O Poço dos Desejos
Capítulo Trinta e Dois
— Tudo bem , m am ãe — disse ele —, esta é a parte assustadora, m as com o você sabe, a bruxa não com e as crianças. Curvou-se devagar, pôs um dos braços de Am anda em volta de sua cintura e, arregalando os olhos, com eçou a ler a parte assustadora.
Lou voltou para a cozinha, sentou-se à m esa com seu vestido de saco Chop (que tam bém lhe caía m uito bem ) e com eçou a ler, sob o honesto clarão do querosene, as palavras brilhantes de Whitm an. Ficou tão tarde que Cotton acabou passando a noite na casa, onde dorm iu encolhido na frente das brasas de carvão. E foi assim que outro belo dia transcorreu na m ontanha.
CAPÍTULO TRINTA E DOIS
Sem Louisa nem Eugene suspeitarem de nada, Lou pegou um lam pião, um a caixa de fósforos, m ontou com Oz no lom bo de Sue e foi até a m ina. Lou pulou da égua, m as Oz continuou m ontado, contem plando a boca da caverna com o um portal direto para o inferno.
— Não vou entrar — declarou o m enino.
— Então espere aqui fora — disse a irm ã.
— Por que você quer entrar? Não se lem bra do que houve com Diam ante? A m ontanha pode desabar em cim a de você. E pode m achucar um bocado.
— Quero saber o que os hom ens que Diam ante viu estavam aprontando.
Lou acendeu o lam pião e entrou. Oz esperou perto da entrada. Depois desceu da égua e com eçou a andar de um lado para o outro. Finalm ente entrou correndo, logo se em parelhando com a irm ã.
— Pensei que não queria entrar — disse Lou.
— Achei que você podia ficar assustada — respondeu Oz agarrando-se à blusa dela.
Os dois avançaram , trem endo por causa do ar frio e da tensão nervosa. Lou olhou em volta e viu canos de ferro ou traves ao longo das paredes e do teto do poço da m ina. Nas paredes havia riscos, feitos talvez com tinta branca. O silvo alto que chegou até eles viera de algum ponto elevado, um pouco m ais à frente.
— Um a cobra? — perguntou Oz.
— Só se for do tam anho do Em pire State. Vam os lá. — Eles se apressaram e o silvo aum entava a cada passo. Quando viraram um a esquina, o som com eçou a se parecer com um escapam ento de vapor. Fizeram m ais um a volta, correram , com pletaram um a terceira curva na rocha e pararam . Os hom ens usavam chapéus de aba dura e carregavam lanternas de pilha, e seus rostos estavam cobertos com m áscaras. No chão da m ina havia um buraco, com um grande cano de m etal enfiado nele. Um a m áquina, que parecia um a bom ba, ligava-se ao cano por um a m angueira. Era dela que vinha o silvo que cham ara a atenção dos dois. Os hom ens estavam parados em volta do buraco, m as não viram as crianças. Lou e Oz puderam recuar furtivam ente, dar m eia-volta e correr. Infelizm ente correram direto para Judd Wheeler. Conseguiram , no entanto, esquivar-se dele e continuar a disparada para a saída.
Um m inuto depois, Lou e Oz irrom piam da m ina. Lou parou ao lado de Sue e subiu na égua; Oz, aparentem ente sem disposição de confiar sua sobrevivência a algo tão lento quanto um cavalo, passou correndo com o um foguete pela irm ã e pelo anim al. Lou bateu com os pés nas costelas de Sue e foi atrás do irm ão. Não conseguiu, no entanto, ganhar terreno. Oz parecia m ais veloz que um carro.
Mais tarde, Cotton, Louisa, Lou e Oz estavam tendo um a discussão na m esa da cozinha.
— Vocês foram loucos em ir até aquela m ina! — dizia Louisa, furiosa.
— Se não fôssem os, não teríam os visto aqueles hom ens respondeu Lou.
Louisa engoliu a resposta.
— Está bem — disse. — Agora eu preciso conversar com Cotton.
Ela se virou para Cotton assim que Lou e Oz saíram .
— O que você acha? — perguntou.
— A j ulgar pela descrição feita por Lou, estavam procurando gás natural, não petróleo. E acharam .
— O que devem os fazer? — Estão na propriedade sem sua autorização e sabem que j á dem os conta disso. Acho que vão procurá-la.
— Não vou vender m inha terra, Cotton!
— Não precisa — disse Cotton balançando a cabeça. Pode vender apenas os direitos de prospecção m ineral. E conservar a terra. O gás não é com o a m ineração de carvão. Não terão de destruir o solo.
— Tivem os um a boa colheita. — Louisa balançou a cabeça com ar obstinado. — Não precisam os da aj uda de ninguém .
Cotton olhou para o chão e falou devagar.
— Espero que viva m ais que todos nós, Louisa. Mas se essas crianças herdarem o sítio antes de com pletar a m aioridade, dificilm ente conseguirão enfrentar os problem as.
— Ele fez um a pausa, acrescentando em voz baixa. — E Am anda pode precisar de cuidados especiais.
Louisa abanou ligeiram ente a cabeça ao ouvir essas palavras, m as não disse nada.
Quando Cotton arrancou com o carro, Louisa ficou apreciando Lou e Oz correrem atrás do conversível e Eugene trabalhando com disposição no conserto de algum a coisa.
Era aquela a som a total de seu m undo. Tudo parecia se m over suavem ente, em bora tudo fosse m uito frágil, ela tinha certeza. Louisa se encostou no um bral da porta com um a expressão de extrem o cansaço.
Os hom ens da Southern Valley vieram logo na tarde do dia seguinte.
Louisa foi atender e Judd Wheeler apareceu na soleira da porta. A seu lado, num bonito traj e passeio com pleto, havia um hom em baixo, com olhos de cobra e sorriso escorregadio.
— Sra. Cardinal, m eu nom e é Judd Wheeler. Trabalho na Southern Valley , Carvão e Gás. Este é Hugh Miller, vice-presidente da Southern.
— E querem m eu gás natural? — disse ela bruscam ente.
— Sim , m adam e — respondeu Wheeler.
— Bem , por sorte m eu advogado está aqui — disse ela, olhando de relance para Cotton. Ele entrara na cozinha, vindo do quarto de Am anda.
— Sra. Cardinal-disse Hugh Miller quando se sentaram —, não gosto de rodeios. Sei perfeitam ente que a senhora herdou algum as responsabilidades adicionais de fam ília e sei que não é fácil. Por isso m e sinto honrado em lhe oferecer... bem , cem m il dólares pela propriedade! Tenho com igo o cheque e o docum ento para a senhora assinar.
Louisa nunca tivera, em toda a sua vida, m ais que cinco dólares em caixa, por isso "Nossa Senhora!" foi a única coisa que ela conseguiu dizer.
— Vam os ver se estam os nos entendendo — disse Cotton.
— Louisa estaria vendendo apenas os direitos de prospecção m ineral.
Miller sorriu e balançou a cabeça.
— Acho que, por esta som a de dinheiro, vam os querer ficar tam bém com a terra.
— Isso não vou fazer — disse Louisa.
— Por que ela não pode negociar apenas os direitos sobre os m inérios? É prática com um por aqui! — Tem os grandes planos para esta propriedade! Vam os fazer um a terraplenagem na m ontanha, m ontar um bom sistem a de acessos e construir instalações de extração, produção e transporte. E o m ais longo gasoduto j am ais visto fora do Texas! Já dem os um a boa olhada. A propriedade é perfeita. Não encontram os um único ponto negativo.
— Só que não vou vender coisa nenhum a. — Louisa o olhou de cara feia. — Não vão devastar esta terra com o fizeram nos outros lugares.
— Esta região está m orrendo, Sra. Cardinal! — Miller se inclinou para a frente. — A m adeira acabou. As m inas estão fechando. As pessoas perderam seus em pregos. De que servem as m ontanhas se não puderm os usá-las para aj udar as pessoas? São apenas rochas e árvores.
— Tenho um docum ento dizendo que esta terra é m inha, m as sei que ninguém é dono das m ontanhas. vou apenas cuidar delas enquanto estiver por aqui. Elas m e dão tudo de que preciso.
— Tudo de que precisa? — Miller olhou em volta. — A senhora não tem luz elétrica nem telefone. Sei que é tem ente a Deus e certam ente percebe que nosso Criador nos deu cérebros para que possam os tirar vantagem do am biente que nos cerca. O que é um a m ontanha com parada a pessoas vivendo bem ? O que a senhora está fazendo é ir contra as Escrituras, é essa m inha opinião! Louisa olhou para o suj eito e teve vontade de rir.
— Deus fez essas m ontanhas para durarem eternam ente. E a nós, seres hum anos, Ele só nos põe aqui por um tem pinho de nada. Não acha isso interessante? — Olhe aqui, m inha em presa está pretendendo fazer um substancial investim ento para garantir a prosperidade deste lugar! — Miller j á parecia exasperado. — Com o vai se colocar no cam inho de tudo isso? — Exatam ente com o sem pre fiz. — Louisa ficou de pé. com m eus dois pés.
Cotton seguiu Miller e Wheeler até o carro.
— Dr. Longfellow — disse Miller —, por que não convence sua cliente a aceitar nossa proposta? Cotton balançou a cabeça.
— Depois que Louisa Mae Cardinal tom a um a decisão, é m ais fácil im pedir o sol de aparecer que fazê-la m udar de ideia.
— bom , o sol tam bém desaparece toda noite — disse Miller. E Cotton ficou vendo o carro dos hom ens da Southern Valley se afastar.
A igrej inha ficava num prado, a algum as m ilhas do sítio Cardinal. Era um a construção de toras cortadas a m achado com um pequeno cam panário, um a m odesta j anela de vidro e um a boa dose de charm e. Tinham organizado um a ceia-piquenique e Cotton com parecia com Lou, Oz e Eugene. Cham avam a coisa de ceia-piquenique porque não havia m esas nem cadeiras; só cobertores, lençóis ou toalhas de plástico estendidas na gram a. Era de fato um grande piquenique disfarçado de cerim ônia religiosa.
Lou tinha se oferecido para ficar em casa com a m ãe para que Louisa pudesse ir, m as a bisavó não gostou da ideia.
— Leio m inha Bíblia, rezo ao Senhor e não preciso m e sentar no chão cantando com as pessoas para provar m inha fé.
— Por que então eu deveria ir? — perguntara Lou.
— Porque depois da igrej a tem a ceia — respondeu Louisa com um sorriso —, e dizem que a com ida é m uito gostosa, m enina! Oz tinha vestido o paletó e Lou usava o vestido do saco Chop, além de grossas m eias com pridas m arrons, presas por ligas de borracha. Eugene exibia o chapéu que ganhara de Lou e um a cam isa lim pa. Havia outros negros lá, incluindo um a m ocinha pequena com olhos incríveis e pele extrem am ente suave, a m oça com quem Eugene passou m uito tem po conversando. Cotton explicou que havia tão poucos negros ali que eles nem tinham um a igrej a separada.
— O que acho m uito bom — disse. — Geralm ente não é o que ocorre no Sul, onde há m uito preconceito, especialm ente nas cidades.
— Em Dickens, num a lanchonete, vim os a placa de atendim ento só a brancos — disse Lou.
— Aposto que sim — disse Cotton —, m as na serra é diferente. Não estou dizendo que todos que m oram aqui sej am santos, pois certam ente não são, m as a vida é difícil na roça e as pessoas tentam levá-la do m odo m ais suave possível. Não lhes sobra m uito tem po para em birrar com coisas que, por certo, j am ais deviam sequer passar pela cabeça de alguém . — Ele apontou para a prim eira fila no interior da igrej a. — George Davis e alguns outros são exceção, é claro.
Lou ficou em choque ao ver George Davis sentado no banco da frente. Tinha um a m uda de roupas lim pas, cabelo penteado e barba feita. Mesm o não querendo, ela teve de adm itir que o hom em parecia respeitável. Não havia, porém , ninguém da fam ília a seu lado. George rezava de cabeça baixa e, antes do serviço com eçar, Lou perguntou a Cotton o que ele achava daquele espetáculo.
— Quase sem pre George Davis vem para o serviço — disse Cotton —, m as nunca fica para a ceia. E nunca traz a fam ília; seu j eito é assim . Acho com preensível que venha rezar, pois deve sentir que tem m uito do que se desculpar. Claro, só faz isso para m elhorar suas chances do lado de lá. Um hom em calculista, sem dúvida.
Lou olhou para Davis. O hom em continuava rezando com o se tivesse Deus no coração e em seu lar. Enquanto isso, a fam ília estaria assustada em casa, usando trapos e, se não fosse a bondade de Louisa Cardinal, passando fom e. A m enina só pôde balançar a cabeça.
— Não im porta o que aconteça — disse a Cotton —, j am ais sente perto daquele hom em .
— Por que não? — Cotton olhou-a, confuso.
— Ele pode ser atingido por um raio.
Por m uito e m uito tem po, os dois prestaram atenção no pastor. As duras tábuas de carvalho m achucavam as nádegas e os narizes coçavam por causa do desinfetante, da água parada das flores e dos diferentes cheiros de quem não se preocupara em tom ar banho antes de ir para lá. Oz cochilou duas vezes e Lou teve de cutucá-lo para ele acordar. Cotton fez um a prece especial por Am anda, que Lou e Oz m uito apreciaram . Segundo o gordo m inistro batista, no entanto, todos eles j á podiam estar condenados ao inferno. Jesus dera sua vida pelos hom ens, dizia o suj eito, m as os hom ens (incluindo ele próprio) pareciam desprezíveis, pois não faziam m uita coisa além de pecar e relaxar nos costum es. E assim , agitando a culpa que habitava naquelas alm as terrivelm ente pecadoras, o pastor foi insistindo até levar cada ser hum ano ali presente às lágrim as ou, pelo m enos, a trem er ante um extrem o sentim ento de inutilidade. Por fim m andou passar o prato das oferendas, pedindo num tom m uito gentil a fria contribuição de toda a boa gente que, apesar de seus trem endos pecados e extrem a inutilidade, ali com parecera.
Após o serviço, saíram todos.
— Meu pai foi pastor em Massachusetts — disse Cotton, enquanto desciam a escada da igrej a. — Ele tam bém era favorável ao m étodo fogo e enxofre na religião. Um de seus heróis era Cotton Mather, que foi de onde saiu m eu curioso nom e. E papai ficou extrem am ente transtornado quando não segui sua carreira no púlpito, m as a vida é assim . Sej a com o for, não recebi grandes dons do Senhor e não quis entrar para o m inistério divino só para agradá-lo. Não sou perito no assunto, m as entendo as pessoas. Elas realm ente se cansam de ser arrastadas pelo cam inho santo vendo seus bolsos regularm ente pilhados por m ãos piedosas. — Cotton sorriu ao contem plar as pessoas se reunindo em volta da com ida. — Bem , talvez sej a um preço j usto para provar esses petiscos.
A com ida de fato era a m elhor que Lou e Oz j á tinham saboreado: frango assado, presunto da Virginia com m olho doce, trouxinhas de repolho com bacon, lentilhas cobertas de m anteiga caseira, pãezinhos crocantes, legum es cozidos, m uitos tipos de feij ão e tortas, ainda quentes, de frutas — tudo sem dúvida criado com as m ais sagradas e m ais preservadas receitas de com ida caseira. As crianças com eram até não m ais poder e depois se deitaram em baixo de um a árvore para descansar.
Sentado na escada da igrej a, Cotton se ocupava de um a coxinha de galinha e um a caneca de sidra quente, desfrutando a paz de um a boa ceia. Foi nesse m om ento que os hom ens se aproxim aram . Eram todos lavradores, com braços fortes e om bros m aciços. Pareciam m eio inclinados para a frente e tinham os dedos curvados, com o se ainda estivessem trabalhando com a foice ou com a enxada, ou carregando baldes de água e puxando tetas de anim ais pelos m am ilos.
— Boa-noite, Buford — disse Cotton inclinando a cabeça para um dos hom ens, j ustam ente o que dera um passo à frente com o chapéu de feltro na m ão. Cotton sabia que Buford Rose estava sem pre trabalhando nas roças e era um hom em bom e decente. Tinha um sítio pequeno, m as tratado com eficiência. Ele não era tão velho quanto Louisa, m as j á passara há m uito tem po da m eia-idade. com o olhar fixo nas velhas botas, não parecia disposto a falar. Cotton olhou para os outros hom ens. Já resolvera problem as para m uitos deles, geralm ente coisas relacionadas com as escrituras de seus bens, im postos territoriais ou testam entos. — Estão pensando em algum a coisa? — m urm urou ele.
— O pessoal do carvão tem vindo nos visitar, Cotton disse Buford. — Querem conversar sobre a terra. Ou sej a, querem com prá-la.
— Façam com que ofereçam um bom dinheiro — disse Cotton.
— Bem , ainda não chegaram a esse ponto. — Buford olhou nervoso para os com panheiros, os dedos esfregando a aba do chapéu. — Vej a, o problem a é que não vão com prar nossa terra a não ser que Louisa venda o sítio dela.
Dizem que é por causa da localização dos depósitos de gás, coisas assim . Não entendi nada, m as foi o que eles disseram .
— Este ano as colheitas foram boas — disse Cotton. — A terra foi generosa para todos.
Talvez não precisem vender.
— E no ano que vem ? — disse um hom em m ais novo que Cotton, m as que parecia pelo m enos dez anos m ais velho. Cotton sabia que era da terceira geração de lavradores daqueles m ontes e não parecia m uito contente com o rum o da conversa.
— Um ano bom não basta para reparar o estrago de três ruins.
— Por que Louisa não quer vender, Cotton? — perguntou Buford. — Ela é m ais velha que eu! Vej a, eu j á estou esgotado e m eu filho não quer m ais saber disto! E Louisa tem aquelas crianças e a m ulher doente para cuidar. Acho que não faz sentido ela não querer vender.
— O sítio é dela, Buford. Assim com o o seu é seu. A coisa não tem de fazer sentido para nós. É a vontade de Louisa. Tem os de respeitar.
— Mas você não pode falar com ela? — Ela j á decidiu. Sinto m uito.
Os hom ens o fitaram em silêncio. Obviam ente ninguém tinha gostado de sua resposta. E então, de repente, sim plesm ente viraram as costas e foram em bora, deixando Cotton Longfellow confuso e sozinho.
Oz tinha levado a bola e as luvas para o piquenique da igrej a. Jogou um pouco com Lou e depois com outros garotos. As pessoas abriam a boca ante as proezas de Oz, dizendo que ele tinha um braço com o nunca se vira. Foi aí que Lou esbarrou num grupo de crianças que falavam da m orte de Diam ante Skinner.
— Estúpido com o um a m ula para se deixar explodir daquele j eito — dizia um m enino de rosto gorducho que Lou não conhecia.
— Entrar num a m ina com um pavio de dinam ite aceso! disse outro. — Meu Deus, que burro! — É claro que nunca foi à escola — dizia um a m enina com um cabelo preto enrolado em grandes cachos. Ela usava um caro chapéu de aba larga, com um a fita em volta, e um vestido pregueado que parecia, tam bém , ter custado m uito dinheiro. Lou a conhecia com o Charlotte Ram sey , cuj a fam ília não trabalhava na terra, m as era dona de um a das m enores m inas de carvão e vivia bem . — Acho que o coitado provavelm ente não tinha noção de nada.
Após ouvir isto, Lou abriu cam inho para o m eio do grupo. Crescera bastante desde o dia em que chegara à serra e podia olhar a todos de cim a, m esm o que fossem crianças de sua faixa de idade.
— Ele entrou na m ina para salvar o cachorro — disse Lou.
— Arriscar a vida para salvar um cão — disse rindo o m enino de rosto gordo. — O cara era m esm o otário.
O punho de Lou avançou e logo o garoto estava caído no chão segurando um dos lados do rosto gorducho, um lado que, sem dúvida, com eçara a inchar ainda m ais um pouco naquele m om ento. Lou deu um a furtiva m eia-volta e continuou andando.
Oz, vendo o que tinha acontecido, pegou a bola, as luvas e logo estava em parelhando com a irm ã. Não disse nada, m as foi cam inhando a seu lado, à espera de que a raiva de Lou se escoasse. Certam ente aquele tipo de reação não era novidade para ele. O vento estava aum entando e as nuvens se adensavam . Parecia um a frente de tem poral abrindo cam inho pela crista dos m ontes.
— Vam os pra casa andando, Lou? — Se quiser pode voltar e ir com Cotton e Eugene.
— Você sabe com o é Lou, você é esperta e não deve continuar batendo nas pessoas. Pode acertá-las com palavras.