O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 12 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo Dez

As prateleiras da cozinha eram velhas, sim ples tábuas de pinho cheias de m arcas. com o chão era a m esm a coisa e as tábuas corridas estalavam ligeiram ente enquanto Oz as varria com um a vassoura de cabo curto. Lou carregava pequenas toras de lenha para o com partim ento de ferro de um fogão do catálogo da Sears e que ocupava um a parede do pequeno aposento. Um sol poente atravessou a j anela e tam bém espreitou através de cada fissura da parede; havia m uitas. Um velho lam pião a querosene pendia de um gancho. Gordas panelas pretas de ferro tam bém balançavam ao longo da parede. Em outro canto, via-se um guarda-com ida com portas de m etal m uito m arcadas; sobre ele, havia um a fileira de cebolas secas ao lado de um vidro de querosene.

Ao exam inar cada peça de nogueira ou carvalho, Lou teve a im pressão de estar se descartando de cada faceta de sua antiga vida e atirando-as no fogo. Enquanto as cham as as devoravam , ela dizia adeus. O aposento era escuro e os cheiros de m adeira úm ida ou queim ada eram igualm ente pungentes. Lou se virou para a lareira. A abertura era larga; ela desconfiou que as coisas eram feitas lá antes da chegada do fogão da Sears. Os tij olos da lareira subiam até o teto e o espaço entre eles estava cheio de pregos. Ali estavam penduradas ferram entas, chaleiras e estranhos exem plares de coisas que Lou não conseguiu identificar m as que pareciam bem usadas.

No centro da parede de tij olo, um com prido rifle descansava em dois ganchos fixados na argam assa.

Um a batida na porta assustou os dois. Quem esperaria visitas tão acim a do nível do m ar? Lou abriu a porta e Diam ante Skinner encarou-a com um grande sorriso. Ele levantava um a pobre perca de rio, com o se estivesse oferecendo as coroas de falecidos reis. O leal Jeb estava a seu lado, o focinho se contorcendo para captar o fino arom a do peixe.

Louisa veio rápido lá de fora, o suor brilhando na testa, as luvas e os sapatos cobertos de terra. Arrancou as luvas e esfregou o rosto com um trapo suado tirado do bolso. O cabelo longo estava preso sob um lenço de cabeça, os fios prateados brotando aqui e ali.

— Bem , Diam ante, acho que é a m ais bela perca de rio que j á vi, m eu filho. — Deu um a batidinha na cabeça do Jeb.

— E com o vai o senhor, m ister Jeb? Aj udou Diam ante a pegar esse peixe para nós? — É, aj udou. — O sorriso de Diam ante se alargou de tal form a que Lou pôde quase contar os dentes. — Será que o Diabo-Não...

Louisa ergueu um dedo e corrigiu num tom gentil, m as firm e.

— Eugene.

— Sim senhora, desculpe. — Diam ante olhou para o chão, arrependido da vacilação. — Será que o Eugene contou...

— Que ia nos trazer o j antar? Contou. E que ia j antá-lo conosco, porque foi você quem pescou. Aproveite pra conhecer a Lou e o Oz. Tenho certeza que vão ser bons am igos.

— Já nos conhecem os — disse Lou num tom form al.

— Bem — disse Louisa olhando para o espaço entre ela e Diam ante —, isso é ótim o. Você e Diam ante são quase da m esm a idade. E é bom pró Oz ter outro rapazinho para conversar.

— Ele tem a m im — disse bruscam ente Lou.

— Sim , tem — concordou Louisa. — bom , Diam ante, então você fica pra refeição, certo? Ele considerou a proposta.

— É, hoj e num tenho m ais com prom isso... Tá bom , acho que fico. — Diam ante olhou para Lou, passou a m ão na suj eira do rosto e tentou endireitar um a m echa de cabelo dentre um a dúzia de outras. Lou, no entanto, tinha virado para o lado, com pletam ente inconsciente de seu esforço.

A m esa foi posta com os pratos de vidro da época da Depressão e os copos da aveia Cry stal Winter que, segundo a própria Louisa, haviam sido colecionados durante anos. Os pratos eram verdes, rosados, azuis, encarnados e cor de âm bar. Por m ais bonitos que fossem , no entanto, ninguém estava se concentrando neles. Na realidade a com ida estava sendo atacada em conj unto e só se ouvia o barulho m etálico das facas e garfos. Assim que Louisa acabou de fazer a prece, Lou e Oz fizeram o sinal-da-cruz.

Diam ante e Eugene os olharam curiosos, m as não disseram nada. Jeb foi para um canto, surpreendentem ente resignado com sua porção. Agora, enquanto Eugene, sentado num a das cabeceiras da m esa, m astigava m etodicam ente a com ida, Oz devorava a parte dele com tanta rapidez que Lou pensou seriam ente em verificar se o garfo tam bém não estaria descendo pela garganta. Louisa serviu a Oz a últim a posta do peixe frito no toicinho, o resto das verduras cozidas e outra fatia da broa de m ilho assada no azeite, um a coisa que, para Lou, era m ais gostosa que sorvete.

Louisa não enchera seu prato.

— Não com eu peixe nenhum , Louisa — disse Oz olhando com sentim ento de culpa para seu segundo prato cheio. — Não está com fom e? — Ver um m enino com endo para se transform ar num hom em adulto j á dá pra encher a barriga. E com i enquanto cozinhava, querido. Sem pre faço isso.

Eugene olhou para Louisa com ar interrogativo, m as voltou a com er.

O olhar de Diam ante continuava circulando entre Lou e Oz. De novo parecia ávido para fazer am igos, assim com o parecia não saber m uito bem com o levar isso a cabo.

— Não pode m e m ostrar os lugares por onde m eu pai gostava de andar? — Lou pediu a Louisa. — As coisas que gostava de fazer? Eu tam bém escrevo, sabia? — Sabia — disse Louisa, e Lou atirou-lhe um olhar espantado. Louisa pousou o copo d'água e estudou a expressão da neta. — Seu papai gostava de contar histórias desta terra. Mas antes ele fez um a coisa realm ente inteligente. — Ela se interrom peu vendo o ar m edidativo de Lou.

— Fez o quê? — a m enina finalm ente perguntou.

— Conseguiu entender este chão.

— Entender... este chão? — Ele tem m uitos segredos, que nem sem pre são bons. As coisas podem feri-la por aqui, realm ente feri-la m uito, se você não tom a cuidado. O tem po é m uito caprichoso, pode deixá-la m uito m agoada à prim eira desatenção. A terra não aj uda quem nunca se preocupou em entendê-la. — Nesse m om ento, ela olhou para Eugene. — Só o Senhor sabe com o Eugene tem m e aj udado. Este sítio afundaria num m inuto sem a força do seu braço.

Eugene engoliu um pedaço de peixe e o fez descer com o gole de água que acabara de despej ar em seu copo. Quando Lou se virou, a boca de Eugene trem ia, m as ela interpretou a coisa com o um grande sorriso.

— O fato — continuou Louisa — é que a vinda de vocês dois foi um a bênção. Alguns podem achar que os estou aj udando, m as não é verdade. Vocês estão m e aj udando m uito m ais do que eu a vocês. Obrigada.

— Não tem de quê — disse Oz num tom de galanteio. O prazer foi todo nosso.

— A senhora disse que havia tarefas — interveio Lou.

— O m elhor é m ostrar — respondeu Louisa olhando para Eugene —, não dizer. Com eço am anhã de m anhã.

Diam ante não pôde m ais se conter.

— O pai de Johnny Booker disse que uns suj eitos andaram rondando por aqui.

— Que suj eitos? — perguntou Louisa vivam ente.

— Não sei. Mas estão fazendo perguntas sobre as m inas de carvão.

— Coloque sua barba de m olho, Diam ante. — Louisa olhou para Lou e para Oz. — Nós todos vam os fazer isso. Deus nos pôs nesta terra e nos levará quando for de sua vontade. Enquanto isso, tem os de cuidar uns dos outros.

Oz sorriu e disse que ainda não tinha barba para pôr de m olho. Todos, exceto Lou, deram um a risada. Ela se lim itou a olhar para Louisa, e não abriu a boca.

A m esa estava tirada e, enquanto Louisa esfregava os pratos, Lou m anej ava a bom ba m anual da pia, com força, m as do m odo com o Louisa ensinara para só fazer sair um j ato m uito fino. Lou ficou sabendo que não havia água encanada. Louisa tam bém explicou com o funcionava o banheiro na casinha fora da casa e m ostrou os rolos de papel higiênico guardados na despensa. Disse que era preciso pegar um lam pião para usar o banheiro à noite, e m ostrou a Lou com o acender um . Se o apelo da natureza fosse m uito urgente e não perm itisse a chegada a tem po à casinha, havia um penico em baixo de cada cam a. Louisa, no entanto, inform ou que a lim peza do penico era estritam ente da responsabilidade de quem o usava, e Lou se perguntou com o o m edroso Oz, cam peão no uso do banheiro no m eio da noite, ia lidar com esse detalhe. Ela j á se im aginava parada m uitas vezes à noite na porta da casinha enquanto o irm ão fazia o que precisava, e isso era um pensam ento m uito desagradável.

Oz e Diam ante saíram com Jeb logo depois do j antar. Na cozinha, Lou viu Eugene tirar o rifle do suporte sobre a lareira. Ele carregou a arm a e saiu.

— Onde ele vai com essa arm a? — perguntou Lou.

— Dar um a olhada na criação — disse Louisa esfregando vigorosam ente as travessas com um a espiga de m ilho seca. Tem os vigiado as vacas e porcos, porque o Velho Mo anda por aí.

— O Velho Mo? — É um pum a. O m aldito gatão deve ter a m inha idade, m as continua causando problem as. Não para as pessoas, é claro. Tam bém deixa em paz a égua e as m ulas, especialm ente as m ulas, Hit e Sam . Nunca m exa com um a m ula, Lou. São as criaturas m ais turronas que Deus j á fez. Por qualquer coisa, a m aldita fica de m á vontade até o Juízo Final. Aí você tem de usar o chicote ou soltar um a boa vareta no lom bo. Tem gente que acha que as m ulas têm quase a inteligência de um a pessoa. Acho que é por isso que ficam tão rabugentas. — Ela sorriu. — O fato é que Mo corre m esm o atrás das ovelhas, dos porcos e das vacas. Tem os de protegê-los. Eugene vai dar uns tiros pra afugentar o Velho Mo.

— Diam ante contou que Eugene foi abandonado pelo pai.

— Mentira! — disse Louisa, olhando-a severam ente. tom Randall era um bom hom em .

— Então o que aconteceu com ele? — insistiu Lou quando Louisa j á não parecia inclinada a continuar.