Pássaro da Tempestade
Capítulo 5
O sol de verão se ergueu sobre o horizonte limpo de Windsor, inflamando em ouro avermelhado as grandes muralhas. A cidade em torno começava a se movimentar. Ricardo de York estava cansado e coberto de poeira após uma longa cavalgada desde a costa, mas a raiva fervilhante lhe dava energia para banir a fadiga. Os três soldados que o acompanhavam eram todos veteranos de guerra na França, homens vigorosos usando couro e cota de malha bem gastos, escolhidos pelo tamanho e pela capacidade de intimidar. Não era difícil adivinhar por que o duque convocara três dos soldados mais violentos sob seu comando para a travessia noturna e a dura cavalgada. Alguém precisava ser morto em algum lugar, ou pelo menos ameaçado. Seus homens apreciavam a sensação de autoridade que tinham por trás de um duque. Trocavam olhares de contentamento enquanto seu patrão abria caminho à força por dois anéis externos de guardas do castelo. York não aguentava imbecis e não permitiria que frustrassem seu desejo de ver o rei naquela manhã.
Em algum lugar ali perto, podiam-se ouvir ordens rugidas e os passos e o tilintar de soldados em marcha. O movimento de York rumo aos aposentos privativos do rei estava prestes a ser recebido por homens armados. Os três que o acompanhavam soltaram as espadas nas bainhas e estalaram dedos e pescoços na expectativa. Não passaram anos desleixados na Inglaterra como os guardas de Henrique. E gostavam da ideia de encontrar homens que, pelo que sentiam, eram quase seus inimigos.
O duque continuou a galope, os passos longos e seguros. Viu dois lanceiros de aparência forte guardando uma porta a sua frente e parou quando chegou diante deles.
— Afastem-se. Sou York, em missão urgente para o rei.
Os guardas se enrijeceram, os olhares fixos. Um deles virou-se para o companheiro e o homem, pouco à vontade, apertou o punho em volta da lança. Seu turno de vigia estava prestes a terminar assim que o sol clareasse as ameias e ele olhou irritado a linha dourada que aparecia no horizonte. Apenas mais alguns minutos e estaria na sala da guarda, tomando o desjejum e se perguntando que barulho todo seria aquele.
— Milorde, não tenho ordens de permitir sua entrada — retrucou o guarda. Nervoso, engoliu em seco quando York voltou para ele todo seu olhar raivoso.
— Essa é a natureza das questões urgentes. Saia do meu caminho ou mandarei açoitá-lo.
O guarda engoliu em seco e abriu a boca para responder, já balançando a cabeça. Quando ele começou a se repetir, o mau humor de York jorrou e transbordou. O duque fez um gesto rápido e um de seus homens agarrou o guarda pela garganta com a mão coberta pela manopla, fazendo-o cair de costas na porta com um estrondo. O som alto ecoou pelas muralhas externas. Alguém que andava lá em cima berrou um alarme.
O guarda se debateu loucamente e seu companheiro preparou a lança. Outro homem de York chegou ao alcance da pesada ponta de ferro e deu um golpe no queixo do homem que fez a lança e seu dono caírem no chão com estrépito. O primeiro guarda foi despachado com a mesma rapidez, com dois socos rápidos que esmagaram seu nariz.
Uma tropa de guardas surgiu com rapidez no corredor a quase 50 metros, comandada por um sargento de rosto corado com a espada desembainhada. York lançou um olhar frio em sua direção enquanto abria a porta e entrava.
No interior, parou, olhando para trás.
— Francis, guarde a porta. Vocês dois, venham comigo — ordenou.
O maior dos três homens pôs o peso contra a porta, baixou a tranca e a forçou com ambas as mãos. A porta tremeu imediatamente quando alguém se lançou contra ela pelo lado de fora. Sem qualquer palavra, o duque correu pelos cômodos seguintes. A suíte particular do rei ficava mais adiante e ele conhecia Windsor o suficiente para não hesitar. Velozmente, passou por um salão vazio de pé-direito alto, subiu um lance de escadas e parou de repente, seus homens quase esbarrando nele. Os três ficaram ali, ofegantes, enquanto York fitava a imagem de Derihew Brewer encostado numa janela baixa de pedra que dava para o vasto parque de caça de Windsor.
— Bom dia, milorde. Temo que o rei não esteja se sentindo bem para receber visitas, se é o que procura.
— Levante-se quando falar comigo, Brewer — retorquiu o duque, avançando mais no cômodo e parando. Seu olhar deu uma volta desconfiada, em busca de alguma explicação para a confiança do espião-mor. Com um suspiro, Derry se afastou do parapeito da janela e bocejou. No andar inferior, ouviam-se golpes ritmados enquanto os guardas do lado de fora começavam a arrombar a porta.
Derry deu uma olhada pela janela nas filas de soldados que corriam em todas as direções.
— Uma briguinha lá fora agora de manhã, milorde. Obra sua, não é?
York deu uma olhada na porta que sabia levar diretamente aos aposentos do rei. Estava fechada, e só havia Derry na antessala. Mas algo no sorriso insolente do homem estava dando em seus nervos.
— Vim ver o rei — avisou o duque. — Vá me anunciar senão eu mesmo vou.
— Não, acho que não vou fazer isso, Ricardo, meu velho. E acho que o senhor também não vai. Ou o rei o chama ou o senhor não vem. Ele o chamou? Não? Então sabe o que deve fazer, não sabe?
Enquanto Derry falava, a expressão no rosto de York se fechava com uma fúria ofendida. Seus homens ficaram tão surpresos quanto ele ao ouvir um lorde ser tratado pelo primeiro nome. Ambos deram um passo na direção de Derry, e ele os enfrentou, ainda com um sorriso estranho.
— Ponham a mão em mim, rapazes, por favor. Vejam o que conseguem.
— Esperem — ordenou York. Ele não conseguia se livrar da suspeita de que era uma armadilha, de que havia algo errado. Era quase a sensação de ter sobre si olhos que não podia ver. Os dois soldados se agigantaram sobre Derry, embora ele fosse tão largo de ombros quanto qualquer um deles.
— É bom ver que ainda lhe resta alguma inteligência — comentou Derry. — Agora, rapazes, aquela porta lá embaixo não vai durar mais do que um piscar de olhos. Se eu não estiver aqui para impedir que os façam em pedaços, acho que o título de seu senhor não os impedirá, não é? Não ao lado dos aposentos do rei, não mesmo.
York praguejou, entendendo de súbito que Derry ganhava tempo deliberadamente. Andou até a porta de carvalho, decidido a ver o rei naquela manhã, não importava o que acontecesse.
Ao se mover, algo passou relampejando por ele. Um estalo como o de uma viga rachando o fez parar de repente, a mão ainda a caminho da maçaneta da porta. York fitou o dardo de ferro negro saindo do carvalho, na altura de sua cabeça.
— Esse é o único aviso, Ricardo, meu velho. — Ouviu Derry dizer. — O próximo passa por seu pescoço.
O duque deu meia-volta a tempo de ver uma tira de cortina roxo-escura tremular até o chão. Na queda, revelou uma longa fenda que corria em torno do teto numa das extremidades, quase no comprimento total da sala. Três homens estavam deitados na abertura, de modo que ele só conseguia ver as cabeças e os ombros, além das armas terríveis apontadas para ele. Dois deles o observavam friamente pela mira das bestas. O terceiro recuava sobre os cotovelos para recarregar. York encarou os homens boquiaberto, vendo o sol brilhar na ponta polida com o dardo. Engoliu em seco enquanto Derry ria.
— Eu lhe disse, Ricardo. Ou o rei o chama ou o senhor não vem.
Abaixo de seus pés, um grande estrondo lhes revelou que a porta externa finalmente cedera. Os dois soldados que estavam com o duque trocaram um olhar preocupado, seu bom humor evaporando.
— Rapazes, rapazes! — chamou Derry, dando um passo na direção deles. — Tenho certeza de que sua presença armada perto do rei é apenas um mal-entendido. Não, não se afastem de mim. Tenho algumas coisas a lhes dizer antes de terminarmos.
O clamor de soldados correndo ficou mais alto, e vozes bradavam um desafio quando os homens se espalhavam pelo cômodo.
— Eu me deitaria no chão se fosse vocês — sugeriu Derry aos dois soldados.
Rapidamente eles se jogaram no chão, com as mãos para o alto e vazias para não serem pisoteados por algum dos homens corados que entraram vociferando. York permaneceu de pé e cruzou os braços, observando com olhos frios. Sabia que nenhum dos homens de artilharia ousaria tocá-lo. Depois que seus homens foram amarrados em segurança no chão, todos pareceram olhar para Derry à espera de novas ordens.
— Assim é melhor, Ricardo — declarou Derry. — Não é melhor? Acho que é. Agora, não quero ser responsável por acordar o rei esta manhã, se já não o acordamos. Que tal levar tudo isso lá para fora? Silêncio total agora, rapazes.
O duque passou pelos guardas reunidos com o rosto num tom vermelho-escuro. Ninguém o deteve ao descer a escada. Pelo menos aos olhos de Derry, foi quase cômico o modo como os soldados levantaram os prisioneiros com o máximo silêncio possível e desceram atrás dele.
York não parou junto ao corpo de seu maior soldado próximo à porta externa estilhaçada. Francis, seu homem, tivera a garganta cortada e jazia numa poça de sangue que se espalhava. York passou por cima dele sem olhar nem de relance. Os prisioneiros amarrados gemeram de medo ao ver o companheiro, de modo que um dos guardas estendeu a mão e deu uma bofetada no rosto do que estava mais perto.
A claridade do dia contrastou com a penumbra dos cômodos interiores. Derry saiu andando atrás de todos e foi imediatamente abordado pelo sargento d’armas, homem que tinha um grande bigode branco e quase tremia de fúria. Derry aceitou sua saudação.
— Não houve danos, Hobbs. Seus homens merecem uma caneca por minha conta hoje à noite.
— Queria lhe agradecer, senhor, pelo aviso — disse Hobbs, olhando de cara feia para York, que observava. Apesar de todo o abismo entre a posição dos dois, a segurança de Windsor era responsabilidade pessoal do sargento, e ele estava furioso com o ataque.
— É apenas o meu serviço, Hobbs — respondeu Derry. — Você tem um corpo do qual se livrar, mas é só. Acho que deixamos clara nossa posição.
— Como quiser, senhor, mas não gosto de pensar o quão longe ele chegou. Ainda farei uma queixa oficial, se o senhor não se importa. Não se pode suportar uma coisa dessas e o rei será informado. — Ele falava para os ouvidos do duque, embora York escutasse sem nenhuma reação visível.
— Pode levar nosso par de galinhas amarradas para a casa de guarda, Hobbs? Gostaria de dar uma palavrinha com eles antes de mandá-los de volta a seu navio. Tratarei pessoalmente com Sua Alteza.
— Entendido, senhor. Obrigado, senhor.
Com um último olhar feroz capaz de derreter ferro, o velho homem levou seus homens embora, deixando Derry e York sozinhos.
— Pergunto-me, Brewer, se conseguirá sobreviver tendo-me como inimigo — comentou York. Perdera o rubor, mas os olhos cintilavam de maldade.
— Ah, ouso dizer que consigo, mas conheci homens muito mais perigosos, seu insolente arrogante.
Não havia ninguém para escutar, e a máscara de bonomia irônica de Derry caiu quando ele encarou o duque e ficou ameaçadoramente perto dele.
— Você deveria ter ficado na França e cumprido as ordens de seu rei — avisou Derry, cutucando o peito do duque de York com o dedo rígido.
York cerrou os punhos de raiva, mas sabia que Derry o derrubaria com a menor provocação. Sabia-se que o espião-mor do rei frequentava os ringues de luta de Londres. Era o tipo de boato que ele fazia questão de que fosse ouvido por todos os seus inimigos.
— As ordens são dele? — perguntou York, irritado. — De um casamento e um armistício? De meus homens permanecerem em Calais? Eu comando o exército, Brewer. Mas não recebi nenhuma notícia até agora. Quem protegerá o rei se seus soldados estiverem 500 quilômetros ao norte? Já pensou nisso?
— As ordens foram genuínas? — perguntou Derry com inocência.
York fez um muxoxo.
— Os selos estavam corretos, Brewer, como tenho certeza de que você sabe. Não me surpreenderia se soubesse que era sua mão neles, derretendo a cera. Não sou o único a achar que você tem controle demais sobre o rei Henrique. Você não tem posição, não tem títulos, mas dá ordens em nome dele. Quem pode saber se vieram verdadeiramente do rei? E se apontar esse dedo de novo, mandarei enforcá-lo.
— Eu poderia ter um título de nobreza — respondeu Derry. — Ele já me ofereceu um antes. Mas acho que estou muito feliz do jeito que me encontro atualmente, por enquanto. Talvez me aposente como duque de York, quem sabe?
— Você não poderia ocupar meu lugar, Brewer. Não poderia sequer ocupar minha braguilha, sua ralé... — O duque foi interrompido quando Derry deu uma gargalhada.
— Sua braguilha! Que bela piada. Agora, por que não volta para seu navio? Terá de comparecer ao matrimônio do rei no mês que vem. Não quero que perca a cerimônia.
— Você estará lá? — perguntou York, o olhar mais agudo.
Derry não deixou de ver a insinuação. Uma coisa era zombar da autoridade do homem em Windsor, cercado pelos guardas do rei. Outra, bem diferente, era considerar o que o duque de York poderia fazer na França.
— Eu não estaria ausente de uma ocasião tão alegre — respondeu Derry, observando York sorrir com a ideia.
— Estarei com minha guarda pessoal, Brewer. Aquelas ordens agradáveis não impedem isso. Com tantos criminosos nas estradas, eu não me sentiria à vontade com menos de mil homens, talvez mais. Então falarei com o rei. Gostaria de saber se ele conhece metade de suas jogadas.
— Que pena, não passo do agente da vontade real — declarou Derry com um sorriso desdenhoso que escondia seu desalento com a ameaça. — Acredito que o rei deseje alguns anos de paz e uma esposa, mas quem sabe o que passa por sua cabeça, não é verdade?
— Você não me engana, Brewer. Nem aquele beberrão do Suffolk. Seja lá o que ofereceram aos franceses, seja lá o que vocês dois armaram, ambos estão errados! Isso é que é pior. Se oferecermos um armistício, acha que os franceses nos deixarão em paz? Ficamos parecendo fracos. Se isso continuar, estaremos em guerra antes do fim do verão, seu idiota miserável.
— Fico tentado a me arriscar a provocar a ira do rei só para vê-lo derrubado nesta grama, milorde — comentou Derry, bem perto do outro homem. — Dê-me um instante para considerar os prós e os contras, sim? Eu adoraria quebrar esse seu bico afiado, mas acontece que o senhor é um duque e tem certo nível de proteção, mesmo depois do fiasco de hoje de manhã. É claro que sempre posso dizer que o senhor tropeçou enquanto os guardas o perseguiam.
— Diga o que quiser, Brewer. Suas ameaças e ofensas não me assustam. Voltaremos a nos ver na França.
— Ah, então o senhor vai partir? Muito bem. Mandarei seus homens encontrá-lo daqui a pouco. Mal posso esperar para continuar nossa conversa no casamento.
York saiu marchando rumo à entrada principal do castelo. Derry o observou partir, uma expressão pensativa no rosto. Fora por pouco, por menos que gostaria. Soubera duas noites antes que o duque estava chegando, mas os guardas do portão externo deveriam ter sido avisados. York nunca poderia ter chegado até a área interna, muito menos à porta do próprio quarto do rei. Na verdade, Henrique ainda estava rezando na capela, porém o duque não tinha essa informação importante.
Por um instante, Derry pensou na conversa. Não se arrependia. Um homem como York tentaria matá-lo só pelo fiasco nos aposentos do rei. Não importava que Derry tivesse piorado a situação com insultos e ameaças. Não poderia ser pior. Ele suspirou. Mas também não podia deixar o duque ofendido ver o rei. York conseguiria fazer Henrique concordar com tudo, e toda a sutil combinação e os meses de negociação teriam sido desperdiçados. Ao acordar, Derry soubera que aquele seria um dia ruim. Até ali, atendera a suas expectativas nos mínimos detalhes. Ele imaginou qual a probabilidade de sobreviver ao casamento em Tours. Com uma expressão horrível, percebeu que teria de tomar providências para o caso de não voltar.
Derry recordou o velho Bertle fazendo exatamente o mesmo truque em mais de uma ocasião. Seu antecessor como espião-mor sobrevivera a três tentativas de envenenamento e a um homem que aguardara por ele em seus aposentos com uma adaga. Simplesmente fazia parte do serviço, dizia, como Derry recordava. Homens úteis fazem inimigos, e pronto. Quando se é útil a um rei, os inimigos serão de qualidade. Derry sorriu ao lembrar o velho falando a palavra com prazer.
— Vejam as roupas dele, rapazes. Vejam o punhal! Qualidade, rapazes — dissera, sorrindo-lhes com orgulho ao lado do corpo do homem encontrado em seus aposentos. — Que elogio a mim terem mandado um cavalheiro como esse!
O velho Bertle podia ter sido um sujeito cruel, mas Derry gostara dele desde o princípio. Tinham o mesmo prazer em fazer os outros dançarem conforme sua música; outros que nem sabiam que as escolhas que faziam não eram próprias. Bertle via isso como uma forma de arte. Para um rapaz como Derry, recém-chegado da guerra na França, seus ensinamentos foram como água para uma alma ressequida.
Derry inspirou fundo e sentiu a calma lhe voltar. Quando Bertle convocava seus seis melhores homens e transmitia sua autoridade a um deles, todos sabiam que a situação era grave, que o aprendiz poderia não voltar do lugar aonde o trabalho o levava. Cada vez era um homem diferente, de modo que eles nunca tinham certeza de quem era verdadeiramente o sucessor que escolheria. Mas, após escapar por pouco uma dezena de vezes, o velho morreu no próprio leito, dormindo em paz. Derry pagara três médicos para examinarem o cadáver atrás de venenos, só para ter certeza de que não teria de rastrear ninguém.
Em paz outra vez, Derry estalou os dedos enquanto andava até a casa da guarda. Não pioraria em nada sua situação dar uma boa surra nos dois soldados. Sem dúvida, ele estava mesmo com vontade.
Prometia ser um dia glorioso de verão enquanto o sol nascia, com o ar já quente e o céu limpo. No Castelo de Saumur, Margarida se levantara antes do amanhecer. Não tinha certeza de ter dormido, depois de tanto tempo deitada no calor e na escuridão, a mente cheia de visões do marido e um medo nada pequeno. O 14º aniversário passara havia alguns meses, quase sem ser notado. Mas Margarida notara, inclusive por ter começado a sangrar na manhã seguinte. O choque daquilo ainda a acompanhava ao se banhar e se examinar à luz da lâmpada noturna. A criada lhe dissera que viria todo mês; alguns dias sofridos de trapos enrolados dentro das roupas de baixo. Para Margarida parecia um símbolo de mudança, de coisas tão velozes que mal absorvia uma nova descoberta e uma dezena de outras já clamavam por sua atenção. Seus seios estavam inchados? Ela achou que sim, e usou um espelho para apertá-los e espremê-los até surgir algo parecido com um sulco entre eles.
O castelo não estava em silêncio naquele dia, embora fosse muito cedo. Como camundongos nas paredes, Margarida já escutava vozes distantes, passos, portas batendo. O pai gastara um rio de ouro nos meses anteriores; contratara uma vasta criadagem e até trouxera modistas de Paris para tirar o máximo proveito do corpo esguio da filha. As costureiras trabalharam todas as noites nos cômodos do castelo, cosendo e cortando pano para a irmã e para as três primas que vieram do sul acompanhá-la na cerimônia. Nos dias anteriores, Margarida havia achado um pouco irritantes as garotas que se enfeitavam e davam risadinhas em volta dela, mas, de certo modo, passara do conhecimento de que o casamento ainda estava longe para aquela manhã, sem ter noção de como o tempo passara. Ainda era difícil acreditar que tinha chegado o dia em que se casaria com um rei da Inglaterra. Como ele seria? A ideia era tão aterrorizante que não conseguia nem lhe dar voz. Todos diziam que o pai dele fora um bruto, um selvagem que falava francês como um tolo hesitante. Seria o filho igual? Ela tentou imaginar um inglês segurando-a nos braços poderosos e a imaginação lhe falhou. Era simplesmente estranho demais.
— Good morning, my... husband — pronunciou ela, devagar.
Seu inglês era bom, assim dissera a velha governanta, mas a mulher havia sido paga para lhe ensinar. Margarida corou intensamente ante a ideia de soar como uma boba na frente do rei Henrique.
Em pé na frente do espelho, franziu a testa ao ver o emaranhado de cabelo castanho.
— Recebo-te por meu esposo — murmurou.
Esses eram os últimos momentos em que ficaria sozinha, ela sabia. Assim que as criadas a ouvissem se mexer, desceriam num rebanho para enfeitá-la, pintá-la e vesti-la. Margarida prendeu a respiração ao pensar assim e ficou de ouvido atento aos primeiros passos lá fora.
Quando veio a batida na porta, Margarida pulou, enrolando o corpo no lençol. Atravessou o quarto depressa até a porta.
— Quem é? — sussurrou. O sol ainda não se levantara. Já era hora?
— Iolanda. Não consigo dormir.
Margarida abriu um pouco a porta e deixou a irmã entrar, fechando-a devagar depois.
— Acho que dormi — cochichou Margarida. — Lembro-me de um sonho estranho, então acho que devo ter cochilado um pouco.
— Está empolgada?
Iolanda a fitava com fascínio, e Margarida puxou o lençol em torno dos ombros numa simulação de recato.
— Estou apavorada. E se ele não gostar de mim? E se eu disser as palavras erradas e todo mundo rir? O rei estará lá, Iolanda.
— Dois reis! — corrigiu Iolanda. — E metade dos nobres da França e da Inglaterra. Será maravilhoso, Margarida. Meu Frederick estará lá! — Ela suspirou deliberadamente, girando a bainha da camisola sobre as tábuas de carvalho do assoalho. — Ele estará muito bonito, eu sei. Eu me casaria com ele este ano se não fosse isso, mas... Ah, Margarida, não foi nada disso que quis dizer! Estou contente de esperar. Pelo menos papai recuperou parte da riqueza que perdemos. Ano passado seria um casamento de mendigos. Só espero que sobre o suficiente para me casar com Frederick. Serei condessa, Margarida, mas você será rainha. Só da Inglaterra, é claro, mas ainda assim rainha. Hoje! — Iolanda arfou ao absorver a ideia. — Você será rainha hoje, Margarida! Dá para conceber?
— Acho que posso conceber um ou dois — disse Margarida, zombeteira.
Iolanda olhou sem entender a piada e Margarida riu. Sua expressão mudou no mesmo instante para pânico quando ouviu passos rápidos no corredor lá fora.
— Estão chegando, Iolanda. Bloody hell, não estou pronta para elas!
— Blôdi rel?
— É uma expressão inglesa. João me ensinou. Bloody hell. Ele disse que é como “sacré bleu”, uma praga.
Iolanda deu à irmã um grande sorriso.
— Bloody hell, eu gosto!
A porta se abriu para a entrada de uma torrente de criadas que parecia interminável, trazendo baldes de água fumegante e braços cheios de ferramentas estranhas para cuidar do cabelo e do rosto. Margarida corou de novo, resignada a horas de desconforto antes que pudesse aparecer diante dos olhos do público.
— Bloody hell! — murmurou Iolanda de novo junto dela, vendo com assombro o quarto se encher de mulheres ocupadas.