O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 36 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Trinta e Quatro

Sentada com Louisa na frente do fogo, Lou inclinou a cabeça contra seu peito e a avó alisou com extrem a suavidade o cabelo da bisneta.

Nesse m om ento, então, Lou disse um a coisa que achou que j am ais ia dizer.

— E agora é o m eu lar tam bém .

CAPÍTULO TRINTA E Q UATRO

Flocos de neve caíam de nuvens inchadas. De perto do celeiro veio um sopro forte e depois um a áspera centelha de luz, que continuou crescendo.

Dentro de casa, Lou gem ia entre os safanões de um pesadelo. Sua cam a e a de Oz tinham sido levadas para a sala da frente, j unto ao fogo, e os dois estavam soterrados sobre as cobertas que Louisa costurara através dos anos. Em seu sono torturado, Lou ouviu um ruído, m as não pôde dizer o que era. De repente, no entanto, abriu os olhos e sentou. Houve um arranhar na porta. Num instante, Lou estava alerta. Ela abriu a porta e Jeb irrom peu na casa, latindo e pulando.

— Jeb, o que foi? O que houve? Então ela ouviu os gritos dos anim ais do sítio.

Saiu correndo de pij am a. Jeb a seguiu, esbaforido, e Lou descobriu por que ele parecia tão assustado: o celeiro estava tom ado pelas cham as. Ela voltou correndo à casa, gritou para avisar as pessoas do que estava acontecendo e tornou a sair, agora em disparada na direção do celeiro.

Eugene apareceu na porta da frente, viu o fogo e tam bém saiu correndo. Oz vinha atrás.

Quando Lou escancarou a grande porta do celeiro, um a m uralha de cham as e fum aça saltou na sua frente.

— Sue! Bran! — gritava ela enquanto a fum aça lhe enchia os pulm ões; tam bém pôde sentir os pelinhos nos braços se erguerem por causa do calor.

Eugene, com seu andar trôpego, passou rapidam ente por ela, m ergulhou no celeiro e logo reapareceu, tossindo m uito. Lou olhou para o recipiente com água defronte ao curral e viu um cobertor pendendo da cerca. Ela agarrou o cobertor e m ergulhou-o na água fria.

— Eugene, ponha isto em cim a de você! Eugene se cobriu com o cobertor m olhado e tornou a se arrem essar para os fundos do celeiro.

Um a viga caiu e quase o acertou. O fogo e a fum aça estavam por toda parte. Eugene estava m uito fam iliarizado com o interior do celeiro e com tudo m ais que havia no sítio, m as foi com o se tivesse ficado repentinam ente cego. Ainda assim , conseguiu se aproxim ar de Sue, que se debatia na baia. Ele escancarou a portinhola e j ogou um a corda em volta do pescoço da égua apavorada.

Saiu tropeçando do celeiro com o anim al e atirou a corda para Lou. com a aj uda de Louisa e Oz, a égua seria levada para bem longe. Logo Eugene voltava ao celeiro enquanto Lou e Oz iam buscar baldes de água na casa de refrigeração. Lou, no entanto, sabia que fazer aquilo era com o tentar derreter a neve soprando em cim a. Eugene conseguiu retirar as m ulas e todas as vacas, com exceção de um a. Mas perderam todos os porcos, toda a forragem e a m aior parte das ferram entas e arreios. As ovelhas estavam invernando do lado de fora, m as ainda assim a perda seria devastadora.

Louisa e Lou ficaram contem plando da varanda enquanto o celeiro, agora reduzido a estacas de m adeira, continuava a queim ar. Eugene se m anteve j unto ao curral, para onde levara a criação. Oz estava perto dele com um balde d'água, pronto para abafar qualquer início de fogo.

— Está vindo abaixo — gritou Eugene, puxando Oz para trás. O celeiro desabou com as labaredas se elevando para o céu e a neve caindo suavem ente sobre aquele inferno.

Louisa contem plava nitidam ente agoniada toda aquela ruína. Era com o se ela própria estivesse envolvida pelas cham as. Apertando com força sua m ão, Lou percebeu de im ediato quando os dedos de Louisa com eçaram a trem er. E a partir daí o aperto foi se tornando cada vez m ais frouxo.

— Louisa?

A m ulher caiu no chão da varanda sem dar um a palavra.

— Louisa! Os gritos angustiados da m enina ecoaram pelo vale desolado e frio.

Cotton, Lou e Oz estavam parados ao lado da cam a de hospital onde Louisa repousava. Fora um a selvagem corrida m ontanha abaixo no velho Hudson, a caixa de m udanças arranhando sob as pancadas de um assustado Eugene, a m áquina zum bindo, os pneus abrindo sulcos e deslizando na neve do chão. Duas vezes o carro quase caiu pela beira da estrada. Lou e Oz tinham se agarrado a Louisa, rezando para que ela não os deixasse. Levaram -na para o pequeno hospital de Dickens, de onde Lou saíra correndo para tirar Cotton da cam a enquanto Eugene voltava ao sítio para cuidar de Am anda e dos anim ais. Travis Barnes a estava atendendo e parecia preocupado. O hospital era tam bém a casa dele, m as a visão de um a m esa de alm oço e de um refrigerador General Electric não tinham m elhorado o clim a para Lou.

— Com o ela está? — perguntou Cotton. Barnes olhou para as crianças e puxou-o de lado.

— Teve um ataque cardíaco — explicou em voz baixa. Pode ficar com o lado esquerdo m eio paralisado.

— Mas vai se recuperar? — Era Lou, que tinha ouvido a conversa.

Travis abanou tristem ente os om bros.

— Não há m uita coisa que possam os fazer. As próxim as quarenta e oito horas serão decisivas. Se tivesse certeza que resistiria à viagem , eu a m andaria para o hospital de Roanoke. Não estam os lá m uito bem equipados para este tipo de coisa. Mas podem ir para casa. Procurarei inform á-los se houver algum a m udança.

— Não vou sair daqui — disse Lou, e Oz disse o m esm o.

— Devem estar esgotados — disse Cotton em voz baixa.

— Há um sofá bem na frente do quarto — ofereceu Travis num tom gentil.

Estavam todos adorm ecidos, uns apoiados nos outros, quando a enferm eira encostou no om bro de Cotton.

— Louisa acordou — disse ela em voz baixa.

Cotton e as crianças em purraram a porta e entraram . Os olhos de Louisa estavam abertos, m as não de todo. Travis estava parado j unto dela.

— Louisa? — disse Cotton. Não houve resposta, nem o m enor traço de reconhecim ento. Cotton olhou para Travis.

— Ainda está m uito fraca — disse Travis. — Seria norm al que não estivesse sequer consciente.

Lou apenas a contem plava, m ais assustada que nunca. Sim plesm ente não podia acreditar. Seu pai, sua m ãe. Diam ante. Agora Louisa. Paralisada. Lou j á nem sabia durante quanto tem po a m ãe não conseguia m over um único m úsculo. Seria tam bém aquele o destino de Louisa? Um a m ulher que am ava a terra? Que guardava as m ontanhas no coração? Que tinha a m elhor vida que alguém pode ter? Isso era quase suficiente para fazer Lou parar de acreditar num Deus capaz de fazer um a coisa tão terrível. Deixar alguém sem esperança. Deixar um a pessoa sem nada, absolutam ente sem nada.

Na casa do sítio, Cotton, Oz, Lou e Eugene acabavam sua refeição.

— Não posso acreditar que ainda não tenham apanhado quem tocou fogo no celeiro — dizia Lou furiosa.

— Não há provas de que alguém tenha posto fogo, Lou respondeu Cotton, enquanto se servia de leite e passava os biscoitos à frente.

— Eu sei quem foi. George Davis! Provavelm ente pago pela com panhia de gás.

— Não saia por aí dizendo isso, Lou. Seria calúnia.

— Seria verdade! — revidou a m enina. Cotton tirou os óculos.

— Lou, confie no que...

Lou pulou da m esa, a faca e o garfo caindo no chão e fazendo todos pularem .

— Por que devo confiar em tudo que você m e disser, Cotton? Disse que m inha m ãe ia acordar. Agora foi a vez de Louisa. Ou vai m entir de novo? Ou vai dizer que Louisa tam bém vai m elhorar? Vai? Lou saiu correndo. Oz com eçou a ir atrás dela, m as Cotton o deteve.

— Deixe-a um pouco sozinha, Oz — disse Cotton. Ele se levantou e foi para a varanda, tentando ver as estrelas. Todas pareciam ter se extinguido.

Então, com o um raio na frente dele, Lou apareceu m ontada na égua. Sobressaltado, Cotton arregalou os olhos, m as logo m enina e cavalo tinham sum ido.

Lou saíra a galope com Sue pelas trilhas banhadas de luar, sentindo o m ato e os galhos das árvores chicotearem seu corpo. Pouco depois, chegava à casa de Diam ante e descia da égua. Saiu correndo aos tropeções até alcançar o um bral da porta e m ergulhar no interior da construção.

com as lágrim as correndo pelo rosto, Lou avançou pela sala.

— Por que você foi em bora, Diam ante? Agora eu e Oz não tem os ninguém . Ninguém ! Está m e ouvindo? Está m e ouvindo, Diam ante Skinner! Quando o som arrastado veio da varanda da frente, Lou se virou, apavorada. Então Jeb disparou pela porta aberta e se j ogou nos braços dela, lam bendo seu rosto, ofegante por causa da longa carreira. Ela o abraçou. Nesse m om ento os galhos das árvores com eçaram a roçar nos vidros das j anelas, um gem ido ansioso desceu pela cham iné e Lou apertou o cachorro de um j eito todo especial. Um a j anela se escancarou e o vento rodopiou pela sala. Depois as coisas ficaram calm as e, por fim , Lou tam bém ficou.

Ela saiu, subiu no lom bo de Sue e tom ou o cam inho de volta, sem saber m uito bem por que tinha ido até lá. Jeb foi atrás, de língua de fora. Ela chegou a um a bifurcação e virou à esquerda, na direção do sítio. Jeb, então, antes que Lou ouvisse os ruídos, com eçou a uivar. Bem perto deles, havia rosnados e um m ovim ento am eaçador nos arbustos. Lou deu um a batida na égua, m as antes que Sue pudesse avançar m ais alguns m etros, o prim eiro dos cães selvagens saiu dos bosques e veio direto na direção deles. Sue em pinou quando a horrenda criatura, m ais lobo que cão, arreganhou os dentes, o pêlo todo arrepiado. Então um segundo e um terceiro cão saíram da m ata, até que se viram cercados por m eia dúzia deles. Jeb m ostrava os dentes e seu pêlo tam bém se arrepiara, m as Lou sabia que ele não ia ter a m enor chance contra aquele grupo. Sue continuava em pinando, relinchando e girando em pequenos círculos. De repente Lou percebeu que estava escorregando. O corpo da égua, coberto de suor após a longa corrida, parecia ter ficado estreito com o um a corda de acrobata.

Um dos cães da m atilha deu um bote para a perna de Lou e ela deu um salto; o anim al colidiu com um a das patas de Sue, ficando tem porariam ente tonto. Havia, no entanto, m uitos deles circundando a égua, rosnando, m ostrando as m andíbulas. Jeb partiu para o ataque, m as um a das feras o sacudiu e ele recuou, o sangue brotando no pêlo.

Quando outro anim al m ordeu a perna dianteira de Sue, ela tornou a em pinar. E desta vez, quando Sue tornou a pousar as patas no chão, ninguém a m ontava. Lou não conseguira m ais se segurar e caíra de costas, a rédea voando de sua m ão. Enquanto Sue desatava pela trilha na direção do sítio, Jeb continuou parado com o um m uro de pedra diante da dona caída, sem dúvida pronto para m orrer por ela. A m atilha, então, foi estreitando o círculo, sentindo a presa fácil. Apesar da dor no om bro e nas costas, Lou fez força para se levantar. Não havia sequer um a vareta ao alcance de sua m ão e ela e Jeb m overam -se para trás, até não haver m ais para onde recuar. Enquanto se preparava para m orrer lutando, a única coisa em que Lou pôde pensar foi que agora Oz ficaria de todo sozinho. E as lágrim as brotaram em seus olhos.

O grito foi com o um a rede j ogada sobre tudo e os sem ilobos se viraram na direção de onde ele viera. Mesm o o m aior deles, do tam anho de um bezerro, estrem eceu ao ver o que se aproxim ava. A pantera era grande, de pêlo lustroso e os m úsculos se flexionavam sob o tom de carvão. Possuía olhos castanhos-claros e m andíbulas duas vezes m aiores que as dos cães selvagens.

As garras tam bém eram coisas apavorantes, lem brando forcados presos em dedos. Quando chegou no m eio da trilha, a pantera tornou a gritar. Logo avançava para a m atilha de cães selvagens com a força de um trem carregado de carvão. Os cães se viraram e fugiram da luta, m as o grande gato os seguiu, gritando a cada gracioso passo que dava.

Lou e Jeb correram o m ais depressa que puderam . Quando estavam a uns oitocentos m etros de casa, tornaram a ouvir o estalar do m ato ao redor. Os pêlos do pescoço de Jeb de novo se arrepiaram e o coração de Lou quase parou de bater: sim , ela contem plava os olhos am arelados da pantera na escuridão... O anim al se deslocava pelo bosque paralelam ente a eles. Um anim al terrível, que poderia estraçalhar m enina e cachorro em questão de segundos. Mas tudo que aquela coisa parecia estar fazendo era avançar ao lado deles, em m om ento algum se aventurando a sair da m ata. Lou só sabia que a pantera continuava lá por causa do barulho das patas nas folhas e no m ato rasteiro, e por causa do clarão dos olhos. O anim al parecia flutuar na escuridão, sua pele negra m isturada com um a noite fechada.

Lou deixou escapar um grito de agradecim ento quando viu a casa. Ela e Jeb correram para a varanda e depois para a segurança do interior. A casa parecia vazia. Cotton, ela presum iu, j á devia ter ido em bora havia m uito tem po. com um a pressão no peito, Lou olhou pela j anela, m as não havia o m enor vestígio da pantera.

Lou desceu o corredor, sentindo ainda o trem or em cada nervo. Na porta da m ãe fez um a pausa, inclinando-se contra ela. Estivera m uito perto da m orte naquela noite.

A coisa fora terrível, até m esm o pior que o acidente de carro, pois ela estivera sozinha no m om ento crítico. Lou espreitou o interior do quarto e ficou surpresa ao descobrir que a j anela estava aberta. Entrou, fechou a j anela e se virou para a cam a. Por um m om ento de tontura, não pôde encontrar a m ãe entre as cobertas, m as é claro, ela estava lá. A respiração de Lou retom ou seu ritm o, os trem ores do m edo cessando à m edida que ela chegava m ais perto da cam a. De olhos fechados, Am anda respirava levem ente. Os dedos, no entanto, estavam bem curvados, com o se ela estivesse sentindo algum a dor. Lou estendeu o braço, tocou-a e depois retirou a m ão. A pele da m ãe estava úm ida, viscosa. A m enina saiu correndo do quarto e esbarrou em Oz, parado no corredor.

— Oz — disse ela —, você não vai acreditar no que m e aconteceu! — O que estava fazendo no quarto da m am ãe? — Ora! Eu... — Lou deu um passo atrás.

— Tudo bem que você não queira que a m am ãe m elhore, m as pelo m enos deixe-a sozinha! Pelo m enos deixe-a em paz! — Mas Oz...

— Papai sem pre gostou m uito de você, então deixe a m am ãe com igo! vou tom ar conta dela com o ela sem pre tom ou conta de nós. Sei que m am ãe vai m elhorar, m esm o que você não queira.

— Foi você quem não pegou a garrafa de água benta que Diam ante queria lhe dar.

— Talvez cordões e água benta não possam aj udar a m am ãe, m as tenho certeza que ela vai ficar boa. Se você não acredita nisso, deixe-a em paz! Nunca, em toda a sua vida, Oz lhe falara daquele j eito. Ela ficou parada, contem plando os braços pequenos, m as fortes, do irm ão. Pendiam ao lado do corpo com o m anivelas de um a m áquina. Seu irm ãozinho estava realm ente zangado com ela! Lou não podia acreditar.

— Oz! — Ele deu m eia-volta e com eçou a se afastar. Ela tornou a gritar: — Oz, por favor não fique zangado com igo. Por favor! — O m enino nem se virou. Foi para o quarto dele e fechou a porta.

Lou avançou num passo incerto para os fundos da casa; depois saiu e se sentou na escada da varanda. A beleza da noite, a fantástica visão das m ontanhas, os gritos de toda espécie de vida selvagem não lhe deixavam nenhum a im pressão. A m enina olhou para as m ãos bronzeadas pelo sol, para as palm as grossas com o cascas de carvalho.

As unhas estavam quebradas, suj as, o cabelo em aranhado e terrivelm ente ensopado de suor; o corpo estava fatigado além de qualquer lim ite e o espírito parecia ceder ao desespero. Afinal, Lou perdera quase todos que am ara. E agora nem m ais seu adorado Oz parecia estar do seu lado.

Nesse m om ento, ela ouviu a odiada sirene correr pelo vale. Era com o se a m ontanha estivesse gritando na expectativa da dor que se aproxim ava. O som parecia despedaçar a própria alm a de Lou. Em seguida veio o rum or da dinam ite, acabando de vez com ela. Ao olhar na direção da colina onde ficava o pequeno cem itério da fam ília Cardinal, Lou teve vontade de tam bém estar ali, onde nada m ais poderia feri-la.

Curvou a cabeça e com eçou a chorar baixinho. Mas não se passara m uito tem po quando ouviu a porta se abrindo atrás de si. A princípio achou que pudesse ser Eugene para ver se ela havia chegado, m as o andar era m uito leve. Então os braços a envolveram , apertando com força.

Lou pôde sentir o delicado sopro do irm ão no pescoço. Continuou curvada, m as pôs o braço para trás e procurou enlaçá-lo. E assim , irm ão e irm ã ficaram ali parados, por um tem po incrível.