a cidade? Bem , aproveite, estam os indo até a cidade.

— Não vou sem o Oz.

— Não precisa ir sem ele.

Depois de m andar Jeb esperar, Diam ante voltou rapidam ente pela ponte form ada pelo choupo e m andou que Oz subisse em seu cangote. Adm irada, Lou contem plou Diam ante atravessar com o irm ão.

— Você é m esm o forte, Diam ante — disse Oz ao deslizar cuidadosam ente para o solo com um a respiração de alívio.

— Rapaz, isso não é nada. Certa vez um urso correu atrás de m im nessa árvore e eu levava nas costas o Jeb e um saco de farinha! Ainda por cim a era de noite. E chovia tão forte que achei que Deus devia estar furioso com algum a coisa. Não se podia ver droga nenhum a. Puxa, por duas vezes eu quase caí! — bom , por sorte não — disse Oz. Lou soube esconder um sorriso.

— E o que aconteceu com o urso? — perguntou ela com um entusiasm o aparentem ente honesto.

— Não pôde m e alcançar e acabou caindo na água. Nunca m ais tive de m e preocupar com o m aldito.

— Vam os para a cidade, Diam ante — disse ela, puxando seu braço. — Antes que o urso resolva voltar.

Atravessaram m ais um a ponte im provisada, agora um a pinguela oscilante feita de corda e tabuinhas de cedro. Nas tabuinhas havia buracos, por onde a corda fora passada e am arrada. Diam ante contou que a ponte havia sido construída por piratas e pioneiros da colônia, sendo m ais tarde reform ada por fugitivos confederados. Sabia onde todos eles estavam enterrados, m as alguém o fizera j urar que j am ais contaria nada a ninguém .

Continuaram descendo por encostas tão íngrem es que tinham de segurar uns nos outros e se agarrar em árvores e trepadeiras para não se esborracharem de cabeça no chão. De vez em quando, Lou tinha de parar para ver que arbusto poderia aj udá-la a m anter o equilíbrio. Era incrível fazer tais paradas e contem plar a paisagem sob os m ais diferentes ângulos. Quando o terreno tornou-se m enos íngrem e e Oz deu sinais de cansaço, Lou se revezou com Diam ante para carregá-lo nas costas.

No sopé da m ontanha, viram -se diante de um novo obstáculo. O lento trem de carvão tinha pelo m enos uns cem vagões e bloqueava a passagem de um horizonte a outro. Ao contrário do que acontecia num a com posição de passageiros, os vagões de um trem de carvão eram m uito grudados uns nos outros, não deixando qualquer brecha por onde pudessem passar. Diam ante pegou um a pedra e atirou-a num dos carros, acertando em cheio no nom e gravado: Southern Valley — Carvão e Gás.

— E agora? — disse Lou contem plando os vagões cheios até a borda e os poucos lugares que havia para segurar. — Passar por cim a? — Claro que não — disse Diam ante. — Passar por baixo.

— Ele enfiou o chapéu no bolso, caiu de barriga no chão, deslizou para baixo do trem e rastej ou entre as rodas de um dos carros. Lou e Oz foram rapidam ente atrás, assim com o Jeb. Saíram todos do outro lado, sacudindo a poeira das roupas.

— Um garoto foi decepado no m eio do ano passado fazendo isso — explicou Diam ante. — O trem com eçou a andar quando ele estava em baixo. Claro, eu não vi acontecer, m as ouvi dizer que não foi invenção.

— Por que não disse isso antes de passarm os? — perguntou Lou arregalando os olhos.

— bom , se eu dissesse, vocês nunca iam rastej ar por baixo do trem , certo? Na estrada, pegaram um a carona num cam inhão de doces da Ram sey Candy e cada um ganhou um a barra de chocolate Blue Banner de um m otorista uniform izado e gorducho.

— Espalhem por aí — disse ele. — É m uito bom .

— É m esm o — disse Diam ante m ordendo o chocolate. Ele m astigava devagar, m etodicam ente, com o tivesse se transform ado num perito em chocolates finos, um provador testando nova fornada. — Se o senhor m e der outro, vou espalhar duas vezes m ais depressa! Após um a j ornada longa e esburacada, o cam inhão deixou-os bem no m eio de um a rua de Dickens. Quando Diam ante pisou no asfalto, ergueu de im ediato um pé, depois o outro.

— Coisa engraçada — disse. — A sola nem sente.

— Pode crer, Diam ante, sua sola andaria sobre pregos sem sentir — disse Lou olhando ao redor. Dickens não era sequer um grão de poeira com parado às cidades que ela conhecia, m as, após os dias passados nos m ontes, o lugar j á parecia a m ais sofisticada m etrópole do m undo. Naquela bela m anhã de sábado, as calçadas estavam cheias de gente e pequenos grupos atravessavam as ruas. Usavam , em geral, roupas bonitas, m as não era difícil identificar os m ineiros. Eles avançavam com as costas vergadas e aquela tosse alta, contínua, de pulm ões arruinados. Havia um a im ensa faixa esticada na rua. "O Carvão é o Rei", dizia ela em letras pretas com o o m ineral. A faixa fora am arrada na viga que havia na parede de um dos prédios, o prédio onde funcionava um escritório da Southern Valley Carvão e Gás. Havia um a fila de hom ens entrando e um a fila saindo, todos com sorrisos nos rostos, trazendo dinheiro no bolso, ou, possivelm ente, prom essas de um bom em prego. Hom ens elegantem ente vestidos com paletós de passeio e usando chapéus de feltro atiravam m oedas de prata para as ávidas crianças de rua enquanto um vendedor de carros tentava concluir um bom negócio e as loj as se enchiam de gente barulhenta para com prar m ercadorias de qualidade. A prosperidade era inequívoca e tudo ia bem no pé daquela m ontanha da Virginia. Um cenário alegre, repleto de energia, que deixava Lou com saudades da cidade.

— Com o os seus pais nunca o trouxeram aqui? — perguntou Lou a Diam ante enquanto cam inhavam .

— Nunca houve razão para virem aqui com igo, foi isso. Ele enfiou as m ãos nos bolsos e contem plou um poste telefônico, os fios correndo até a parede de um prédio.

Depois viu um hom em de terno, com os om bros caídos, carregando um a grande sacola de papel, e um m enino de calças largas, pretas, e cam isa engom ada. Os dois saíam de um a loj a e se aproxim avam de um dos carros estacionados obliquam ente em am bos os lados da rua. Quando o hom em abriu a porta do carro, o m enino olhou para Diam ante e perguntou de onde ele era.

— Com o sabe que não sou daqui, filho? — disse Diam ante, fitando o garoto da cidade.

A criança olhou para as roupas e o rosto suj o de Diam ante, para os pés descalços e cabelo desgrenhado. Pulou então para dentro do carro, fechando a porta.

Continuaram andando. Passaram pelo posto Esso com suas duas bom bas e um hom em sorridente num berrante uniform e da em presa. Ele estava parado na frente do posto, com o anúncio de charuto na porta de um a tabacaria. Os m eninos espreitaram pelo vidro de um a drugstore Rexall, que prom ovia a liquidação de um a "cesta de ofertas". Cerca de duas dúzias de diferentes artigos poderiam ser adquiridos pela som a total de três dólares.

— Bolas! A gente pode fazer tudo isso em casa — insistiu Diam ante, provavelm ente sentindo com o Lou estava tentada a entrar para lim par a vitrine. — Eu é que não com pro! — Diam ante, estam os aqui para gastar dinheiro. Para nos divertirm os.

— Estou m e divertindo — disse ele fechando a cara. Não venha m e dizer que não estou m e divertindo! Passavam pelo Dom inion Café com suas tabuletas de Chero Cola e "Sorvete Aqui" quando, de repente, Lou parou.

— Vam os entrar — disse ela, agarrando e abrindo a porta. Um sino tilintou quando Lou entrou. Oz foi atrás. Diam ante ficou parado do lado de fora por tem po suficiente para deixar claro seu desprazer com tal decisão. Acabou, no entanto, entrando tam bém .

O lugar tinha cheiro de café, fum aça de cigarro e tortas de frutas sendo preparadas. Havia guarda-chuvas à venda, pendurados no teto. Havia ainda um banco encostado num a parede e três bancos giratórios crom ados, com assentos forrados de verde. Na frente dos bancos giratórios, um balcão que chegava à cintura das pessoas exibia recipientes de vidro com divisórias para diferentes tipos de bala. Havia um a pequena m áquina de soda-lim onada e de sorvete, e portas de vaivém deixavam escapar um bater de pratos e os arom as da com ida sendo cozinhada. Num canto, havia um fogão boj udo, a cham iné presa com aram e atravessando um furo na parede.

O hom em de cam isa branca e m angas enroladas no cotovelo atravessou as portas de vaivém e se postou atrás do balcão. Tinha um ar gentil, o cabelo dividido ao m eio por um a risca. Usava um avental, um a gravata curta, larga, e segurava o que pareceu a Lou um a travessa cheia de gordura.

Olhou-os com o se eles fossem um a brigada de tropas da União enviadas pessoalm ente pelo general Grant para esfregar um pouco m ais no chão os narizes dos bons habitantes da Virginia. Quando as crianças se inclinaram para a frente, ele chegou a recuar. Lou acabou ficando de pé num dos bancos para exam inar o cardápio. Era um cardápio cuidadosam ente escrito a giz num quadro-negro, as letras bem redondas.

O hom em deu um passo atrás. Sua m ão escorregou e os nós dos dedos deram pancadinhas num m ostruário de vidro encostado na parede. A frase "não vendem os fiado" fora escrita em grossas letras brancas.

Em resposta àquela reação nada sutil, Lou tirou do bolso cinco notas de um dólar e estendeu-as cuidadosam ente no balcão. O hom em , então, passou os olhos pela caixa registradora e sorriu, m ostrando um dente de ouro na frente. Agora tinha um j eito de eterno am igo deles. Oz subiu em outro dos três banquinhos, se debruçou no balcão e cheirou os m aravilhosos arom as que estavam atravessando as portas de vaivém . Diam ante se m antinha a distância, com o se quisesse estar perto da porta quando chegasse a hora de fugir em disparada.

— Quanto é um a fatia de torta? — perguntou Lou.

— Cinco centavos — disse o hom em , o olhar preso nas cinco notas de um dólar sobre o balcão.

— E um a torta inteira, quanto custa? — Cinquenta centavos.

— Então posso com prar dez tortas com este dinheiro? — Dez tortas? — exclam ou Diam ante. — Deus m eu! — Isso m esm o — disse rapidam ente o hom em . — E posso fazê-las num instante. — Ele exam inou Diam ante, os olhos, arregalados, descendo da explosão de m echas do cabelo aos pés descalços. — Ele está com vocês? — Não, eles é que estão com igo! — disse Diam ante avançando para o balcão, os dedos segurando os suspensórios.

Oz estava olhando para outra placa na parede. "Só Atendem os Brancos", ele leu em voz alta, olhando m eio confuso para o hom em .

— Bem , nosso cabelo é louro e o de Diam ante é ruivo. Acho que entram os no que diz aquela tabuleta, não é? — O suj eito olhou para Oz com o se o m enino tivesse algo de "especial" na cabeça. Depois enfiou um palito entre os dentes e se concentrou em Diam ante.

— São exigidos sapatos no m eu estabelecim ento. De onde você veio, m enino? Da roça? — Não, da Lua. — Diam ante se inclinou para a frente e abriu um exagerado sorriso. — Não vê que tenho dentes verdes? — Não sabia que era tão esperto. — Com o se brandindo um a pequena espada, o hom em sacudiu o palito na cara de Diam ante. — Agora dê m eia-volta e saia daqui. Vá! Volte para sua casa na serra e fique por lá! Em vez de obedecer, Diam ante ficou na ponta dos pés, pegou um dos guarda-chuvas pendurados no teto e abriu.

— Não faça isso — disse o hom em dando a volta no balcão.

— Dá m á sorte! — É por isso m esm o que to abrindo. Quem sabe um pedaço de rocha num cai da m ontanha e esborracha sua cara! Antes que o hom em pusesse as m ãos nele, Diam ante j ogou o guarda-chuva aberto no ar. quando o guarda-chuva aterrissou na m áquina de sorvete, um j ato de coisa m elosa saltou e pintou um a bela cam ada m arrom no m ostruário de vidro.

— Ei! — gritou o hom em , m as Diam ante j á fugira.

Lou recolheu rapidam ente o dinheiro e se levantou com Oz para ir em bora.

— Aonde vocês vão? — disse o hom em .

— Acho que não quero m ais torta — disse Lou cordialm ente, fechando calm am ente a porta atrás dela e de Oz.

— Bando de caipiras! — ainda ouviram o hom em gritar. Alcançaram Diam ante e os três quase m orreram de rir, enquanto os passantes os olhavam com curiosidade.

— Que bom que estão se divertindo — disse um a voz. Ao se virarem , se depararam com Cotton. De colete, paletó e gravata, ele tinha um a pasta na m ão e um claro brilho de alegria no olhar.

— Cotton — disse Lou —, o que está fazendo aqui? — O fato é que trabalho aqui, Lou. — Apontou para o outro lado da rua e as crianças olharam . A grande m assa do fórum se erguia diante deles, belas paredes de tij olo sobre um feio alicerce de concreto.

— E o que os três estão fazendo aqui? — perguntou.

— Louisa nos deixou tirar um dia de folga — disse Lou. Tem os trabalhado m uito.

— É, sei disso. — Cotton abanou a cabeça.

— Fiquei espantada quando vi este lugar pela prim eira vez.

— Lou contem plava o m ovim ento das pessoas. — Parece realm ente próspero.

— Bem , as aparências enganam — disse Cotton olhando ao redor. — Nesta parte do estado, a m ineração não passa de um a atividade de risco, sem pre procurando se livrar do colapso total. Dickens era um a cidade de lenhadores, m as agora a m aioria dos em pregos depende do carvão, e não estou m e referindo apenas aos em pregos dos m ineiros. A m aioria dos negócios daqui só prosperam porque as pessoas têm os dólares ganhos nas m inas para gastar. Se um dia as m inas fecharem , talvez a cidade j á não fique parecendo tão próspera. Um castelo de cartas se desfaz com rapidez. Daqui a cinco anos este lugar pode nem estar m ais aqui. — Ele pôs os olhos em Diam ante e sorriu. Mas a gente dos m ontes estará. Eles sem pre resistem . — Virou-se para o fórum . — Sabem de um a coisa, tenho de fazer um as coisas lá dentro. Hoj e não há audiências, é claro, m as sem pre há algum a coisa a resolver. O que acham de nos encontrarm os daqui a duas horas? Eu gostaria m uito de pagar um alm oço para vocês.

— Alm oçar onde? — perguntou Lou olhando em volta.

— Num lugar que vai lhe agradar, Lou. Cham a-se Restaurante Nova York e fica aberto vinte e quatro horas. Serve café da m anhã, alm oço ou j antar a qualquer hora do dia ou da noite. Ainda que não haj a m uita gente acordada em Dickens depois das nove, é reconfortante saber que tem os a opção de ovos, canj ica e bacon em plena m eia-noite.

— Daqui a duas horas — repetiu Oz. — Mas não tem os onde ver as horas.

— Bem , o fórum tem a torre com relógio, m as ele costum a atrasar um pouco. Quer saber de um a coisa, Oz? Pegue aqui! — Cotton tinha tirado um relógio do bolso e agora o entregava a Oz. — Use isto. Mas tom e cuidado. Foi um presente de m eu pai.

— Ganhou quando veio pra cá? — perguntou Lou.

— Exatam ente. Meu pai dizia que eu tinha m uito tem po pela frente e acho que queria que eu m e m antivesse sem pre a par dele. — Tocou a ponta do chapéu para as crianças. — Em duas horas. — E se afastou.

— Mas o que a gente vai ficar fazendo nessas duas horas? — perguntou Diam ante.

Lou olhou em volta e seus olhos se ilum inaram .

— Vam os — disse ela com eçando a correr. — Finalm ente você vai ver sua fita, sr. Diam ante.

Durante quase duas horas, estiveram num lugar m uito distante de Dickens, da Virginia, dos m ontes Apalaches e das absorventes preocupações da vida real. Andaram pela incrível terra de O m ágico de Oz, cuj a tem porada estava se prolongando nos cinem as de toda parte. Na saída, Diam ante os crivou de dezenas de perguntas sobre com o o que tinham visto seria possível.

— Foi Deus que fez a fita? — perguntou m ais de um a vez em voz baixa.

— Vam os — disse Lou apontando para o fórum . — Não quero chegar tarde.

Dispararam pela rua e subiram os largos degraus da escadaria do fórum .

— Ei, guris, onde pensam que vão? — disse um delegado de uniform e, com um grande bigode.

— Tudo bem , Howard, eles estão com igo — disse Cotton, cruzando a porta. — Quem sabe um dia não vão ser advogados. Só querem dar um a olhada no prédio da j ustiça.

— Deus m e livre, Cotton! Não precisam os de m ais advogados por aqui. — Howard sorriu e foi se afastando.

— Estão se divertindo? — perguntou Cotton.

— Vi um leão, um espantalho m aluco e um hom em de m etal num a enorm e parede — disse Diam ante. — Só não entendi ainda com o fizeram aquilo.

— Querem saber onde vou todo dia para trabalhar? — perguntou Cotton.

Entusiasm ados, os três responderam ao m esm o tem po que sim , m as, antes de entrarem , Oz devolveu solenem ente o relógio de bolso a Cotton.

— Obrigado por ter tom ado conta dele, Oz.

— Com binam os em duas horas, você sabe — disse o m enino.

— A pontualidade é um a virtude — respondeu o advogado. Entraram no fórum , deixando Jeb deitado diante do prédio.

Havia um largo corredor, com salas de um lado e de outro. Sobre as portas, as placas de m etal diziam : "Registro de Casam entos", "Delegacia da Receita", "Registro Civil", "Defensoria Pública" e assim por diante. Cotton explicou o que tudo aquilo significava e depois m ostrou o salão do j úri, que era a m aior sala que Diam ante j á tinha visto. Foram apresentados a Fred, o oficial de j ustiça. O j uiz Atkins, ele explicou, fora alm oçar em casa.

Nas paredes, havia retratos de hom ens de cabelos brancos com túnicas pretas. As crianças passaram as m ãos pela m adeira trabalhada dos m óveis e cada um deles experim entou se sentar no banco das testem unhas e no boxe dos j urados. Diam ante pediu para sentar na cadeira do j uiz, m as Cotton achou que não era um a boa ideia. Fred tam bém não achou boa e Diam ante acabou se sentando em qualquer lugar no fundo da sala, o peito em pinado com o um galo. Vendo com o ele estava ofendido, Lou se aproxim ou e com eçou a lhe fazer cócegas em baixo do braço.

Deixaram o fórum e foram para o prédio ao lado, onde havia um certo núm ero de salas com erciais, incluindo a de Cotton. A sala era um grande escritório com tábuas corridas que rangiam e três paredes com prateleiras. Nelas se am ontoavam velhos livros de direito, caixas com escrituras e outros docum entos e um belo exem plar da Constituição da Virginia. No m eio da sala, havia um a grande escrivaninha de nogueira, com um telefone e m ontes de papéis. Havia tam bém um velho suporte para cesta de lixo e, num canto, o cabide para o guarda-chuva e o chapéu. Não se viam , porém , chapéus pendurados, e onde deviam ficar os guarda-chuvas havia um a velha vara de pescar. Cotton deixou Diam ante discar um algarism o no disco do telefone e falar com Shirley , a telefonista. O garoto quase pulou de dentro da pele quando a voz rouca tilintou em seu ouvido.

Em seguida, Cotton m ostrou o apartam ento onde m orava, no andar de cim a do m esm o prédio. Tinha um a pequena cozinha entulhada de latas de ervilhas, vidros de m elado, potes com tem peros, pães, sacos de batata, cobertores, lam piões e m uitas outras coisas.

— De onde trouxe tudo isso? — perguntou Lou.

— As pessoas nem sem pre têm dinheiro na m ão. Às vezes pagam m eus honorários com m ercadorias. — Abriu a pequena geladeira e m ostrou os pedaços de frango, bacon e carne de boi.

— Nada disso pode ser posto no banco, m as sem dúvida é m uito m ais gostoso que dinheiro. — Num quarto m inúsculo, havia um a cam a com estrado de corda e um a m esinha-de-cabeceira com um abaj ur. Mas a sala era grande, e estava totalm ente soterrada pelos livros.

Enquanto os m eninos contem plavam a barragem dos livros, Cotton tirou os óculos.

— Não é por acaso que estou perdendo a visão.

— Leu todos esses livros? — perguntou Diam ante assom brado.

— Confesso m inha culpa — respondeu Cotton. — Para dizer a verdade, alguns foram lidos m ais de um a vez.

— Já li um livro — disse Diam ante com orgulho.

— Qual era o título? — perguntou Lou.

— Num relem bro exatam ente, m as tinha m uitas figuras. Não, retiro o que disse! Já li dois livros, se contarm os a Bíblia! — Podem os sem hesitação incluí-la, Diam ante — disse Cotton, sorrindo. — Venha até aqui, Lou. — Cotton m ostrou-lhe um a estante cheia de livros, m uitos de autores célebres e com belas encadernações em couro. — É um lugar reservado para m eus escritores favoritos.

Lou exam inou os títulos e viu de im ediato todos os rom ances e todos os livros de contos que o pai havia escrito. Era um a bela e conciliatória isca que Cotton lhe atirava, m as Lou estava distraída.

— Estou com fom e — disse ela. — Podem os ir com er? O que o Restaurante Nova York servia não se aproxim ava nem m esm o rem otam ente dos cardápios de Nova York, m as ainda assim era um a boa com ida e Diam ante experim entou sua prim eira garrafa de "soder" lim onada. Gostou tanto que pediu m ais duas. Depois da refeição desceram a rua, as balas de m enta rolando nas bocas. Foram até um prédio com ercial e Cotton lhes m ostrou com o, graças ao declive, todos os seis andares saíam no nível da rua, um a característica que chegara a ter repercussão na m ídia nacional.

— Dickens tem vocação para a fam a — disse rindo. — A cidade e seus incríveis anj os de carvão.

Um a das loj as estava repleta de artigos de arm arinho, ferram entas e gêneros alim entícios. Os arom as de café e tabaco eram fortes e pareciam ter im pregnado o lugar até os ossos. Havia rédeas de cavalos penduradas ao lado de suportes com carretéis de linha. Mais adiante, grandes barricas repletas de doces. Lou com prou um par de m eias para si e um canivete para Diam ante. Ele só aceitou quando Lou garantiu que, em troca, ele teria de aparar algum a coisa no terreno do sítio. Lou tam bém com prou um urso de pelúcia para Oz e deu o urso ao m enino sem fazer com entários sobre o paradeiro do antigo.

Ela desapareceu por alguns m inutos no fundo da loj a e voltou com um obj eto que passou a Cotton. Um a lente de aum ento.

— Para aj udar em tanta leitura — disse ela sorrindo, e Cotton tam bém sorriu.

— Obrigado, Lou. vou pensar em você sem pre que abrir um livro.

A m enina com prou um xale para Louisa e um chapéu de palha para Eugene. Depois Oz lhe pediu algum dinheiro em prestado e ela ficou esperando com Cotton em outro ponto da loj a. Oz voltou segurando um pacote em brulhado em papel m arrom e se recusou firm em ente a revelar o que era.

Passearam pela cidade, Cotton m ostrando coisas que Lou e Oz j á tinham certam ente visto, m as não Diam ante. Depois todos se am ontoaram no Oldsm obile de Cotton, estacionado diante do fórum . O carro partiu com Lou e Diam ante esprem idos no banco extra de trás e Oz e Jeb no banco da frente, ao lado de Cotton. O sol com eçava a se pôr e soprava um a brisa m uito agradável. Era im possível haver algo tão bonito quando o pôr-do-sol num a m ontanha.

Cruzaram Trem ont. Pouco depois, atravessaram a m inúscula ponte perto do McKenzie's e com eçaram a subir a serra. Num cruzam ento de via férrea, Cotton saiu da estrada, entrou na linha do trem e fez o Oldsm obile avançar pelos trilhos.

— Melhor que a estrada — explicou. — Voltam os a pegá-la m ais na frente. Puseram um a cam ada de asfalto no pé da serra, m as não neste trecho. Essas estradas de m ontanha foram construídas na picareta e na pá. Cada hom em saudável, entre dezesseis e sessenta anos, tinha de passar dez dias por ano aj udando a construir as estradas. E tinham de contribuir não só com o suor, m as tam bém com suas próprias ferram entas. Só professores e pastores estavam isentos da obrigação e pelo m enos os pastores deviam ser m uito úteis. Que trabalhador não acharia conveniente recorrer a um a prece poderosa de vez em quando? Parece que quiseram fazer um trabalho realm ente bom , pois levaram quarenta anos para construir cento e vinte quilôm etros. O problem a é que ainda é difícil, para o traseiro de qualquer um , rodar pelos resultados de tão refinada obra.

— E se vier um trem ? — perguntou Oz num tom ansioso.

— Então saím os dos trilhos — disse Cotton.

E acabaram ouvindo o apito, o que fez Cotton parar em segurança ao lado da linha. Daí a poucos m inutos, um trem m uito carregado com eçou a passar na frente deles, lem brando um a gigantesca serpente. Movia-se devagar, pois naquele trecho a linha fazia um a curva.

— É carvão? — perguntou Oz, observando os grandes m ontes de pedras no alto dos vagões abertos.

Cotton balançou afirm ativam ente a cabeça.

— É coque. Feito de pó de carvão cozido em fom os. Está sendo transportado para usinas siderúrgicas. — Tornou a balançar devagar a cabeça. — Os trens chegam vazios e partem cheios. Carvão, coque, m adeira. A única coisa que trazem para cá é novos corpos para trabalhar.

Cotton m ostrou-lhes um a vila operária da com panhia de carvão. Ficava num ram al fora da linha principal e era feita de casinhas idênticas. Os trilhos acabavam bem no centro do lugar, onde havia um arm azém da em presa. Nesse arm azém , as m ercadorias se em pilhavam até o teto, disse Cotton, que j á estivera lá. A longa série de estruturas de tij olo estendia-se por um a rua principal. Lem brava um a colm eia. Cada casinha tinha um a porta de m etal e nódoas de suj eira se acum ulando em volta da cham iné. A fum aça irrom pia de cada cham iné, tornando ainda m ais preto o escuro que tom ava conta do céu.

— Fum aça de coque — explicou Cotton, m ostrando tam bém um a grande casa com um Chry sler Crown Im perial, cintilantem ente novo, estacionado na frente. Era a residência do superintendente da m ina. Ao lado da casa havia um curral com algum as éguas pastando e um a parelha de novilhos pulando e trotando.

— Tenho de cuidar de um problem a pessoal — disse Diam ante, j á am ando os suspensórios. — Muita soda lim onada. É só um m inuto, só m e abaixar atrás daquele galpão.

Quando Cotton parou o carro, Diam ante saltou e correu. Cotton ficou à espera com Lou e Oz, fazendo algum as observações de interesse.

— Ali tem os um a m ina de carvão da Southern Valley em pleno funcionam ento. A m ina Clinch Núm ero Dois, com o a cham am . As m inas de carvão pagam bem , m as o trabalho é extrem am ente duro e, do m odo com o os arm azéns da com panhia funcionam , os m ineiros acabam devendo m ais à em presa do que ganham com o salário. — Cotton parou de falar e olhou pensativam ente na direção para onde fora Diam ante. Um a ruga lhe atravessou o rosto, m as ele continuou: — Além disso, os que escapam de desm oronam entos e outros acidentes acabam adoecendo e m orrendo com os pulm ões negros.

Um apito soou e eles viram um a turm a de hom ens, com os rostos cobertos de carvão, provavelm ente cansados até os ossos, em ergir da entrada da m ina. Um grupo de m ulheres e crianças correu ao encontro deles e foram todos para os pequenos arrem edos de casas, os hom ens carregando m arm itas de m etal, soprando a fum aça dos cigarros e sacudindo as garrafas de aguardente. Outro grupo de hom ens, aparentem ente não m enos cansados, passou por eles para substituí-los sob a terra.

— Costum avam trabalhar em três turnos, m as agora são apenas dois — disse Cotton. — O carvão está com eçando a se esgotar.

Diam ante voltou e tornou a se instalar no assento sobressalente.

— Tudo bem com você, Diam ante? — perguntou Cotton.

— Agora sim — disse o m enino, um sorriso forçando seu rosto, os felinos olhos verdes se ilum inando.

Louisa ficou nervosa quando soube que eles tinham ido à cidade. Cotton se desculpou, dizendo que não devia ter prendido as crianças por tanto tem po; ele, então, é que tinha culpa. Louisa disse que o pai deles tam bém fazia essas coisas e que era difícil dom ar um espírito desbravador, por isso estava tudo bem . Louisa aceitou o xale com lágrim as nos olhos e Eugene, experim entando o chapéu, proclam ou que fora o presente m ais incrível que j á recebera.

Após o j antar daquela noite, Oz se desculpou e foi até o quarto da m ãe. Curiosa, Lou foi atrás, e, com o de hábito, ficou espreitando o irm ão pela estreita fenda entre porta e parede. Oz desem brulhou com cuidado o pacote que com prara na cidade e levantou a escova de cabelo para ela ver. A fisionom ia de Am anda estava serena, e os olhos, com o sem pre, fechados. Para Lou, a m ãe era um a princesa repousando num estado de quase-m orte e ninguém possuía o antídoto para despertá-la. Oz se aj oelhou na cam a e com eçou a escovar o cabelo de Am anda, falando à m ãe do dia absolutam ente incrível que passara na cidade. Depois de vê-lo lutar com a escova por alguns segundos, Lou entrou para aj udar. Segurando o cabelo da m ãe, m ostrou a Oz com o executar os m ovim entos adequados. O cabelo de Am anda tinha crescido um pouco, m as continuava curto.