Pássaro da Tempestade
Capítulo 26
Derry manteve o mau humor sob controle com imenso esforço. A meia-noite não tardaria, e ele estava cansado e sem paciência.
— Milorde Warwick, se retirar seus homens de armas do norte da cidade, não teremos ninguém lá para conter a revolta.
Ricardo Neville era alto e magro, jovem demais para ter barba. Mas era conde, filho e neto de homens poderosos. Fitou-o de volta com o tipo de arrogância que precisa de gerações para se aperfeiçoar.
— Quem é você para me dizer onde ponho meus homens, mestre Brewer? Vejo que faz os soldados de lorde Somerset correrem de um lado para o outro a seu comando, mas quer que eu me afaste do exército que se aproxima de Londres? Perdeu o juízo? Vou ser bem claro. Você não dá ordens aqui, Brewer. Não se esqueça disso.
Derry sentiu seus instintos aflorarem, mas provocar um confronto com um Neville enquanto Londres corria perigo real não serviria a ninguém.
— Milorde, concordo que a turba de Cade é a pior das ameaças que a cidade enfrenta. Mas, quando ele vier, ainda teremos de manter as ruas em ordem. A presença de um exército às portas da cidade atiçou e empolgou todos os desordeiros de Londres. Há tumultos hoje junto à Catedral de São Paulo, exigindo que o rei seja arrastado para fora e julgado. Em Smithfield, junto à Torre, houve uma reunião de centenas, com algum maldito orador de Sussex pondo o sangue deles para ferver. Esses lugares precisam de presença armada, milorde. Precisamos que os soldados sejam vistos em todas as esquinas, dos Shambles aos mercados, de Aldgate a Cripplegate. Só peço que o senhor...
— Acredito que já respondi, Brewer — retrucou Ricardo Neville friamente, falando acima dele. — Eu e meus homens defenderemos a Ponte de Londres e a Torre. É esse o posto no qual escolhi ficar. Ou vai me dizer que o rei tem outras ordens? Ordens escritas que eu mesmo possa ler? Não? Acho que não, visto que Sua Majestade saiu da cidade! Você exagera, Brewer. Tenho certeza de que preferiria que um Neville guardasse as esquinas enquanto a luta de verdade prossegue sem mim. Mas você não tem nenhuma autoridade aqui! Sugiro que se retire, ou pelo menos se cale e deixe os melhores se prepararem para o pior.
Algo na perigosa imobilidade de Derry Brewer fez Warwick parar de falar. Havia cinco homens na sala do recém-construído Guildhall, a sede da autoridade civil de Londres. Lorde Somerset escutara a conversa com atenção, fazendo a própria avaliação dos presentes. Ao observar que Derry estava prestes a falar com raiva, pigarreou.
— Não há tempo para discutir, cavalheiros — interrompeu secamente. — Lorde Scales? O senhor mencionou a guarda dos outros portões?
Scales estava na casa dos 50 anos, um veterano do conflito francês que ficara em Londres desde o julgamento de William, lorde Suffolk. Aceitou o ramo de oliveira que Somerset lhe estendeu e falou com voz suave de barítono, rompendo a tensão na sala.
— Sabemos que aquele tal de Cade possui um grande número de seguidores. É apenas mero bom senso reforçar os portões de Londres.
— Sete portões, lorde Scales! — exclamou Derry, desapontado por deixar a irritação transparecer. — Se pusermos ainda que apenas mais quarenta homens em cada um, perderemos um número importantíssimo capaz de manter a ordem nas ruas. Milorde, tenho homens nas aldeias em torno da cidade, vigiando o ataque. Cade não se afastou de Southwark. Caso venha, virá como um touro rumo ao portão. Se fosse o único fator, concordaria com o jovem conde aqui que devemos nos reunir como um nó na Ponte de Londres. Mas há dezenas de milhares de indivíduos em Londres que se aproveitarão da agitação para queimar, matar, estuprar e acertar contas antigas. Podemos ser poucos para tudo, e Cade é apenas uma parte. O ataque dele, nada mais, nada menos, é o toque da trombeta que destruirá a cidade.
Derry parou, olhando em volta os homens que defenderiam Londres quando Cade viesse, supondo que viesse. Pelo menos o espião-mor confiava em Somerset, embora o velho fosse tão espinhoso quanto Ricardo Neville caso lhe negassem a honra de uma posição de destaque. Scales caíra num silêncio ruborizado pela mesma razão. O barão Rivers ele mal conhecia, além do fato de ter trazido duzentos homens a Londres por ordens que Derry escrevera e selara pelo rei. Em comparação, o jovem conde de Warwick era tão hostil quanto qualquer agitador, a face que o clã Neville havia escolhido para representar seu poder. Derry o observava amargamente, sabendo que York estava por trás dele, ainda que, naturalmente, ele mesmo não aparecesse em lugar nenhum. A facção dos Nevilles só tinha a ganhar com um ataque a Londres, e o espião ficou desesperado ao pensar que esses homens aproveitariam a oportunidade no caos que se seguiria. Ele precisava de mais soldados!
Margarida estava bem segura na Torre, pensou Derry. Preferiria não ter deixado quatrocentos homens para protegê-la, mas, como ela se recusara a partir, não houvera opção. Melhor que muitos, Derry conhecia os pecados dos homens. Se Londres fosse salva, mas Margarida perdida, o espião-mor sabia que a causa de York se fortaleceria imensamente. O duque de York, então, se tornaria rei em menos de um ano, tinha certeza. Só para variar, gostaria de ter um único inimigo a enfrentar, como nos velhos tempos. Em vez disso, sentia-se andando numa sala repleta de cobras, sem saber qual delas o atacaria.
Um dos auxiliares do prefeito veio ofegante pela escada até a sala, um vereador grande e gordo em sedas e veludos. Estava com o rosto rosado e suava ao entrar, embora fossem poucos degraus. Os quatro lordes e Derry se viraram para ele com uma expressão sombria, fazendo-o arregalar os olhos.
— Milordes — começou, arfando. — Os homens de Cade estão vindo. Agora, milordes. Esta noite.
Warwick xingou entre os dentes.
— Vou para a ponte — anunciou. — O resto de vocês faça o que quiser.
O vereador recuou para deixá-lo passar, tentando curvar-se e respirando fundo ao mesmo tempo. Warwick sumiu correndo escada abaixo. Derry o olhou com raiva e logo se virou para lorde Scales.
— Milorde, nisso tenho a autoridade do rei. Por favor, ceda-me parte de seus homens para guardar o interior da cidade.
Lorde Scales, mais alto, baixou os olhos para ele, sopesando as palavras.
— Não, mestre Brewer. Minha resposta é não. Também defenderei a ponte.
— Por Cristo, Scales — interveio Somerset. — Estamos do mesmo lado. Colocarei sessenta homens nas ruas para você, Derry. Mandarei que se apresentem no Guildhall para que você os mande aonde for necessário, tudo bem? É tudo de que posso abrir mão.
— Não é o suficiente — disse Derry. — Se os homens de Cade entrarem na cidade, precisaremos de centenas para enfrentá-los, para qualquer lado que se dirijam.
Seus punhos estavam cerrados, e Somerset deu de ombros como se pedisse desculpas.
— Então reze para que não entrem na cidade. — Apontou os degraus que levavam para baixo. Lá fora, dava para ouvir o sibilar e os rugidos da tempestade que começava a se espalhar por Londres. — Parece que será uma noite úmida. Vamos, cavalheiros?
Havia tochas na Ponte de Londres, grandes vasilhas que cuspiam óleo chamejante em pilares na entrada e ao longo de todo o seu comprimento. A ponte brilhava dourada na escuridão e, ao sul, podia ser vista de longe. Curvado sob a chuva, Jack Cade marchava em direção àquele ponto reluzente com seus Homens Livres, enrolando pelo caminho um pano no ferimento recente e apertando o nó com os dentes. Atrás da nuvem negra que corria pelo céu, a lua estava quase cheia. Ele conseguia ver a massa prateada do avanço de seus homens se aproximando da cidade.
O Tâmisa era uma fita cintilante que cruzava seu caminho quando se aproximou da ponte. Jack podia ouvir Woodchurch gritando com os homens da retaguarda para que formassem uma coluna. A ponte era larga, porém a maior parte da largura era tomada por construções ao longo de cada beirada. A pista no meio não comportaria mais de quatro ou seis homens lado a lado — e Jack podia ver que não estava vazia. A Ponte de Londres fervilhava de gente, animais e carroças, com mais e mais deles fitando os homens armados. Jack se sentiu como um lobo se aproximando de um rebanho de carneiros, e sorriu ao pensar nisso, erguendo o machado e fazendo-o pousar no ombro como qualquer lenhador que saísse para um passeio. Ecclestone deu uma leve risada ao ter um pensamento parecido, embora o som não fosse agradável.
— Nada de matar cordeiros! — rosnou Jack para os homens a sua volta. — Nada de roubar nem de encostar nas mulheres! Entenderam? Se virem um homem com uma lâmina ou escudo, podem cortar sua maldita cabeça. E mais ninguém.
Os guardas resmungaram sua concordância.
Provavelmente, foi na imaginação que Jack sentiu as pedras tremerem sob os pés ao passarem da terra sólida para os primeiros passos na ponte propriamente dita. Seus homens foram antes dele, mas Jack insistira em estar nas primeiras fileiras para dar ordens quando necessário. Apesar do esforço de Woodchurch, tinham formado uma coluna larga demais na estrada aberta e tiveram de se afunilar atrás dele, com milhares apenas parados ali, de cabeça baixa na chuva torrencial, incapazes de avançar. No entanto, a fila de homens armados de Kent serpenteava e adentrava cada vez mais, empurrando a multidão diante deles como animais num dia de feira. Para surpresa de Jack, muitos londrinos davam vivas e gritavam seu nome, apontando-os como se viessem romper um cerco. Não pareciam ter medo, e Jack Cade não conseguia entender nada.
Engoliu em seco, nervoso, quando começou a passar pelas construções dos dois lados, que se elevavam tanto que bloqueavam a chuva em quase todo o caminho, com exceção da trilha central. Ele não gostava de ser olhado de cima, e fitou com raiva as janelas abertas.
— Cuidado com arqueiros! — gritou Woodchurch atrás dele.
Jack podia ver Ecclestone virando a cabeça, limpando a chuva dos olhos e tentando enxergar em todas as direções. Se as janelas se enchessem, Jack sabia que seus homens buscariam a sombra das próprias edificações, apinhando as calçadas atrás da falsa promessa de proteção. E ficariam vulneráveis a qualquer um que tivesse um arco do outro lado, como galinhas num cercado. Jack cruzou os dedos, mas conseguia ouvir o andar tilintante de soldados à frente, movendo-se para bloquear o outro lado da ponte. Trocou o machado de ombro, forçando-se a continuar andando, firme e forte atrás da bandeira de Kent que o pequeno Jonas mantinha erguida.
Jack olhou para trás por sobre o ombro, tentando avaliar quantos haviam entrado na ponte. Woodchurch parecera uma velha o dia inteiro, preocupado com o gargalo. À luz das lâmpadas crepitantes da ponte, Jack podia ver o homem e o filho, ambos arqueiros, examinando as janelas. Estavam vazias, espaços escuros sem fogo aceso no interior. Algo nisso incomodava Jack, porém não sabia dizer exatamente o quê.
A sua frente, a multidão havia engrossado numa grande massa, e começava a parecer que os homens que marchavam teriam de parar.
— Mostrem-lhes seu ferro, rapazes! — gritou Jack. — Mantenham os cordeiros em movimento!
Ecclestone ergueu um pouco a navalha, firme contra seu polegar. Por todo lado, os homens de Cade levantaram machados e espadas, enquanto os que possuíam escudos os usaram com veemência, forçando e empurrando para tirar do caminho quem fosse lento demais. Continuaram marchando e, ao passarem pelo ponto central, Jack pôde ver lampejos de armadura polida do outro lado, com a multidão fugindo e escorrendo por entre linhas de homens à espera. Passou por sua cabeça que os soldados do rei estavam sendo tão estorvados quanto ele pela multidão. Não podiam formar paredes sólidas de escudos enquanto inocentes ainda lutavam para escapar.
Ele levantou a cabeça e deu um grande berro, confiando que os homens que estavam a seu lado obedeceriam.
— Por Kent! Avante! Atacar!
Só pôde trotar, em vez de disparar à frente, os homens diante dele avançando pela lama escorregadia. Viu Ecclestone empurrar o peito de um londrino que dava vivas, derrubando-o para o lado quando começaram a correr. Todos os homens urravam, e formou-se uma parede de som acima do sibilar da chuva, ecoando no espaço cercado. Sem palavras distinguíveis, apenas um bramido crescente que saía de centenas de gargantas.
Jack escorregou em algo e cambaleou. Pelo menos, conseguia enxergar. As lâmpadas da ponte iluminavam toda a sua extensão, as luzes cheias de manchas faiscantes levadas pelo vento crescente. Estava a menos de 200 metros dos homens rijos que o aguardavam.
Na multidão, alguns se espremeram contra a parede das casas em vez de tentar correr mais do que um exército em investida. Outros não foram suficientemente rápidos e gritaram ao cair, logo pisoteados. Jack teve vislumbres de corpos que caíam enquanto ele avançava cada vez mais depressa, contando com a velocidade e o próprio peso para abrir caminho.
As janelas à frente e acima se encheram de homens que se inclinaram para fora no espaço escuro. Jack praguejou de horror ao avistar as bestas. Com tais armas, a ponte estreita era uma armadilha brutal, o massacre limitado apenas pela rapidez com que os soldados conseguissem recarregar e pela quantidade deles. Jack não ousou se virar para ver até que lugar da ponte se estendiam, mas seu coração bateu forte de terror com o desejo de buscar proteção. A única possibilidade de sobreviver estava à frente: através dos soldados, para sair da ponte e entrar na cidade propriamente dita.
— Mais rápido! — gritou.
Ele correu mais enquanto os homens a seu lado disparavam em pânico. O menino Jonas não conseguiu acompanhar e, quando cambaleou, um dos guardas de Jack estendeu a mão e agarrou o mastro do estandarte numa das mãos, baixando-o quase como uma lança ao avançar com velocidade.
Os primeiros dardos vieram de apenas alguns centímetros acima de suas cabeças. Jack se enfiou debaixo de um escudo erguido e brandido pelo homem mais próximo, encolhendo-se sem parar de correr. Ouviu gritos de choque e dor em toda a extensão da ponte, e soube que era o alvo principal, quase diretamente atrás do estandarte. Ergueu os olhos a tempo de ver o menino Jonas tremer e escorregar para a frente ao ser atingido. Outro dardo acertou o homem que pegara o estandarte, e ele também despencou. O escudo de Kent e a cabeça do xerife caíram na lama e na sujeira, e ninguém tentou erguê-los de novo enquanto corriam num terror descuidado.
Thomas havia sentido a mesma inquietação de Jack com as janelas vazias — escuras quando todos os homens e mulheres de Londres queriam ver os Homens Livres de Cade chegarem. Sentira a armadilha e gritara a todos que portavam machados que arrebentassem qualquer porta pela qual passassem. Enquanto os primeiros dardos voavam, elas eram arrombadas. Alguns besteiros tinham pensado em barricar o andar de baixo, e foram necessários golpes fortes para passar pelas portas e obstáculos.
Thomas corria devagar, com Rowan à esquerda, pelo centro da ponte. Levavam arcos longos ainda verdes, sem o poder e a boa constituição dos que perderam na França. Metade da habilidade do arqueiro vem do conhecimento de sua arma, com todos os seus pontos fortes e peculiaridades. Thomas daria um ano de vida pelos arcos que ele e Rowan haviam deixado para trás.
Os Homens Livres empurravam e forçavam o caminho em torno deles, homens em pânico com roupas encharcadas de chuva que sabiam que parar significava morrer, que tinham de chegar ao fim da ponte. Era impossível mirar em meio ao tumulto de empurrões e cotoveladas. O máximo que Thomas e o filho podiam fazer era disparos curtos, confiando no instinto e no treinamento para guiá-los. A princípio, o alcance era praticamente nulo, mas então Thomas viu Jack rugir e começar a correr, forçado a avançar pelos dardos que caíam, abrindo buracos em seus homens. Não havia homens com machados para arrombar portas além da fila da frente, e a multidão correra para lá, deixando vazios os últimos 100 metros até a linha de soldados do rei. Thomas pensou com raiva. Era um campo de morte, e sabia que Jack não iria sobreviver. Ergueu os olhos quando um besteiro acima de sua cabeça foi estrangulado e puxado para trás, dando um grito. Alguém o alcançara pelo interior.
— Por Cristo! — rugiu Thomas em voz alta. — As janelas à frente, Rowan! Pense bem nos seus tiros; temos poucas flechas.
Thomas agarrou dois homens que tentavam ultrapassá-lo e os forçou a se posicionar atrás dele, berrando ordens para que lhe dessem espaço. Eles o fitaram com os olhos arregalados ao reconhecê-lo, mas assumiram posição alguns passos atrás, talvez agradecidos por andar a sua sombra enquanto os dardos zumbiam e sibilavam pelo ar. A presença deles abriu espaço para que pai e filho mirassem e avançassem pela ponte.
Thomas sentiu o quadril repuxar em agonia, como se alguém o cortasse. O instinto o fez levar a palma da mão à lateral do corpo e procurar sangue, mas eram apenas as cicatrizes se esticando. Então, mostrou os dentes, inundado pela raiva. Estava forte outra vez. Forte o suficiente para aquilo.
Ele curvou o arco longo e mandou uma flecha para dentro de uma janela no alto. A distância era de no máximo 50 metros, e ele soube que acertara antes que o homem caísse sobre os que passavam embaixo. O primeiro tiro de Rowan errou por pouco, fazendo o alvo recuar. O rapaz mandou outra flecha quase na mesma trajetória, apontando à frente e para cima ao fazer soar o arco. Um soldado que mirava a besta recebeu a segunda flecha no pescoço e se contorceu em agonia quando ela o prendeu na madeira da moldura da janela.
Pai e filho avançavam juntos, os olhos concentrados nas janelas baixas à frente, em meio à chuva. Aqueles que acreditavam que iriam disparar em homens indefesos só percebiam sua vulnerabilidade quando uma flecha os atingia. Os dois arqueiros matavam mais e mais adiante, mantendo Cade a salvo enquanto corria para ver o que mais os lordes de Londres prepararam para sua chegada.
Jack ouviu o som dos arcos longos em ação atrás dele e a primeira reação foi se encolher. Conhecera aquele som nos campos de batalha e se encheu de horror ante a ideia de arqueiros ingleses fazerem parte da emboscada na ponte. Mas os besteiros que se inclinavam para fora das janelas começaram a cambalear e cair de suas escuras seteiras. A barreira de dardos à frente se reduziu e mortos e moribundos ficaram para trás.
Jack ofegava quando viu que estava quase no fim da ponte. As roupas estavam pesadas e grudadas, gelando sua carne. Havia soldados de cota de malha ali, aguardando, prontos para o ataque. Apesar do frio, seus olhos brilharam ao vê-los, a distância se reduzindo depressa demais para que enxergasse mais do que um borrão. Só podia agradecer a Deus terem escolhido colocar os besteiros ao longo da ponte e não numa linha de combate. Suas primeiras fileiras possuíam alguns escudos, mas não havia nada tão apavorante no mundo quanto correr contra uma saraivada maciça de dardos ou flechas.
Ele parou de pensar ao correr contra dois homens do rei, o machado erguido para um golpe de açougueiro. Os homens de Kent em torno de Jack ergueram as armas com fúria cega, levados quase à loucura pela corrida sob os dardos, vendo os amigos mortos. Caíram sobre as primeiras fileiras de soldados como uma matilha de cães latindo, atacando num frenesi sem sentir os ferimentos que recebiam em troca.
Jack deu o primeiro golpe com mais força do que nunca na vida, sem pensar em defesa. Estava tomado pela fúria, quase sem raciocinar, quando esmagou um homem menor a sua frente, atingindo com a borda da lâmina pesada ou batendo com o cabo, o tempo inteiro rugindo para os que surgiam em seu caminho. Não se sentia sozinho ao avançar sobre a primeira fila e a segunda. Alguns de seus guardas tinham caído com os dardos, mas os sobreviventes, mesmo os feridos, atacavam sem restrições, um perigo tão grande para os que estavam em volta quanto para os homens adiante. Era selvagem e terrível, e eles mudavam a direção no chão escorregadio enquanto continuavam avançando, pressionados por sua vez pelos homens de trás que só queriam sair da maldita ponte.
Jack podia ver além dos soldados as ruas mais escuras. Tinha a sensação de que havia apenas algumas centenas de homens aguardando por ele lá. Podiam ser suficientes para segurar os Homens Livres para sempre na ponte, a menos que fossem forçados a recuar para as ruas mais largas além. Jack agiu assim que viu necessidade, abrindo caminho com o cabo do machado atravessado no peito como uma barra. Com uma explosão de força, empurrou dois homens, que caíram de costas quando ergueram o escudo contra ele. Tremeu ao passar sobre eles, imaginando uma lâmina lambendo de baixo para cima. Os dois soldados caídos estavam ocupados demais com seu pânico quando os Homens Livres os pisotearam. Num primeiro momento havia fileiras organizadas de homens com espada e escudo; no instante seguinte, eles estavam no chão, e os Homens Livres corriam sobre mortos e feridos, derrubando a fileira de trás com grandes golpes e esmagando o restante sob os pés.
Os que ainda estavam na ponte sentiram o bloqueio de homens ceder. Gritaram com selvageria quando tiveram espaço para avançar, dando vivas ao explodirem nas ruas londrinas lavadas pela chuva. Nada ficava em seu caminho, e eles só paravam para dar atenção aos soldados inimigos indefesos, esfaqueando e chutando com botas pesadas até os homens do rei virarem uma confusão sangrenta nas pedras e na palha molhada.
Uns 100 metros além da ponte, Jack parou e ofegou, com as mãos pousadas no cabo do machado e a lâmina semienterrada na lama espessa. A tempestade estava exatamente sobre a cidade, e a chuva caía com força suficiente para açoitar a pele exposta. Ele bufava e estava meio tonto ao olhar para trás, o rosto exibindo um triunfo selvagem. A ponte não os havia segurado. Exultou ali parado, com homens lhe dando tapas nas costas e rindo sem fôlego. Estavam dentro.
— Soldados a caminho! — berrou Ecclestone ali perto.
Jack ergueu a cabeça, mas não conseguia identificar a direção através da chuva e das nuvens que trovejavam no céu.
— Por onde? — gritou Jack.
Ecclestone apontou para leste, na direção da Torre, enquanto Paddy aparecia ao lado de Jack. Metade de seu exército estava na ponte ou ainda do outro lado do rio, esperando impaciente para se unir a eles na cidade.
— Precisamos avançar mais, Jack — declarou Paddy. — Para dar espaço ao restante.
— Eu sei — respondeu Cade. — Só me deixe respirar e pensar.
Desejou ter uma bebida para afastar o frio. Além desse pensamento, avaliou o solo em que estaria pisando, algo que conseguia prender os pés de um jeito tão repugnante. Torrentes haviam começado a correr pelas ruas, brilhando onde a lua as atingia por entre as nuvens. Alguns homens tinham parado com ele; outros empurravam e praguejavam entre si para chegar a seu lado. Embora sua audição não fosse tão boa quanto a de Ecclestone, Cade imaginou que realmente conseguia ouvir o tilintar de homens de armaduras se aproximando naquele momento. Teve uma visão súbita do Guildhall de Londres que Woodchurch descrevera e tomou sua decisão. Precisava pôr todos os seus seguidores na cidade, e Deus sabia que a Torre esperaria mais um pouco.
— Woodchurch! Onde está você?
— Aqui, Jack! Cuidando de sua retaguarda, como sempre — respondeu Thomas com alegria. Ele também exultava com o sucesso.
— Mostre-me o caminho para o Guildhall, então. Quero ter uma palavra com aquele prefeito. Tenho uma ou duas reclamações a fazer! Avante agora, Homens Livres! Avante, comigo! — vociferou Jack, voltando repentinamente a se divertir.
Os homens riram, ainda zonzos por terem sobrevivido à corrida brutal pela ponte. Bons planos mudam, recordou Jack. O Guildhall serviria de base para planejar o restante da noite.
Enquanto marchava, Jack agradeceu à luz fraca da lua. As casas pareciam perto demais por todos os lados quando ela atravessava nuvens apressadas. Naqueles momentos, não conseguia ver quase nada da cidade a sua volta. Era escura e sem fim, um labirinto de ruas e becos em todas as direções. Ele tremeu ao pensar naquilo, sentindo como se tivesse sido engolido.
Foi com alívio que chegou a um pequeno cruzamento, a 400 metros da ponte. Como uma bênção, a lua pelejou para se libertar das nuvens e ele conseguiu enxergar. Havia uma pedra no centro, um grande pedregulho que parecia não ter nenhum propósito senão marcar o ponto entre as ruas. Jack descansou nele os braços e olhou para os homens que vinham atrás pela rua. Teve a ideia de reuni-los em alguma praça aberta e fazê-los dar vivas pelo que conseguiram. Simplesmente não havia espaço para isso, e ele balançou a cabeça. Todas as portas em torno do cruzamento estavam trancadas, todas as casas cheias de cabeças nas janelas que cochichavam e observavam dos andares superiores. Ele ignorou o povo amedrontado que fitava a rua.
Rowan encontrara uma tocha em algum lugar, um embrulho de trapos amarrado na ponta de uma estaca e mergulhado em óleo — talvez uma das lâmpadas a óleo da Ponte de Londres, Jack não sabia. Agradeceu à luz amarela quando Woodchurch e o filho o alcançaram.
Thomas riu entre os dentes ao ver Jack Cade descansando na pedra.
— Sabe o que é isso aí, Jack?
O tom de voz dele era intrigante, e Jack olhou novamente a pedra sob suas mãos. Parecia bastante comum, embora ele se espantasse outra vez ao encontrar algo natural tão grande marcando um cruzamento numa cidade.
— É a Pedra de Londres, Jack — continuou Thomas, com assombro na voz. Tinha de haver alguma ação do destino que levara Jack Cade por ruas que não conhecia até aquele ponto exato.
— Bom, isso eu posso ver, Tom. É uma pedra e está em Londres. E daí?
Woodchurch riu, estendendo a mão e dando um tapinha na pedra para dar sorte.
— É mais antiga que a cidade, Jack. Alguns dizem que era um pedaço da pedra do rei Artur, aquela que se partiu quando ele puxou a espada. Outros dizem que foi trazida de Troia para fundar aqui uma cidade junto ao rio. — Ele balançou a cabeça, com divertimento. — Ou pode ser apenas a pedra com que medem as distâncias de toda a Inglaterra. Seja como for, você está com a mão no frio coração de pedra de Londres, Jack.
— Estou mesmo? — perguntou Jack, olhando o pedregulho com novo apreço. Num impulso, recuou e girou o machado, fazendo a lâmina deslizar e soltar fagulhas pela superfície. — Então é um bom lugar para declarar que Jack Cade entrou em Londres com seus Homens Livres! — Ele deu uma gargalhada. — O homem que será rei!
Os homens em volta ficaram sérios, e suas vozes se calaram.
— Tudo bem, tudo bem, Jack — murmurou Woodchurch. — Se sobrevivermos até amanhã, por que não?
— Cristo, quanta imaginação — disse Jack, balançando a grande cabeça. — Mostre-me as ruas que levam mais depressa ao Guildhall, Tom. Isso é o que importa.