O Poço dos Desejos
Capítulo Três
Absorvia cada pancada, m antendo-as longe deles.
O ferro do Zephy r travou um a horrível batalha com a terra socada do acostam ento, m as o solo finalm ente triunfou e a capota e o lado direito do carro vergaram .Um a parte m ais afiada atingiu a nuca de Am anda e o sangue com eçou a j orrar. Quando Am anda afundou, o carro deu um últim o giro e parou de cabeça para baixo, o capo voltado para o lado de onde eles tinham vindo.
Oz se esticou para a m ãe e só a incom preensão do que estava acontecendo separou o m enino de um pânico possivelm ente fatal.
com um ágil m ovim ento de gangorra, Lou conseguiu se livrar das destroçadas entranhas do carro. Por algum a razão, os faróis do Zephy r ainda funcionavam e ela procurou freneticam ente o pai naquela confusão de luz e som bra. Ouviu, então, os passos se aproxim ando e com eçou um a prece, agradecendo pelo fato dele ter sobrevivido. De repente os lábios pararam de se m exer. Na esteira dos faróis, ela vira o corpo esparram ado no chão, o pescoço num ângulo que rej eitava qualquer ideia de vida. Nesse m om ento, alguém bateu com a m ão no carro. Era o suj eito que quase fora atropelado. Ele estava dizendo algum a coisa, m as Lou preferiu não ouvir o hom em cuj os atos de negligência haviam acabado de destruir sua fam ília. Virou-se para a m ãe.
Am anda Cardinal tam bém vira o contorno do m arido no m esm o feixe im placável de luz. Por um instante, absurdam ente longo, m ãe e filha com partilharam um olhar que transm itia um a m ensagem perfeitam ente unilateral. Traição, aversão, raiva. Am anda leu tudo isso no rosto da filha. E essas em oções cobriram Am anda com o um a laj e de concreto sobre sua cripta, excedendo em m uito a som a total de cada pesadelo que j á tinha enfrentado. Quando Lou virou a cabeça, a m ãe que despertava do choque estava arruinada. E ao fechar os olhos, tudo que Am anda ouvia eram os gritos de Lou pedindo que o pai voltasse. Que não a deixasse sozinha. Então, para Am anda Cardinal, não houve m ais nada.
CAPÍTULO TRÊS
Havia um a calm a religiosidade no sonoro toque do sino da igrej a. Com o pancada de chuva, os sons cobriam a área onde as árvores estavam se enchendo de verde e a gram a florescia após o descanso do inverno. Os rolos de fum aça das lareiras do agrupam ento de casas encontravam -se no céu claro. E para os lados do sul, eram visíveis as im ponentes agulhas, os incríveis m inaretes da cidade de Nova York. A perfeição desses m onum entos a m ilhões de dólares e a m ilhares de costas cansadas parecia agora lutar por espaço sob a coroa do céu azul.
A grande igrej a de pedra surgia com o sólida âncora, algo incapaz de ser deslocado, não im porta a m agnitude do problem a que lhe assaltasse as portas.
Aquele am ontoado de pedras e torres parecia capaz de proporcionar conforto a qualquer um que se aproxim asse. E no interior das paredes grossas, havia outro som além do repique devoto do sino.
Um canto devoto.
Derram ando-se pelas galerias, os coros etéreos do "Dam os Graças ao Senhor" congregavam -se ao redor dos retratos de hom ens de colarinho branco, gente que passara a m aior parte da vida absorvendo confissões de culpa e distribuindo resm as de ave-m arias com o salvação espiritual. Depois as ondas de som iam contornando im agens santificadas de Jesus m orrendo ou subindo aos céus até alcançarem um a pia de água benta ao lado da entrada principal. Criando vários arco-íris, a luz do sol filtrava-se pelas j anelas, cuj as vidraças se estendiam , em brilhantes tonalidades, de um a ponta à outra daqueles corredores de Cristo e de pecadores. Antes de serem relutantem ente introduzidas na m issa, as crianças costum avam dizer "ooh" e "ahh" diante do espetáculo colorido, adm irando-se m uito, sem dúvida, dos ótim os arco-íris que podiam existir nas igrej as.
No próprio pináculo da nave, do outro lado das portas duplas de carvalho que havia atrás do coro, um m inúsculo organista m artelava o instrum ento com espantosa energia para alguém tão idoso, tão m irrado — "Dam os Graças ao Senhor" trom beteava cada vez m ais alto. O padre estava de pé no altar, braços com pridos se estendendo com decisão para dar consolo e indicar a sabedoria divina. Por m ais que a onda de dor com que se defrontava pudesse desafiá-lo, um a prece de esperança saía de sua boca. Sem dúvida estava precisando de m uito apoio divino, pois nunca era fácil abordar um a tragédia invocando a vontade de Deus. O caixão se achava na frente do altar. Em bora o m ogno envernizado estivesse coberto com cravos, ram alhetes de delicadas m argaridas e um sólido punhado de rosas, o que cham ava a atenção das pessoas era a dura placa de m adeira. Com o se cada um estivesse fitando a m ão de alguém avançando para a própria garganta. Jack e Am anda Cardinal tinham trocado j uras de am or eterno naquela igrej a. Nunca voltaram lá e nenhum dos convidados do casam ento teria im aginado a presença dos dois num a m issa de corpo presente catorze anos m ais tarde.
Lou e Oz estavam sentados no banco da frente da igrej a lotada. Oz apertava o urso contra o peito. Tinha o olhar m uito baixo e um a coleção de lágrim as batendo na m adeira lisa da parte do banco que ficava entre suas pernas, pernas m agricelas que ainda não atingiam o chão. Fechado ao lado dele, havia um hinário azul; cantar estava, por enquanto, absolutam ente fora de cogitação.
Lou m antinha o braço em volta do om bro de Oz, m as os olhos nunca saíam do caixão. Não fazia m al que estivesse tam pado. Nem o escudo de belas flores ia obscurecer a im agem do corpo lá dentro. Naquele dia, Lou estava usando um vestido, o que acontecia m uito raram ente. Os detestáveis uniform es não contavam ; ela só os usava para atender às exigências do colégio católico que frequentava com o irm ão. O pai sem pre gostara de ver a filha de vestido. Certa vez, chegou a desenhá-la usando um para um livro infantil que planej ava escrever, m as que nunca chegou a iniciar. Lou puxou as m eias brancas, que subiam até os j oelhos ossudos e davam um a sensação de desconforto. Os sapatos novos, pretos, apertavam os pés com pridos, estreitos, os pés que estavam bem firm es no chão.
Lou não se preocupava em cantar "Dam os Graças ao Senhor". Ouvira o padre dizer que a m orte era m eram ente o com eço, um com eço que, segundo os enigm áticos desígnios de Deus, era um a ocasião para festej ar, não para lam entar. Depois disso, não quis ouvir m ais nada e não chegara sequer a rezar pela pobre alm a do pai. Sabia que Jack Cardinal fora um hom em bom e um m agnífico escritor e contador de histórias. Sabia que ia deixar profunda saudade. Nenhum coro, nenhum hom em do clero, nenhum deus precisava lhe dizer essas coisas.
Quando o canto parou e o padre retom ou sua digressão, Lou captou um pouco da conversa de dois hom ens atrás dela. O pai, em sua busca de trechos prom issores de conversa, virara um franco bisbilhoteiro e a filha passara a com partilhar da m esm a curiosidade. Agora tinha ainda m ais razão para colocá-la em prática.
— Então, j á conseguiu chegar a algum a ideia brilhante? — sussurrou o hom em m ais velho para o m ais novo.
— Ideia? Só tem os de cuidar da hipoteca de um a casa vazia — foi a agitada resposta do hom em m ais novo.
O m ais velho balançou a cabeça e falou num a voz ainda m ais baixa, que Lou teve de fazer força para ouvir.
— Não está vazia. Jack deixou dois filhos e um a esposa.
— Esposa? — O hom em m ais novo olhou de relance para o lado e disse num sopro baixo. — Se as crianças fossem órfãs dava no m esm o.
Não estava claro se Oz tinha ouvido aquilo, m as ele ergueu a cabeça a pôs a m ão no braço da m ulher a seu lado. Era Am anda, sentada num a cadeira de rodas. Do outro lado da m ãe, havia um a enferm eira corpulenta, os braços cruzados sob o busto, obviam ente indiferente à m orte de um estranho.
Um a grossa atadura envolvia a cabeça de Am anda e o cabelo ruivo fora bastante aparado. Seus olhos estavam fechados. Na realidade, não se haviam aberto um a única vez desde o acidente.
Os m édicos disseram a Lou e a Oz que as sequelas físicas da m ãe tinham sido, em sua m aior parte, elim inadas. O problem a agora era resolver o lado da alm a, que ela parecia estar perdendo. Mais tarde, um carro fúnebre partiu da frente da igrej a carregando o pai de Lou e ela nem m esm o olhou. Já dera, m entalm ente, seu até logo. O coração, no entanto, j am ais poderia fazê-lo. Foi puxando Oz por fendas entre ternos som brios e vestidos de tons escuros. Lou estava farta de rostos tristes, de olhos úm idos captando a secura dos seus e tentando telegrafar m ensagens de sim patia, farta das bocas que repisavam com entários sobre a perda devastadora que atingira coletivam ente o m undo literário. Bem , não eram os pais deles que estavam deitados naquele caixão! A perda era dela, dela e do irm ão. Claro, j á estava cansada de gente deplorando um a tragédia da qual não poderiam entender nem o com eço. "Sinto m uito", m urm uravam . "Que tristeza. Um grande hom em . Um ótim o hom em . Abatido em plena j uventude. Tantas histórias ainda por contar." E Lou com eçara a responder: — Não precisa se sentir assim . Não escutou o que disse o padre? É um a ocasião para com em orar, A m orte é um a coisa boa. Vam os lá, venha cantar com igo! As pessoas a encaravam , sorriam nervosas e iam procurar outra pessoa para "com em orar", alguém cuj o tem peram ento pudessem com preender m elhor.
No final de tudo, haveria o serviço ao lado do túm ulo, onde o padre, sem dúvida, diria outras palavras edificantes, abençoaria as crianças, consagraria com sua água benta o prim eiro punhado de terra a cair na cova antes que, encerrando o espetáculo trem endam ente estranho, m ais dois m etros de aterro fossem ali j ogados. A m orte devia ter o seu ritual, pelo m enos a sociedade dizia que sim . Lou não pretendia investir contra isso, pois tinha um assunto m ais urgente a tratar naquele m om ento.