Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 41 de 43

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Pássaro da Tempestade

Nota histórica

 

Eduardo III criou apenas três duques em seu longo reinado. Os condes eram os companheiros do rei, aliados próximos que forneciam exércitos de cavaleiros, arqueiros e homens de armas em troca de vastas extensões de terra e do “terceiro pêni” das rendas geradas. O título de “duque” era novo para Eduardo III, e os limites de seu poder não tinham sido testados. Dois filhos de Eduardo morreram antes dele, de modo que o único duque em seu leito de morte era, de fato, João de Gaunt, duque de Lancaster. Os dois outros filhos ainda eram chamados pelos títulos anteriores. Edmundo de Langley, conde de Cambridge, receberia do sobrinho, o rei Ricardo II, o título de duque de York. Tomás de Woodstock era conde de Buckingham na época da morte do pai. Também receberia de Ricardo II o título de duque. Aqueles cinco filhos de Eduardo III seriam as sementes do conflito entre as casas nobres que passou a ser chamado de Guerra das Rosas.

O filho mais velho de Eduardo III pode ter morrido antes do rei, mas o Príncipe Negro ainda era o herdeiro real, e seu filho se tornou o rei Ricardo II em 1377, com apenas 10 anos. O regente de Ricardo durante a menoridade foi o tio João de Gaunt. Quando Gaunt morreu, em 1399, o rei Ricardo tinha 32 anos e fora um monarca impopular e malsucedido. Para afastar a ameaça da linhagem de Gaunt ao trono, Ricardo exilou e depois deserdou um certo Henrique de Bolingbroke — filho de João de Gaunt. Henrique voltou do exílio com um exército, invadiu a Inglaterra e depôs Ricardo, tornando-se rei Henrique IV. Seu filho talvez seja o mais famoso dos reis guerreiros da Inglaterra.

Henrique V triunfaria contra probabilidades apavorantes em Azincourt, na França. Bem-sucedido em casa e no exterior, a linhagem de Lancaster de João de Gaunt ficaria estabelecida na história caso ele tivesse vivido mais um pouco. Mas Henrique V adoeceu e faleceu em 1422, com 35 anos. Deixou um filho de 9 meses para ser o rei Henrique VI, com regentes para governar até que o bebê chegasse à maioridade. Infelizmente para a linha de Lancaster, Henrique VI era muito diferente do rei guerreiro. Foi o último monarca inglês que se poderia chamar corretamente de rei da França, embora o título ainda fosse usado por reis e rainhas ingleses e depois britânicos até 1801. Como descrevi aqui, no reinado de Henrique VI houve a perda de todos os territórios franceses, a não ser a fortaleza de Calais.

Foi quando eu examinava os detalhes do plano para abrir mão de Maine e Anjou em troca de um armistício de vinte anos e uma esposa para Henrique VI que percebi que tinha de haver uma mente condutora por trás de um plano tão absurdo. Embora o nome do indivíduo não tenha sobrevivido, alguém precisava conhecer a aristocracia francesa e a casa de Anjou nos mínimos detalhes, além de ser suficientemente íntimo do rei Henrique VI para influenciar os grandes eventos. Assim nasceu Derry Brewer. Um homem parecido com ele deve ter existido.

Carlos VII, o rei francês, não daria uma filha ao rei inglês. Vira duas irmãs serem mandadas para o outro lado do canal, e o resultado fora o fortalecimento da pretensão inglesa a seu reino. Mas as únicas outras princesas em solo francês estavam em Anjou, uma família sem amor aos ingleses. Renato de Anjou foi levado à mesa de negociações pela única coisa que lhe importava: a devolução da terra de seus ancestrais.

Como curiosidade, o cronista francês Bourdigné realiza uma descrição angustiante da prisão e da condenação por blasfêmia de um judeu idoso na área controlada por Renato de Anjou. Embora a comunidade judaica apelasse ao próprio duque, a execução aconteceu e o homem foi esfolado vivo.

Nota sobre o “casamento” francês de Margarida de Anjou: é verdade que Henrique VI não estava presente na primeira cerimônia, que presumivelmente deveria ser chamada de “noivado”, uma vez que ele não estava na igreja. William de la Pole, lorde Suffolk, disse os votos em nome de Henrique e pôs o anel no dedo de Margarida, então com 14 anos. William de la Pole já era casado com Alice Chaucer, neta do escritor Geoffrey Chaucer. Na verdade, a cerimônia aconteceu na Igreja de St. Martin, em Tours, e não na catedral. Não sabemos por que Henrique VI não compareceu, embora pareça sensato desconfiar que seus lordes não o quisessem perto do rei francês, do território francês nem de soldados franceses. Durante quatro anos após o casamento, cortesãos e lordes ingleses prometeram um encontro entre os dois reis, e adiaram o evento incontáveis vezes.

Sempre foi um problema na ficção histórica os fatos reais acontecerem num período muito mais longo do que eu gostaria. Por exemplo, a retomada da Normandia inglesa pelos franceses levou um ano inteiro. O casamento entre Margarida e o rei Henrique foi em abril de 1445. Embora todas as pretensões de Henrique a Anjou e Maine fossem abandonadas como parte do contrato de casamento, Maine foi enfim retomado depois de um armistício de cinco anos, em 1450. Ocasionalmente, comprimi ou alterei as datas dessa maneira porque anos de negociações tortuosas ou “nada acontecendo” não criam capítulos interessantes. Durante o armistício, William de la Pole foi o principal negociador, indo várias vezes à França. O mandato do duque de York como tenente do rei na França terminou em 1445. Edmundo Beaufort, lorde Somerset, foi nomeado seu sucessor em 1447, embora realmente só chegasse lá em fevereiro de 1448. Nos anos intermediários, dei o cargo a Suffolk.

Da mesma maneira, achei necessário reduzir o tempo entre a rebelião de Cade e a ascensão de York a Defensor do Reino. Na realidade, algo como três anos monótonos se passaram, com a saúde do rei Henrique piorando e os aliados de York cada vez mais fortes e ousados.

Não consegui encontrar registros dos votos reais proferidos por Henrique VI e Margarida de Anjou, por isso aproveitei detalhes bem-comprovados de casamentos nobres desde o século XV. Sabemos que Henrique usou tecido dourado e que o anel de rubi que pôs no dedo de Margarida era o mesmo que usara em sua coroação. Os votos são reproduzidos com base num formulário usado na época, com uma leve modernização da escrita. Envolver os noivos num xale amarrado com um cordão é um detalhe correto. Também é verdade que não havia bancos na igreja e que o altar ficava escondido da congregação por uma treliça. A proximidade a que se chegava do altar dependia da condição social. Henrique e Margarida realmente se casaram na Abadia de Titchfield, destruída no século XVI e reconstruída como mansão Tudor. Parte da antiga abadia sobrevive como portaria. De lá, Margarida foi para Blackheath, em Londres, e entrou na cidade numa procissão que atravessou a Ponte de Londres e ali se deteve para assistir a desfiles em sua homenagem. Ela foi finalmente coroada na Abadia de Westminster. Não há registro da presença de Henrique a seu lado nessa cerimônia.

Não resisti a usar o nome do barão Strange. O restante daquela história francesa é ficcional, embora baseada em fatos verdadeiros. Os colonos ingleses de Maine resistiram à ocupação francesa e começaram um conflito desastroso que terminou com a perda de toda a Normandia até Calais. O título de barão Strange existia na época, embora mais tarde tenha ficado em suspenso durante três séculos. Atualmente há um barão Strange, e uma das coisas estranhas de situar um romance na Inglaterra é que os personagens principais têm descendentes vivos ainda hoje. Mesmo assim, o nome era simplesmente bom demais para ser omitido. Lorde Scales também esteve envolvido na defesa de Londres.

Havia açúcar na Inglaterra desde as Cruzadas do século XII. No século XIV, era importado do Oriente Médio, especificamente do Líbano, para a Europa e para a Inglaterra. Seria uma guloseima cara quando comparado ao mel. A referência a sangue e açúcar dados a crianças é uma antiga guloseima da Europa continental, hoje fora de moda, mas ainda popular há poucas gerações.

Nota sobre braguilhas: embora geralmente associadas ao fim da época elizabetana, as primeiras braguilhas entraram na moda nos séculos XIV e XV. Conta-se que Eduardo III mandou fazer uma enorme durante a Guerra dos Cem Anos e ordenou que seus cavaleiros fizessem o mesmo. Diz a lenda que os franceses ficaram apavorados com cavaleiros tão “bem-equipados”.

Também vale notar que o Palácio de Westminster moderno devia ser bem diferente no século XV. Na época de Henrique VI, ainda era uma importante residência de monarcas. As câmaras dos Lordes e dos Comuns existiam como entidades políticas, embora, em geral, para controlar a coleta de impostos e assessorar o rei. A Câmara dos Comuns tinha 280 membros em 1450, formada por cavaleiros dos Condados (dois de cada um dos 37 condados) e 190 membros “burgueses” (dois de cada cidade ou burgo e quatro de Londres). Sem lugar permanente para chamar de seu, eles se reuniam com mais frequência na octogonal Sala do Capítulo, anexa à Abadia de Westminster, do outro lado da rua do Palácio de Westminster. A Câmara Pintada do palácio também era usada, e aqui a representei como o eixo da atividade administrativa em que se transformava aos poucos. Tomei certa liberdade com as orações cristãs descritas no início de uma sessão parlamentar. A oração formal foi adotada mais tarde, e misturei as palavras modernas das câmaras dos Lordes e dos Comuns. Sem dúvida é verdade que haveria uma oração no século XV, mas acredito que as palavras exatas sejam desconhecidas.

A Câmara dos Lordes era um grupo bem menor, formado por 55 lordes temporais — duques, viscondes, condes e barões — e por lordes espirituais — os bispos. Reuniam-se na Câmara Branca do Palácio de Westminster e as assembleias eram supervisionadas pelo lorde chanceler. No século XV, Westminster também era sede de tribunais, como o King’s Bench e a Court of Common Pleas — que cuidavam, respectivamente, de processos relativos ao rei e a outros indivíduos —, e devia ser um lugar movimentado, com juízes, advogados e grande quantidade de lojas.

O cardeal Henrique Beaufort foi de fato o primeiro-ministro no fim da vida, embora esse cargo não existisse formalmente na época. Com isso quero dizer que ele era o homem mais importante da Câmara dos Comuns, com vínculo com a Diocese de Roma e elevada posição secular. Além de segundo filho de João de Gaunt, Beaufort também fora lorde chanceler de Henrique IV e Henrique V e presidira tanto os tribunais quanto a assembleia de lordes. É verdade que Beaufort decidiu o destino de Joana d’Arc e, por estranha coincidência, realmente nasceu em Anjou, na França. Eu não poderia omitir da trama um personagem com histórico tão fascinante, ainda que tenha tomado certa liberdade com a história, mantendo-o vivo depois de 1447. O homem real não poderia ter se envolvido com a acusação de traição contra William, lorde Suffolk, em 1450.

Sir William Tresham era o orador da Câmara dos Comuns e, em 1450, já servira a 12 parlamentos. A Torre das Joias, onde descrevi seu encontro com Derry Brewer, está de pé até hoje. Foi construída originalmente para guardar os bens de valor do rei Eduardo III, com fosso, muros altos e guardas. É verdade que William, lorde Suffolk, ficou preso lá durante o julgamento por traição. O texto de uma carta que escreveu ao filho John ainda existe e é fascinante como exemplo dos conselhos de um homem que achava que seria executado.

Às vezes a ficção histórica exige preencher lacunas e partes inexplicadas da história. Como a Inglaterra pôs em campo 50 mil homens na batalha de Towton, em 1461, mas só conseguiu mandar 4 mil para evitar a perda da Normandia 12 anos depois? Minha suposição é que a agitação e as revoltas na Inglaterra causaram tanto medo nas autoridades que a maior parte do exército ficou em casa. Afinal de contas, a rebelião de Jack Cade foi apenas um dos levantes mais graves. A fúria com a perda da França, somada aos tributos elevados e à noção de que o rei era fraco, deixou a Inglaterra à beira de um desastre total nessa época. Sabendo-se que Cade invadiu a Torre de Londres, talvez a corte e o parlamento estivessem certos ao manter em casa soldados que poderiam ter sido muito úteis na França.

É difícil identificar a doença do rei Henrique VI a uma distância de cinco séculos e meio. Dado seu colapso final, é sensato supor que houve avisos e sintomas antes daquele evento desastroso. As descrições do período indicam que ele tinha vontade fraca, era “simples” e influenciável. É claro que qualquer homem pode ter vontade fraca, mas seu prolongado estado semicatatônico indica algum tipo de dano físico. Não importa a causa; ele não era o filho que o pai Henrique V deveria ter. Embora a Guerra das Rosas tivesse muitos elementos desencadeadores, um deles foi a total fraqueza de Henrique como rei.

É verdade que ele estava presente em Westminster quando William de la Pole foi acusado de traição por seu papel na perda da França. Como era típico na época, uma longa lista de crimes foi preparada e lida. Lorde Suffolk a negou inteira. É interessante notar que o rei Henrique não proferiu seu veredito. Não foi um julgamento formal, embora 45 lordes (ou seja, praticamente todos os nobres da Inglaterra) estivessem presentes em seus aposentos pessoais em Westminster. O veredito foi lido pelo chanceler do rei, e Suffolk foi eLivros por cinco anos. Uma leitura possível dos fatos é que William de la Pole seria o bode expiatório perfeito para esconder o envolvimento do rei no armistício fracassado. O fato de ter recebido uma pena tão leve indica que Henrique ficou a seu lado até o fim.

Isso não bastava para os acusadores de William de la Pole. O Parlamento queria que lorde Suffolk fosse o único responsável. Na sessão formal seguinte, foi apresentado um projeto de lei para declará-lo formalmente traidor, derrotado por pouco na votação. Lorde Suffolk conseguiu fugir à noite, mal escapando de uma turba revoltada.

Não tenho dúvida nenhuma de que o navio “pirata” que o abordou quando Suffolk deixou a Inglaterra estava a soldo de outra facção, ou mesmo do culpado mais provável, o próprio York. Suffolk foi decapitado no convés, enquanto piratas de verdade o teriam aprisionado para pedir um resgate, como era a prática da época. Foi um fim trágico para um homem decente que deu tudo de si pelo rei e pelo país.

A rebelião comandada por Jack Cade foi uma das muitas iniciadas por volta de 1450. Em parte, era um transbordamento da fúria e da tristeza com a perda dos territórios na França, que resultou em violentos ataques franceses ao litoral de Kent. A lista de queixas de Cade também incluía ser acusado pelo homicídio de William de la Pole no mar, além de injustiças e corrupção. É espantoso que Cade conseguisse reunir tantos milhares de homens irritados para marchar sobre Londres, forçando o rei a fugir da capital para Kenilworth. Algumas fontes calculam que havia até 20 mil seguidores.

Sabe-se muito pouco sobre Cade com exatidão. Podia ser irlandês ou inglês, e provavelmente John ou Jack Cade não era seu nome verdadeiro. Na época, era comum usar “Jack” quando o nome do filho era o mesmo do pai. Quando Cade enfiou a espada na Pedra de Londres na Cannon Street, disse que seu nome era Mortimer, e usava esse ou o de John Amendall. Seus homens realmente invadiram a Torre de Londres, passando pelas defesas externas e só não conseguindo entrar na Torre Branca, ao centro. Num julgamento semiformal no Guildhall, Cade e seus homens executaram lorde Say, tesoureiro do rei, e seu genro, William Crowmer. É verdade que Cade pôs a cabeça do xerife de Kent numa estaca. Mas aquela revolta foi mais do que uma mera rebelião de camponeses. A exigência mais famosa de Cade foi que o rei demitisse seus favoritos porque “seus lordes estão perdidos, sua mercadoria está perdida, suas terras, destruídas, o mar, perdido e a França, perdida”.

A fraqueza de Henrique não era um estado constante. Ocasionalmente, seu papel foi mais ativo do que lhe dei aqui, antes, durante e depois da rebelião de Cade. No entanto, é verdade que foi a rainha Margarida quem ficou em Londres e foi ela quem negociou o armistício e o perdão. No interesse da exatidão histórica, devo dizer que ela não estava na Torre de Londres quando esta foi invadida. Ficou em Greenwich, conhecido na época como o Palácio de Placentia. Também é verdade que perdoar os homens de Cade foi ideia e ordem sua. Cade concordou com o perdão. Fugiu quando as forças reais se reagruparam e só alguns meses depois o recém-nomeado xerife de Kent finalmente o pegou. Cade foi mortalmente ferido em sua última luta e morreu na viagem de volta a Londres. Seu cadáver foi enforcado, baixado e esquartejado antes que a cabeça fosse enfiada numa estaca na Ponte de Londres. Muitos outros rebeldes foram perseguidos e mortos no ano seguinte.

Nota sobre as rosas: um dos símbolos da casa de York é uma rosa branca. Ricardo de York também usava um falcão e um javali. Tanto Henrique VI quanto Margarida usavam um cisne como símbolo.

A rosa vermelha era um dos muitos símbolos heráldicos da casa de Lancaster (de João de Gaunt, duque de Lancaster). O conceito de uma guerra entre as rosas é uma invenção Tudor e não havia noção de branco contra vermelho na época. A verdadeira luta era entre as diversas linhagens masculinas de Eduardo III: homens de grande poder, todos em busca do trono. Mas foram as fraquezas do rei Henrique VI que deram ousadia a seus inimigos e mergulharam o país na guerra civil.

Conn Iggulden

Londres, 2013