O Poço dos Desejos
Capítulo Dezesseis
Estelle McCoy aj udou Billy a se levantar. O m enino cobriu o rosto com a m anga da cam isa e tentou abafar os soluços nas axilas.
— Agora peça desculpas ao Billy .
A resposta de Lou foi se virar e partir de novo para cim a do garoto. Billy saltou para trás. Era com o um coelho na frente de um a cobra disposta a com ê-lo. A Sra. McCoy puxou com força o braço de Lou.
— Louisa Mae, pare j á com isso e peça desculpas! — Que ele vá pró raio que o parta! Parecia que Estelle McCoy ia desm aiar ante o linguaj ar da filha do fam oso escritor.
— Louisa Mae! Que boca! com um solavanco, Lou se livrou da professora e correu com o o vento pela estrada. Billy fugiu na direção oposta. Estelle McCoy ficou parada, de m ãos abanando, no cam po de batalha.
Esquecido em tudo isso, Oz se levantou em silêncio, pegou a sacola da irm ã, sacudiu-a para tirar o pó e foi se agarrar na saia da professora. Ela baixou os olhos para o m enino.
— A senhora m e desculpe — disse Oz —, m as ela se cham a Lou.
CAPÍTULO DEZESSEIS
Louisa lim pou o corte no rosto de Lou com água e sabão de coco. Depois aplicou um a tintura dom éstica que ardia com o fogo, m as Lou passou pela prova sem piscar.
— Nunca im aginei, Lou, que as aulas fossem com eçar desse j eito.
— Nos cham aram de ianques! — Oh, m eu Deus! — disse Louisa sim ulando um ar de ofendida. — Isto não é m esm o terrível? — E ele bateu no Oz.
A expressão de Louisa se abrandou.
— Precisam ir à escola, querida. Precisam se dar m elhor com os outros.
Lou franziu a testa.
— E por que eles não se dão conosco? — Porque nasceram aqui. Agem assim porque vocês são diferentes de todo m undo que conhecem .
Lou se levantou.
— Não sabe com o é sentir-se um a forasteira. — Ela correu para a porta, enquanto Louisa a olhava, balançando a cabeça.
Oz esperava pela irm ã na varanda da frente.
— Pus sua sacola no quarto — disse ele.
Lou se sentara na escadinha e pousara o queixo nos j oelhos.
— Estou bem , Lou. — Oz se levantou, rodou em círculo para com provar o que estava dizendo, e quase caiu da varanda.
— Vê, ele não m e m achucou nada! — Sei disso, senão eu teria batido nele com força. Oz observou com atenção o corte no lábio.
— Está doendo m uito? — Nem um pouco. Incrível, esses garotos dos m ontes podem ser capazes de arar os cam pos e tirar leite das vacas, m as decididam ente não são bons de briga.
Ergueram os olhos quando o Oldsm obile de Cotton parou na frente da casa. Cotton saltou trazendo um livro em baixo do braço.
— Fiquei sabendo de sua pequena aventura hoj e na escola — disse ele ao se aproxim ar.
— Puxa, foi rápido! — Lou parecia surpresa.
— Aqui em cim a — disse Cotton, sentando na escada ao lado deles —, quando acontece um a boa briga, as pessoas m ovem céus e terra para espalhar a notícia.
— Nem chegou a ser um a briga — disse Lou orgulhosa.
— Billy Davis apenas se encolheu e berrou com o um bebê.
— Ele cortou a boca da Lou — acrescentou Oz —, m as nem está doendo.
— Nos cham aram de ianques — disse ela —, com o se fosse um a espécie de doença.
— Bem , se isso a fizer se sentir m elhor, tam bém sou ianque. De Boston. E m e aceitaram aqui. Bem , pelo m enos a m aioria deles.
Os olhos de Lou se arregalaram quando ela fez a conexão e quando se perguntou por que não percebera antes.
— Boston? Seu nom e é Longfellow. Você...
— Henry Wadsworth Longfellow era o bisavô de m eu avô. Acho que é o m odo m ais fácil de explicar.
— Henry Wadsworth Longfellow. Puxa! — É, puxa! — disse Oz, em bora não fizesse a m enor ideia de quem se tratava.
— Sim , puxa. Desde criança eu queria ser escritor.
— Bem , por que não é? — perguntou Lou. Cotton sorriu.
— Em bora eu sej a capaz de apreciar m elhor do que a m aioria das pessoas um texto inspirado e bem construído, fico absolutam ente paralisado quando tento eu m esm o escrever. Talvez sej a por isso que vim para cá depois de conseguir um diplom a em direito. Para ficar o m ais longe possível da Boston de Longfellow. Não sou um advogado m uito brilhante, m as dou para o gasto. E isso m e dá tem po para ler aqueles que sabem escrever bem . — Ele lim pou a garganta e recitou num tom agradável: Penso, frequentem ente, na bela cidade que fica j unto ao m ar; frequentem ente, em pensam ento, costum o subir e descer...
— As ruas sim páticas da velha, querida cidade. — Lou pegara o verso. — E recupero, então, a j uventude.
— Sabe citar Longfellow? — Cotton parecia im pressionado.
— Era um dos favoritos de m eu pai.
— E este é um dos m eus favoritos. — Ele m ostrou o livro que estava carregando. Lou deu um a olhada.
— É o prim eiro rom ance que m eu pai escreveu.
— Você j á leu? — Papai leu parte dele para m im . A m ãe perde o filho único e acha que ficou com pletam ente sozinha. É m uito triste.
— Mas é tam bém um a história purificante, Lou. De alguém aj udando outra pessoa. — Fez um a pausa. — vou ler este livro para sua m ãe.
— Papai j á leu para ela todos os livros que escreveu disse Lou friam ente, e Cotton percebeu o que acabara de fazer.
— Lou, não estou querendo tom ar o lugar de seu pai.
— E era um escritor de verdade. — Ela se levantou. Não tinha de andar por aí dizendo as palavras de outras pessoas.
Cotton tam bém se levantou.
— Tenho certeza que seu pai, se estivesse aqui, ia lhe dizer que não faz m al algum repetir as palavras de outra pessoa. Que, na realidade, é um a prova de respeito. E tenho o m aior respeito pelo talento de seu pai.
— Acha que isso pode aj udar? — perguntou Oz. — Ler para ela? — Perca seu tem po se quiser. — Lou com eçou a se afastar.
— Pra m im tudo bem , se quiser ler pra ela — com entou Oz. Cotton apertou a m ão do garoto.
— Muito obrigado pela perm issão, Oz. vou fazer o m elhor possível.
— Ande, Oz, tem os as nossas tarefas — gritou Lou. Quando Oz saiu correndo, Cotton olhou para o livro que carregava e entrou na casa. Louisa estava na cozinha.
— Veio ler para Am anda? — perguntou.
— Bem , era o que estava pensando, m as Lou deixou claro que não quer que eu faça leituras dos livros do pai. Talvez tenha razão.
Louisa olhou pela j anela e viu Lou desaparecer com Oz no celeiro.
— Escute bem , tenho um m onte de cartas que Jack m e escreveu durante anos. Gosto m uito das que m e m andava da universidade. Ele usa algum as palavras lindas que não sei o que querem dizer, m as ainda assim as cartas m e agradam . Porque não lê essas cartas para Am anda? Escute, Cotton, a m eu ver o im portante não é exatam ente o que as pessoas lêem para ela. Acho que o m elhor que podem os fazer é passar algum tem po com ela, fazê-la entender que não perdem os a esperança.
— É um a m ulher sábia, Louisa. — Cotton sorriu. — Acho a ideia ótim a.
Lou carregou o balde de carvão para dentro e encheu o depósito ao lado da lareira. Depois foi na ponta dos pés pelo corredor e prestou atenção. Murm úrios de um a voz solitária passaram por ela. Lou correu para fora e, ao ver o carro de Cotton, foi finalm ente m ordida pelo m osquito da curiosidade. Disparando pelo lado da casa, ela se colocou sob a j anela do quarto da m ãe. A j anela estava aberta, m as era alta dem ais para se ver lá dentro. Ficou na ponta dos pés, m as não adiantou.
— Ei, você! Ela girou e deparou com Diam ante. Agarrou, então, o braço do m enino e puxou-o para longe da j anela.
— Não devia andar sorrateiram ente atrás das pessoas.
— Desculpe — disse ele sorrindo.
Lou reparou que Diam ante tinha algum a coisa escondida nas costas.
— O que tem aí? — Onde? — Aí, Diam ante, bem atrás de você.
— Oh, isso! Bem , você sabe, eu só estava andando pelo pasto e elas estavam ali, todas j untas. E j uro por Deus que cham avam por você.
— Quem ? Diam ante puxou um ram o de flores de açafrão am arelas e entregou-o a Lou. Ela ficou com ovida, m as não quis, é claro, deixar transparecer. Agradeceu e deu-lhe um tapinha no om bro que o fez tossir.
— Hoj e não vi você na escola, Diam ante.
— Oh, bem . — Ele bateu no chão com um pé descalço, agarrou as pernas da calça e olhou para todo lado, exceto para Lou. — Ei, o que estava fazendo naquela j anela quando apareci? — perguntou por fim .
E de repente Lou esqueceu da escola. Tivera um a ideia m as, com o Diam ante, preferiu deixar na som bra o que haveria por trás de suas ações.
— Quer m e aj udar a fazer um a coisa? Alguns m om entos depois, Diam ante oscilava um pouco e Lou batia na cabeça dele para que ficasse im óvel. Era fácil fazer isso pois estava sentada em seus om bros espreitando o quarto da m ãe. Am anda estava encostada na cabeceira da cam a e Cotton lia, instalado na cadeira de balanço a seu lado. Lou notou, com surpresa, que não era o livro que havia trazido; ele estava lendo um a carta que tinha na m ão. E Lou teve de adm itir que a voz do hom em era agradável.
Cotton selecionara aquela carta dentre as que recebera de Louisa, pois a j ulgara particularm ente adequada.
Bem , Louisa, você gostará de saber que as lem branças dos m ontes continuam tão fortes quanto no dia de m inha partida, três anos atrás. Sem dúvida, tenho m uita facilidade em m e transportar ao m undo das altas m ontanhas da Virginia. Sim plesm ente fecho os olhos e encontro, de im ediato, m uitos exem plares de am igos confiáveis espalhados aqui e ali, com o livros favoritos conservados em determ inados lugares. Você conhece o banco de rio onde deságua um riacho. Bem , vej o as duas correntes se j untarem e im agino que estej am com partilhando segredos um a com a outra.
Então, bem na m inha frente, um punhado de corças e pequenos cervos avançam pelas m argens até onde os cam pos arados se escoram nos bosques. Aí olho para o céu e vou acom panhando o vôo irregular de inquietos corvos negros. Por fim , m e concentro num falcão solitário, colado num céu platinado de azul Aquele céu. Oh, aquele céu! Quantas vezes você não m e disse que sobre a m ontanha parece possível estender o braço e pegar o céu, guardá-lo na m ão, alisá-lo com o se alisa um gato sonolento e adm irar seu exuberante fascínio. Sem pre encarei aquele céu com o um a generosa m anta, Louisa. Enrolado nela, envolto no aconchego de sua friagem , eu queria tirar um a longa soneca na sua varanda. Quando a noite cai, retom o sem pre a recordação desse céu leal e seguro, com o um sonho capaz de persistir até o clarão rubro do am anhecer.
Tam bém escuto sua voz m e dizendo com que frequência, ao contem plara terra, você percebe que ela j am ais pertencerá verdadeiram ente a você, assim com o um a pessoa não pode se apoderar da luz do sol ou guardar o ar que respira. Im agino, às vezes, m uitos de nossa ascendência parados na porta de casa, a olhar para o m esm o chão.
Mas em algum m om ento toda a fam ília Cardinal acabará por desaparecer.
Mesm o assim , m inha cara Louisa, não há por que desanim ar, pois sobrará a força da terra que se estende do início ao final do vale, o ím peto dos rios caudalosos, a visão das encostas suaves cobertas de verde, onde aqui e ali, com o fragm entos de ouro velho, despontam reflexos m etálicos — tudo isto vai continuar. E nós, em nosso efêm ero toque na existência eterna dessas coisas, não vam os culpá-las por terem sido feitas por Deus para durarem para sem pre. Você tantas vezes m e disse isso.
Apesar de ter agora um a nova vida e estar gostando de boa parte do que significa viver na cidade, nunca vou esquecer que o fio das recordações é o elo m ais forte na fina ponte que une as pessoas. Planej o dedicar m inha vida a fortalecer exatam ente este laço. E se você m e ensinou algum a coisa, foi que aquilo que guardam os em nossos corações é realm ente o m ais vibrante com ponente de nossa hum anidade.
Ouvindo um barulho, Cotton olhou para a j anela e viu um a ponta de Lou antes dela se abaixar. Leu, então, em silêncio, a últim a parte da carta e, em seguida, decidiu lê-la num a voz bem alta. Estaria falando tanto para a filha, que sabia estar escondida em baixo da j anela, quanto para a m ãe estendida na cam a.