O Poço dos Desejos
Capítulo Treze
Com ar distraído, Lou especulava exam inando com atenção o desconhecido. Após conhecer Diabo-Não e Diam ante, estava curiosa para saber qual seria o estranho nom e do recém -chegado.
— Quem é? — perguntou Oz.
— Lou, Oz — disse Louisa em voz baixa —, este é Cotton Longfellow, o m elhor advogado das redondezas.
O hom em sorriu e apertou a m ão de Louisa.
— Bem , com o sou tam bém um dos pouquíssim os advogados das redondezas, essa é, no m ínim o, um a distinção um tanto duvidosa, Louisa.
Lou nunca vira um sotaque daqueles, um a m istura da fala arrastada do sul com o ritm o da Nova Inglaterra. Não conseguiu vinculá-lo a um a determ inada região e costum ava ser m uito boa nisso. Cotton Longfellow! Meu Deus, pelo m enos não se desapontara acerca do nom e! Cotton pousou a pasta e continuou apertando solenem ente as m ãos, em bora um brilho de descontração brotasse em seus olhos.
— É um grande prazer conhecer os dois. Se bem que praticam ente j á os conhecia com base em tudo que ouvi de Louisa. Sem pre achei que chegaria o dia de vê-los pessoalm ente, em bora sej a terrível que tenha de ser nessas circunstâncias. — Dissera a últim a frase com um a gentileza que m esm o Lou achou perfeita.
— Cotton e eu tem os algum as coisas a conversar. Depois de cuidarem dos porcos, aj udem Eugene a tocar o resto da criação e a pegar o feno. Depois podem encerrar apanhando os ovos.
Quando Cotton e Louisa com eçaram a se afastar, Oz pegou seu balde e, contente, foi dar m ais com ida aos porcos. Lou, no entanto, ficou olhando para Cotton e Louisa, obviam ente não pensando em porcos. Na realidade, especulava sobre um hom em com o estranho nom e de Cotton Longfellow, de fala m eio esquisita e que parecia saber tanta coisa sobre eles. Finalm ente, prestou atenção num porco de uns duzentos quilos que poderia im pedir que m orressem todos de fom e no inverno, e m archou atrás do irm ão. Os paredões dos m ontes pareciam se fechar em volta da m enina.
CAPÍTULO TREZE
Cotton e Louisa entraram em casa pela porta dos fundos. Enquanto seguiam o corredor para a sala da frente, Cotton parou, o olhar atravessando a porta sem i-aberta do quarto onde Am anda j azia na cam a.
— O que dizem os m édicos? — perguntou ele.
— Trau...m a m en...tal. — Louisa form ara devagar as estranhas palavras. — Foi o que a enferm eira disse que era.
Foram até a cozinha e sentaram -se em cadeiras retas de carvalho, trabalho de carpinteiro, a m adeira lem brando vidro de tão lixada e aplainada. Cotton tirou uns papéis da pasta e puxou seus óculos de aro fino do bolso. Depois de colocá-los, exam inou por um instante os docum entos e se recostou, preparado para discuti-los. Louisa serviu-lhe um a xícara de café m uito forte. Cotton tom ou um gole e sorriu.
— Quem não acordar com um café desses é porque j á m orreu.
— Então — disse Louisa enchendo a própria xícara —, o que descobriu com aqueles suj eitos? — Seu neto não deixou um testam ento, Louisa. Não que isso im porte m uito, pois ele tam bém não tinha dinheiro.
— com toda aquela escrita tão boa? — Louisa parecia perplexa, m as Cotton abanou a cabeça.
— Por m ais incríveis que fossem — disse —, os livros não vendiam assim tão bem . Ele tinha sem pre de escrever algum a coisa por fora para fazer as contas fecharem . Além disso, Oz teve problem as de saúde quando nasceu. Foram despesas m uito altas. E a vida em Nova York não é exatam ente barata.
— E isso não é tudo — disse Louisa baixando os olhos e enfrentando o olhar curioso do advogado. — Jack m e m andou dinheiro todos esses anos, realm ente m andou. Um a vez eu lhe escrevi, disse que não era j usto ele ficar fazendo isso a vida inteira. Afinal, tinha sua própria fam ília.
Mas ele disse que era rico. Foi o que m e disse! Queria que eu aceitasse o dinheiro, pois achava que eu tinha feito m uito por ele. Mas na realidade eu não fiz nada.
— Bem , parece que Jack estava planej ando escrever para um estúdio de cinem a na Califórnia quando o acidente aconteceu.
— Califórnia? — Louisa disse a palavra com se fosse um a coisa m aligna; depois se recostou e suspirou. — Sei com o aquele m enino se im portava com igo. Mas m e dar um dinheiro que não tinha! Maldita sej a eu por ter aceito! — Olhou um instante para longe antes de continuar. — Estou com um problem a, Cotton. Os últim os três anos foram de seca e as colheitas não vieram . Só fiquei com cinco porcos e logo vou ter de m atar um deles. O que vai m e deixar com três porcas e um m acho. A últim a cria deu uns porquinhos de nada. Tenho tam bém três vacas leiteiras razoáveis. Um a está prenha, m as ainda não soltou o bezerro, o que está m e deixando m uito preocupada. E Bran tem a febre. As ovelhas têm m e dado m ais preocupação que qualquer outra coisa. E aquela velha égua num faz m ais trabalho nenhum , em bora continue com endo tudo que eu tenho. Bem , não há dúvida de que a m oça passou todos esses anos m orrendo de trabalhar para m im . — Ela fez um a pausa e respirou fundo. — E o McKenzie lá em baixo na loj a não está m ais vendendo fiado para nós aqui em cim a.
— É um a época difícil, Louisa, não há com o negar.
— Sei que não posso m e queixar de nada. Esta velha m ontanha ficou anos m e dando tudo o que podia.
— Bem — disse Cotton se inclinando para a frente —, a única coisa que você continua tendo, Louisa, é a terra. Claro, há um a dívida...
— Não posso vender, Cotton. No m om ento devido, isto vai passar para Lou e para Oz. O pai deles gostava deste lugar tanto quanto eu. E Eugene tam bém gosta. Ele é m inha fam ília. E um hom em que trabalha m uito. Tem de ficar com um a parte desta terra para que possa ter um canto, criar um a fam ília. E apenas j usto.
— Tam bém acho que sim — disse Cotton.
— Quando o pessoal escreveu perguntando se eu não ficaria com as crianças, com o podia dizer que não? A fam ília de Am anda se foi, e agora eles só têm a m im . Mas sou um a pobre tábua de salvação porque m eu corpo j á não presta para o trabalho na roça. — Os dedos se j untaram nervosos e ela espiou pela j anela.
— Andei pensando neles todos esses anos, m e perguntando com o seriam . Lendo as cartas de Am anda, vendo as fotos que ela m andava. Sem pre m e gabando com orgulho do que Jack fazia. E dos lindos filhos dele. — Ela soltou um suspiro aflito, as rugas se cavando pela testa com prida com o pequenos sulcos num cam po.
— Tudo tem j eito, Louisa — disse Cotton. — Se precisar de m im para algum a coisa, é só pedir. Posso vir aj udá-la com a plantação, as crianças, é só dizer. Eu ficaria m uitíssim o satisfeito em apoiá-la.
— Vam os lá, Cotton, você é um hom em ocupado.
— As pessoas aqui não têm m uita necessidade de gente com o eu. E talvez isto não sej a ruim . Se têm um problem a, descem até o fórum e sim plesm ente falam com o j uiz Atkins. Advogados só com plicam as coisas. — Cotton sorriu e bateu na m ão dela. — Tudo vai ficar bem , Louisa. Foi ótim o essas crianças terem vindo m orar com você. Vai ser bom para todos.
A princípio Louisa sorriu, m as sua expressão foi lentam ente ficando séria.
— Cotton, Diam ante diz que há uns hom ens rondando pelas m inas de carvão. Não gosto disso.
— Topógrafos, técnicos em m inerais, assim ouvi dizer.
— Será que não estão abrindo as m ontanhas depressa dem ais? Me sinto m al cada vez que vej o outro buraco. Nunca negociei nada com esse pessoal do carvão. Eles arrancam e j ogam fora tudo que é bonito.
— Ouvi dizer que estão procurando petróleo, não carvão.
— Petróleo! — exclam ou ela m uito espantada. — Isto não é o Texas.
— Foi o que ouvi dizer.
— Não leve a sério um absurdo desses. — Ela se levantou.
— Mas tem razão, Cotton, tudo vai ficar bem . O Senhor vai nos dar a chuva deste ano. Senão, bem , senão penso em algum a outra coisa.
Ao se levantar para sair, Cotton olhou de novo para o corredor.
— Se im porta, Louisa, se eu passar pelo quarto para cum prim entar a Sra. Am anda? Louisa refletiu um pouco.
— Pode ser bom para ela ouvir outra voz. E você é um suj eito sim pático, Cotton. Não sei com o ainda não se casou.
— Ainda tenho de encontrar a boa m ulher capaz de aturar um tem peram ento com o o m eu.
Ao entrar no quarto de Am anda, Cotton largou a pasta, o chapéu e se aproxim ou em silêncio da cam a.
— Sra. Cardinal, sou Cotton Longfellow. É realm ente um prazer conhecê-la. Aliás, é com o se j á a conhecesse há m uito tem po, pois Louisa m e leu algum as cartas que m andou. Am anda, é claro, não m exeu um único m úsculo, e Cotton olhou para Louisa.