Pássaro da Tempestade
Capítulo 23
Por uma janela estreita, Derry fitava um claustro do Palácio de Westminster. Fazia frio lá fora, estava escuro além do vidro. Ele pouco podia ver exceto seu reflexo destacado, que o fitava em ouro e sombras. Fungou e esfregou o nariz, suspeitando que um resfriado se aproximava. Após distribuir ordens em nome do rei, levara dois dias para trazer todos os lordes ao alcance de Londres aos aposentos reais de Henrique. Às costas de Derry, até o maior dos cômodos particulares estava desconfortavelmente apinhado e quente. Velas brancas e grossas nas paredes iluminavam o salão, acrescentando fumaça oleosa ao ar abafado de calor e suor. No total, 24 homens de elevada posição compareceram para assistir ao julgamento de um deles pelo rei. Derry dormira apenas algumas horas enquanto eles chegavam, e o cansaço doía. Havia feito todo o possível. Quando finalmente vira a mão destruída de William, prometera continuar até seu coração desistir.
Lorde York estava lá, é claro, junto de mais seis nobres ligados à família Neville. Ricardo, conde de Salisbury, estava ao lado direito de York, usando um espesso manto escocês que seria adequado ao extremo norte, mas o fazia suar profusamente nos limites apinhados daquele salão. Derry descobriu que conseguia observar o grupo no reflexo do vidro, e estudava o filho do homem, Ricardo de Warwick. O jovem conde pareceu sentir a análise minuciosa e, de repente, o olhou, apontando e murmurando algo a York. Derry não se mexeu nem revelou o que pensava deles. Os seis continuaram a conversar em voz baixa entre si, e Derry continuou observando-os. Juntos, representavam uma facção pelo menos tão poderosa quanto o próprio rei. Três deles eram Ricardos, pensou com ironia: York, Salisbury e Warwick. Casado com uma Neville, filho e neto do velho Ralph Neville. Era um triunvirato pequeno e poderoso, embora o clã Neville tivesse casado filhas e filhos em todas as linhagens desde o rei Eduardo III. Derry sorriu ante o pensamento de que York dera ao filho mais novo o mesmo nome, numa total demonstração de falta de imaginação.
Contra eles — e não havia mais dúvida de que estava contra eles —, Derry tinha Somerset entre os aliados do rei, ao lado dos lordes Scales, Grey, Oxford, Dudley e mais uma dezena de homens de poder e influência. Todos os que puderam ser convocados a tempo estavam presentes naquela noite, alguns ainda sujos e cansados da viagem em alta velocidade para chegar a Londres. Fora mais que o destino de um duque que os levara até lá. Os poderes do próprio rei foram questionados, e a Inglaterra ainda estava em chamas além das ruas que cercavam a capital.
Derry esfregou os olhos, pensando nos relatórios que se empilhavam na Torre para que lesse. Recordou a promessa de Margarida de que daria uma olhada em todos os documentos vitais. Isso o fez sorrir de cansaço. Eram documentos demais para ele — que sabia separar o joio do trigo.
Ele se virou para o aposento, querendo que aquilo terminasse. A vida de seu amigo estava em jogo, mas, enquanto os bons lordes brincavam de justiça e vingança, o território que governavam caía no banditismo e no caos. Amargurava-o ter conhecido Jack Cade na época do exército. Se pudesse voltar àquele tempo e enfiar uma faca nas costelas do homem, ficaria consideravelmente aliviado.
— Maldito Jack Cade — murmurou para si mesmo.
O homem de que se lembrava era um bêbado inveterado, um terror com o machado e um arruaceiro nato, embora não tivesse condição social digna de nota. A tendência de Cade de socar os sargentos eliminara todas as possibilidades de promoção e, pelo que Derry se recordava, o homem cumprira seu período de serviço e voltara para casa com apenas uma treliça de chibatadas nas costas para exibir. Era quase inacreditável que Cade tivesse reunido um exército só seu e atacasse povoados e aldeias em torno de Londres, inebriado pelo sucesso. Haviam cortado a cabeça do próprio xerife do rei, e Derry sabia que era preciso uma resposta incisiva e rápida. Era quase pecaminoso distrair o rei e seus lordes numa época dessas. Derry prometeu se vingar de todos os responsáveis, levando calma a seus pensamentos desordenados. Cade, York, Beaufort, os Nevilles e o maldito Tresham. Teria de cobrar de todos eles por ousarem atacar o cordeiro.
O salão ficou em silêncio quando William, lorde Suffolk, foi trazido. Andava ereto, embora os braços estivessem algemados às costas. Derry conseguira vê-lo apenas uma vez na Torre das Joias, e ainda se enfurecia com os ferimentos cruéis e a indignidade que seu amigo havia sofrido. Suffolk era inocente de todas as maneiras. Não merecia a maldade cometida contra ele. Boa parte da responsabilidade cabia ao próprio Derry, e a culpa tornou-se um fardo pesado ao ver William sofrer a análise dos lordes Neville. O antebraço esquerdo do duque parecia um pernil, gordo e rosado, com talas nos dedos, todo embrulhado em ataduras. Tiveram de arranjar uma algema de perna para envolver a carne inchada. Derry sabia que a manga do casaco de William fora cortada na costura para que ele se vestisse.
O chanceler do rei entrou atrás do prisioneiro, um homem baixo de testa larga tornada ainda maior com os cabelos que retrocediam. Ele observou a sala e franziu os lábios de satisfação com as vestimentas dos lordes.
Haviam deixado um pequeno espaço solitário no centro da sala para William enfrentar seus pares. Quando ocupou seu lugar, eles murmuraram, observando e comentando impressionados. Suffolk aguardou o rei com dignidade, ainda que os olhos pousassem brevemente em Derry enquanto percorriam a sala. Os cabelos de William foram escovados por uma criada qualquer. Por alguma razão, esse pequeno gesto de gentileza provocou em Derry uma pontada de dor. Em meio a inimigos e conspirações, alguma copeira pensara em passar um pano nas roupas manchadas do duque e uma escova em sua cabeça.
Não houve fanfarra para anunciar o rei, não em seus aposentos reais. Nenhuma trombeta soou. Derry viu um criado entrar como um camundongo numa jaula de leões, cochichar com o chanceler do rei e se retirar com velocidade. O chanceler pigarreou para anunciar a presença real, e o espião-mor fechou os olhos um instante, fazendo uma oração. Vira o rei Henrique com frequência nos dois dias anteriores e o encontrara tão disperso e vazio quanto na manhã em que saíra correndo para procurar William. A surpresa havia sido ver Margarida resistir tão bem sob a tensão. Para o bem de William, para salvá-lo, ela pusera de lado seus temores. Tinha dado ordens em nome do marido como Derry instruíra, confiando nele. Na tarefa de manter William longe do cepo do carrasco, eram aliados até o fim. Ele só lamentava que Margarida não pudesse comparecer à convocação. Com os lordes Neville e York observando, seria sinal de fraqueza ter a rainha para guiar o marido. Mas a alternativa era igualmente ruim ou pior. Derry mordeu o lábio ao pensar em Henrique falando com os presentes. Ele mesmo se arriscara a ser acusado de traição ao dizer ao rei que não podia falar, não naquela noite. Henrique concordara, é claro, sorrindo e parecendo não entender palavra. Mas houve momentos nos dias anteriores em que os olhos do rei se concentraram, como se alguma parte de sua alma ainda lutasse para se erguer acima dos mares que o inundavam. Derry cruzou os dedos quando o rei entrou, com suor novo brotando sobre o antigo.
Uma poltrona estofada tinha sido disposta alguns passos à direita de William, lorde Suffolk, para que Henrique olhasse a extensão do cômodo, vendo todos os que haviam atendido sua ordem real. Com o coração na mão, Derry observou o rei sentar-se, ajeitar-se e depois erguer os olhos com interesse amistoso. Os lordes murmurantes e cochichantes finalmente se calaram, e o chanceler do rei fez soar sua voz.
— Sua Excelentíssima Graça, rei Henrique, por linhagem, título e graça de Deus, rei da Inglaterra e da França, rei da Irlanda, duque da Cornualha e duque de Lancaster.
Henrique fez um pacífico sinal de cabeça para o homem, e o chanceler se inflou como uma bexiga ao abrir um pergaminho com um floreio e ler.
— Milordes, os senhores se reuniram por ordem do rei para ouvir acusações de alta traição feitas contra William de la Pole, duque de Suffolk.
Ele parou enquanto William se ajoelhava com dificuldade no chão de pedra, baixando a cabeça. Derry viu York reprimir um sorriso, e daria os caninos para ficar sozinho com aquele homem por uma hora.
O chanceler leu a lista. Metade das acusações dizia respeito ao armistício fracassado e à responsabilidade pela perda das posses inglesas na França. Derry tentara tirar do registro oficial algumas acusações mais alucinadas, porém, nessa área, ele tinha pouca influência. O pergaminho fora preparado por Tresham e Beaufort, sem dúvida com York olhando por cima de seus ombros e dando sugestões. Era uma lista condenatória, mesmo antes de o chanceler recitar a acusação de reuniões secretas com o rei e os nobres franceses na intenção de usurpar o trono inglês.
Somente o lento rubor que se espalhava pelo rosto de William ali ajoelhado mostrava que ele escutava atentamente cada palavra. Derry trincou os dentes quando o chanceler leu a quantia em ouro que, supostamente, William recebera em troca de apoio. Qualquer um que o conhecesse riria da ideia de Suffolk receber algum tipo de suborno. Até a ideia de tais quantias serem registradas era ridícula. Mas, enquanto Derry olhava a sala, homens sérios balançavam a cabeça a cada artigo, a cada calúnia vil que era lida.
— Que seja sabido por todos que, no vigésimo dia do mês de julho, no ano de Nosso Senhor de 1447, o acusado conspirou na paróquia do Santo Sepulcro, no distrito de Farringdon, para facilitar a invasão francesa dessa costa, com vistas a usurpar o trono de direito da Inglaterra. Que também seja sabido...
Não era um julgamento. Esse era o único raio de luz na escuridão, no que dizia respeito a Derry. Ele passara horas discutindo com advogados do Parlamento e da Coroa, mas o rei tinha o direito de decidir sobre um integrante da nobreza caso o lorde se entregasse à misericórdia real. Porém a confissão de William continuaria válida, ainda que todos os homens ali presentes soubessem como havia sido obtida. As acusações não podiam ser completamente revogadas — fora esse o acordo arranjado de madrugada. Até certo ponto, Derry teve de aceitar a afirmação de Tresham de que o reino se ergueria em revolta sem um bode expiatório pela perda da França.
O simplório exército de Cade estava disposto a invadir Londres e, sem dúvida, aguardava para conhecer o destino de Suffolk com tanto interesse quanto o restante do reino. Muitos recrutas de Cade conheceram William na França. Irritava como areia nos olhos de Derry que nenhum deles culpasse York pela perda de Maine e Anjou, embora ele estivesse no comando na época. Ricardo de York fora rápido ao acusar os partidários do rei e, com isso, conseguira escapar das críticas.
— Lorde Suffolk confessou todas as acusações — terminou o chanceler, claramente satisfeito de estar no centro do palco naquela noite. Levantou um pergaminho com fita preta na outra mão. Derry se surpreendeu apenas pelo rolo não estar respingado de sangue, depois dos ferimentos que vira.
— Nego todas as acusações, toda a traição! — rosnou William de repente.
O silêncio tomou conta da câmara quando todos os olhos caíram sobre o homem ajoelhado. A boca de Derry secou. Ele havia discutido isso com William. Ver o homem desmentir a confissão não fazia parte do negócio.
— O senhor... hã... O senhor nega as acusações? — questionou o chanceler fracamente, com dificuldade.
Mesmo de joelhos, mesmo algemado, William era uma imagem impressionante ao erguer a cabeça e responder.
— As acusações são absurdas, produto de mentes cruéis. Nego-as completamente. Sou inocente de traição. Mas fui levado à desgraça por canalhas que agem contra meu rei e meu país.
Derry quis gritar a William que calasse a boca antes de arruinar tudo. Viu que York sorria com a explosão, os olhos brilhando.
— Milorde Suffolk, está agora reivindicando seu direito a julgamento? — perguntou o chanceler.
Derry viu York se inclinar à frente ansioso. Quis gritar, mas Derry não tinha direito sequer a estar naquela sala. Não ousou falar, e apenas fechou os olhos, aguardando a resposta de William.
William olhou todos com raiva, depois a cabeça enorme baixou e ele suspirou.
— Não. Entrego-me à vontade e ao julgamento do rei. Confio na graça de Deus e na honra do rei Henrique.
O chanceler limpou o suor da testa proeminente com um grande lenço verde.
— Muito bem, milorde. Então é meu dever ler o veredito do rei.
Muitos lordes se viraram surpresos para Henrique, entendendo que ele não falaria e que o veredito fora feito com antecedência. York fez um muxoxo e Derry prendeu a respiração, temendo que Henrique sentisse a atenção e respondesse.
O rei olhou em volta, um leve sorriso brincando no canto da boca. Perplexo, inclinou a cabeça, e o chanceler entendeu que era um sinal para continuar; pegou o terceiro de seus pergaminhos e o desenrolou com um floreio.
— Sejam testemunhas do veredito do rei contra William de la Pole, duque de Suffolk, no Ano de Nosso Senhor de 1450. — Ele fez uma pausa para inspirar de novo e enxugar a testa mais uma vez. — Pelos serviços passados, as oito acusações capitais são desprezadas por ordem e vontade do rei.
Houve uma súbita explosão de sons vinda dos lordes reunidos, encabeçada por York e pelo cardeal Beaufort, que latiram respostas zangadas. O chanceler se encolheu, mas continuou a ler acima do barulho, as mãos visivelmente tremendo.
— As 11 acusações restantes de conivência não criminosa são consideradas provadas, na medida em que o prisioneiro confessou.
Outro rosnado ainda mais forte veio dos lordes, e o chanceler os olhou, indefeso e incapaz de continuar. Não possuía autoridade para impor silêncio e, embora olhasse o rei, Henrique nada disse.
Ao ver o impasse, foi Somerset quem gritou, o condezinho rijo em pé com o peito estufado e a cabeça erguida agressivamente.
— Milordes, isto não é um julgamento. Sem dúvida também não é uma estalagem vulgar! Os senhores insultarão o rei em seus próprios aposentos? Parem com esse barulho.
Liderados pelos cochichos furiosos de York, alguns continuaram gritando e argumentando, embora a maioria aceitasse a repreensão e calasse a boca. Agradecido, o chanceler olhou lorde Somerset e estendeu mais uma vez a mão para o lenço, limpando o brilho do rosto.
— A pena para essa conivência é o exílio desta terra pelo período de cinco anos a contar de hoje. Os senhores têm nossa bênção por sua paciência. Esses documentos são assinados e selados no Ano de Nosso Senhor de 1450, Henrique Rex.
O tumulto morreu com a velocidade de uma vela sendo apagada, caindo por terra assim que os lordes entenderam que tinham escutado as palavras e as ordens do próprio rei. Aproveitando a surpresa, Derry avançou e usou uma chave pesada para abrir as algemas dos pulsos de William. O amigo pareceu nauseado de alívio. Levantou-se devagar, esfregando a mão inchada e recordando aos mais próximos que ainda era um homem de força prodigiosa. O braço da espada estava ileso, e ele o dobrou à frente do corpo, cerrando o punho enquanto fitava enraivecido York, Tresham e Beaufort.
Derry estendeu a mão e segurou o braço de William. Sem aviso, o amigo se virou para encarar o rei Henrique, e uma tensão súbita passou pela sala, com até York erguendo os olhos. Por tantos crimes e acusações, não houvera no passado pena que não fosse a execução. Mas um homem que confessasse a traição estava ao alcance do rei. William estava desarmado, porém, novamente, todos tomaram consciência da força de urso que havia nele e da fragilidade do próprio rei. Antes que alguém se mexesse, William deu um passo à frente, apoiou-se num dos joelhos e baixou a cabeça até o peito.
— Sinto muito ter-lhe provocado pesar, Vossa Alteza Real. Se agradar a Deus, voltarei para servi-lo de novo.
Henrique franziu vagamente a testa. Por um instante, estendeu um pouco a mão, mas depois recuou. Todos os lordes se ajoelharam quando Henrique se levantou da cadeira, guiado para longe de sua presença pelo chanceler e por seus criados pessoais. Não dissera uma única palavra.
William permaneceu ajoelhado até a porta se fechar atrás do rei. Quando voltou a se levantar, havia lágrimas em seus olhos, e ele aceitou a mão de Derry no ombro para levá-lo para fora. Ao se afastarem pelos corredores, foram ultrapassados por mensageiros que levavam a notícia correndo para todos os que tinham pago algumas moedas por elas. Parecia que William fora fulminado, pálido e espantado com a pena que havia recebido.
— Tenho cavalos à espera para levá-lo de Londres ao litoral, William — avisou Derry, examinando o rosto do amigo enquanto caminhavam. — Há uma coca à espera em Dover, a Bernice. Ela o levará à Borgonha, onde o duque Filipe lhe ofereceu abrigo enquanto durar o exílio. Entendeu, William? Você terá uma casa só sua e pode levar Alice para lá assim que se instalar. Seu filho pode visitá-lo e escreverei todo mês para mantê-lo informado do que acontece aqui. São apenas cinco anos.
Derry ficou comovido com o olhar de desespero que William lhe lançou. Parecia zonzo, e a mão de Derry continuou em seu ombro para mantê-lo ereto, embora tivesse o cuidado de não tocar a mão e o antebraço inchados.
— Sinto muito, William. Se o rei anulasse todas as acusações, haveria revolta, entende? Esse foi o melhor acordo que consegui para você. Um vendedor de vinhos foi enforcado ontem mesmo por ameaçar começar uma agitação se você fosse libertado.
— Entendo, Derry. Obrigado por tudo o que fez. Talvez eu devesse ter fugido quando você me avisou. Mas não pensei que fossem tão longe.
Derry sentiu o pesar do amigo como se fosse seu.
— Vou fazê-los pagar pelo que fizeram, William, eu juro. Em cinco anos, você voltará à Inglaterra e os caçaremos como lebres, se eu não tiver terminado. Você verá.
Eles andaram juntos pelo espaço imenso de Westminster Hall, ignorando os olhares de mercadores e parlamentares. A notícia se espalhava depressa, e alguns ousaram assoviar e vaiar ao ver um traidor condenado andando entre eles. William levantou a cabeça com o barulho, um toque de fúria substituindo o ar sombrio dos olhos.
— Como você disse, Derry, são apenas cinco anos — murmurou, endireitando as costas e olhando em volta com o rosto fechado.
Eles saíram do palácio e foram até os dois homens que aguardavam com cavalos de carga. Derry engoliu em seco, nervoso, quando a multidão começou a aumentar, a sensação de violência no ar crescendo a cada momento que passava.
— Vá com Deus, meu amigo — despediu-se Derry suavemente.
Com a mão ferida, William não conseguiu montar sozinho, e Derry o ajudou a chegar à sela com um bom empurrão e depois lhe passou uma espada com cinto e bainha. A visão da longa lâmina ajudou a calar os mais estridentes da multidão, porém a cada momento chegava mais gente, vaiando e gritando insultos. William os olhou de cima, a boca como uma linha firme e pálida. Cumprimentou Derry com a cabeça, estalou os lábios e bateu os calcanhares, trotando tão perto de um carvoeiro que berrava que fez o homem cair para trás nos braços dos colegas. Derry havia pedido emprestado a lorde Somerset dois bons homens para escoltá-lo. Eles puxaram as espadas ao fazer as montarias avançarem, a ameaça clara.
Derry parou um instante para observá-los partir até que sentiu o desprezo da multidão se afastar deles em busca de outro alvo. Com alguns passos rápidos, sumiu de volta no grande salão e na penumbra do interior. Ali nas sombras, longe dos olhos, descansou a cabeça contra a fria massa corrida, querendo apenas dormir.
Embora estivesse escuro lá fora, o Palácio de Westminster estava iluminado de dourado, cada janela brilhando com a luz de centenas de velas. Os nobres lordes que tinham se reunido para ouvir o veredito do rei sobre William de la Pole não partiram de imediato. Seus criados corriam de um lado para o outro levando mensagens, enquanto eles percorriam os corredores ou pediam vinho e sentavam-se para discutir os eventos da noite. Duas facções claras surgiram pouco depois de o rei se retirar. Em torno de lorde Somerset e lorde Scales, uma dezena de outros condes e barões se reuniu para discutir os fatos e exprimir sua consternação com o destino de Suffolk.
York tinha partido com os lordes Neville para uma sala vazia, não muito longe dos aposentos do rei. Tresham e o cardeal Beaufort foram com eles, imersos na conversa. Os criados corriam em torno do grupo de oito homens, acendendo velas e a lareira; outros iam buscar comida e vinho. Conforme a noite avançava, alguns lordes foram até a porta aberta e brindaram à saúde de York. Nada disseram de importante, mas demonstraram seu apoio.
Tresham saiu e voltou duas vezes, até que se instalou perto do fogo e aceitou uma taça de vinho quente com agradecimentos murmurados. Estava gelado de andar pelo exterior e tremia ao sentar-se e retomar a conversa. O Ricardo Neville mais velho falava. Além do título de conde de Salisbury, Tresham não o conhecia bem. Salisbury tinha propriedades e deveres que o mantinham longe, na fronteira com a Escócia, e raramente era visto no Parlamento. Tresham tomou o vinho em pequenos goles, com gratidão, observando a quantidade de homens ligados à família Neville. Quando se casara com aquele clã específico, York conquistara o apoio de um dos grupos mais poderosos do reino. Sem dúvida não o prejudicava ter os Nevilles por trás.
— Digo apenas que é preciso haver um herdeiro — dizia Salisbury. — Vocês viram a rainha, ainda magra como um junco. Não estou dizendo que um filho não virá, só que, se ela for estéril, com o tempo isso mergulhará a Inglaterra no caos mais uma vez. Com esse exército de Cade ameaçando até Londres, não faria mal propor um herdeiro nomeado.
Tresham aguçou os ouvidos, inclinando-se à frente e esvaziando a taça. Vira o humor dos amigos de York passar do prazer ao desespero quando os havia informado horas antes. Tinham encontrado um bode expiatório para os desastres na França, mesmo que o rei e Derry Brewer tivessem salvado Suffolk do machado do carrasco. O nome de Brewer foi pronunciado com raiva e desprezo especiais naquela sala, embora, na verdade, ele só tivesse atrapalhado em parte o golpe organizado por York. Suffolk estava afastado durante cinco anos, removido da presença do rei no ponto máximo de sua força. Era uma vitória parcial, apesar da rapidez dos pés e da inteligência de Brewer. Porém a conversa sobre herdeiros era novidade, e Tresham escutou com atenção enquanto os lordes Neville murmuravam para as taças seu assentimento. Eram leais uns aos outros, e, se o Ricardo Neville mais velho falasse, era por todos eles, algo decidido havia muito tempo.
— Poderíamos perguntar a Tresham, aqui — continuou Salisbury. — Ele conhecerá as leis e os documentos que precisam ser propostos. O que acha, Sir William? Podemos nomear outro herdeiro até que nasça um filho do rei e da rainha? Há precedentes?
Um criado voltou a encher a taça dele, dando a Tresham tempo para sentar-se mais ereto e pensar.
— Seria preciso uma lei aprovada pelo Parlamento, é claro. Uma votação dessas seria... controversa, suponho.
— Mas possível? — insistiu Salisbury.
Tresham inclinou a cabeça.
— Tudo é possível, milorde... com votos suficientes.
Soaram risadas abafadas em resposta, enquanto York sentava-se no meio deles e sorria. Não havia dúvida de quem seria o herdeiro caso essa votação pudesse ser convocada no plenário do Parlamento. Ricardo de York descendia de um filho do rei Eduardo, como o próprio Henrique. O avô de Cecily de York fora João de Gaunt, outro daqueles filhos. Entre eles, a pretensão dos Yorks era tão boa quanto a do próprio rei — e eles tinham seis filhos. Mentalmente, Tresham se corrigiu, recordando o nascimento recente de mais uma criança. Sete filhos, todos descendentes de filhos do rei guerreiro.
— Uma proposta dessas seria uma declaração de intenções, milordes — comentou Tresham, a voz baixa e firme. — Não haveria como disfarçar os propósitos nem a lealdade de seus partidários. Menciono isso para ter certeza de que os senhores compreendem as possíveis consequências, caso se perca a votação.
Para sua surpresa, York riu amargamente, contemplando o fogo.
— Sir William, meu pai foi executado por traição contra o pai deste rei. Fui criado como órfão, dependente da gentileza do velho Ralph Neville. Acho que conheço um pouco as consequências, e os riscos, da ambição. Mas talvez os homens não devam temer acusações de traição depois do que a que todos assistimos hoje. Parece não ter mais o peso de outrora.
Todos sorriram ante seu tom irônico, observando-o e entreolhando-se atentamente.
— Mas não estou cochichando, Sir William! Esta não é uma conspiração, não é um conluio. Apenas uma discussão. Meu sangue é bom, minha linhagem é boa. O rei está casado há alguns anos, mas não encheu nenhum ventre. Numa época de agitação como esta, acho que o reino precisa saber que há uma linhagem forte à espera caso a semente dele seja fraca. É, penso assim, Tresham. Prepare seus documentos, sua lei. Permitirei que meu nome seja apresentado como herdeiro do trono. O que vi hoje me convenceu de que isso é o certo a fazer.
Pelo sorriso satisfeito de Salisbury, Tresham viu que não era a primeira vez que discutiam o assunto. Ficou com a sensação de que os homens ali só haviam aguardado sua chegada para lançar a conversa e avaliar sua reação.
— Milorde York, concordo. Pelo bem da Inglaterra, é preciso que haja um herdeiro. É claro que qualquer acordo desses seria anulado se a rainha concebesse.
— É claro — respondeu York, mostrando os dentes. — Mas temos de estar preparados para todos os resultados, Sir William. Como descobri hoje à noite, é bom ter planos, não importa o desenrolar dos acontecimentos.