Pássaro da Tempestade
Capítulo 2
Margarida arfou quando uma silhueta apressada esbarrou nela e ambas caíram no chão. Ela teve uma sensação confusa de perceber o cabelo castanho bem-preso e um cheiro saudável de suor, então caiu com um gemido. Uma panela de cobre foi parar nas pedras do pátio com tanto barulho que fez doer seus ouvidos. Com a queda de Margarida, a moça havia se debatido para pegar a panela, mas, com isso, só conseguiu fazê-la sair rolando.
A criada ergueu os olhos, zangada, a boca se abrindo numa imprecação. Ao ver o belo vestido vermelho e as mangas brancas e enfunadas de Margarida, o sangue se esvaiu de seu rosto, furtando a vermelhidão comum às cozinhas. Por um instante, os olhos dela relampejaram pelo caminho, avaliando se poderia fugir. Com tantos rostos estranhos no castelo, pelo menos havia a probabilidade de que a menina não voltaria a reconhecê-la.
Com um suspiro, a criada limpou as mãos no avental. A cozinheira-chefe a havia alertado a respeito dos irmãos e do pai, mas dissera que a menina mais nova era um doce. Ela estendeu a mão para ajudar Margarida a se levantar.
— Sinto muito, querida. Eu não deveria estar correndo, mas hoje tudo está às pressas. Machucou?
— Não, acho que não — respondeu Margarida, em dúvida.
Um dos flancos doía e ela achava que havia ralado o cotovelo, mas a mulher já estava agitada, querendo sair dali. De pé, Margarida sorriu para ela, vendo o brilho de suor no rosto da mulher.
— Eu me chamo Margarida — apresentou-se, recordando as aulas. — Posso saber seu nome?
— Simone, minha senhora. Mas tenho de voltar à cozinha. Ainda há mil coisas a fazer para a vinda do rei.
Margarida viu o cabo da panela saindo da sebe aparada, perto de seu pé, e o pegou. Para seu contentamento, a mulher fez uma reverência ao receber o utensílio. Elas trocaram sorrisos antes que a criada sumisse com uma velocidade apenas uma fração menor que a inicial. Margarida ficou sozinha fitando-a. Fazia anos que o Castelo de Saumur não ficava tão movimentado. Ela ouviu a voz grave do pai se erguer em algum lugar próximo. Se a visse, ele a colocaria para trabalhar, disso tinha certeza, e assim foi para o lado oposto.
O retorno súbito do pai a Saumur deixara Margarida em lágrimas amargas e furiosas mais de uma vez. Ela se ressentia dele como se ressentiria de um estranho que chegasse com tamanha arrogância, assumindo todos os seus direitos de senhor e dono do castelo. Durante a década de ausência, a mãe havia lhe falado muito da grande bravura e honra do pai, no entanto, Margarida via os espaços vazios de reboco amarelado conforme quadros e estátuas eram levados e vendidos sem alarde. A coleção de joias fora a última a ser desfeita, e ela observara a dor da mãe quando homens de Paris chegaram para avaliar as melhores peças, apreciando-as através de seus pequenos tubos e contando moedas. Cada ano trouxera menos luxo e conforto, até que Saumur fora despido de tudo o que era bonito, revelado em pedras frias. Nisso Margarida já passara a odiar o pai, sem sequer conhecê-lo. Até os criados foram demitidos um a um, com setores inteiros do castelo fechados e deixados para azular de mofo.
Ela ergueu os olhos quando pensou nisso, calculando se conseguiria chegar à ala leste sem que a vissem e a pusessem para trabalhar. Havia camundongos correndo livremente numa das salas da torre, fazendo seus pequenos ninhos sob cadeiras e sofás velhos. Margarida estava com o bolso cheio de migalhas para atraí-los e poderia passar a tarde lá. Aquele se tornara seu refúgio, um esconderijo que ninguém conhecia, nem mesmo a irmã Iolanda.
Quando Margarida viu os homens de Paris contarem os livros na linda biblioteca do pai, ela passou a se esgueirar até lá à noite e tirar o máximo de exemplares que conseguia carregar, escondendo-os na sala da torre antes que sumissem. Não sentia culpa por isso, nem quando o pai retornou e suas ordens retumbantes ecoaram pelo lar da menina. Margarida não entendia direito o que era um resgate nem por que tinham de pagar para tê-lo de volta, mas adorava os livros que salvara, mesmo aqueles que os camundongos acharam e roeram.
Saumur era um labirinto de escadas e passagens, legado de quatro séculos de construção e expansão, de modo que alguns corredores se interrompiam sem nenhuma razão visível, enquanto só se alcançava alguns cômodos passando por meia dúzia de outros. Mas aquele era seu mundo desde quando se lembrava. Margarida conhecia todos os caminhos e, depois de esfregar a mão no cotovelo para limpá-lo, andou depressa, atravessou um corredor e, em seguida, com passos ruidosos, uma sala grande e vazia revestida de carvalho. Se a mãe a visse correndo, ouvira palavras ríspidas. Margarida também se viu com medo dos passos da governanta, até lembrar que o terror de sua infância fora demitida junto dos outros.
Dois lances de escada de madeira a levaram a um patamar que dava diretamente para a torre leste. Lá, as tábuas antigas do assoalho estavam empenadas e retorcidas, erguendo-se das colunas abaixo. Margarida perdera tardes inteiras pisando nelas em padrões complicados para fazê-las falar com sua voz guinchada. Ela chamava aquele cômodo de Sala do Corvo pelo som que as tábuas emitiam.
Ofegando levemente, ela parou sob o beiral para olhar o outro lado do salão superior, como sempre fazia. Havia algo especial em ser capaz de se debruçar acima do vasto espaço, na altura dos candelabros com suas gordas velas amarelas. Perguntou-se quem as acenderia para a visita do rei agora que os cerieiros não eram mais chamados, porém supôs que o pai teria pensado nisso. Em algum lugar ele achara ouro para contratar todos os novos criados. O castelo estava cheio deles da mesma forma que a torre estava repleta de camundongos, correndo de um lado para outro em missões que ela não sabia quais eram, todos um bando de desconhecidos.
A jovem avançou pela biblioteca, que a deixou arrepiada agora que estava vazia e fria. Iolanda disse que alguns casarões possuíam bibliotecas no andar térreo, mas, mesmo quando eram ricos, o pai dera pouca importância aos livros. As prateleiras revelaram uma grossa camada de pó quando ela passou e desenhou preguiçosamente com o dedo um rosto antes de continuar correndo. Pela janela do cômodo, olhou o pátio lá embaixo e franziu o cenho ao ver os irmãos treinando esgrima. João massacrava o pequeno Luís e ria ao mesmo tempo. Nicolau estava ao lado, a ponta da espada se arrastando na terra enquanto ele gritava para atiçar os dois irmãos. Com uma olhada em volta para se assegurar de que não havia ninguém observando, Margarida apontou o dedo para o irmão mais velho e praguejou, pedindo a Deus que desse a João urticária nas partes íntimas. Isso não pareceu afetar seus golpes alegres, embora ele merecesse pelo beliscão que lhe dera naquela manhã.
Para seu horror, de repente João ergueu os olhos, o olhar fixo encontrando o dela. Ele deu um grande berro que Margarida conseguiu ouvir mesmo através dos losangos de vidro. Ficou paralisada. Os irmãos gostavam de persegui-la, imitando trombetas de caça com as mãos e a boca sempre que corriam atrás dela pelos cômodos e corredores do castelo. Estariam de fato ocupados demais com a vinda do rei? O coração dela se apertou quando viu João sair correndo e apontar em sua direção, e depois os três correram e sumiram de vista lá embaixo. Margarida desistiu da ideia de ir para a sala secreta. Eles ainda não a tinham descoberto, mas, caso chegassem à biblioteca, os irmãos a caçariam por toda aquela parte do castelo. Seria melhor levá-los para bem longe.
Ela correu, levantando bem a saia e amaldiçoando todos com manchas e urticária. Na última vez, tinham-na obrigado a entrar num dos grandes caldeirões da cozinha e ameaçado acender o fogo.
— Maman! — berrou Margarida. — Mamaaan!
A toda velocidade, ela mal parecia tocar os degraus, usando os braços para guiá-la enquanto se precipitava andar abaixo e cortava caminho por um corredor até os aposentos da mãe. Espantada, uma criada pulou para trás com um balde e um esfregão quando Margarida passou em disparada. Conseguia ouvir os irmãos chamando em algum lugar do andar inferior, mas não parou e, num pulo, desceu três degraus que apareceram no chão à sua frente, depois subiu outros três, alguma faceta antiga da construção do castelo sem nenhum propósito visível. Ofegante, entrou como uma flecha no quarto de vestir da mãe, olhando loucamente para todos os lados em busca de refúgio. Viu um guarda-roupa imenso e pesado e, num piscar de olhos, abriu a porta e se enfiou lá dentro, consolada com o odor do perfume da mãe e com as peles espessas.
Veio o silêncio, embora ainda conseguisse ouvir João chamando seu nome a distância. Margarida lutou para não tossir com a poeira que havia se levantado. Ouviu passos soarem no quarto e se manteve imóvel como uma estátua. Não se espantaria se João mandasse Nicolau ou o pequeno Luís em outra direção, enquanto dava a volta para enganá-la com uma falsa sensação de segurança. Margarida prendeu a respiração e fechou os olhos. Pelo menos o guarda-roupa estava quente e, sem dúvida, eles não ousariam procurá-la nos aposentos da mãe.
Os passos se aproximaram e, sem aviso, a porta do móvel se abriu com um guincho. Margarida piscou para o pai com a claridade.
— O que está fazendo aqui, menina? — indagou ele. — Não sabe que o rei está vindo? Se tem tempo para brincadeiras, por Deus, você tem tempo demais.
— Sim, senhor, sinto muito. João estava me perseguindo e...
— Suas mãos estão imundas! Veja só as marcas que deixou! Olhe isso, Margarida! Correndo por aí como uma menina de rua com o rei a caminho!
Margarida baixou a cabeça, saiu do guarda-roupa e fechou a porta com cuidado. Era verdade que as palmas de suas mãos estavam pretas de sujeira, adquirida durante a corrida desenfreada pelas salas do andar de cima. O ressentimento cresceu dentro dela. O duque Renato podia ser seu pai, mas ela não possuía lembranças dele, nenhuma mesmo. Ele era apenas uma grande lesma branquela em formato de homem que entrara em sua casa e dava ordens como se sua mãe fosse uma criada. O rosto tinha uma palidez incomum, talvez pelos anos passados na prisão. Os olhos eram frios e cinzentos, meio escondidos pelas pesadas pálpebras inferiores e sem rugas, de modo que ele sempre parecia espiar por cima delas. Claramente não passara fome na prisão, pensou Margarida. Isso era bem óbvio. Ele havia se queixado à esposa do pagamento ao alfaiate para alargar as roupas, deixando-a em lágrimas.
— Se eu tivesse um instante a desperdiçar, mandaria açoitá-la, Margarida! Todos esses vestidos terão de ser limpos.
Ele berrou e gesticulou irritado por algum tempo; a filha baixava a cabeça, tentando parecer adequadamente envergonhada. Antigamente havia criadas e criados para esfregar cada pedra e polir todo o belo carvalho francês. Se agora a poeira era espessa, de quem era a culpa, se não do homem que arruinara Saumur com sua vaidade? Margarida o ouvira resmungar sobre o estado do castelo, mas, sem um exército de criados, Saumur simplesmente era grande demais para ser mantido limpo.
Margarida se lembrou de concordar com a cabeça enquanto o pai se enfurecia. Ele se intitulava rei de Jerusalém, Nápoles e Sicília, lugares que ela nunca vira. Supunha que isso fazia dela uma princesa, mas não podia ter certeza. Afinal de contas, ele não conseguira recuperar nenhum dos reinos, e pretensões formais não possuíam valor nenhum se ele só podia espumar e se pavonear e escrever cartas furiosas. Ela o detestava. Corou ao recordar uma conversa que tivera com a mãe. Margarida exigira saber por que ele não podia apenas ir embora de novo. Em resposta, a boca da mãe se franzira bem apertada, como uma bolsa de cordão, e ela falara com a filha com mais dureza do que nunca.
Margarida sentiu que a lesma chegava ao fim do discurso.
— Sim, senhor — respondeu humildemente.
— O quê? — indagou ele, a voz subindo. — O que quer dizer com “Sim, senhor”? Você escutou alguma coisa? — Manchas coradas floriram nas bochechas brancas quando o mau humor se inflamou. — Saia daqui! — explodiu ele. — Não quero ver seu rosto, a não ser que a chame, entendeu? Tenho coisa melhor a fazer hoje do que lhe ensinar os bons modos que obviamente lhe faltam. Correndo desenfreadamente! Quando o rei for embora, pensarei em algum castigo que você não esquecerá tão cedo. Vá! Saia!
Margarida fugiu, o rosto ruborizado, tremendo. Passou pelo irmão Luís no corredor e, para variar, ele pareceu solidário.
— João está procurando você no salão de banquetes — murmurou ele. — Se quiser evitá-lo, é melhor contornar pela cozinha.
Margarida deu de ombros. Luís se achava esperto, mas ela o conhecia bem demais. João estaria na cozinha, ou ali perto, isso era óbvio. Eles não conseguiriam colocá-la no caldeirão, não com tanta gente preparando o banquete do rei, mas, sem dúvida, o irmão teria pensado em algo igualmente desagradável. Com dignidade, Margarida caminhou em vez de correr, combatendo as lágrimas que mal entendia. Não lhe importava que a lesma se zangasse; por que se importaria? Ela decidiu encontrar a mãe, em algum ponto no meio da confusão e do barulho onde houvera silêncio alguns dias antes. De onde vieram todos os criados? Não havia dinheiro para eles nem mais nada para vender.
Ao pôr do sol, os irmãos desistiram da caçada para se vestir para o banquete. A população do Castelo de Saumur aumentara ainda mais, porque o rei Carlos enviara seu pessoal com antecedência. Além dos cozinheiros contratados em casas nobres e na aldeia local, agora havia chefes de cozinha verificando cada estágio dos preparativos e meia dúzia de homens de roupas pretas examinando cada cômodo em busca de espiões e assassinos. Dessa vez, pelo menos, o pai não disse nada quando seus guardas foram interrogados e deslocados pelos homens do rei. Todos os aldeões locais já sabiam que haveria uma visita real. Quando a escuridão caiu, com andorinhas sobrevoando e disparando pelo céu, os agricultores vieram de suas hortas e campos com a família. Ficaram à beira da estrada para Saumur, esticando o pescoço para avistar o primeiro vislumbre de realeza. Os homens tiraram o chapéu quando o rei passou, acenando, aplaudindo e dando vivas.
A chegada do rei Carlos não foi tão impressionante quanto Margarida achava que seria. Ela observara pela janela da torre um pequeno grupo de cavaleiros vir do sul pela estrada. Não havia mais que vinte deles, aglomerados em torno de uma figura esguia de cabelos escuros que usava uma capa azul-clara. O rei não parou para cumprimentar os camponeses, pelo que ela pôde ver. Margarida se perguntou se ele achava que o mundo era cheio de gente feliz dando vivas, como se fizessem parte da paisagem, como árvores ou rios.
Quando a comitiva real entrou pelo portão principal, Margarida se inclinou pela janela aberta para observar. O rei lhe parecera bastante normal ao apear no pátio e entregar as rédeas a um criado. Seus homens eram sérios, de semblante fechado, mais de um deles olhando em volta com expressão de desagrado. Margarida se irritou com eles imediatamente. Vira o pai sair e se curvar diante do rei antes de entrarem. A voz de Renato subiu até as janelas, alta e rouca. Ele se esforçava demais, pensou Margarida. É claro que um homem como o rei estaria cansado de lisonjas.
O banquete foi um sofrimento, com Margarida e Iolanda banidas para a ponta mais distante de uma mesa comprida, usando vestidos pesados que cheiravam a cedro e cânfora e preciosos demais para sujar. Os irmãos estavam sentados mais para o meio na mesa, virando a cabeça para o rei como viajantes diante da boa lareira de uma estalagem. Por ser o mais velho, João até tentou conversar, embora o esforço fosse tão afetado e formal que deixou Margarida com vontade de rir. O ambiente estava insuportavelmente abafado, e é claro que a irmã Iolanda a beliscou debaixo da mesa para fazê-la chorar e passar vergonha. Margarida a espetou com o garfo de um faqueiro de prata que nunca havia visto.
Sabia que não tinha permissão de falar; a mãe Isabel fora claríssima a esse respeito. Assim, ficou sentada em silêncio enquanto o vinho dominava a mesa e o rei oferecia a seu pai e João um sorriso ocasional entre os pratos.
Margarida achou o rei Carlos muito magro e com o nariz comprido demais para ser considerado bonito. Os olhos eram continhas pretas e as sobrancelhas, linhas finas, como se feitas com pinça. Ela esperava que fosse um homem com firmeza e carisma ou que, pelo menos, usasse algum tipo de coroa. Em vez disso, o rei remexia nervoso a comida que obviamente não lhe agradava e apenas levantava o canto dos lábios quando tentava sorrir.
O pai preenchia os silêncios com histórias e reminiscências da corte, mantendo uma torrente de conversa sem graça que fez Margarida sentir vergonha por ele. O único momento divertido foi quando as mãos gesticulantes do pai derrubaram uma taça de vinho, porém os criados agiram depressa e fizeram tudo sumir. Margarida conseguia ver o tédio do rei, ainda que o duque Renato não o percebesse. Ela beliscava cada prato, perguntando-se o custo daquilo tudo. O salão estava iluminado com velas caras e finas e até velas brancas, geralmente só usadas no Natal. Supunha que isso significaria meses de dificuldades futuras, quando o rei se fosse. Tentou aproveitar, mas a visão da cabeça comprida do pai balançando de rir só a deixava irritada. Margarida bebericou a sidra, na esperança de que percebessem sua desaprovação e talvez se envergonhassem. Era uma bela ideia: eles levantariam os olhos e veriam a menina carrancuda, depois olhariam os pratos cheios de comida que mal tocariam antes que os próximos chegassem. Ela sabia que o rei Carlos conhecera Joana d’Arc e sentia muita vontade de lhe fazer perguntas sobre ela.
Ao lado do rei, a tia Maria escutava Renato com uma expressão desaprovadora muito parecida com a da própria Margarida. Repetidas vezes, a jovem viu o olhar da tia perambular até a garganta da mãe, onde não havia nenhuma joia. Essa era uma coisa que Renato não conseguira pedir emprestada para o jantar. As joias da mãe tinham-se ido todas para financiar suas campanhas fracassadas. Como esposa do rei, Maria usava um esplêndido conjunto de rubis que pendia bem entre seus seios. Margarida tentou não olhar fixamente para eles, mas foram feitos para chamar atenção, não foram? Pensara que mulheres casadas não gostariam que os homens fitassem seus seios daquela maneira, mas aparentemente ela gostava. Maria e Renato tinham crescido em Saumur, e a jovem viu o olho avaliador da tia passar da garganta e das orelhas nuas de sua mãe para as enormes tapeçarias que pendiam nas paredes. Margarida se perguntou se ela reconheceria alguma. Como os criados, tinham sido emprestadas ou alugadas por alguns dias apenas. A menina quase conseguia ouvir os pensamentos da tia como cliques de um pequeno ábaco. A mãe sempre dizia que Maria tinha o coração de pedra, mas foi com ele que conquistara um rei e todo o luxo de sua vida.
Não pela primeira vez, Margarida se perguntou o que poderia ter levado o rei Carlos ao Castelo de Saumur. Sabia que não haveria conversas sérias durante o jantar, talvez nem mesmo depois que o rei descansasse ou caçasse no dia seguinte. Ela decidiu visitar o balcão acima do salão superior quando lhe dessem permissão para se deitar. O pai levava os hóspedes de honra até lá para apreciar a grande lareira e uma seleção de seus melhores vinhos. Com a ideia, ela se aproximou de Iolanda na mesma hora em que a irmã tentava dar um beliscão em seu braço desnudo por pura implicância.
— Vou torcer sua orelha e fazer você gritar se me der um beliscão, Iolanda — murmurou.
A irmã rapidamente puxou de volta a mão que se esgueirara sobre a mesa. Com 15 anos, Iolanda talvez fosse sua companheira mais próxima, embora ultimamente assumisse ares de mocinha e dissesse a Margarida, de um jeito pomposo, que não podia mais participar de brincadeiras de criança. Iolanda até lhe dera uma linda boneca pintada, estragando o presente com um comentário desdenhoso sobre coisas de bebê de que não precisava mais.
— Você vai comigo para a escada dos fundos depois do banquete para ficar ouvindo as conversas do balcão? Na Sala do Corvo.
Iolanda pensou bem, inclinando um pouco a cabeça enquanto sopesava a recente e empolgante sensação de ser adulta contra o desejo de ver o rei conversar com o pai em particular.
— Por um tempinho, talvez. Sei que você tem medo de escuro.
— Você é que tem, Iolanda, e sabe disso. Também não tenho medo de aranhas, nem das grandes. Então você vem?
Margarida conseguia sentir o olhar desaprovador da mãe direcionado para ela e se voltou para algumas frutas picadas sobre uma camada de gelo. Os pedaços finos estavam meio congelados e deliciosos e ela mal conseguia se lembrar de quando uma refeição terminara com algo tão bom.
— Vou — cochichou Iolanda.
Margarida estendeu a mão e a deixou descansar sobre a da irmã, sabendo muito bem que não devia se arriscar à ira da mãe com outra palavra. O pai contava alguma história tediosa sobre um de seus rendeiros e o rei deu uma risadinha, provocando uma onda de risos pela mesa. Sem dúvida, a refeição fora um sucesso, mas ela sabia que o rei não fora a Saumur pela comida e pelo vinho. De cabeça baixa, olhou o monarca da França. O homem parecia bastante comum, mas João, Luís e Nicolau estavam fascinados por ele e ignoravam a comida ao mínimo comentário dos lábios reais. Margarida sorriu consigo mesma, sabendo que pela manhã zombaria deles por causa disso. Seria sua retribuição por a terem caçado como uma raposa.