O Poço dos Desejos

David Baldacci · Capítulo 3 de 43

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O Poço dos Desejos

Capítulo um

O ar estava úm ido, a chuva era anunciada com o im inente por nuvens escuras, grossas, e o céu azul rapidam ente se enevoava. O Lincoln Zephy r 1936, de quatro portas, ia descendo a estrada cheia de curvas num a velocidade correta, sem pressa. O interior do carro estava im pregnado dos arom as convidativos de pão de centeio quente, frango assado, torta de pêssego e canela, tudo na cesta de piquenique tão tentadoram ente instalada entre as duas crianças no banco de trás.

Louisa Mae Cardinal, doze anos, alta e m agra, cabelo da cor de palha m anchada de sol e olhos azuis, era conhecida sim plesm ente com o Lou. Um a bonita m enina que, quase certam ente, se transform aria num a bela m ulher. Mas Lou declarara um a guerra sem tréguas a reuniões sociais, rabos-de-cavalo ou vestidos com babados. Sua natureza era assim . E de algum a form a ia vencer a parada.

O caderno de notas estava aberto em seu colo, e Lou ia enchendo as páginas em branco com o que lhe parecia im portante. Era com o um pescador com sua rede. Pelo ar de satisfação da m enina, ela estaria pegando um gordo bacalhau cada vez que a rede era j ogada. Com o sem pre, escrevia com m uita atenção. Revelava francam ente este caráter atento, ao contrário do pai, de tem peram ento bem m ais agitado.

Do outro lado da cesta de piquenique estava Oz, irm ão de Lou. O nom e abreviava o nom e verdadeiro, Oscar. Era um m enino de sete anos, baixo para a sua idade, em bora com um a prom essa de altura nos pés com pridos. Não possuía os m em bros esbeltos e a graça atlética da irm ã. Faltava-lhe tam bém a autoconfiança, que tão ostensivam ente brilhava nos olhos de Lou.

Segurava seu velho urso de pelúcia com a força im placável de um lutador, e algum a coisa nele agradava naturalm ente às alm as dos outros. Após conhecer Oz Cardinal, a pessoa ficava convencida de que o m enininho tinha o m aior e m ais generoso coração que Deus poderia ter concedido a hum ildes e problem áticos m ortais.

Jack Cardinal estava na direção. Parecia alheio à tem pestade que se aproxim ava ou m esm o aos dem ais ocupantes do veículo. Os dedos m agros tam borilavam no volante. As pontas tinham calos devido a anos batendo nas teclas da m áquina de escrever e havia um sulco perm anente no dedo m édio da m ão direita, no ponto onde a caneta fazia pressão. Honrosas cicatrizes de batalha, ele costum ava dizer.

Com o escritor, Jack trabalhava paisagens nítidas, densam ente povoadas com personagens que, em bora irregulares, iam parecendo, a cada virada de página, m ais reais que as pessoas que conhecem os. Frequentem ente os leitores choravam quando um personagem querido acabava m orto sob sua pena, m as a distinta beleza da linguagem j am ais ofuscava a força áspera da história, pois os tem as presentes nas histórias de Jack Cardinal eram de fato poderosos. De repente, um a frase especialm ente bem construída se introduzia e fazia a pessoa sorrir, talvez rir em voz alta; sem dúvida um a pitada de hum or era com frequência a m ais eficiente ferram enta para engavetar, de m odo indolor, um ponto sério.

Os talentos de Jack Cardinal com o escritor tinham lhe rendido m uito apoio crítico e m uito pouco dinheiro. O Lincoln Zephy r não pertencia a ele, pois extravagâncias com o autom óveis — de luxo ou triviais — pareciam estar eternam ente fora do alcance de seu bolso. O carro fora em prestado para aquela ocasião especial por um am igo e adm irador de sua obra. Certam ente a m ulher sentada a seu lado não tinha se casado com Jack Cardinal por dinheiro.

Am anda Cardinal costum ava ser capaz de acom panhar as oscilações da m ente ágil do m arido. Mesm o agora, sua expressão assinalava um a rendição bem -hum orada aos m ovim entos da im aginação de Jack, o que, aliás, sem pre lhe perm itia escapar dos 11 irritantes problem inhas da vida. Mais tarde, com o cobertor estendido na gram a, o conteúdo da cesta de piquenique distribuído e as crianças querendo brincar, ela cutucaria o m arido até fazê-lo abandonar as alquim ias literárias. Naquele dia, porém , a cam inho do parque, Am anda estava m ais preocupada que de hábito. Precisavam do passeio e não apenas para aproveitar o ar fresco ou desfrutar de algum a com ida especial. Aquele dia, surpreendentem ente quente no final do inverno, era, sob m uitos aspectos, um a verdadeira dádiva. Ela contem plou o céu am eaçador.

Vá em bora, tem pestade, por favor, vá em bora j á.

Para acalm ar os nervos agitados, Am anda se virou, olhou para Oz e sorriu. Era difícil não se sentir bem olhando para o m enininho, em bora ele tam bém se assustasse com facilidade. Quantas vezes o filho era assaltado por um pesadelo e Am anda tinha de em balá-lo. Felizm ente, assim que Oz se concentrava no rosto dela, o choro assustado era substituído por um sorriso. Am anda, então, tinha vontade de ficar eternam ente com o filho nos braços para m antê-lo são e salvo.

Os traços de Oz vinham diretam ente de Am anda, enquanto a m enina exibia um a agradável variação da testa larga da m ãe, assim com o algum a coisa do nariz pequeno do pai e do recorte com pacto de seu queixo. E se perguntassem a Lou, ela ia dizer que puxara som ente ao pai. Isto não refletia desrespeito pela m ãe, m as indicava que Lou se via, antes de m ais nada, com o a filha de Jack Cardinal.

Am anda tornou a se virar para o m arido.

— Outra história? — perguntou, os dedos deslizando pelo braço de Jack.

A cabeça dele foi lentam ente se soltando do últim o com binado de ideias. Jack a olhou, um sorriso disparando nos lábios grossos que, ao lado do notável brilho dos olhos castanhos, seria, segundo Am anda, sua m ais atraente característica física.

— Sem pre é hora de pensar em outra.

— Um prisioneiro das próprias im agens — respondeu Am anda em voz baixa, parando de alisar o braço dele.

Enquanto a m ente do m arido voltava a trabalhar, Am anda apreciou a filha elaborando sua própria história. Via, em Lou, um potencial para m uita felicidade e algum a inevitável dor. Sabia que não era possível viver no lugar da filha e sabia que teria de suportar ver sua m enininha de vez em quando cair. Am anda, no entanto, j am ais estenderia a m ão, pois Lou, com seu tem peram ento, certam ente recusaria isso. Mas se os dedos da filha procurassem os seus, Am anda estaria lá. Era um a situação repleta de arm adilhas, m as parecia a única adequada a m ãe e filha.

— Com o vai a história, Lou? — Muito bem — disse a m enina de cabeça baixa, a m ão se m ovendo no florescente im pulso de um a caligrafia j ovem . Am anda podia facilm ente sentir a m ensagem oculta da filha: a escrita não era um a tarefa para ser discutida com não-escritores. Am anda encarou a coisa com o m esm o bom hum or que devotava à m aioria das coisas relacionadas com um a filha tão inconstante. Mesm o um a m ãe, no entanto, de vez em quando precisa de um travesseiro confortável para deitar a cabeça. Então ela estendeu a m ão e despenteou o cabelo m eio alourado do garoto. Filhos hom ens não costum am ser tão com plicados e, às vezes, enquanto Lou a deixava de cabelos brancos, Oz a rej uvenescia.