O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 14 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Doze

— Com o m orreu gente pra transform ar isto aqui num poço dos desej os, quem pede um a coisa tem de desistir de outra.

— Desistir de quê? — Era Oz, tão entusiasm ado que parecia pairar sobre a relva com o um balão de gás.

Diam ante ergueu os braços para o céu escuro.

— Desistir da m aior, da coisa m ais im portante que houver em todo o m aldito m undo.

Lou não ficaria surpresa se Diam ante estivesse esperando aplausos. E soube o que estava por vir quando Oz deu um puxão em sua m anga.

— Lou, talvez a gente possa...

— Não! — retrucou ela asperam ente. — Oz, tem de com preender que cordões com pingentes e poços dos desej os não funcionam . Nada disso existe! — Mas, Lou.

A m enina ficou de pé e agarrou-o pela m ão.

— Não sej a estúpido, Oz. Vai ser m ais um a decepção para fazê-lo chorar.

Lou com eçou a se afastar. Após um segundo de hesitação, Oz foi atrás. Diam ante foi deixado sozinho com os despej os de algum a coisa, certam ente não de algum a vitória, a j ulgar pelo ar de desapontam ento. Quando olhou em volta e assobiou, Jeb veio correndo.

— Vam os pra casa — disse ele em voz baixa.

A dupla se afastou na direção oposta à de Lou e Oz, enquanto as m ontanhas se preparavam para o sono.

CAPÍTULO DOZE

Ainda não havia traço de luz lá fora quando Lou ouviu o ruído de passos na escada. A porta do quarto foi aberta e ela se sentou na cam a. O clarão de um lam pião flutuou no ar, seguido por Louisa, j á plenam ente vestida. com suas ondas de cabelo prateado e a suave lum inosidade que a cercava, a m ulher surgiu ante a m ente sonolenta de Lou com o um a m ensageira dos céus. O ar no quarto estava um tanto frio; Lou achou que podia ver a própria respiração.

— Achei que ia encontrar você e Oz dorm indo — disse gentilm ente Louisa ao se aproxim ar e sentar ao lado de Lou.

Lou sufocou um bocej o e contem plou a escuridão do outro lado da j anela.

— Que horas são? — Quase cinco.

— Cinco! — Lou afundou a cabeça no travesseiro e tam pou o rosto com o cobertor. Louisa sorriu.

— Eugene está tirando o leite. Procure aprender com o ele faz.

— Não se pode fazer isto m ais tarde? — perguntou Lou sob o cobertor.

— As vacas não gostam de esperar por nós — disse Louisa.

— Ficam m ugindo até a teta ficar seca. — E acrescentou: Oz j á está pronto.

— Mam ãe só conseguia tirá-lo da cam a às oito — disse Lou se em pinando —, e m esm o assim era um a luta.

— Ele agora está com endo um prato de m elado com broa de m ilho e leite. Por que não vem tom ar o café conosco? Lou j ogou longe as cobertas e seus pés encostaram no chão frio, o que fez um trem or seguir direto para seu cérebro. Agora estava m esm o convencida de que podia ver a própria respiração.

— Me dê cinco m inutos — disse bravam ente.

— Esta m adrugada geou — disse Louisa, notando o evidente m al-estar físico da m enina. — Aqui em cim a o frio é pior. Entra nos ossos com o um a faquinha. Ainda vam os ter uns dias de calor, m as quando o inverno chegar, coloco você e o Oz no quarto da frente, bem ao lado da lareira. As brasas vão m antê-los aquecidos a noite inteira. Vão gostar de viver aqui.

— Ela fez um a pausa e olhou ao redor do quarto. — Não posso lhes dar o que tinham na cidade, m as farei o m elhor possível.

— Louisa se levantou e foi até a porta. — Já pus água quente na bacia pra que possam se lavar.

— Louisa? A m ulher se virou, o arco de luz do lam pião atirando e am pliando sua som bra contra a parede.

— Sim , querida? — Este foi o quarto do m eu pai, não foi? Louisa olhou em volta devagar antes de enfrentar a pergunta e o olhar da m enina.

— Desde os quatro anos de idade até o m om ento em que foi em bora. Não deixei ninguém usar o quarto desde então.

Lou apontou para as paredes cobertas.

— Foi m eu pai que fez isso? Louisa abanou a cabeça.

— Andava quinze quilôm etros para conseguir um j ornal ou um livro. Depois de ler tudo um a dúzia de vezes, punha os j ornais na parede e continuava a ler. Nunca vi um garoto tão curioso em toda a m inha vida. — Virou-se para Lou. — Aposto que é parecida com ele.

— Queria lhe agradecer por ficar com Oz e com igo.

— Aqui tam bém será bom para sua m ãe — disse Louisa, olhando para a porta. — Nós todos vam os cuidar dela. Ela vai ficar bem .

Lou desviou o olhar, com eçando a m exer na cam isola de dorm ir.

— Desço num m inuto — disse bruscam ente.

Sem com entário, Louisa aceitou a m udança nos m odos da m enina, saiu e fechou cuidadosam ente a porta.

Lá em baixo, Oz estava acabando de tom ar o café da m anhã quando Lou apareceu. Vestia um a calça com prida desbotada, um blusão com prido e as botas de cordão que Louisa tinha lhe dado. Um lam pião preso num gancho da parede e as brasas da lareira forneciam toda a ilum inação do am biente. Lou deu um a olhada no relógio da bisavó no console da lareira, um pequeno relógio oval de carvalho polido. Na verdade, j á passava um pouco das cinco. Quem poderia im aginar que as vacas acordassem tão cedo, ela pensou.

— Ei, Lou — disse Oz. — Tem de provar este leite. É ótim o.

Louisa olhou para Lou e sorriu.

— As roupas ficaram realm ente m uito bem . Tinha quase certeza que iam dar. Se as botas estiverem largas, podem os enchê-las com trapos.

— Estão ótim as — disse Lou, em bora parecessem um tanto apertadas, m achucando seus pés em algum lugar.

Louisa trouxe um a vasilha e um copo. Pousou o copo na m esa, pôs um pano em cim a dele e despej ou leite diretam ente da vasilha, a espum a borbulhando no pano.

— Quer m elado na broa de m ilho? — perguntou ela. — É realm ente gostoso. E faz a barriga em pinar.

— É ótim o — falou Oz num tom vibrante enquanto m ordia a últim a fatia de pão e a fazia descer com um resto de leite.

Lou olhou para o próprio copo.

— Para que serve o pano? — Para tirar do leite as coisas que você não precisa tom ar — respondeu Louisa.

— Está querendo dizer que o leite não é pasteurizado? disse Lou num tom tão aflito que Oz olhou para o copo vazio e fez cara de quem ia bater as botas naquele instante.

— O leite não esteve no pasto? — perguntou ele ansioso.

— Vai fazer m al? — O leite é ótim o — disse Louisa com voz calm a. — Tom ei-o assim a vida toda. Seu pai tam bém .

Ouvindo isto, um aliviado Oz recostou-se na cadeira e voltou a respirar. Lou cheirou o leite e provou-o duas vezes, com cautela. Depois sorveu um gole m aior.

— Não falei que era bom ? — disse Oz. — Provavelm ente colocar no pasto deixa o sabor ruim , eu acho.

— Pasteurização vem do sobrenom e de Louis Pasteur, o cientista que descobriu um processo que m ata as bactérias e torna o leite seguro para beber.

— Tenho certeza que ele foi um hom em inteligente — disse Louisa, colocando um a travessa com broa de m ilho e m elado na frente de Lou. — Mas fervem os o pano que usam os com o coador e obtem os o m esm o efeito. — O m odo com o disse isso fez Lou desistir do assunto.

Lou pegou um a grande fatia da broa com m elado e seus olhos se arregalaram com o sabor.

— Onde a senhora com pra? — perguntou.

— Com pro o quê? — Esta com ida. É realm ente gostosa.

— Não falei? — disse novam ente Oz num tom arrogante.

— Não com pro nada, querida — disse Louisa. — Sou eu que faço.

— Com o se faz? — Vai ver quando eu fizer de novo. É m uito m elhor que contar. Melhor ainda é você própria fazer. Agora, corra porque vai encontrar um a vaca cham ada Bran. A velha Bran causa problem as que vocês dois podem aj udar o Eugene a resolver.

com esse estím ulo, Lou acabou rapidam ente de com er e correu com Oz para a porta.

— Esperem , crianças — disse Louisa. — Venham pôr os pratos aqui na pia. E vou dar um a coisa de que vão precisar. Pegou outro lam pião, acendeu e o cheiro do querosene encheu o am biente.

— A casa não tem m esm o eletricidade? — perguntou Lou.

— Conheço gente em Trem ont que instalou essa droga. Ela para às vezes e o pessoal fica sem saber o que fazer. Com o se ninguém soubesse m ais acender um lam pião. Bem , quero um bom lam pião a querosene; isso pra m im chega.

Oz e Lou levaram os pratos para a pia.

— Depois que acabarem no celeiro, vou m ostrar a casa de refrigeração. É onde a gente pega nossa água. Pegam os duas vezes por dia. Vai ser um a das tarefas de vocês. Lou parecia confusa.

— Mas a senhora tem a bom ba.

— Só pra lavar os pratos e coisas assim , m as precisam os de água pra m uita coisa m ais. Prós anim ais, pró banho, pra lavar a roupa e as ferram entas. A bom ba não tem m uita pressão.

Dem ora um dia pra encher um balde de bom tam anho. — Ela sorriu. — Às vezes parece que a gente gasta a m aior parte do fôlego carregando água e lenha.

Me achei um a burra de carga durante os prim eiros dez anos de m inha vida.

Quando os dois estavam novam ente para cruzar a porta, Lou parou agarrada ao lam pião.

— Ha, onde fica m esm o a vaca? — Não acha m elhor eu m ostrar a você? A friagem era de cortar os ossos, e Lou deu graças a Deus por estar usando um blusão grosso, em bora ainda colocasse as m ãos sem luvas sob as axilas. com Louisa e seu lam pião abrindo cam inho, passaram pelo galinheiro, pelos currais e chegaram ao celeiro, um a construção em form a de A, com grandes portas duplas. As portas estavam abertas e lá dentro havia um a luz solitária. Lou ouvia os roncos e berros dos anim ais, o roçar de cascos inquietos no chão, enquanto do galinheiro chegava a agitação de um esvoaçar de asas. O céu estava curiosam ente m ais escuro em certos pontos que em outros e, de repente, Lou percebeu que os trechos de ébano eram os Apalaches.

Nunca tinha visto um a noite com o aquela. Sem ruas ilum inadas, sem luzes nos prédios, sem carros, sem ilum inação de qualquer espécie fornecida por baterias ou eletricidade.

Os únicos pontos de luz eram as poucas estrelas no céu, o lam pião de querosene que Louisa carregava e aquele que presum ivelm ente estaria com Eugene no celeiro.

A escuridão, porém , de m odo algum a assustava. Na realidade, se sentia estranham ente segura acom panhando o vulto alto da bisavó. Oz as seguia de perto e Lou percebeu que o irm ão não estava tão à vontade quanto ela. Sabia que, se tivesse tem po para pensar, Oz veria praticam ente tudo com o fonte de indizível terror.

O celeiro tinha cheiro de m ontes de ferragem , terra úm ida, grandes anim ais e estrum e quente. O chão de terra estava coberto com palha. Das paredes pendiam rédeas e freios, alguns com tiras de couro rachadas e gastas, outros brilhantes, m uito flexíveis. Havia um balancim sobre o forro de um a boleia de carroça. Um palheiro era alcançado por um a escada de m adeira, cuj o segundo degrau estava quebrado. O palheiro ocupava a m aior parte do j irau e estava cheio de feno solto e enfardado. Havia vigas centrais de eucalipto e Lou presum iu que aj udariam a sustentar o teto. O celeiro tinha pequenas baias dos lados e atrás, e tam bém algum as pocilgas e cocheiras. Égua, m ulas, porcos e carneiros peram bulavam em suas respectivas áreas. Lou podia ver nuvens de ar frio irrom pendo das narinas quentes dos anim ais.

Eugene estava num a baia, sentado num pequeno banco de três pernas quase invisível sob seu corpo. Logo à direita havia um a vaca, branca com m anchas pretas. A cauda se contorcia de um lado para o outro, a cabeça m ergulhava na m anj edoura.

Louisa deixou os garotos com Eugene e voltou a entrar em casa. Oz chegou para perto de Lou quando a vaca na outra baia deu um encontrão na divisória e soltou um m ugido. Eugene olhou para eles.

— A velha Bran pegou a febre do leite — disse. — Tem os de puxar. — Apontou para o canto da baia, onde havia um a bom binha de m etal enferruj ada. — Me passe aquela bom ba, dona Lou.

Lou obedeceu e Eugene apertou a m angueira contra um a das tetas de Bran.

— Agora bom beie.

Oz bom beou enquanto Eugene procurava segurar a ponta da m angueira contra cada um a das quatro tetas e esfregava o úbere da vaca, que estava inflando com o um a bola.

— Nunca prendeu o leite, sem pre foi um a boa m oça. Vam os cuidar de você — disse Eugene a Bran, num tom confortador.

— Tudo bem , agora j á chega. — Oz parou de bom bear e recuou, esperando. Pousando a bom ba, Eugene fez sinal para Lou tom ar seu lugar no banquinho. Guiou suas m ãos para as tetas de Bran e m ostrou com o ela devia segurá-las e com o tinha de esfregar para deixá-las elásticas, aj udando assim o fluxo.

— Bom beam os para o leite sair e agora tem os de fazê-la secar. Puxe com força, dona Lou, a velha Bran não está nem aí. Faça o leite correr até o fim . Ele a estava m achucando dem ais.

A princípio, Lou hesitou ao puxar, m as de repente com eçou a entrar no ritm o. As m ãos passaram a trabalhar com eficiência e os três puderam ouvir o ar escapando do úbere. Esse ar form ava nuvenzinhas quentes na atm osfera fria.

— Posso tentar? — disse Oz dando um passo à frente. Lou se levantou e Eugene pôs o garoto em cim a do banco.

Logo Oz estava tirando leite tão bem quanto Lou, até só sobrarem gotinhas nas pontas das tetas.

— Está indo m uito bem , sr. Oz. Costum ava tirar leite na cidade? Dessa, todo m undo riu.

Três horas depois, Lou e Oz não estavam m ais rindo. Haviam ordenhado as outras duas vacas (um a com um bezerro na barriga, Louisa dissera), ficando m eia hora com cada um a. Tam bém haviam carregado quatro grandes baldes de água para a casa e tirado m ais quatro da casa de refrigeração para dar aos anim ais. Na sequência, houve duas viagens carregando lenha e três levando carvão para encher os depósitos da casa. Agora estavam dando a lavagem aos porcos, e a lista de tarefas só parecia crescer.

Oz lutava com um balde, que Eugene aj udou a transportar pelo alto da cerca da pocilga. Lou despej ou o seu e deu um passo atrás.

— Não posso acreditar que tem os de alim entar os leitões disse.

— Eles realm ente com em m uito — acrescentou Oz, vendo as criaturas investirem contra o que parecia ser um a espécie de lixo líquido.

— São noj entos — disse Lou, lim pando as m ãos na calça com prida.

— E nos servem de com ida quando é preciso.

Os dois se viraram e viram Louisa parada, um balde cheio de m ilho para as galinhas num a das m ãos, a testa m olhada de suor a despeito do frio. Ela pegou o balde vazio de Lou e entregou-lhe o cheio.

— Quando a neve chega, num há com o descer a m ontanha. Tem os de ter nossa com ida aqui. E eles são porcos, Lou, não leitões. — Lou e Louisa m antiveram silenciosam ente os olhos no chão por um m om ento de constrangim ento m útuo, m as logo o som de um carro chegando fez as duas olharem para a casa.

Era um Oldsm obile conversível, exibindo todos os seus quarenta e sete cavalos de força e um assento suplem entar na traseira. A pintura preta estava lascada e enferruj ada em diversos pontos, havia um am assado no para-lam a e os pneus estreitos pareciam quase carecas. Apesar do frio da m anhã, a capota estava aberta. Era um belo destroço de carro.

O m otorista estacionou e saltou. Era alto, com um corpo m agricela que sugeria tanto certa fragilidade quanto um a excepcional energia. Tirou o chapéu revelando um cabelo preto e liso, m uito bem aparado em volta da cabeça. Um nariz e um queixo bem -feitos, sim páticos olhos azuis e um a boca com inúm eras rugas de riso davam -lhe um ar de quem seria capaz de enfrentar sorrindo o pior dos dias. Parecia m ais perto dos quarenta que dos trinta. O terno era cinza, com um colete escuro e um relógio do tam anho de um dólar de prata na ponta da corrente grossa que passava pela frente do colete. A calça do terno era larga nos j oelhos e os sapatos havia m uito tinham perdido o brilho. Com eçou a cam inhar na direção deles, m as de repente parou e voltou para o carro, de onde tirou um a velha e gorda pasta.