O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 8 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Seis

— Acho que estam os chegando — disse ela, esfregando o om bro do irm ão, procurando aliviar a tensão de outra rodada de pesadelos. Ela e a m ãe tinham se tornado peritas nisso. Oz, dizia Am anda, era o pior caso de terrores noturnos que j á se vira. Mas em bora não houvesse com o ignorar o fato, não se tratava, segundo ela, de algo exatam ente terrível. O que se podia fazer era estar sem pre ao lado do m enino, tentando lidar da m elhor m aneira possível com eventuais sequelas físicas e m entais.

Isto podia ser encarado com o um texto sagrado para uso pessoal de Lou: Não terás m aior dever que o de tom ar conta de teu irm ão, Oz. Ela pretendia, sem a m enor dúvida, honrar este m andam ento.

— Onde estam os? — disse o m enino prestando atenção à paisagem . — Onde vam os ficar? — Em algum lugar por ali. — Ela apontou pela j anela.

— O trem vai passar na porta da casa? — Não. — A pergunta fizera Lou sorrir. — Alguém vai estar nos esperando na estação.

Quando o trem m ergulhou no túnel escavado na encosta de um dos m ontes, eles foram atirados num a escuridão ainda m aior. Mom entos depois, no entanto, saíram do outro lado e com eçaram a subir. E com o! O aclive fazia Lou e Oz espreitarem ansiosam ente pela j anela. Havia um a ponte na frente. O trem dim inuiu a m archa e avançou cuidadosam ente para a cabeceira, com o um pé testando a água fria. Quando a ponte com eçou, Lou e Oz baixaram os olhos, m as a luz era pouca e não dava para ver o fundo. Era com o se estivessem suspensos no céu, sendo levados por um pássaro de ferro que pesava m uitas toneladas. De repente, o trem voltara a pisar em terra firm e e a subida com eçava de novo. Quando a com posição ganhou velocidade, Oz deu um a respirada funda, interrom pida por um bocej o — talvez, pensou Lou, para reprim ir a ansiedade.

— Vou gostar daqui — proclam ou Oz balançando o ursinho contra a j anela. — Olhe lá fora! — disse ele para o anim al de pelúcia, que, pelo que Lou sabia, j am ais recebera um nom e. De repente, o polegar de Oz com eçou nervosam ente a sondar as entranhas da boca. Claro, ele andava realm ente em penhado em parar de chupar o dedo, m as acontecera tanta coisa que estava ficando m eio difícil. — Tudo vai entrar nos eixos, não é, Lou? — m urm urou.

Lou em poleirou no colo o irm ão caçula, o queixo fazendo cócegas em sua nuca até ele com eçar a se contorcer.

— Vam os ficar m uito bem . — E Lou, de algum a form a, se obrigou a acreditar que assim seria.

CAPÍTULO SEIS

A estação ferroviária de Rainwater Ridge não era m ais que um venerável galpão com telhado de m eia-água e paredes de pinho. Havia um a j anela com teias de aranha e postigos quebrados, além dos batentes de um a porta, m esm o que não houvesse nenhum a porta para encher o espaço. Um a estreita plataform a separava este am ontoado de pregos e tábuas da via férrea e o vento chegava terrivelm ente encanado, depois de abrir cam inho à força pelas fendas nas rochas e nas m atas; os rostos das poucas pessoas circulando entre as pequenas árvores na frente da estação evidenciava a força áspera de seu sopro.

Lou e Oz viram a m ãe ser em barcada num a velha am bulância. Ao subir com ela no veículo, a enferm eira fez cara feia para os garotos, sem dúvida ainda am argurada pela confrontação do dia anterior.

Quando as portas da am bulância se fecharam , Lou tirou do bolso do casaco o cordão com a pedra de quartzo e passou-o a Oz.

— Entrei devagarinho em sua cabine antes dela acordar. Ela não havia tirado o cordão do bolso.

Oz sorriu, guardou a preciosa peça e ficou na ponta dos pés para dar um beij o no rosto da irm ã. Os dois continuaram parados ao lado da bagagem , pacientem ente esperando Louisa Mae Cardinal.

Tinham as cabeças um tanto verm elhas, pois cada fio de cabelo fora zelosam ente escovado — Lou ficara um bom tem po tratando de Oz. Tam bém usavam suas m elhores roupas, em bora elas m al conseguissem ocultar a batida dos corações. Fazia um m inuto que estavam na plataform a quando sentiram alguém se aproxim ar por trás.

Era um rapaz negro e, em harm onia com a geografia da região, de físico m uito sólido. Tinha boa altura, om bros largos, um peito que parecia m etálico e braços que pareciam grandes pernis. A cintura não era fina, m as não chegava a ser gorda, e as pernas pareciam com pridas. Um a delas era estranham ente saliente no ponto onde a barriga da perna se j untava ao j oelho. O tom da pele, lem brando ferrugem escura, era agradável aos olhos. Estava olhando para os pés, o que inevitavelm ente atraiu o olhar de Lou para o m esm o lugar. As velhas botas de trabalho eram m uito grandes; um recém -nascido poderia dorm ir dentro delas e ainda sobraria espaço, reparou a m enina. O m acacão que usava era velho com o as botas, m as estava lim po ou pelo m enos tão lim po quanto o pó e o vento deixariam algum a coisa ficar. Lou estendeu a m ão, m as o hom em não a segurou.

Em vez disso, com im pressionante agilidade, pegou toda a bagagem deles e acenou com a cabeça para a estrada. Lou interpretou o gesto com o significando "alô, vam os" e "talvez m ais tarde eu diga o m eu nom e", tudo fazendo parte de um procedim ento eficiente. A perna saliente se revelou sem m ovim ento; ele m ancava. Lou trocou um olhar com Oz e com eçou a seguir o hom em . Oz agarrou se ao urso e a m ão de Lou. O m enino, sem dúvida, teria gostado de levar tam bém o trem com eles, para o caso de algum a rápida escapada se m ostrar necessária.

O Hudson de quatro portas e carroceria com prida tinha um a cor de figo cristalizado. Um carro velho, m as lim po por dentro. O radiador alto, m uito visível, lem brava um a lápide e faltavam os dois para-lam as dianteiros, assim com o o vidro da j anela de trás. Depois que Lou e Oz sentaram -se no banco traseiro, o hom em assum iu o volante e arrancou. Manej ava com m uita habilidade a com prida alavanca de câm bio, j am ais deixando arranhar algum a m archa.

Ante o estado deplorável da estação ferroviária, Lou não esperava encontrar m uita coisa civilizada por ali. Contudo, após rodarem vinte m inutos, chegaram a um a cidadezinha de bom tam anho, ainda que a área ocupada por todo o conj unto de prédios não fosse m aior que um a quadra da periferia de Nova York.

Um a placa anunciava que estavam entrando no m unicípio de Dickens, na Virginia. A rua principal tinha duas pistas e era asfaltada. Sólidas estruturas de tij olo ou m adeira se alinhavam atrás de am bas as calçadas. Havia um prédio de cinco andares, que um a placa anunciava ser um hotel de preço razoável e onde existiam quartos vagos. Havia m uitos veículos na rua, a m aioria deles boj udos sedas Ford e Chry sler, além de cam inhões pesados de várias m arcas. Todos cheios de lam a. Todos estacionados obliquam ente na frente dos prédios.

Os prédios eram loj as, restaurantes e um arm azém com um a grande fachada, em cuj o interior se viam pilhas de caixas com açúcar Dom inó, guardanapos Quick, torradas Post e aveia Quaker. Havia um a agência de autom óveis com carros brilhando atrás de um vidro. Ao lado, num posto de gasolina da Esso, havia duas bom bas fazendo bolhas nas redom as de vidro e um hom em com uniform e e um enorm e sorriso enchendo o tanque de um seda La Salle, m eio am assado na carroceria. Atrás dele, um em poeirado Nash de duas portas esperava sua vez. Balançando na frente de um a lanchonete, havia um a grande chapinha da Coca-Cola, enquanto o m uro de um a loj a de ferragens exibia um a propaganda das pilhas Eveready . Feitos de eucalipto, os postes de eletricidade e telefone corriam por um a das calçadas e soltavam sinuosos cabos pretos para cada um dos prédios. Um a loj a anunciava a venda de órgãos e pianos à vista, m as a preços baixos. Num a esquina havia um cineteatro, noutra um a lavanderia. Com o grandes fósforos a serem acesos, frágeis lam piões estendiam -se por am bos os lados da rua.

As calçadas estavam cheias de gente. Passavam desde m ulheres com bons vestidos e penteados da m oda com plem entados por pequenos chapéus, até hom ens curvados, suj os, gente que provavelm ente trabalhava nas m inas de carvão sobre as quais Lou j á tinha lido.

No trecho final da rua, o últim o prédio de im portância era tam bém o m ais im ponente. Tinha paredes de tij olo verm elho e um elegante pórtico, de recorte triangular, da altura de dois andares. A sustentá-lo, havia um par de colunas gregas, j ônicas, e o telhado era m uito íngrem e, com o o de um cam panário, com placas de estanho pintadas de preto e, no alto, a torre de tij olos com o relógio. A bandeira am ericana e a da Virginia destacavam -se na brisa ligeira. O elegante tij olos-verm elhos, no entanto, assentava-se na feia fundação de um concreto m eio irregular. A curiosa com binação im pressionava Lou. Era com o um a calça nova sobre botas im undas. No alto das colunas, palavras gravadas diziam apenas: "Fórum ". E nesse m om ento eles deixaram para trás os lim ites extrem os de Dickens.

Lou recostou-se com ar confuso. Os livros do pai estavam cheios de histórias das m ontanhas selvagens, da vida prim itiva de lá, de caçadores se agachando em volta do fogo dos troncos de nogueira, cozinhando suas presas e tom ando um café am argo; histórias de sitiantes acordando antes do nascer do sol e trabalhando até a exaustão; histórias de m ineiros se enfiando na terra, enchendo os pulm ões do pó preto que acabaria por m atá-los; histórias de lenhadores abrindo florestas virgens com os golpes calculados do m achado e da serra. Percepções rápidas, um perfeito conhecim ento da terra e um a forte dose de experiência eram essenciais nesse m undo. O perigo rondava no barro dos vales e nas encostas íngrem es, enquanto as rochas se im punham , grandiosas, aos hom ens e aos anim ais, definindo asperam ente os lim ites de suas am bições, de suas vidas. Um lugar com o Dickens, com ruas pavim entadas, hotel, anúncios da Coca-Cola e pianos vendidos à vista, m as a preço baixo, não tinha o direito de estar ali. E então Lou percebeu que tam bém a época onde se passavam os livros do pai j á ficara uns vinte anos para trás. Ela suspirou. Tudo, m esm o as m ontanhas e sua gente, ao que parece, m udava. Lou podia apostar que provavelm ente a bisavó j á estava m orando num bairro bastante com um com vizinhos igualm ente com uns. Talvez tivesse um gato e fosse todo sábado se pentear num salão de cabeleireiro com cheiro de produtos quím icos e fum aça de cigarro. Lou e Oz tom ariam soda lim onada na varanda da frente, iriam à igrej a aos dom ingos e dariam adeus para as pessoas que passassem nos carros. Ou sej a, a vida não seria assim tão diferente da que tinham levado em Nova York e, em bora não houvesse absolutam ente nada de errado nisso, não seria a densa, a excitante existência selvagem que Lou im aginara. Não era a vida que o pai experim entara e sobre a qual havia escrito. Lou, sem dúvida, ficou bastante decepcionada.

Depois que o carro cruzou novos quilôm etros de árvores, encostas elevadas e vales profundos, ela viu outra placa. O novo lugar se cham ava Trem ont. Provavelm ente era lá, pensou. Trem ont m al atingia um terço do tam anho de Dickens. Havia cerca de quinze carros estacionados na frente de loj as sem elhantes às da cidade m aior, m as não existiam prédios altos, nem fórum , e a rua asfaltada se transform ara num a pista de terra batida e cascalho. Lou tam bém viu algum as pessoas andando a cavalo, m as logo Trem ont ficaria para trás. A estrada continuou a subir. A bisavó, Lou conj eturou, devia m orar nos arredores de Trem ont.

O próxim o lugarej o que atravessaram não tinha placas indicativas. Até porque o escasso núm ero de pessoas e de casas não parecia j ustificar um nom e. A estrada, agora, era apenas de terra e o Hudson sacolej ava bastante para vencer aquele hum ilde cam inho. Lou viu um a pequena agência de correio e, ao lado da agência, um a fachada de tábuas tortas com um a escadinha m eio podre e sem nenhum a tabuleta. Por fim , surgiu um m ercado de bom tam anho com o nom e "McKenzie's" no m uro; caixotes com açúcar, farinha, pim entões e sal form avam grandes pilhas do lado de fora. Num a j anela do McKenzie's havia m acacões azuis, arreios e um lam pião de querosene, m as praticam ente não havia m ais nada naquele lugar sem nom e ao longo da estradinha precária.

Enquanto rodavam pela poeira, passaram por hom ens calados, de olhos fundos, os rostos parcialm ente cobertos por barbas ásperas. Usavam m acacões encardidos, chapéus de aba caída e sapatos m uito velhos. Iam a pé, a cavalo ou no lom bo de um burro. Um a m ulher com olhar apático, rosto abatido e braços ossudos, vestindo um a blusa de brim barato e um a saia de lã de fio caseiro, presa na cintura com alfinetes de fralda, conduzia um a pequena carroça puxada por um a parelha de m ulas. Dentro da carroça, um a pilha de crianças se em poleirava em sacos de aniagem m aiores que elas. Ao lado da estrada, um com prido trem cargueiro havia parado sob um a torre de água. Ele bebia depressa e, a cada gole ansioso, m ais fum aça ia sendo expelida pela garganta da cham iné. Preso à locom otiva havia um pequeno vagão, com um a m ontanha de toras de m adeira; atrás dele, os carros de carvão se sucediam com o um a coluna de obedientes form igas.

Atravessaram um a grande ponte. Um a placa de m etal dizia que era a passagem sobre o rio McCloud, fluindo dez m etros abaixo. com o reflexo do sol nascente, a água — um a língua quilom étrica que fazia um a curva — parecia rosada. Os picos das m ontanhas estavam vagam ente azuis e os rolos de neblina na base da encostas eram com o um véu transparente.

Com nenhum a outra cidade à vista, Lou achou que estava na hora de travar conhecim ento com o cavalheiro sentado no banco da frente.

— Qual é o seu nom e? — perguntou. Havia conhecido m uitos negros, geralm ente escritores, poetas, m úsicos e gente que trabalhava no teatro, todos am igos de seus pais. Mas não só esses. Durante as excursões que fizera com a m ãe pela cidade, conhecera os que tiravam lixo, conduziam táxis, carregavam m alas, seguiam atrás dos filhos dos outros, varriam as ruas, lim pavam j anelas, engraxavam sapatos, faziam com ida, lavavam a roupa e recebiam , com gestos am istosos, os insultos e as gorj etas da clientela branca.

O suj eito ao volante era diferente, pois sem dúvida não gostava de falar. Em Nova York, Lou fizera am izade com um sim pático senhor que fazia um trabalho m odesto no Yankee Stadium , onde às vezes ela ia com o pai assistir a algum j ogo. O tal senhor, só um pouco m ais escuro que os am endoins que vendia, dizia que os pretos gostavam de encher os ouvidos dos outros, exceto no Sabbath, quando deixavam Deus e as m ulheres terem sua chance.

O suj eito grandalhão continuou sim plesm ente a dirigir; seu olhar nem sequer batera no retrovisor quando Lou falou, m as a falta de curiosidade era um a coisa que ela não podia tolerar em ninguém .

— Meus pais m e deram o nom e de Louisa Mae Cardinal, por causa de m inha bisavó. Mas m e cham am de Lou, só Lou.

Meu pai é John Jacob Cardinal. Um escritor m uito fam oso. Provavelm ente você j á ouviu falar dele.

O rapaz não em itiu nenhum resm ungo, não m oveu sequer um dedo. Talvez aquele fragm ento da história da fam ília Cardinal não pudesse com petir com a fascinação que a estrada parecia exercer sobre ele.

— Papai m orreu, m as nossa m ãe não — disse Oz, entrando na espirituosa tentativa de conversa da irm ã. Este com entário indelicado provocou um im ediato vinco na testa de Lou, m as Oz se virou rapidam ente para a j anela, m ostrando um súbito interesse pela paisagem .

Foram atirados um pouco para a frente quando o Hudson deu um a freada brusca.

O garoto parado lá fora era um pouco m ais velho que Lou, m as aproxim adam ente da m esm a altura. Apesar do em aranhado de ondas e topete, o cabelo ruivo não conseguia cobrir as orelhas cônicas que podiam facilm ente ser confundidas com orelhas de abano. Usava cam isa sem gola, m anchada, e um a calça de brim , tam bém m eio suj a e tão curta que não escondia sequer os ossos dos tornozelos. Estava descalço, em bora não fizesse calor. Carregava um com prido bam bu im provisado em vara de pescar e um a lata am assada, que parecia j á ter sido pintada de azul. Junto dele havia um cachorro vira-lata com m anchas am areladas e pretas, a língua rosada pendendo torta da boca. O garoto passou a vara e a lata pela j anela traseira do Hudson; depois, tranquilam ente seguido pelo cachorro, subiu no banco da frente com o se estivesse em casa.

— Oi-olá, Diabo-Não! — disse am igavelm ente o garoto para o m otorista, que recepcionou o recém -chegado com um levíssim o aceno de cabeça.

Lou e Oz se entreolharam intrigados com um a saudação tão estranha.

Com o um boneco saindo de um a caixa de surpresas, o visitante enfiou a cabeça pelas costas do assento e olhou para os dois. Tinha um a respeitável safra de sardas nas m açãs planas do rosto, um nariz pouco elevado carregando outras sardas e o cabelo parecia ainda m ais ruivo fora do sol. Os olhos tinham a cor de ervilhas antes de cozer e, som ados ao cabelo, fizeram Lou pensar nos papéis que em brulhavam os presentes de Natal.

— To adivinhando, cês dois é gente da dona Louisa, num é? — disse ele num j eito agradavelm ente arrastado, o sorriso afetuoso e travesso.

— Sou a Lou — disse a m enina, abanando devagar a cabeça.

— Este é o m eu irm ão, Oz. — O tom era de cortesia e descontração, nem que fosse apenas para m ostrar que não estava nervosa.

Ágil com o um riso de vendedor, o garoto apertou as m ãos deles. Eram dedos fortes, capazes de fornecer m uitos e bons exem plos da rudeza da vida rural. Por exem plo, seria im possível dizer se ele tinha unhas ou não por causa da im pressionante concentração de suj eira. Lou e Oz não conseguiam tirar os olhos daqueles dedos, e ele deve ter notado isso.

— Tive pegando m inhoca desde antes do am anhecer — disse. — Vela num a m ão, lata na outra. Trabalho suj o, cês sabem .

— Fez o com entário com absoluta sim plicidade, com o se todos estivessem m ais que acostum ados a se aj oelharem desde antes do nascer do sol para pegar aquelas com pridas iscas de pescar.

Oz olhou para a própria m ão e notou que ocorrera um a transferência de terra fértil diante o cum prim ento. Sorriu, pois era com o se os dois tivessem acabado de cum prir um ritual de sangue. Tinha um irm ão! Bem , isso era um a coisa que podia despertar o entusiasm o de Oz.

O j ovem de cabelo ruivo deu um sorriso j ovial, m ostrando que a m aioria dos dentes estava onde deviam estar, em bora poucos pudessem ser cham ados de saudáveis ou brancos.

— Meu nom e é Jim m y Skinner — ele se apresentou num tom de sim plicidade —, m as o pessoal m e cham a de Diam ante por causa do m eu pai, que vive dizendo com o m inha cabeça é dura. E esse cachorrinho é o Jeb.

Ouvindo seu nom e, Jeb pôs o focinho peludo sobre as costas do banco e Diam ante sacudiu afetuosam ente as duas orelhas do anim al. Depois se virou para Oz: — É um nom e gozado para um cara: Oz! Oz j á parecia m eio preocupado com o exam e de seu irm ão de sangue. Será que não ia dar para serem parceiros? — Seu nom e verdadeiro é Oscar — disse Lou respondendo por ele. — Com o em Oscar Wilde. Oz é apelido, com o no Mágico de Oz.

com o olhar no teto do Hudson, Diam ante pensou no que acabara de ouvir, obviam ente dando um a busca na m em ória.

— Num ouvi falar de nenhum Wilde por aqui. — Fez um a pausa, pensando de novo com atenção, as rugas se aprofundando na testa. — E esse m ágico, quem que ele é exatam ente? — Não conhece o livro? — Lou não podia esconder seu assom bro. — O film e? Judy Garland? — Os Munchkins? O Leão Covarde? — acrescentou Oz.

— Nunca vi um a fita do cinem a por aqui. — Diam ante exam inou de relance o urso de Oz e a desaprovação saltou no rosto. — Tu j á é bem grandinho pra isso, num é, filho? Foi a gota d'água para Oz, que esfregou com tristeza a m ão no forro do banco, anulando o pacto solene entre ele e Diam ante.

Lou se inclinou tanto para o banco da frente que pôde cheirar o hálito do garoto.

— Isso não é da sua conta, certo? Um disciplinado Diam ante afundou no banco, deixando Jeb lam ber preguiçosam ente os rastros e os sucos de m inhoca em seus dedos. Era com o se Lou tivesse cuspido nele usando palavras.

A am bulância seguia bem à frente, m as tam bém ia devagar.

— Lam ento que a m ãe de vocês tej a m al — disse Diam ante, com o se passasse o cachim bo da paz.

— Vai m elhorar — disse Oz, sem pre m ais ágil que Lou quando o assunto dizia respeito à m ãe.

Lou olhava pela j anela, os braços cruzados no peito.

— Diabo-Não — disse Diam ante —, m e solta na ponte. Se eu pegar algum a coisa boa, levo pró j antar. Diz à dona Louisa, tá? Lou viu quando Diabo-Não apontou o queixo áspero para a frente, aparentem ente sinalizando um grande e feliz "tudo bem , Diam ante".

O garoto despontou de novo sobre as costas do assento.

— Ei, aposto que todo m undo vai querer com er um peixe fritado no toicinho! — Tinha um ar esperançoso e as intenções, sem dúvida, eram louváveis; só que por ora Lou não estava m uito inclinada a fazer am igos.

— É claro que vam os querer, Diam ante. E quem sabe depois a gente não encontra um a fita de cinem a passando entre as cavalgaduras desta cidade? Lou lam entou de im ediato o que disse. Não se tratava apenas do ar de desapontam ento no rosto do Diam ante, m as de ter acabado de blasfem ar contra o lugar onde o pai fora criado. Quando se deu conta, estava olhando para o céu, talvez esperando relâm pagos terríveis ou algum a chuva repentina, com o lágrim as caindo.

— Vieram de um a cidade grande, hã-hã? — disse Diam ante.

— Da m aior. — Lou arrancou o olhar do céu. — Nova York.

— Ha, bem , num precisam fica dizendo isso a todo m undo.

— Por que não? — disse Oz, espantado com seu ex-irm ão de sangue.

— Tá bom aqui, Diabo-Não! Vam os lá, Jeb. Diabo-Não parou o carro. A ponte estava bem na frente deles, em bora fosse a coisa m ais insignificante que Lou j á vira. Uns seis m etros com tábuas de m adeira em penada e m al encaixada sobre dorm entes de estrada de ferro. Eram dorm entes de bitola estreita, pintados de piche. De cada lado, havia um arco de m etal enferruj ado, sem dúvida para evitar que a pessoa caísse de um m etro e m eio no que parecia ser um riacho com m ais pedras que água. Suicídio por salto de ponte não seria um a opção realista por ali e, a j ulgar pela água rasa, Lou tam bém não deveria acalentar esperanças de peixe frito com toicinho. De qualquer m odo, a refeição não parecia assim tão atraente.

Enquanto Diam ante tirava seu equipam ento da traseira do Hudson, Lou, que estava um pouco chateada com o que tinha dito, ainda que um pouco m ais curiosa que chateada, inclinou-se para o lado e cochichou: — Por que o cham a de Diabo-Não? Aquele inesperado gesto de atenção trouxe de volta o bom hum or de Diam ante e o fez sorrir.

— Porque é o nom e dele — disse num tom neutro. — Ele m ora com a dona Louisa.

— Por que lhe deram um nom e desses?

Diam ante olhou de relance para o banco da frente, fingiu estar m exendo em algum a coisa no fundo da lata e respondeu em voz baixa: — Quando Diabo-Não era apenas um bebê, o pai dele passou por estas bandas e largou ele de vez na m argem da estrada. Aí um suj eito se virou para o pai e disse: "Num vai levá a criança cum você?" E o pai respondeu: "Diabo, não!" Bem , Diabo-Não nunca fez nada de errado na vida. E num é de m uita gente que se pode dizer isso. Principalm ente quando é gente rica.

Diam ante pegou a lata de pescaria, pôs a vara de pescar no om bro e cam inhou para a ponte assobiando um a m odinha. Diabo-Não tocou o Hudson, cuj a carroceria chiava e gem ia a cada giro das rodas. Diam ante acenou e Oz deu adeus com a m ão suj a, achando que talvez pudesse surgir algum a am izade de longa duração com Jim m y "Diam ante" Skinner, pescador de cabelo ruivo da m ontanha.