O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 4 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Dois

— E você com o vai, Oz? — perguntou Am anda.

O garotinho respondeu deixando escapar um cantar de galo que ressoou por todo o interior do carro, sobressaltando até m esm o o desatento Jack.

— A professora de inglês disse que sou o m elhor galo que ela j á ouviu — disse ele cantando de novo e batendo os braços. Am anda riu e m esm o Jack se virou sorrindo para o filho.

Lou deu um sorriso torto para o irm ão, m as logo esticou o braço e bateu com carinho na m ão de Oz.

— Você é m esm o um ótim o galo, Oz! — disse ela. — Muito m elhor que eu quando tinha a sua idade.

Am anda sorriu com o com entário e perguntou ao m arido: — Você vai à festa da escola de Oz, não vai? — Mãe — disse Lou —, você sabe que ele está trabalhando num a história. Não vai ter tem po de ir ver o Oz im itar um galo.

— vou tentar, Am anda — disse Jack. — Desta vez, vou realm ente tentar. — Am anda, porém , sabia que a dúvida no tom do m arido era o prenuncio de outra decepção para Oz. E para ela.

Am anda tornou a se virar para a frente e olhou pelo para-brisa. Seus pensam entos transpareceram com bastante clareza nos traços do rosto. Passar a vida casada com Jack Cardinal: vou tentar.

O entusiasm o de Oz, contudo, não queria dim inuir.

— E na outra festa vou ser o coelho da Páscoa. Você vai ver, não é, m am ãe? Am anda se virou para ele, dando um sorriso franco, procurando m ostrar a m ais agradável tranquilidade nos olhos.

— Sabe que a m am ãe j am ais perderia um a coisa dessas disse ela, a cabeça fazendo outro m ovim ento gentil.

Mas a m am ãe ia perder a coisa. Todos iam .

CAPÍTULO DOIS

Am anda olhava pela j anela do carro. Suas preces tinham sido atendidas e a tem pestade passara depois de alguns irritantes trechos de chuvisco e um a ou duas raj adas de vento, cuj o m aior efeito fora um sim ples roçar dos galhos das árvores. Os pulm ões de todos tinham feito m uita força, pois eles haviam corrido de um a ponta à outra do parque, com pletando o suave contorno das extensões de gram a. Contando pontos a seu favor, Jack havia acom panhado a turm a com a m esm a desenvoltura dos dem ais.

Com o um a criança, se arrem essara pelas trilhas de pedrinhas com Lou e Oz correndo atrás e rindo barulhentam ente— Chegara a tirar os sapatos para buscar sorrateiram ente um esconderij o, deixando as crianças a procurá-lo. Ao ser encontrado, encenou um a luta furiosa para ser dom inado. Mais tarde, para satisfação de todos, concluiu alguns passos de dança plantando um a bananeira. Era exatam ente disso que a fam ília Cardinal estava precisando.

No final do dia, as crianças tinham desabado de encontro aos pais e todos cochilaram ali m esm o, form ando um a enorm e bola que respirava fundo, os m em bros dobrados em ângulos incríveis os suspiros de gente cansada e feliz em repouso. Um a parte de Am anda poderia ficar ali deitada para o resto da vida. Era com o se j á tivesse realizado tudo que o m undo pudesse razoavelm ente exigir dela.

Então no cam inho de volta, rum o à cidade, rum o a casa pequena m as m uito querida, que j á não seria deles por m uito tem po Am anda sentiu um a crescente inquietação.

Ela realm ente não gostava de discussões, m as às vezes, sendo a causa im portante, era preciso discutir. Olhou para o banco de trás. Oz dorm ia. O rosto de Lou estava virado para a j anela; ela tam bém parecia cochilar. Com o raram ente tinha o m arido só para ela, Am anda concluiu que o m om ento era aquele.

— Tem os realm ente de conversar sobre a Califórnia disse em voz baixa.

Jack contraiu os olhos, em bora não houvesse sol; na realidade, a escuridão ao redor j á era quase com pleta.

— Os contratos j á bateram no estúdio de cinem a. Am anda reparou que ele dissera isso sem o m enor sinal de entusiasm o. E estim ulada por esta reação, resolveu apertar: — Você é um escritor prem iado. com um a obra que j á está sendo ensinada nas escolas. Tem sido considerado o m ais talentoso ficcionista de sua geração! — E daí? — Ele parecia cansado de tantos louvores.

— Daí por que ir para a Califórnia e deixar que lhe digam o que escrever? — Não tenho opção. — A luz nos olhos dele se em baçou.

— Jack, você tem opção! — Am anda lhe agarrara o om bro.

— Não fique pensando que escrever para o cinem a vai tornar tudo perfeito, porque não vai! A subida da voz da m ãe fez Lou se virar lentam ente e encarar os dois.

— Obrigado pelo voto de confiança — disse Jack. — Realm ente gostei, Am anda. Especialm ente agora! Você sabe que não está sendo fácil para m im .

— Não se trata de confiança. Se ao m enos pensasse no... Inclinando-se de repente no banco, Lou encostou o braço no om bro do pai enquanto a m ão de Am anda recuava. O sorriso de Lou era largo, m as obviam ente forçado.

— Acho que vai ser ótim o ir para a Califórnia, pai. Jack sorriu e deu um tapinha na m ão de Lou. Am anda pôde sentir a alm a de Lou nas alturas ante aquele gesto ligeiro de gratidão. Sabia que Jack não tinha um a noção clara do poder que exercia sobre a m enina; era com o se todos os desej os de Lou fossem avaliados pela possibilidade de agradar ou não a ele. E isso assustava Am anda.

— Jack, a Califórnia não é a solução, sim plesm ente não é! Procure entender — disse ela. — Isso não o fará feliz.

Havia am argura na expressão do m arido.

— Estou farto de ter críticas m aravilhosas, prêm ios na prateleira e não conseguir sequer dinheiro suficiente para m anter m inha fam ília. Toda a m inha fam ília. — Olhou para Lou e, no rosto dele, brotou um a em oção que Am anda interpretou com o vergonha. Teve vontade de se inclinar para o lado e abraçá-lo, dizer que era o hom em m ais incrível que ela conhecera. Mas j á lhe dissera isto antes e eles continuavam indo para a Califórnia.

— Posso voltar a lecionar — disse Am anda —, o que pode lhe dar liberdade para escrever. Sem dúvida, m uito depois de todos nós m orrerm os, as pessoas continuarão a ler Jack Cardinal.

— Gostaria de ir para um lugar onde soubessem m e valorizar enquanto ainda estou vivo.

— Você é valorizado. Ou será que nós não contam os? Jack, um escritor traído pelas próprias palavras, pareceu espantado.

— Não foi isso que eu quis dizer, Am anda. Desculpe.

— Pai — disse Lou, estendendo a m ão para o caderno —, acabei a história de que eu falei.

O olhar de Jack continuou em Am anda.

— Lou, agora estou conversando com sua m ãe.

Havia sem anas Am anda andava pensando; na realidade, andava pensando desde que o m arido falara dos planos de um a vida nova escrevendo roteiros de cinem a entre o sol e as palm eiras da Califórnia e ganhando consideráveis som as de dinheiro. Ela achava que Jack estaria utilizando m al sua capacidade ao pôr em palavras as ideias de outras pessoas, ao substituir histórias nascidas dentro dele pelas que pudessem render a m aior quantidade possível de dólares.

— Por que não vam os para a Virginia? — disse ela, prendendo logo a respiração.

Os dedos de Jack apertaram o volante. Lá fora não havia outros carros e as únicas luzes vinham das lanternas do Zephy r. O céu era um teto com prido form ado por um a névoa suspeita. Não havia brechas com estrelas para guiá-los. Podiam estar avançando pela superfície plana de um oceano azul ou subindo e descendo algum as lom badas; a sensação seria a m esm a. Sem dúvida, a m ente de um a pessoa se deixaria facilm ente enganar por um a tal conspiração de céus e terra.

— O que há na Virginia? — O tom era m uito cauteloso. com um sentim ento crescente de frustração, Am anda agarrou-lhe o braço.

— Sua avó! O sítio nas m ontanhas. O cenário para tantos livros incríveis. Você tem escrito a vida inteira sobre isso, m as nunca voltou lá. As crianças nem chegaram a conhecer Louisa. Meu Deus, eu m esm a nem cheguei a conhecer Louisa! Não acha que j á está na hora? A voz exaltada de Am anda fez Oz acordar, m as a m ão de Lou estendeu-se para ele, cobrindo seu peito delicado, transferindo-lhe calm a. Para Lou, um gesto com o aquele j á se tornara um a coisa autom ática. Am anda não era a única protetora com que Oz podia contar.

Jack olhava fixo à frente, visivelm ente irritado por aquela conversa.

— Se as coisas correrem com o estou planej ando, ela vai m orar conosco. Tom arem os conta dela. Louisa não pode ficar lá sozinha com a idade que tem . — acrescentou som briam ente: — É um a vida m uito difícil.

— Louisa j am ais deixará as m ontanhas — disse Am anda balançando a cabeça. — Só a conheço pelas cartas e por tudo que você m e contou, m as sei disso.

— Bem , não se pode viver eternam ente no passado. E estam os indo para a Califórnia. Vam os nos dar m uito bem por lá! — Jack, não pode estar realm ente acreditando nisso. Não pode! Lou se inclinou de novo para a frente. Era toda cotovelos, pescoço, j oelhos — m em bros esguios que pareciam crescer diante dos olhos do pai e da m ãe.

— Não quer m esm o, papai, que eu fale da m inha história? Am anda pôs a m ão no braço de Lou e, olhando para a cara assustada de Oz, tentou lhe passar um sorriso tranquilizador, m esm o que tranquilidade fosse a últim a coisa que sentisse. Sem dúvida não era o m elhor m om ento para um a discussão.

— Lou, espere só um m inuto, querida... Podem os conversar depois, Jack. E não na frente das crianças. — De repente, sentira m edo que a coisa fosse longe dem ais.

— Em que não posso estar realm ente acreditando? — Jack, agora não.

— Você com eçou a conversa. Não m e culpe por querer levá-la até o fim .

— Jack, por favor...

— Agora, Am anda! O m arido nunca lhe falara naquele tom , o que, em vez de deixá-la assustada, só aum entou sua raiva.

— Tem passado m uito pouco tem po com as crianças disse. — Está sem pre viaj ando, fazendo conferências, atendendo a com prom issos! Todos querem um pedaço de Jack Cardinal, m esm o que não estej am dispostos apagar pelo privilégio. Acha realm ente que as coisas serão m elhores na Califórnia? Lou e Oz nem o verão m ais! Os olhos, os m axilares e a boca de Jack form aram um a barreira de desafio. Sua voz, quando veio, era um a potente com binação de m ágoa com a intenção de dar o troco à m ulher.

— Está querendo dizer que não dou atenção aos m eus filhos? Am anda com preendeu a tática; m esm o assim sucum biu a ela.

— Talvez — disse em voz baixa — não tenha essa intenção, m as está sem pre tão envolvido com seu trabalho...

— Ele nos dá atenção — disse Lou quase saltando para o banco da frente. — Está falando besteira. Está errada! Errada! A densa barreira de Jack desabou sobre Lou.

— Não fale assim com sua m ãe! Nunca m ais! Am anda olhou para Lou e tentou encontrar algo de conciliador para dizer. A filha, porém , foi m ais rápida.

— Pai, esta é realm ente a m elhor história que j á escrevi. Juro! vou dizer com o com eça...

Mas Jack Cardinal, talvez pela prim eira vez na vida, não estava interessado num a história. Virou-se diretam ente para a filha. Sob a severidade do olhar do pai, m ais depressa do que Am anda pôde tom ar fôlego, a expressão de Lou foi da esperança a um a decepção selvagem . > — Lou, eu disse que agora não! Depois que Jack lentam ente se virou, ele e Am anda viram a m esm a coisa, ao m esm o tem po, algo que tirou todo o sangue dos rostos dos dois. O hom em estava se debruçando na m ala do carro enguiçado. Tudo tão perto que Am anda chegou a ver, sob a luz dos faróis, o quadrado de um a carteira no bolso de trás do desconhecido, alguém que nem teria tem po de se virar para ver a m orte que vinha buscá-lo a oitenta por hora.

— Oh, m eu Deus — Jack gritou, dando um golpe de direção para a esquerda. O Zephy r respondeu com inesperada agilidade, conseguindo se esquivar do outro carro e deixando o descuidado m otorista viver m ais um dia. Logo, no entanto, o Zephy r estava saindo da estrada e resvalando por um barranco. Havia árvores na frente e Jack puxou o volante para a direita.

Am anda gritou, estendendo os braços para os filhos enquanto o carro guinava sem controle. Ela podia pressentir que m esm o a pesada carroceria de um Zephy r não conseguiria m anter o equilíbrio.

O pânico brilhou com o dólares de prata nos olhos de Jack, a respiração sufocada na garganta. Enquanto o carro derrapava, cruzando a estrada para o acostam ento de terra na outra m argem , Am anda se atirou no banco de trás, envolvendo os filhos com os braços, apertando os dois, procurando escorar com o próprio corpo tudo que era duro e perigoso no interior do carro. Jack deu um a guinada no volante para o outro lado, m as o Zephy r havia perdido toda a estabilidade e os freios j á eram inúteis. Depois de contornar um am ontoado de árvores que teriam sido fatais, o carro fez o que Am anda tem era desde o prim eiro m om ento: capotou.

Quando a capota do carro bateu no barro, a porta do m otorista se abriu bruscam ente e, com o um nadador envolvido por súbita correnteza, Jack Cardinal foi atirado longe. O Zephy r capotou de novo, m as o golpe que deu num a árvore dim inuiu o im pulso. Estilhaços de vidro choveram em cascata sobre Am anda e as crianças. O barulho de m etal sendo rasgado se m isturou com gritos e tudo ficou terrível — o cheiro da gasolina escorrendo, das ondas de vapor im pregnando o ar. Cada vez que o carro com pletava um giro, batia em algum a coisa e virava de novo. Am anda, com um a força que não podia ser inteiram ente dela, m antinha Lou e Oz apertados contra o banco.