Pássaro da Tempestade
Capítulo 8
Durante três dias, o exército francês e os soldados de York seguiram um atrás do outro, movendo-se para o norte através de Anjou. Os homens do duque se distanciaram bastante depois disso, em parte porque o rei francês parava em todas as cidades para ouvir os moradores. O grupo real deu uma grande volta pelo vale do Loire, acampando sempre que o rei Carlos via algo de interesse ou desejava visitar uma igreja onde estavam os ossos de algum santo específico. Os rios e os vinhedos que se estendiam por muitos quilômetros de terra lhe davam prazer especial.
Centenas de famílias foram expulsas de Anjou por rudes soldados franceses que avançavam à frente do exército principal. Em choque, desesperadas, elas foram para a estrada em carroças ou a pé, uma grande torrente de súditos repentinamente empobrecidos que só crescia a cada dia. York fez seus homens recuarem de volta para a nova fronteira das terras inglesas na França, cercando-os com paliçadas nos limites da Normandia, enquanto a multidão de evacuados continuava a chegar, enchendo todas as aldeias e cidades com seu sofrimento e suas reclamações. Alguns clamavam irritados ao rei Henrique por justiça por suas perdas, mas a maioria estava atordoada e indefesa demais para fazer qualquer coisa além de chorar e praguejar.
As expulsões continuaram, e logo houve histórias de estupro e assassinato para aumentar o caos e a revolta enquanto novas famílias chegavam. Com o decorrer das semanas, lordes menores enviaram mensageiros e cartas furiosas exigindo que as forças inglesas protegessem seus homens, mas York as pôs de lado sem ler. Mesmo que as expulsões não acontecessem por decreto de um rei inglês, ele queria que todos voltassem para casa com histórias de humilhação. Isso atiçaria as chamas na Inglaterra, formando uma fogueira que, sem dúvida, consumiria Derry Brewer e lorde Suffolk. Não sabia se a agitação chegaria até o rei propriamente dito, mas eles a tinham provocado e mereciam ser envergonhados e vilipendiados pelo que fizeram.
Toda noite, York ia à torre da igreja de Jublains e olhava para os campos ao sul. Quando o sol se punha, via centenas de ingleses, homens, mulheres e crianças, cambaleando rumo à fronteira segura, cada um com suas histórias de violência e crueldade. Ele só desejava que Derry Brewer ou Suffolk, ou mesmo o rei Henrique em pessoa, pudessem ver o que provocaram.
York ouviu passos na escada de pedra enquanto estava ali de pé, observando o sol se pôr no 43º dia depois do casamento. Olhou a sua volta, surpreso ao ver a esposa subindo.
— Como assim? Você deveria estar descansando, não subindo degraus frios. Onde está Percival? Ele vai se ver comigo por isso.
— Paz, Ricardo — respondeu Cecily, ofegando de leve. — Conheço minhas forças e mandei Percival me buscar um suco fresco e gelado. Só queria ver o que mantém você aqui toda noite.
York fez um gesto indicando a janela aberta. Em outras circunstâncias, talvez apreciasse os tons de rosa e ouro escuro do pôr do sol francês, mas naquela ocasião estava alheio a sua beleza.
Cecily se inclinou no largo parapeito depois de se desviar de um grande sino de bronze.
— Ah, entendo — disse ela. — Aquela gentinha. São os ingleses que mencionou?
— São, todos vindo para o norte, para a Normandia, com suas tristezas mesquinhas e fúrias, como se eu já não tivesse problemas demais. Não venho observá-los. Venho porque espero ver o exército francês marchar até aqui antes do fim do ano.
— Eles vão parar aqui? — perguntou Cecily, os olhos arregalados.
— Claro que vão! Expulsar famílias é mais de seu gosto que arqueiros ingleses. Faremos com que deem meia-volta e os mandaremos para o sul, de onde vieram, se puserem os pés em território inglês.
O alívio da esposa foi visível.
— A esposa de lorde Derby anda dizendo que está tudo uma grande confusão. O marido acha que deveríamos rasgar o acordo que foi feito, seja lá qual for, e começar de novo. Diz que o rei não devia estar bom da cabeça...
— Shhh, querida. Seja qual for a verdade disso, a única opção que temos é defender a nova fronteira. Daqui a um ou dois anos, talvez eu tenha a oportunidade de tomar tudo de volta em combate. Perdemos Maine e Anjou antes, com o rei João. Quem sabe o que o futuro nos reserva?
— Mas há um armistício, Ricardo? Lorde Derby diz que haverá vinte anos de paz.
— Parece que lorde Derby tem muito a dizer à mulher dele.
A torre era um lugar tão privado quanto seria possível na França, por isso York se aproximou da esposa, passando a mão no volume da criança que crescia em seu ventre.
— O humor anda péssimo entre os homens, querida. Recebo relatos de agitação, e só começou a se espalhar. Preferiria saber que você está a salvo em casa. O rei Henrique perdeu a fé de seus nobres. Isso não vai acabar bem quando uma quantidade suficiente deles souber que sua mão estava por trás disso; e com o nome de Suffolk no tratado. Juro que mandarei julgar William de la Pole por traição. Por Deus, e pensar que estou separado do trono pela distância de um irmão! Se meu avô Edmundo tivesse nascido antes de João de Gaunt, eu usaria a coroa que pousa tão mal na cabeça de Henrique. Estou lhe dizendo, Cecily, se eu fosse rei, não devolveria nem um único pé de terra aos franceses, não até o último sopro de trombeta! Esta terra é nossa e tenho de assistir a sua entrega por tolos e conspiradores. Pelas lágrimas de Cristo! O rei Henrique é um tolo. Sei desde quando ele era menino. Passava tempo demais com monges e cardeais e tempo insuficiente brandindo a espada como o pai. Eles o arruinaram, Cecily. Arruinaram o filho de meu rei com suas poesias e orações.
— Então os deixe cair, Ricardo — comentou Cecily, pondo a mão no peito do marido e sentindo o coração bater com força. — Deixe que colham a tempestade, ao passo que sua força aumenta. Quem sabe? Talvez com o tempo você se veja ao alcance da coroa... se Henrique é tão fraco quanto diz.
York empalideceu e pôs a mão sobre a boca da esposa.
— Nem mesmo aqui, querida. Não em voz alta, nem mesmo sussurrada. Isso não precisa ser dito, entende?
Os olhos dela cintilavam quando ele removeu a mão. Os últimos raios do sol brilhavam na torre, o céu inteiro escurecendo em cor de vinho e lilás.
— Querida, aconteça o que acontecer ano que vem, primeiro este verão tem de terminar. Enquanto o rei Henrique reza, bons rios e vales são tomados de volta por aquelas meretrizes francesas... Perdão, Cecily. Minha raiva cresce só de pensar nisso.
— Está perdoado, mas espero que não ensine essas palavras a nosso filho.
— Nunca. Você é tão fértil quanto um vinhedo, minha bela noiva Neville — disse ele, estendendo a mão e tocando a barriga da esposa para ter sorte. — Como vai o clã Neville?
Cecily riu, um som quase tilintante.
— Meu sobrinho Ricardo é o único que vai bem, ou assim me contaram. Casou-se com a menina Beauchamp, lembra-se? Uma pequena víbora, mas parece que gosta dele. O irmão dela é o conde Warwick, e me disseram que está se esvaindo mais depressa do que os médicos conseguem sangrá-lo.
— Aquele sem filhos? Eu o conheço. Espero que seu sobrinho ainda venha nos visitar, Cecily. Quantos anos ele tem agora, 18, 19? Metade de minha idade e já é quase conde!
— Ah, ele o adora, você sabe disso. Mesmo que realmente herde o condado, ainda assim virá lhe pedir conselhos. Meu pai sempre disse: Ricardo é o único com miolos em toda a família.
— Tenho certeza de que ele falava de mim — disse o marido, sorrindo.
Ela lhe deu um tapinha no antebraço.
— Ele não falava mesmo de você, Ricardo de York. O filho de meu irmão é o único com miolos.
O duque olhou pela janela. Com 34 anos, era forte e saudável, mas sentia novamente aquele desespero se esgueirar ante a ideia de avistar um exército francês marchando à distância.
— Talvez tenha razão, querida. Este Ricardo aqui mal consegue pensar no que fará depois de amanhã, pelo menos por enquanto.
— Você vencerá a todos, tenho certeza. Se o conheço bem, sei que não perde com facilidade... e não desiste. É uma característica dos Nevilles também. Nossos filhos serão temidos, tenho certeza plena.
Ele pôs a mão fria no maxilar dela, sentindo uma onda de afeição. Lá fora, a noite caía em tons arroxeados e cinzentos. York estendeu a mão para fechar a capa em torno da esposa.
— Eu desço com você. Não quero que caia naqueles degraus.
— Obrigada, Ricardo. Sempre me sinto segura com você.
Margarida estava no pátio principal do Castelo de Saumur, observando o homem que se declarara seu protetor ensinar aos irmãos alguns truques sobre esgrima. O pai viajara para supervisionar o retorno das terras de Anjou, ocupado com os mil detalhes de propriedades e arrendamentos que conquistara com o casamento da filha.
Quando ela voltou a Saumur naquele primeiro dia, a princípio parecera que, na verdade, nada havia mudado. Não era propriamente rainha depois da estranha cerimônia, e a Inglaterra parecia tão longe como sempre.
Ela observou Suffolk corrigir o pequeno Luís que se esticara demais num golpe.
— A guarda, rapaz! Onde está sua guarda? — questionou Suffolk, a voz ribombando nos muros.
Margarida sentiu uma onda de afeição pelo lorde inglês grandalhão. O pai retornara rapidamente a Saumur depois de cavalgar uma semana com o rei. Ao ver as filhas, dissera-lhes irritado que fossem buscar a mãe, dando ordens com a antiga autoridade. O momento em que Suffolk avançou e pigarreou se tornou uma das lembranças mais queridas de sua jovem vida.
— Milorde Anjou — dissera Suffolk. — Devo lembrar-lhe de que a rainha Margarida não está mais sob seu comando. Como representante e defensor de seu marido, devo insistir que ela seja tratada com a dignidade de sua posição.
Renato de Anjou ficara boquiaberto diante do inglês instalado tão solidamente entre eles em seu próprio pátio. Havia aberto a boca para responder, mas pensara melhor, e olhara em volta com raiva até avistar a pobre Iolanda.
— Vá buscar sua mãe, menina. Estou cansado e faminto e sem paciência para joguinhos ingleses.
Iolanda saíra correndo, com a saia erguida em maços. O rosto do pai ficara rosado, o lábio inferior se projetando como um mastim ofendido ao entrar andando na própria casa. O duque Renato partiu de novo três dias depois e, nesse tempo, não disse outra palavra à filha nem a seu lorde inglês.
Margarida corou com a lembrança. Fora um momento de pura alegria ver a lesma branquela forçada a recuar. Ela não duvidou da disposição de Suffolk em defender sua honra. O homem levava muito a sério seu dever de protetor, e ela desconfiava de que o treinamento de esgrima com os irmãos tinha meta semelhante.
Olhou o choque de espadas. Os três irmãos eram mais rápidos que o conde inglês, mas ele era um lutador veterano, um homem que sofrera ferimentos em Harfleur e fora um dos comandantes do cerco de Orléans. Sabia mais sobre lutas do que João, Nicolau ou Luís, e na verdade lutara contra os três juntos para demonstrar como a armadura protegeria um homem na confusão do combate. Ainda assim, não era mais um rapaz, e Margarida o escutou ofegar quando fez uma defesa e atacou o escudo de Luís.
A espada que ele usava era imensa aos olhos da jovem, 1,2 metro de aço maciço que segurava com ambas as mãos. A arma parecia desajeitada, mas Suffolk a fazia tomar vida, erguendo-a em movimentos complicados como se não pesasse nada. Com a lâmina, todos os sinais do bondoso lorde inglês sumiam. Ele ficava simplesmente aterrorizante. Margarida observou fascinada Suffolk fazer Luís defender golpe após golpe, até a lâmina do irmão cair dos dedos inertes.
— Rá! Força nas mãos, rapaz — disse Suffolk.
Eles usavam túnicas e calças com acolchoamento espesso debaixo dos segmentos leves da armadura de treinamento. Enquanto Luís massageava os dedos dormentes, Suffolk tirou o elmo e revelou o rosto muito corado pelo qual o suor escorria.
— Não há maneira melhor de fortalecer o braço da espada do que usando a própria arma — aconselhou Suffolk ao irmão ofegante de Margarida. — Ela tem de lhe parecer leve, porque a velocidade vem da força. Em algumas batalhas, a vantagem da vitória virá de segurá-la com apenas uma das mãos num momento crucial. João, venha cá para eu mostrar a seu irmão.
Seu irmão João descansava e parecia confiante ao assumir a posição, segurando a espada ereta enquanto esperava que Suffolk pusesse de novo o elmo. Este, por si só, era um objeto pesado de ferro, forrado de grosso acolchoado de crina. Quem o usava tinha de respirar por uma grade perfurada, e o campo de visão se reduzia a uma tira estreita orlada de latão polido. Já bem aquecido, Suffolk olhou com desagrado o forro manchado de suor. Colocou-o com cuidado nas pedras atrás.
— Vire o pé direito um pouco mais — recomendou a João. — Você precisa estar equilibrado a cada passo, com os pés fixados com firmeza. Isso aí. Pé direito para atacar. Pronto?
— Pronto, milorde — respondeu João.
Ele e Suffolk já tinham lutado uma dezena de vezes, com o inglês vencendo. Mas João vinha melhorando e, com 17 anos, tinha grande velocidade, embora lhe faltasse a força obtida com anos de esgrima.
João atacou depressa e Suffolk, com uma risada, desviou sua espada. As lâminas se chocaram mais duas vezes, e Margarida viu que Suffolk estava sempre em movimento, os pés nunca parados. Seu irmão tinha a tendência a se enraizar no chão e golpear, fazendo com que o lorde conseguisse aumentar a distância entre eles e desequilibrá-lo.
— Aí! Pare! — berrou Suffolk de repente.
A espada de João fizera um arco na altura da cabeça, e Suffolk a segurou firme com a lâmina erguida. Por um instante, João expôs o peito. O irmão, paralisado com a ordem, ficou imóvel.
— Está vendo, Luís? A guarda está aberta. Se eu tiver força suficiente para defender o golpe com uma das mãos, posso tirar a manopla esquerda do punho da espada e atacar. Um soco resolve. — Ele demonstrou tocando o elmo de João com o punho coberto pela cota de malha. — Isso vai deixá-lo bem tonto, hein? Melhor ainda é uma pequena adaga de soco entre os nós dos dedos. Ela romperá o gorjal se você o atingir com força suficiente. — Para desconforto de João, Suffolk mostrou a Luís outro golpe na garganta exposta. — Ou mesmo a fenda do elmo, ainda que seja difícil de atingir se ele estiver se mexendo. Tudo depende da força do braço; e é preciso ficar atento, porque ele pode fazer o mesmo com você. Solte a espada, João, e eu lhe mostrarei algumas defesas contra esses golpes.
Suffolk recuara ao falar e viu que Margarida observava. Deu um passo na direção dela e baixou um joelho até o chão, com a espada diante dele como uma cruz erguida. Margarida se sentiu corar ainda mais enquanto os irmãos assistiam, mas não pôde deixar de sentir certo orgulho de ter esse homem grandalhão a suas ordens.
— Milady, não vi que estava aí — desculpou-se Suffolk. — Espero não ter negligenciado meus deveres. Queria mostrar a seus irmãos algumas técnicas novas que se tornaram populares na Inglaterra.
— Tenho certeza de que eles aprenderam muito, lorde Suffolk.
— William, por favor, milady. Sou seu servo.
Margarida passou um instante pensando na satisfação que teria se ordenasse a William que enfiasse o irmão João num caldeirão da cozinha do castelo. Não duvidava de que ele o fizesse. Lamentando, porém, negou-se a esse prazer. Agora era uma mulher casada, ou quase casada, ou pelo menos noiva.
— Minha mãe me pediu que lhe avisasse que um amigo seu chegou da Inglaterra. Monsieur Brewer.
— Ah, sim. Estava me perguntando quando ele apareceria. Obrigado, milady. Com sua permissão, vou me retirar.
Margarida deixou que Suffolk beijasse sua mão. Ele foi para o castelo e a deixou sozinha com os três irmãos.
— Nada de caçadas hoje, João? — perguntou Margarida docemente. — Nada de perseguir sua irmã? Imagino que, se eu lhe pedisse, lorde Suffolk puxaria a espada contra você sem pensar duas vezes. O que acha?
— Ele é um lorde inglês, Margarida. Não dê muita confiança a ele — recomendou João. — Nosso pai diz que todos eles são víboras pela esperteza. Disse que a serpente do Jardim do Éden certamente falava inglês.
— Ora! Nosso pai? Ele está tão consumido pela ganância que me surpreende que diga alguma coisa.
— Não o insulte, Margarida! Você não tem esse direito. Ainda é minha irmã e integrante desta família, e, por Deus...
— Não sou, João. Agora sou Margarida da Inglaterra. Devo chamar William de volta para me defender?
A testa de João se franziu de raiva, mas ele não podia permitir que ela chamasse seu protetor.
— Seu casamento trouxe Anjou e Maine de volta para a família. É isso que importa; esse foi seu único propósito. Fora isso, pode fazer o que quiser.
João deu meia-volta e, batendo os pés, afastou-se da irmã. Nicolau o seguiu, e o pequeno Luís ficou só mais um momento, trocando com a irmã uma piscadela e um sorriso pelos modos pomposos do irmão. Deixaram Margarida sozinha. Quando olhou em volta o pátio vazio, ela sentiu o prazer da vitória.
Suffolk achou engraçado se ver levado ao grande salão do Castelo de Saumur. Desde o casamento, os criados não sabiam direito o que fazer em relação a ele. A Inglaterra era um inimigo jurado, mas então as famílias se uniram pelo casamento. A realidade do armistício entre nações levaria algum tempo para se instalar, pensou. Por enquanto, só um pequeno grupo de senhores nos dois lados do canal da Mancha conhecia os detalhes.
Ele sufocou uma risada de divertimento quando o mordomo fez uma reverência à porta com a máxima relutância. Talvez a posição de lorde inglês já tivesse sido mais valorizada, pelo menos em Saumur.
Derry se levantou de uma cadeira estofada para cumprimentá-lo.
— Parece que você se tornou parte da família, William. Suponho que tenha se casado com uma das filhas, portanto está mais do que certo.
Suffolk sorriu com a brincadeira, erguendo os olhos automaticamente para ver se as crianças escutavam no balcão lá em cima. Nada viu, mas imaginou que pelo menos Margarida era capaz de se esconder para escutar uma conversa que, sem dúvida, lhe dizia respeito. Seria aquilo uma sombra se movendo na penumbra?
Derry seguiu seu olhar.
— Estranha construção. É uma galeria para menestréis?
— Não faço ideia. Então, Derry, o que o traz a Saumur?
— Sem saudações? Sem perguntar sobre minha saúde? Meu trabalho é solitário, William Pole, isso posso lhe dizer. Ninguém jamais fica contente em me ver. Venha se sentar a meu lado junto ao fogo. Fico nervoso com você aí de pé todo acolchoado como se estivesse prestes a entrar em combate.
Suffolk deu de ombros, mas se sentou no braço de uma cadeira imensa onde podia sentir o calor da lareira em sua pele. Depois de pensar um instante, ergueu a cabeça de repente para a galeria.
— Talvez não estejamos completamente a sós aqui, Derry — murmurou.
— Ah, entendo. Muito bem, usarei minhas famosas sutileza e habilidade. Está pronto? — Derry se inclinou à frente. — A maior rã, a rã real, se é que me entende, está fazendo uma refeição correta em Anjou.
— Derry, pelo amor de Deus. Você não veio aqui para brincadeiras.
— Tudo bem, lorde Suffolk, se não gosta de códigos, falarei claramente. O rei Carlos está se demorando em Anjou. Houve algumas histórias bem desagradáveis que chegaram à Inglaterra, mas, na maioria dos casos, ele está seguindo a lei e nosso acordo sobre as expulsões. A única coisa que o retardou foi a distribuição da riqueza entre seus favoritos. O velho Renato pode ser dono da província outra vez, mas os empreendimentos podem ser transferidos a qualquer um que o rei Carlos queira favorecer. Parece que ele está se divertindo, pondo para correr os mercadores ingleses. Meia dúzia já apresentou uma petição ao chanceler de Henrique para que o rei intervenha. Outra dúzia clama por soldados para defender sua propriedade, mas lorde York está bem sentadinho na Normandia e não move um dedo para ajudá-los. Ainda bem.
— Se tudo corre como você esperava, por que vir aqui? — perguntou Suffolk, franzindo a testa.
Pela primeira vez, Derry pareceu pouco à vontade. Desconfiado do balcão, inclinou-se mais para perto e fez a voz cair num murmúrio que quase se perdia sob o crepitar do fogo.
— Um de meus homens me mandou um aviso sobre Maine. Com todas as viagens do rei até a corte, as tropas francesas avançam tão devagar que podem só chegar lá no ano que vem. Seja como for, a notícia é que Maine não vai rolar de costas com as patas para cima. Por ficar tão perto da Normandia, há muitos velhos lobos de guerra que se aposentaram por lá. Têm oficiais e camponeses às centenas e não são do tipo que dobram os joelhos só porque um nobre francês lhes esfrega um tratado na cara.
— Portanto, o rei Henrique pode ordenar a York que faça o serviço com um exército inglês — respondeu Suffolk. — Fomos longe demais nessa estrada para vê-la desmoronar agora.
— Eu pensei nisso, William, porque ainda me resta uma colherada de inteligência na cabeça. York não atende a cartas nem a comandos. Mandei-lhe ordens sob o selo real e é como jogá-las num poço. Ele está deixando a situação seguir seu curso enquanto mantém as mãos limpas. É uma postura esperta, isso é preciso admitir. Tenho planos para o duque Ricardo, não se preocupe, mas isso não resolve o problema de Maine. Se irromper uma luta, sua nova esposa francesa será refém, e não podemos permitir que isso aconteça.
Suffolk pensou um bom tempo, fitando as chamas.
— Você a quer na Inglaterra.
— Eu a quero na Inglaterra, sim. Quero-a adequadamente casada com Henrique antes que tudo desmorone. Com o tempo, posso mandar outro homem assumir o comando do exército na Normandia, talvez lorde Somerset, talvez mesmo você, William. Se o rei mandar York para outro lugar, digamos, um lugar como a Irlanda, ele terá de ir. Cuidaremos das expulsões de Maine no ano que vem sem nenhum nobre francês franzir o nariz. Organizarei o casamento na Inglaterra, não se preocupe, mas preciso da noiva. Não podemos deixar que guardem uma peça valiosa como Margarida enquanto as expulsões continuam.
— A irmã mais velha vai se casar daqui a um mês. Tenho certeza de que Margarida vai querer participar da cerimônia. Eles a deixarão partir?
— Têm de deixar — respondeu Derry. — Ela já está casada, afinal de contas. Agora é uma simples questão de etiqueta, e isso eles adoram. Henrique mandará uma guarda de honra e uma frota de navios buscar sua noiva francesa e levá-la para casa. Faremos uma grande comemoração. Só tem de acontecer antes que eles parem para o inverno. — Por um instante, Derry esfregou as têmporas e Suffolk percebeu como o outro estava cansado. — Sou só eu para pensar em tudo, William, é isso. Pode ser que o rei Henrique mande York para a Irlanda, e será você quem colocará nosso exército em Maine para que as expulsões aconteçam sem problemas. Pode ser que não haja problema nenhum e todos os meus informantes estejam errados. Mas eu seria um idiota se não me planejasse para o pior.
— Todos os seus informantes? — indagou William de repente, a voz de volta ao nível normal. — Pensei que você tinha dito um de seus homens. Quantos relatórios já recebeu sobre Maine?
— Até agora, oito — admitiu Derry, segurando o dorso do nariz e esfregando-o para se livrar do cansaço. — Não preciso ver o brilho do fogo para saber que minha casa está em chamas, William Pole. Acho que consigo equilibrar tudo, desde que você leve sua princesinha para a Inglaterra.
— Quanto tempo tenho? — perguntou Suffolk.
Derry fez um gesto leve com a mão.
— No máximo cinco meses, no mínimo três. Vá ao casamento da irmã, tome vinho e sorria para os franceses, mas esteja pronto para pular fora depois, assim que lhe mandar notícias. Na verdade, tudo depende da rapidez com que os franceses avançam para o norte, e de quantos dos nossos conseguiremos convencer a largar os lares e as terras que compraram de boa-fé.
— Cuidarei disso, Derry. Não precisa se preocupar com essa parte.
— Vou me preocupar de qualquer modo, se não se importa, William Pole. Sempre me preocupo.