Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 40 de 43

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Pássaro da Tempestade

Epílogo

 

Londres podia ser bela na primavera. O sol fazia o rio lento faiscar e havia produtos novos em todos os mercados. Ainda havia algumas pessoas que iam ver onde o machado de Cade marcara a Pedra de Londres, mas até essa cicatriz sumia com o tempo e o esfregar das mãos.

Ao Palácio de Westminster chegavam lordes da Inglaterra inteira, vindo de carruagem ou a cavalo, ou trazidos rio acima em balsas movidas a remos. Vinham sozinhos ou em grandes grupos, alvoroçando-se pelos corredores e pelas salas de reunião. Tresham, o orador, havia sido enviado ao Parlamento para receber o duque de York, que voltava da Irlanda, mas o que quer que pretendesse foi esquecido quando mataram o orador na estrada, aparentemente confundido com um bandoleiro. Sir William Oldhall, camareiro pessoal de York, agora ocupava aquele importante cargo. Foi ele que organizou o local para o retorno de seu senhor e enviou os convites formais para o comparecimento. Trinta e duas das cinquenta e cinco casas nobres estavam representadas na reunião de Londres, um número quase insuficiente para a tarefa que as aguardava.

Quando o sino da torre do relógio deu meio-dia, Oldhall olhou os lordes reunidos, separados uns dos outros por um largo corredor. O sol brilhava pelas janelas altas da Câmara Branca, revelando veludos e sedas, uma massa de cores vivas. York ainda não estava presente, e não se podia começar sem ele. Oldhall limpou o suor da testa, olhando a porta.

Ricardo de York caminhava calmamente pelos corredores que levavam à Câmara Branca. Tinha consigo uma dúzia de homens, todos vestidos com a libré de sua casa e marcados com a rosa branca de York ou seu símbolo pessoal do falcão com as garras abertas. Não esperava ser ameaçado no palácio real mas também não entraria na fortaleza de seus inimigos sem bons espadachins ao lado. Ouviu o sino do relógio tocar ao meio-dia e apressou o passo, sabendo que seus nobres pares o aguardavam. Seus homens o acompanharam, verificando cada câmara e corredor lateral por que passavam, em busca da primeira sugestão de problemas. Os cômodos estavam todos desertos, e York virou no último corredor velozmente.

O duque parou subitamente ao avistar um grupo próximo à porta que atravessaria para entrar na câmara reverberante. York conseguia ouvir o murmúrio de conversas no interior, mas tinha olhos apenas para a moça em pé no centro de seus pajens e mordomos, fitando-o enraivecida como se pudesse queimá-lo apenas com a força do desagrado. Ele hesitou somente uma fração de segundo antes de avançar a perna direita e fazer uma demorada reverência, seus homens curvando-se com ele diante da rainha da Inglaterra.

— Vossa Alteza Real — saudou ele ao se erguer. Por impulso, York avançou sozinho, erguendo a mão aberta para os homens, para que não parecessem ameaçar Margarida. — Não esperava vê-la aqui hoje...

Seu olhar baixou enquanto falava, incapaz de não fitar o volume do vestido. A boca se franziu ao ver a gravidez da rainha pela primeira vez. Quando ergueu os olhos, viu que ela observava sua reação.

— Milorde York, achou que eu não viria? — perguntou ela, a voz baixa e firme. — Logo hoje, quando questões tão grandiosas serão decididas?

Para York, foi um esforço não demonstrar seu triunfo, porém ele sabia que era desnecessário.

— Vossa Alteza, houve alguma mudança na situação do rei? Ele se levantou? Darei graças em todas as igrejas de minhas terras se assim for.

Os lábios de Margarida se estreitaram. Durante cinco meses, o marido havia ficado totalmente sem sentidos, quase se afogando todo dia só para forçar para dentro do estômago caldo suficiente para mantê-lo vivo. Não conseguia falar nem reagir, nem mesmo à dor. O filho dos dois ainda crescia dentro dela, até que sentiu que não aguentaria mais um dia de peso e desconforto. O triunfo da grande caçada de Windsor parecia a uma vida de distância, e agora ali estava seu inimigo, o inimigo de sua casa, de sua linhagem, mais uma vez de volta da Irlanda. O reino inteiro falava do retorno de York e do que isso significava para a Inglaterra e para o rei alquebrado.

As mãos de Margarida estavam inchadas, doloridas com a gravidez. Ainda se contorciam ao desejar que, uma vez só, tivesse a força de um homem para segurar e esmagar a garganta de outro. O duque assomava acima dela, sua diversão revelada com clareza nos olhos. A rainha quisera que ele visse sua gravidez para saber que, ao menos, haveria um herdeiro. Quisera olhar nos olhos dele enquanto traía seu rei, mas tudo eram cinzas naquele momento, e ela desejou não ter ido até lá.

— O rei Henrique melhora a cada dia, lorde York. Não duvido que voltará a tomar as rédeas do governo.

— É claro, é claro — respondeu York. — Todos rezamos para que assim seja. Fico honrado por ter vindo me encontrar, milady. Mas estou sendo chamado. Com sua permissão, devo entrar para assistir à votação.

York se curvou de novo antes que ela pudesse responder. Margarida o observou entrar na Câmara Branca, murchando ao ver que a vontade de enfrentá-lo desaparecia. Mas seus homens ainda a observavam sob cenhos franzidos, e ela levantou a cabeça, levando seu séquito embora. Sabia o que pretendiam aqueles lordes que falavam com tanta frequência da necessidade de um governo forte, enquanto seu marido lutava e sufocava em seu sono desperto.

Quando York entrou, Oldhall encheu as bochechas, extremamente aliviado ao ver seu patrono, o duque, presente e a salvo. Quando York assumiu seu lugar nos antigos bancos de carvalho, Oldhall se levantou para falar, pigarreando.

— Milordes, solicito a atenção de todos — gritou Oldhall diante deles. Estava em pé num leitoril em frente de uma cadeira dourada, elevando-se acima dos bancos para se dirigir a todos. O ruído se reduziu. — Milordes, tenho a honra de agradecer sua presença aqui hoje. Peço-lhes que baixem a cabeça em oração.

Todos os homens ali baixaram a cabeça ou se ajoelharam no chão junto ao seu lugar.

— Senhor Deus da verdade e da retidão, concedei ao rei e a seus lordes a condução do vosso espírito. Que nunca levem a nação pelo caminho errado, por amor ao poder ou desejo de agradar, mas que deixem de lado todos os interesses privados e não se esqueçam de sua responsabilidade perante a humanidade e o rei, para que venha o Vosso reino e o Vosso nome seja louvado. Que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a companhia do Espírito Santo estejam sempre conosco. Amém.

A última palavra foi repetida pelos presentes, que se sentaram, conhecendo cada detalhe do que viria a seguir, porém ainda atentos e alerta. A reunião era simplesmente a última parte de meses de discussões e negociações. O resultado já estava decidido e só precisava ser posto em prática.

— O estado do rei Henrique continua sem alteração há cinco meses, milordes — continuou Oldhall, a voz tremendo com a tensão. — Ele não pode ser despertado e, em sua doença, falta ao rei juízo e capacidade de governar. Portanto, para o bem do reino, proponho que um dentre nós seja reconhecido como Protetor e Defensor do Reino, para ser o árbitro e a autoridade final até que chegue a hora da recuperação do rei Henrique ou a sucessão seja determinada de outro modo.

Oldhall, nervoso, engoliu em seco ao ver a boca de lorde York se contorcer. A gravidez da rainha era a única farpa a reduzir seu prazer naquele dia. Os acordos e as alianças foram todos arranjados. Estava feito, o resultado necessário dos olhares vazios e da incapacidade de falar de seu marido. Oldhall pigarreou outra vez para continuar, as mãos tremendo tanto que segurou o leitoril para mantê-las paradas.

— Antes de prosseguirmos com a votação desse assunto, qual dentre vós se apresentará como Protetor e Defensor do Reino pelo período da enfermidade do rei?

Todos os olhos se voltaram para York, que se levantou devagar de seu assento.

— Com grande relutância, ofereço meus préstimos a meus lordes e a meu rei.

— Mais alguém? — perguntou Oldhall. Ele olhou em volta, encenando, embora soubesse que mais ninguém se levantaria. Os condes e os duques que ainda eram ferrenhos no apoio ao rei Henrique não estavam presentes. Somerset faltara, assim como os meios-irmãos do rei, Edmundo e Jasper Tudor. Oldhall assentiu, satisfeito.

— Milordes, convoco a votação. Por favor, levantem-se e passem às salas da divisão.

As duas salas estreitas ficavam nos dois lados da Câmara Branca. Todos os lordes se levantaram dos bancos e andaram para a sala “Contentes”, deixando vazia a “Descontentes”. York foi o único deles a permanecer no lugar, um leve sorriso brincando nos cantos da boca. Escriturários anotaram os nomes, mas foi mera formalidade. Quando voltaram, o estado de espírito estava mais alegre, e York sorria ao aceitar os parabéns de Warwick, Salisbury e o restante de seus partidários.

Oldhall aguardou que se acomodassem de novo antes de proferir a decisão.

— Ricardo Plantageneta, duque de York, é a vontade dos lordes temporais e espirituais que seja nomeado Protetor e Defensor do Reino. Aceita a nomeação?

— Aceito — respondeu York.

Subiram vivas dos bancos nos dois lados, e Oldhall se sentou aliviado, limpando a testa. Haviam conseguido. A partir daquele momento, York era rei em tudo, menos no nome. Ricardo de York inclinou a cabeça para seus pares. Em pé, ereto em meio à reunião de nobres, seu orgulho se mostrou de forma clara.