O Poço dos Desejos
Capítulo Dezessete
E ao ver você conduzir sua vida todos esses anos com honestidade, dignidade e com paixão, percebo que não há nada m ais poderoso e anim ador que a gentileza de um ser hum ano estendendo a m ão para outro que está m ergulhado no desespero. Penso todo dia em você, Louisa, e vou continuar pensando, pelo tem po que m eu coração bater. com m uito am or, Jack.
De novo Lou enfiou a cabeça sobre o parapeito. E devagar, m uito devagar, foi se virando até encarar a m ãe. Mas não havia alteração em sua fisionom ia, absolutam ente nenhum a. com raiva, Lou tentou recuar da j anela. O pobre Diam ante estava oscilando fortem ente agora, pois o im pulso de Lou para longe do parapeito não favorecera seus esforços de equilíbrio. Então, ele finalm ente perdeu a batalha e desm oronou com Lou, um a queda coroada com os inúm eros grunhidos e gem idos dos dois estendidos no chão.
Cotton correu para a j anela a tem po de ver a dupla fugir correndo pela quina da casa. Ele se virou para a m ulher na cam a.
— Tem realm ente de acordar e se j untar a nós, Sra. Am anda... — E acrescentou em voz baixa, com o se tivesse m edo que alguém , além dele, pudesse ouvir: — Por um a série de razões.
CAPÍTULO DEZESSETE
A casa estava escura; o céu era um caótico am ontoado de nuvens prom etendo um a boa m anhã de chuva. O tem po, no entanto, com nuvens agitadas e frágeis correntes de ar se chocando contra o cum e das rochas, podia m udar de repente: a chuva se transform aria em geada, o sol ficaria pastoso e as pessoas, ora m olhadas, ora frias.
Naquela m adrugada, vacas, porcos e ovelhas estavam em segurança no celeiro, pois o Velho Mo, o pum a, fora visto nas redondezas e se com entava que a fazenda Ty ler perdera um bezerro e os Ram sey um porco. Todos os m oradores dos m ontes que possuíam um rifle ou um a espingarda andavam de olho bem aberto, ansiosos para surpreender o velho predador.
Sam e Hit descansavam silenciosos em seu curral. O Velho Mo j am ais atacaria a parelha. Os coices de um a m ula geniosa podiam provocar a m orte de qualquer coisa em questão de m inutos.
A porta da frente da casa se abriu e Oz, sem fazer barulho, saiu e tornou a fechá-la atrás de si. O garoto estava todo vestido e apertava com força o ursinho. Avançou depois de olhar em volta por alguns segundos, passou pelo curral, ultrapassou as hortas e m ergulhou na m ata.
A noite era um balde de carvão, o vento sacudia os galhos das árvores, as m oitas estavam cheias de m ovim entos furtivos e o m ato alto parecia agarrar as pernas da calça de Oz. O m enino tinha certeza de que regim entos de duendes estariam rondando por ali em todo o seu apavorante esplendor, sendo ele o único alvo sobre a terra. Algo, no entanto, dentro de Oz se m ostrara nitidam ente superior a esses horrores, pois ele nem um a só vez pensou em retroceder. Bem , quem sabe um a vez, Oz adm itiu para si m esm o. Ou quem sabe duas.
Correu bastante por um certo tem po, cortando lom badas, navegando por entre abism os, tropeçando na com pacta selva do arvoredo. Venceu um últim o trecho de árvores, parou, espiou, esperou um pouco e irrom peu na pradaria. Logo à frente, viu o obj etivo de sua carreira: o poço. Respirou fundo um a últim a vez, apertou o urso e, coraj oso, cam inhou direto para lá. Mas Oz não era tolo e, por via das dúvidas, não parava de sussurrar: "É um poço dos desej os, não um poço assom brado. Um poço dos desej os, não assom brado." Parou diante da borda e contem plou aquele m onstrengo de tij olo unido por argam assa. Depois, cuspiu num a das m ãos e esfregou-a na cabeça para dar sorte. Olhou um bom tem po para o am ado urso, pousou-o devagar ao lado do poço e deu m eia volta.
— Até logo, urso. Gosto m uito de você, m as tenho de entregá-lo. Você entende...
De repente, Oz ficou em dúvida sobre os procedim entos. Por fim , fez o sinal-da-cruz e pôs as m ãos j untas com o se fosse rezar, im aginando que aquilo seria capaz de satisfazer os espíritos m ais exigentes, os que podiam atender aos desej os de m enininhos trem endam ente necessitados. Ele olhou para o céu e disse: — Desej o que m inha m ãe acorde e volte a m e fazer carinho.
— Fez um a pausa e acrescentou num tom solene: — E o que Lou tam bém está querendo.
Ficou parado, cortado pelo vento, entre os ruídos estranhos que em ergiam de m il fendas ocultas, todos repletos de um a força m aligna, ele tinha certeza. E apesar de tudo isso, Oz não teve m edo; fizera o que decidira fazer.
— Am ém , Jesus — concluiu ele.
Mom entos após Oz se virar e sair correndo, Lou brotou do m eio das árvores à procura do irm ão caçula. Andou tam bém até o poço, estendeu a m ão e pegou o urso.
— Oz, você é tão bobo. — Mas Lou disse isso sem convicção; sua voz fraquej ou. Ironicam ente, foi a durona Lou e não o vulnerável Oz quem se aj oelhou no solo úm ido e soluçou. Finalm ente, enxugando o rosto na m anga, Lou se levantou e deu as costas para o poço. Com eçou a se afastar apertando contra o peito o urso de Oz até que algo a fez parar — m as não saberia dizer exatam ente o quê. Sim , o vento áspero parecia realm ente estar soprando para trás, para a coisa que Diam ante Skinner cham ara tão tolam ente de poço dos desej os. Lou se virou para contem plá-lo. Naquela noite, a Lua parecia ter abandonado inteiram ente a ela e ao poço, m as o tij olo parecia brilhar com o se estivesse em cham as.
Lou não perdeu tem po. Pôs o urso de volta ao lado do poço; depois enfiou a m ão no bolso da calça largona e tirou algum a coisa de lá: sua foto com a m ãe, ainda na m oldura. Deixou a preciosa fotografia j unto do am ado urso, deu um passo atrás e, plagiando um a página do livro do irm ão, j untou as m ãos e olhou para o céu. Ao contrário de Oz, porém , não se preocupou em fazer o sinal-da-cruz ou falar em voz alta e clara para o poço ou para os céus. Sua boca se m exeu, m as nenhum a palavra poderia ser ouvida. Era com o se a fé no que estava fazendo tivesse de ser silenciosa.
Daí a pouco, virou-se e correu nos passos do irm ão, em bora tendo o cuidado de m anter um a boa distância. Não queria que Oz descobrisse que havia sido seguido, pois sem dúvida ela só saíra de casa para vigiá-lo. Lá atrás, o urso e a fotografia ficaram tristem ente j ogados contra a beirada de tij olo, com o precárias oferendas na entrada de um lugar sagrado.
Com o Louisa previra, Lou e Hit tinham finalm ente chegado a um acordo. Orgulhosa, vira a neta insistir depois de cada tom bo. As escaram uças com o genioso anim al, longe de assustá-la, só a deixavam m ais determ inada. E m ais esperta. De repente, arado, m ula e Lou com eçaram a se m over num harm onioso conj unto.
Oz, por seu lado, se tornara um perito em guiar a grande charrua que Sam , a outra m ula, arrastava pelas roças. Com o o peso de Oz era pouco, Eugene em pilhara algum as pedras ao seu redor. Os grandes nacos de terra cediam e se fragm entavam sob o constante arrastar da charrua, até o cam po ficar liso com o um a cobertura de bolo. Após sem anas de trabalho, sem anas de suor e m úsculos cansados, os quatro chegaram à conclusão de que o solo j á estava pronto para receber as sem entes e pararam de arar.
O Dr. Travis Barnes viera de Dickens para exam inar Am anda. Era um hom em corpulento — rosto exageradam ente verm elho, pernas curtas — com costeletas grisalhas, todo vestido de preto. Lou o achou parecido com um agente funerário que tivesse vindo enterrar um corpo, não com um hom em treinado para preservar a vida. Era, contudo, um a pessoa gentil, e, apesar da triste m issão que o trazia ali, soube revelar um senso de hum or que deixou todo m undo à vontade. Cotton e as crianças esperaram na cozinha enquanto Louisa ficou ao lado de Travis durante toda a consulta. Quando o m édico, agarrado à sua pasta preta, regressou à cozinha, vinha sacudindo a cabeça. Louisa seguia atrás, tentando parecer anim ada. Ele se sentou na m esa, tam borilou na beira da tigela que Louisa havia trazido e contem plou por alguns instantes a sopa, com o se procurasse palavras de consolo entre os grãos de ervilha e raízes de chicória.
— A boa notícia — com eçou — é que, pelo que pude ver, m am ãe está fisicam ente bem . Todos os ferim entos cicatrizaram . Ela é j ovem , forte e pode com er e beber. Desde que continuem exercitando seus braços e pernas, os m úsculos não se enfraquecerão dem ais. — Ele fez um a pausa e largou a tigela. — Mas receio que nem tudo estej a bem , pois o problem a da locom oção continua. — Passou um dedo na testa. — E não há m uita coisa que eu possa fazer a esse respeito. Está certam ente além da m inha capacidade. Só posso ter esperanças e rezar para que, um dia, ela saia disto.
Oz absorveu estas palavras com sangue-frio, seu otim ism o pouco arranhado. Lou recebeu a inform ação com o sim ples confirm ação do que j á sabia.
O tem po que passavam na escola com eçou a correr m ais suavem ente do que Lou achara possível. Agora, depois que ela dera aqueles socos, as crianças dos m ontes os estavam aceitando m elhor. Lou achava im possível ficar íntim a de qualquer um a delas, m as pelo m enos a hostilidade j á não era m anifesta. Billy Davis passou vários dias sem ir à escola e, quando foi, os m achucados que Lou aplicara tinham sarado quase de todo, em bora certas m anchas novas fizessem Lou suspeitar que o terrível George Davis tam bém tinha entrado na briga. Era o bastante para Lou com eçar a se sentir culpada. Por seu lado, Billy a evitava com o se ela fosse um a cobra-d'água venenosa esperando a hora de saltar sobre ele, e Lou, sem dúvida, continuava em guarda. Ela agora sabia: quando m enos se esperasse, o problem a podia atingi-la em cheio na cabeça.
Tam bém Estelle McCoy a tratava com m ais consideração. Era óbvio que Lou e Oz estavam bem à frente dos outros em term os de aprendizado. Contudo, não se gabavam disto, um a atitude que Estelle McCoy parecia realm ente apreciar. E ela nunca m ais se referiu a Lou com o Louisa Mae. Lou e Oz haviam doado à biblioteca da escola um a caixa de seus livros, e as crianças desfilaram um a atrás da outra para lhes agradecer. Por todo lado, um a trégua bastante razoável, talvez espetacular.
Lou se levantava antes do dia clarear e fazia as tarefas dom ésticas. Depois ia para a escola e fazia seu trabalho lá. Na hora do recreio, com ia um a broa de m ilho e tom ava leite com Oz sob a nogueira. A árvore estava m arcada com as iniciais e os nom es de todos que tinham estudado lá. Lou nunca teve vontade de gravar seu nom e, pois isto sugeriria um a perm anência que ela não estava nem um pouco disposta a aceitar. Os dois voltavam ao sítio à tarde, para trabalhar. Mais tarde, exaustos, iam para a cam a, não m uito tem po depois do pôr-do-sol. Apesar de tudo, Lou estava gostando daquela vida estável, sem grande inspiração.