Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 39 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 32

 

Uma leve chuva caía nas primeiras horas daquele dia de abril sobre o Parque de Caça de Windsor, pancadas frias e em rajadas que pouco faziam para reduzir o entusiasmo dos lordes que haviam se reunido por ordem do rei. Quanto a isso, Derry Brewer acertara, Margarida tinha de admitir, tremendo de leve. Ainda bocejando pelo pouco que dormira, olhou os vastos campos, com a mancha das florestas escuras além. Durante o reinado do pai de seu marido, as caçadas reais eram organizadas todo ano, com centenas de nobres descendo com seus criados até os campos do rei para caçar veados ou demonstrar sua habilidade com cães e falcões. Os banquetes que se seguiam ainda eram famosos, e, quando ela perguntara a Derry o que seria capaz de levar até os lordes Neville a Windsor, a resposta dele havia sido imediata e sem pensar duas vezes. Ela desconfiava que até uma caçada normal os atrairia, após ver tantos rostos corados e o orgulho satisfeito de homens, como o conde Salisbury, retornando com os criados carregados de lebres e faisões, ou o veado macho que lorde Oxford derrubara. O marido não caçava havia uma década, e os campos reais estavam repletos de presas. As duas primeiras noites tinham se passado em banquetes opulentos, músicos e dança para manter contentes as esposas enquanto os homens cortavam a carne suculenta que obtiveram, gabando-se e rindo ao recontar os eventos do dia. Fora um sucesso em tudo o que era importante — e a principal atração ainda estava por vir.

Margarida havia descido ao estábulo do castelo para ver os dois javalis cativos que soltariam naquela manhã. O duque Filipe da Borgonha mandara os animais de presente, talvez, em parte, para demonstrar sua tristeza pela morte de William de la Pole. Esse simples fato a fez abençoar o duque, embora a oferta de abrigo a William fizesse com que sempre pensasse nele como amigo. Os javalis machos eram os monarcas da floresta profunda, os únicos animais da Inglaterra capazes de matar os homens que os caçavam. Margarida tremeu com a lembrança dos corpos imensos e fedorentos e da fúria raivosa em seus pequenos olhos. Na infância, vira ursos dançarem em Saumur quando um circo ambulante fora a Anjou. Os porcos selvagens nas baias possuíam o dobro do tamanho daqueles animais, com cerdas tão grossas quanto o pelo castanho dos ursos e as costas largas como uma mesa de cozinha. Fazia sentido que, como presentes entre casas nobres, fossem belos exemplares da raça, mas nem assim estivera preparada para o enorme porte dos animais que roncavam, chutavam e batiam o focinho nas baias de madeira e faziam chover pó do telhado. Aos olhos de Margarida, eram tão parecidos com o suculento porco de um açougueiro quanto um leão se parece com um gato doméstico. O caçador-mor havia falado deles com assombro e tinha dito que cada um devia pesar 180 quilos, com um par de presas do tamanho do antebraço de um homem. Margarida vira a ameaça quase irracional dos animais que atacavam as baias com aquelas presas, roendo e raspando, furiosos por serem incapazes de alcançar seus captores.

Ela sabia que o conde Warwick passara a chamá-los de Castor e Pólux, os guerreiros gêmeos dos antigos contos gregos. Era de conhecimento geral que o jovem Ricardo Neville pretendia levar consigo para casa uma das cabeças, embora houvesse muitos outros que olhavam a grande curva das presas com prazer e desejo. Os javalis de verdade foram caçados até quase se extinguir na Inglaterra, e havia poucos homens na reunião de Windsor que já tivessem matado algum. Margarida teve de se controlar muito para não rir com os intermináveis conselhos trocados pelos homens sobre a questão, se era melhor usar os cães para mantê-los imóveis e depois buscar seu coração com uma flecha ou se uma lança entre as costelas seria mais eficaz.

Ela passou a mão pelo volume do ventre, sentindo de novo a intensa satisfação de estar grávida. Suportara a amargura de ver York ser nomeado herdeiro real, calada durante todo o tempo em que o Parlamento parecia estar certo ao se preparar para o pior. Então havia sentido os primeiros sintomas, e se virara de um lado para o outro diante de espelhos, convencida de que era sua imaginação. O volume aumentava a cada semana, uma maravilha para ela e uma resposta a mil preces fervorosas. Até o enjoo era um prazer enquanto o filho crescia. Só precisava, agora, que os condes da Inglaterra vissem os sinais, a curva do ventre significando que as jogadas de York não dariam em nada.

— Que seja um menino — murmurava consigo, como fazia várias vezes todos os dias. Ela sonhava com filhas, mas um filho garantiria o trono para o marido e sua linhagem. Um filho lançaria à escuridão Ricardo e Cecily York, com todas as suas conspirações em farrapos. A ideia lhe dava mais prazer do que conseguia exprimir, e percebeu que a mão segurava a taça com tanta força que as pedras preciosas em torno da borda deixaram marcas em sua palma.

Ricardo de York não havia sido convidado para a caçada em Windsor. Embora tivesse herdado o título de conde de March, foi o único dos 12 condes ingleses e “companheiros do rei” a não ser chamado para a caçada. Sem dúvida, seus aliados considerariam isso outro insulto a uma família antiga, mas mesmo assim ela tomara a decisão. Que pensassem e dissessem o que achassem melhor. Margarida não queria aquele homem nem sua fria esposa perto dela nem do marido. A rainha ainda culpava York pela morte de lorde Suffolk e, embora isso nunca tivesse sido provado, desconfiava de seu envolvimento na rebelião de Cade e em todos os danos e dores que provocara. A cabeça de Cade estava no alto de uma estaca, na mesma ponte que lutara para atravessar. Margarida fora até lá para vê-la.

Um dos criados se adiantou para encher sua taça, mas ela o afastou com um gesto. Durante meses, seu estômago se contorcia e protestava com praticamente tudo. Até vinho aguado tinha de ser tomado em pequena quantidade, e a maior parte de sua nutrição vinha na forma de caldos ralos que punha para fora com a mesma frequência com que os tomava. Não tinha importância. O que importava era que os lordes Neville viram sua gravidez, a prova de que a linhagem do rei Henrique ia continuar e não se perderia. O momento em que o conde Warwick ficara paralisado fitando-a no primeiro encontro dos dois no castelo fora um dos mais felizes de sua vida. Margarida sabia que já deviam ter avisado a York. O marido podia ter perdido a França, mas sobrevivera. O rei Henrique não havia sido esmagado por rebeliões, revoltas nem conspirações, nem mesmo pelo ataque à própria Londres. Seu marido vivia, e todos os planos e manobras de York, todos os subornos e lisonjas de aliados não deram em nada conforme seu ventre crescia.

Margarida se espantou ao ouvir um grande berro do lado de fora, e percebeu que os lordes reunidos tinham saído para ver os javalis serem libertos aos guinchos na floresta real. Os caçadores do rei perseguiriam os animais até as profundezas da floresta e depois ficariam de olho neles enquanto os caçadores montavam e preparavam armas e cães. Ela já conseguia escutar o alarido das esporas das botas dos homens que desciam as escadas. Era fácil imaginar a cena em que nobres empolgados gritavam e brincavam uns com os outros, pegando carnes frias nas mesas para quebrar o jejum.

Com o tumulto ruidoso lá embaixo, Margarida não ouviu o marido entrar na sala. Saiu de seu devaneio com um movimento brusco quando ele foi anunciado pelo mordomo, e se levantou, arfando de leve com o esforço. Henrique estava pálido como sempre, embora ela o achasse um pouco menos magro. Ficou contente ao ver que não havia ataduras na mão esquerda, onde a ferida enfim havia sarado. Restara uma marca rosada como uma queimadura, áspera e dura comparada à maciez do restante da pele. Ainda havia ataduras na palma da mão direita, um envoltório apertado de pano branco trocado e limpo toda manhã. Mesmo assim, ela ficava contente com qualquer pequena melhora.

O rei Henrique sorriu ao ver a esposa. Beijou a testa dela e depois a boca, os lábios secos e quentes.

— Bom dia, Margarida — saudou ele. — Dormiu bem? Tive tantos sonhos! Mestre Allworthy me deu um novo frasco que me trouxe as visões mais estranhas.

— E eu escutaria o relato de todas elas, meu marido — respondeu Margarida —, mas a grande caçada está começando. Seus homens soltaram os javalis e os lordes estão se reunindo para partir.

— Já? Mal me levantei, Margarida. Não comi nada. Mandarei trazerem meu cavalo. Onde está o mestre de estábulos?

Ao ver que Henrique se agitava, Margarida passou as mãos na testa dele, um toque frio que sempre parecia acalmá-lo. Ele se tranquilizou, os olhos ficando vagos.

— Você ainda não está em condições de cavalgar com eles, Henrique. Seria se arriscar a uma queda ou ferimento, caso a fraqueza lhe venha de repente. Eles entendem, Henrique. Os javalis são seu presente para eles, que são gratos pela caça.

— Bom... Bom, Margarida. Esperava rezar na capela hoje, e não via como encontrar tempo.

Ele se deixou guiar por ela até uma cadeira numa mesa comprida. Um criado a segurou para que Henrique se sentasse; o rei se instalou e um prato de sopa fumegante foi posto diante dele. Pegou uma colher e olhou a sopa desconfiado enquanto o criado de Margarida a ajudava a se sentar a seu lado.

Nos andares inferiores, Margarida ainda conseguia ouvir as vozes ruidosas dos lordes, estrondeando com os preparativos. Lá fora, na garoa, o latido dos cães aumentava em intensidade e os animais sentiam que logo seriam soltos para correr atrás dos javalis. Durante a noite, metade dos condes que ela convidara havia levado os melhores cães até o estábulo para sentir o cheiro de Castor e Pólux. Pelo ruído resultante, os cachorros tinham chegado quase a um frenesi com a proximidade das feras monstruosas. Ela dormira pouco com o ruído, mas tinha sorrido mesmo assim ao cochilar.

Margarida observou o marido levar a colher de sopa à boca, os olhos completamente vazios, como se visse alguma outra paisagem em meio aos talheres e aos pratos quadrados de madeira. Os terrores que quase o destruíram tinham se reduzido no ano posterior à rebelião de Cade. Ela se assegurara de que Henrique visse e compreendesse que a cidade de Londres estava a salvo e em paz novamente, pelo menos por algum tempo.

Henrique baixou a colher de repente, levantando-se.

— Tenho de ir até eles, Margarida. Como anfitrião, preciso lhes desejar sorte e boa caça. Os javalis já foram soltos?

— Foram, meu marido. Sente-se, está tudo sob controle.

Ele voltou a se sentar, embora a rigidez de Margarida se esvaísse ao vê-lo remexendo os talheres, como um menino a quem negassem a oportunidade de correr para fora de casa. Ela ergueu os olhos, divertida e indulgente.

— Vá então, meu marido, se acha que deve. Mordomo! O rei precisará de uma capa. Faça-o vesti-la antes de sair na chuva.

Henrique se levantou rapidamente, inclinando-se para beijá-la antes de sair quase correndo da sala. Margarida sorriu então, instalando-se para tomar a própria sopa antes que esfriasse demais.

A reunião de condes e criados na entrada do castelo poderia lembrar os preparativos de uma batalha não fossem os risos e a boa disposição geral. Sob um grande arco de pedra, fora da chuva, Ricardo Neville, conde de Warwick, discutia táticas com seus caçadores e o pai, enquanto três de seus homens preparavam quatro cavalos e uma matilha de cães selvagens presos que rosnavam e latiam uns para os outros de empolgação. Os falcões de Warwick não estavam presentes naquela manhã. Todas as valiosas aves estavam encapuzadas, sendo cuidadas no aposento dos nobres. Ele não tinha interesse em aves e peles naquela manhã, apenas nos dois nobres javalis que perambulavam em algum lugar dos 5 mil acres de prados e mata fechada do rei. Os escudeiros de pai e filho estavam prontos com suas armas, e os cães encurralariam os javalis, mordendo sua carne e segurando-os para a matança.

O conde Salisbury olhou o filho, vendo seu rosto corado apesar do dia frio.

— Adiantaria lhe dizer que tome cuidado?

O filho riu, balançando a cabeça enquanto conferia se as cilhas das montarias estavam bem justas.

— O senhor os viu. As cabeças combinam com a lareira de meu castelo, não acha?

O homem mais velho sorriu com tristeza, sabendo que o filho decidira ser o primeiro a alcançar os javalis, não importasse o risco. Quando os arautos do rei tocassem suas trombetas, todos partiriam, disparando pelo campo aberto e se espalhando por entre as árvores.

— Fique de olho naqueles rapazes Tudor — preveniu o pai de repente. Afastou com um gesto um dos caçadores e cruzou as mãos para ajudar o filho a montar. — São jovens, e aquele Edmundo é conde há tão pouco tempo que ainda está meio verde. Fará o máximo possível para agradar ao rei, não duvido. E cuidado com Somerset. Aquele homem é destemido até a estupidez. — Contra o bom senso, ele não pôde deixar de acrescentar outro aviso. — Não fique entre nenhum dos favoritos do rei e o javali, rapaz, é só isso. Não se estiverem com uma lança para atirar ou uma flecha na corda. Entendeu?

— Entendi, senhor, mas voltarei com uma daquelas cabeças ou com ambas. Não há nenhum cavalo aqui que se iguale ao meu. Chegarei àqueles javalis antes do restante. Que eles se preocupem então!

Alguns condes mais velhos contariam a caça como sua, mesmo que os criados derrubassem o javali. Warwick pretendia dar o golpe ele mesmo, se possível, com uma das três lanças que levara para a ocasião. Eram mais altas do que ele, com lâminas tão afiadas que poderia se barbear com elas. O pai as entregara a ele, balançando a cabeça, divertido, para esconder a preocupação.

— Estarei logo atrás de você, com Westmoreland. Quem sabe, talvez eu consiga acertar com meu arco quando vocês, filhotinhos, se cansarem. — Ele sorriu enquanto falava, e o filho deu um riso abafado.

Ambos os lordes Neville viraram a cabeça quando as conversas pararam em volta e os criados se ajoelharam nos seixos. O rei Henrique saiu ao pátio chuvoso, com o mordomo nos calcanhares ainda tentando cobri-lo com uma capa grossa.

Henrique parou e olhou em torno a reunião de uma dúzia de condes com seus criados de caça, quarenta ou cinquenta homens no total, com outros tantos cavalos e cães fazendo um barulho terrível em conjunto. Um a um, os nobres avistaram o rei e se curvaram, baixando a cabeça. Henrique sorriu para todos, a chuva caindo com mais força, grudando seus cabelos na cabeça. Ele, finalmente, aceitou a capa, embora já estivesse escura e pesada.

— Por favor, levantem-se. Desejo-lhes tudo de bom, meus senhores. Só sinto muito não poder me unir aos senhores hoje.

Ele olhou com desejo os cavalos ali perto, mas Margarida fora bastante clara.

— Boa sorte a todos, mas esperarei ver ao menos uma daquelas cabeças trazida de volta por meus irmãos.

Os homens reunidos riram, olhando para onde estavam Edmundo e Jasper Tudor, orgulhosos por terem sido mencionados. Quando chegaram à corte vindos do País de Gales, Henrique quisera transformar ambos em condes, homenageando os filhos do breve segundo casamento da mãe. Mas, por serem meio franceses e meio galeses, não havia uma gota de sangue inglês em nenhum dos dois. O Parlamento, relutante, fora forçado a lhes agraciar por estatuto com os direitos de um inglês para que Henrique pudesse conceder propriedades a seus meios-irmãos Tudor. A visão deles lhe trouxe à mente a lembrança do rosto da mãe. Lágrimas surgiram sem aviso em seus olhos, lavadas no mesmo instante pela chuva que caía.

— Lamento apenas que nossa mãe não esteja viva para vê-los, mas ela estará observando, eu sei.

O silêncio se estendeu e ficou desconfortável, pois os 12 condes não podiam partir para a caçada sem receberem licença. Henrique os fitava com olhos vazios, esfregando a testa ao sentir que uma dor de cabeça começava. Alguma consciência lhe voltou devagar e ele ergueu os olhos.

— Verei todos vocês no banquete de hoje à noite para brindar ao vitorioso na caçada.

Os condes e seus homens deram um grande viva a isso, e Henrique sorriu de prazer antes de voltar ao castelo. Tremia, e os lábios estavam com um tom azulado pelo frio. O mordomo que levara a capa estava pálido de desapontamento, sabendo que ouviria uma reprimenda por deixar o rei na chuva.

À luz de uma lâmpada, Henrique tremia de frio. Tinha um cobertor sobre as pernas para se manter aquecido e tentava ler, remexendo-se desconfortável na poltrona. Desde o discurso daquela manhã, a cabeça pulsava de dor. Tomara um pouco de vinho no banquete, além de beliscar o grande quarto de porco que fumegava em seu trincho. Ricardo de Warwick se embebedara descontroladamente após o sucesso na caçada. Em meio à dor de cabeça, Henrique sorriu com a lembrança, esfregando a ponte do nariz. Edmundo Tudor pegara Castor, e Pólux fora para Warwick. Três cães tinham morrido, abertos da cabeça aos pés pelas presas dos javalis. Dois caçadores de Warwick também se feriram. Recebiam os cuidados de Allworthy, costurados e medicados para suavizar a dor.

Na cabeceira da mesa, Henrique concedera honras iguais no banquete, brindando à saúde de Warwick e Edmundo Tudor. Margarida apertara o joelho dele debaixo da toalha e sua felicidade havia sido completa. Ele temera, durante muito tempo, que seus condes implicassem entre si ou até fossem às vias de fato. Pareceram bastante irritados durante um ano ou mais. Mas haviam bebido e comido de bom humor, cantando com músicos e assoviando para os atores e malabaristas que trouxera para diverti-los. A caçada tinha sido um sucesso, Henrique sabia. Margarida ficara contente, e até o velho Ricardo Neville desfizera a expressão azeda pelo orgulho de ver o filho homenageado.

Henrique afastou os olhos da leitura, preferindo descansá-los nas florestas escuras além dos vidros da janela. A meia-noite passara havia muito, mas ele não conseguia dormir com a cabeça latejando e a pressão em torno da órbita do olho direito. Só precisava aguentar até o sol nascer e poderia sair de seus aposentos. Pensou por um momento em chamar Margarida, porém se lembrou de que ela estaria há muito dormindo. As grávidas precisavam dormir, tinham lhe dito. Henrique sorriu, espiando de novo a página, que ficou fora de foco enquanto a fitava.

No silêncio, o rei soltou um pequeno gemido. Reconhecia os passos que se aproximavam, soando cada vez mais perto no assoalho de madeira polida. Henrique ergueu os olhos com desalento quando mestre Allworthy entrou, trazendo a volumosa bolsa de couro. Com a capa preta e os sapatos pretos de verniz, o médico mais parecia um padre.

— Não o chamei, doutor — avisou Henrique, hesitante. — Estou descansando, como vê. Não pode ser hora de outro frasco.

— Vamos, vamos, Vossa Graça. Seu mordomo me disse que o senhor deve ter pegado uma febre, andando por aí na chuva. Sua saúde está a meus cuidados e para mim não é problema nenhum cuidar do senhor.

Allworthy estendeu a mão e apertou a palma contra a testa de Henrique, murmurando para si:

— Quente demais, como eu desconfiava.

O médico, balançando a cabeça em desaprovação, abriu a bolsa e arrumou as ferramentas e os frascos de seu ofício, verificando cada um deles com atenção e ajustando a posição até estarem arrumados como queria.

— Acho que gostaria de ver minha esposa, Allworthy. Desejo vê-la.

— É claro, Vossa Graça — respondeu o médico sem muita atenção. — Logo depois de sangrá-lo. Que braço prefere?

Apesar da raiva crescente, Henrique estendeu o braço direito. Era preciso força de vontade para resistir à falação de Allworthy, e ele não a encontrava. Deixou o braço pender mole e Allworthy arregaçou sua manga e tateou as veias. Com cuidado, o médico dispôs o braço sobre o colo do rei e se virou para seus preparativos. Enquanto Henrique olhava o nada, Allworthy lhe passou uma pequena bandeja de prata com algumas pílulas enroladas à mão na superfície polida.

— Tantas — murmurou Henrique. — O que são hoje?

O médico mal parou ao verificar o fio da cureta pronta para mergulhar numa veia.

— Ora, são para a dor, Vossa Graça! O senhor quer que a dor vá embora, não quer?

Uma expressão de intensa irritação cruzou o rosto de Henrique ao ouvir a resposta. Uma parte dele detestava ser tratada como criança. Mesmo assim, abriu a boca e deixou o médico colocar as pílulas amargas em sua língua para serem engolidas. Allworthy passou ao rei um vaso de cerâmica contendo um dos líquidos repugnantes de sempre. Henrique conseguiu dar um pequeno gole antes de fazer uma careta e afastá-lo.

— De novo — insistiu Allworthy, fazendo o recipiente retinir ao ser pressionado contra os dentes do rei.

Um pouco do líquido escorreu pelo queixo de Henrique e ele tossiu, engasgado. O braço nu subiu num solavanco e derrubou a vasilha com grande estrondo ao se estilhaçar em pedaços no chão.

Allworthy franziu a testa e ficou um instante completamente imóvel, até controlar a indignação.

— Trarei outro, Vossa Graça. Quer ficar bom de novo, não quer? É claro que quer. — Ele foi mais grosseiro do que precisava ao usar um pano para limpar a boca do rei, deixando rosada a pele em torno dos lábios de Henrique.

— Margarida — disse Henrique com clareza.

Allworthy ergueu os olhos com irritação quando um criado encostado à parede do outro lado se mexeu. Ele não havia notado o homem ali de pé em posição de sentido.

— Sua Graça não deve ser incomodada! — ralhou o médico para o outro lado do quarto.

O criado interrompeu a corrida, mas por pouco tempo. Num conflito de autoridade, o melhor era obedecer às ordens do rei e não às do médico. Allworthy murmurou algo quando o homem sumiu com passos ruidosos pelos corredores da ala leste.

— Agora, metade da casa será acordada, não duvido. Ficarei para conversar com a rainha; não se preocupe. Agora, o braço outra vez.

Henrique olhou para o outro lado enquanto Allworthy cortava uma veia no interior do cotovelo e espremia a carne até um bom fluxo de sangue ser estabelecido. O médico espiou com atenção a cor, segurando uma vasilha sob o cotovelo do rei que se enchia lentamente.

Margarida chegou antes que o sangramento terminasse, vestida com uma camisola e uma capa grossa sobre os ombros.

O doutor Allworthy fez uma reverência quando ela entrou, sensível à autoridade da rainha e, ao mesmo tempo, muito seguro da sua própria.

— Sinto muitíssimo que Vossa Alteza Real tenha sido incomodada a esta hora. O rei Henrique ainda não está bem. Sua Graça chamou seu nome e temo que o criado...

Allworthy se calou quando Margarida se ajoelhou ao lado do marido, sem dar sinais de ter ouvido uma só palavra dita pelo médico. Em vez disso, ela olhou com nojo a vasilha que se enchia devagar.

— Não está bem, Henrique? Estou aqui agora.

Henrique afagou a mão de Margarida, consolando-se com o toque lutando contra o cansaço que caíra sobre ele.

— Sinto muito tê-la acordado, Margarida — murmurou. — Estava sentado no silêncio e então Allworthy chegou, e eu quis que você ficasse comigo. Talvez eu devesse dormir.

— É claro que deveria, Vossa Graça! — exclamou Allworthy com firmeza. — De que outro modo poderia melhorar? — Ele se virou para Margarida e se dirigiu a ela. — O criado não deveria ter corrido até a senhora, milady. Eu lhe disse isso, mas ele não me deu ouvidos.

— O senhor se enganou — respondeu Margarida instantaneamente. — Se meu marido lhe disser que vá me buscar, largue sua bolsa e corra, mestre Allworthy!

Ela nunca gostara do pomposo médico. O homem tratava Henrique como a um idiota da aldeia, pelo que Margarida podia ver.

— Não sei dizer — respondeu Henrique a uma pergunta que ninguém lhe fizera.

Abriu os olhos, mas o quarto parecia se mover a sua volta enquanto os sentidos flutuavam nos ácidos que estavam em seu sangue. De repente, engasgou, a boca se enchendo de bile verde. Margarida arfou de horror quando o líquido com cheiro amargo se derramou por seus lábios.

— A senhora está cansando o rei, milady — disse Allworthy, mal ocultando a satisfação. Usou o pano para recolher a lama fina que saía da boca do rei, limpando com força. — Como médico real...

Margarida lançou um olhar tão furioso que Allworthy corou e se calou. Henrique continuou engasgado, gemendo, o estômago se apertando e se esvaziando. Líquidos imundos respingaram da boca no cobertor e na túnica. O sangue continuava a pingar do braço, formando contas brilhantes em torno da vasilha que afundavam instantaneamente no cobertor. Allworthy não parava de se mover em torno do rei, limpando e enxugando.

Quando Margarida segurou com força sua mão, Henrique afundou na poltrona, com tendões parecendo fios na garganta. A vasilha de sangue saiu voando com um estrondo terrível e derramou o conteúdo espesso no cobertor e numa poça rubra que se espalhou pelo chão. Quando a vasilha descansou de cabeça para baixo, os músculos de Henrique se contraíram por todo o corpo e seus olhos rolaram para cima.

— Vossa Graça? — chamou Allworthy, preocupado.

Não houve resposta. O jovem rei caiu para o lado, desmaiado.

— Henrique? Está me ouvindo? O que você fez com ele? — indagou Margarida.

O doutor Allworthy balançou a cabeça em nervosa confusão.

— Milady, nada do que lhe dei provocaria ataques. O mesmo destempero já o dominou, agora e antes. Só o que fiz foi mantê-lo suprimido todo esse tempo.

Para esconder o pânico, o médico pisou no sangue derramado para se inclinar sobre o rei. Beliscou as bochechas de Henrique, primeiro com suavidade e depois com mais força, de modo a deixar marcas vermelhas.

— Vossa Graça? — chamou.

Não houve resposta. O peito do rei subia e descia como antes, porém o homem propriamente dito sumira e se perdera.

Margarida olhava o rosto frouxo do marido e o médico em pé a seu lado, com manchas de sangue e vômito no casaco preto. Estendeu a mão e segurou com força o braço do médico.

— Chega de frascos fedorentos, sangramentos e pílulas. Chega, doutor! Um só protesto e mandarei prendê-lo e interrogá-lo. Eu cuidarei de meu marido.

Ela virou as costas para o médico e pegou uma atadura para amarrar a ferida da cureta que ainda sangrava no braço de Henrique. Margarida a apertou bem com os dentes e depois segurou o marido por ambos os braços. A cabeça dele caiu para a frente, saliva pingando da boca.

Allworthy ficou boquiaberto enquanto a jovem rainha mordia o lábio com indecisão, então levantou a mão aberta e a manteve no ar, tremendo visivelmente. Ela inspirou lenta e longamente e deu um tapa no rosto de Henrique, fazendo a cabeça dele cair para trás. O rei não emitiu nenhum som, embora uma marca escarlate se espalhasse devagar pela bochecha para mostrar onde fora atingido. Margarida o deixou cair de volta na poltrona, soluçando de frustração e medo profundo. A boca do médico se abriu e se fechou, porém ele não tinha mais nada a dizer.