Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 38 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 31

 

 

Jack deu um passo atrás, franzindo os olhos para a linha de argamassa que pressionara contra o tijolo. Com a mão firme, passou a pontuda colher de pedreiro pela linha, satisfeito pelo jeito como as paredes cresciam. Quando os longos dias de verão começaram a encurtar, convencera Paddy e Ecclestone a se unir a ele no serviço. Nenhum deles precisava do trabalho, mas lhe dera prazer que mesmo assim tivessem aceitado. Paddy estava no alto do telhado, martelando pregos nas tábuas com mais entusiasmo que habilidade. Jack sabia que o amigo havia mandado algumas moedas a seu lar na Irlanda, para uma família que fazia muitos anos que não via. Paddy bebera uma grande porção do que restara de todas as tabernas e estalagens a quilômetros de distância. Era uma bênção o irlandês ser um bêbado sensato, dado a cantar e às vezes chorar em vez de quebrar as mesas. Jack sabia que o velho amigo não se sentia bem tendo qualquer tipo de riqueza. Por razões que não sabia explicar direito, Paddy parecia decidido a queimar a fortuna e ficar sem uma moeda outra vez. Isso aparecia no peso que ganhara e na pele flácida em torno dos olhos injetados. Jack balançou a cabeça, triste ao pensar no assunto. Alguns homens não conseguiam ser felizes e ponto final. Chegaria um dia em que Paddy perderia tudo e ficaria reduzido à mendicância, isso era certo. Jack nada lhe tinha dito, mas certamente haveria uma cama para Paddy na casa que estavam construindo, ou talvez um celeiro quente na terra onde o grandalhão pudesse dormir. Era melhor planejar essas coisas para não ver o amigo morrer congelado numa sarjeta.

Ecclestone misturava mais cal, crina de cavalo, areia e água, com um pano enrolado no rosto para evitar os vapores acres. Havia comprado uma fábrica de sebo na cidade e aprendera o ofício de fazer velas e sabão com uma pequena equipe de dois rapazes e um velho. Pelo que diziam, Ecclestone ia bastante bem. Jack sabia que ele usava a famosa navalha para cortar os blocos de sabão branco pintalgado, enquanto as mocinhas olhavam com expressão espantada. Às vezes, uma multidão se reunia à porta da loja, homens e mulheres que conheciam suas façanhas, só para assistir à incrível perfeição de seus cortes.

O trabalho poderia andar mais depressa se não passassem tanto tempo rindo e conversando, mas Jack não se importava com isso. Contratara três moradores para erguer a estrutura de madeira, cortando cavilhas e rabos-de-andorinha com o talento e a velocidade da longa experiência. Outro morador fornecera os tijolos, cada um deles com o polegar do fabricante impresso no barro ao secar. Jack achava que ele e os dois amigos terminariam o restante antes do inverno, com uma casa quente e confortável.

A nova edificação estava longe de ser tão grande quanto a que tinham queimado. As terras do magistrado saíram bem baratas com apenas vigas enegrecidas em pé nos jardins, mas não parecera correto construir outra mansão. Em vez disso, Jack planejara um lugar para uma família pequena, com dois cômodos grandes no andar térreo e três quartos em cima. Não havia contado aos outros dois por medo de que rissem dele, no entanto, a notícia de suas façanhas em Londres tinha provocado o interesse de mais de uma mulher solteira. Ele estava de olho na filha de um padeiro da aldeia. Achou que provavelmente não seria tão ruim assim ter pão fresco a vida inteira. Jack podia imaginar alguns meninos correndo em volta e nadando no lago, sem ninguém para expulsá-los das terras. Era uma ideia agradável. Kent era um condado bonito, na verdade. Ele chegara a pensar em arrendar alguns campos para cultivar lúpulo. Algumas estalagens da cidade começaram a vender seus produtos como a cerveja de Jack Cade. Fazia sentido pensar em lhes fornecer a genuína.

Jack deu uma leve risada consigo mesmo ao pegar outro tijolo e lhe passar cimento úmido. Seria um homem de negócios de verdade, com boas roupas e um cavalo para ir à cidade. Não era um destino ruim para um arruaceiro e seus companheiros.

Ele ouviu os passos de homens em marcha antes de vê-los chegando pelo longo caminho. Paddy assoviou um alerta lá em cima, já começando a descer. Cade sentiu um antigo tremor no estômago, mas se lembrou que não tinha nada a temer, não mais. Havia passado a vida inteira pensando que os meirinhos o pegariam algum dia. De certo modo, era difícil se lembrar de que fora perdoado por todos os seus crimes — e tomar cuidado para não cometer outros. Naqueles dias, Jack cumprimentava os homens do rei ao passar por eles na cidade, vendo que sabiam quem era pela expressão azeda. Mas não podiam fazer nada a respeito.

Jack pousou a colher de pedreiro nas filas de tijolos, batendo levemente no facão do cinto por hábito, para se assegurar de que ainda estava lá. Estava em sua própria terra, legalmente comprada. Não importa quem fossem, ele era um homem livre, pensou, com um perdão por escrito para provar. Havia um machado ali perto, com a lâmina enterrada num toco para que não enferrujasse. Jack lhe lançou um olhar, sabendo mesmo assim que se sentiria mais feliz com uma arma decente nas mãos. Era um pensamento do homem que tinha sido. Não era o pensamento do respeitável Jack Cade, proprietário de terras, já meio comprometido com a ideia de se casar, ou pelo menos pensando no assunto.

Paddy chegou a seu lado, um pouco ofegante após descer do telhado. Tinha um martelo na mão, um pedaço pequeno de carvalho e ferro maciço. Apontou os soldados.

— Parecem vinte, talvez mais, Jack. Quer fugir?

— Não — respondeu Jack brevemente. Foi até o machado e o tirou da madeira, descansando a mão direita no alto do longo cabo de freixo. — Soube que o novo xerife chegou de Londres. Não duvido que gostaria de nos ver correndo como coelhos pelo campo, mas agora somos homens livres, Paddy. Homens livres não fogem.

Ecclestone foi até eles, limpando do rosto uma marca de cal branco-amarelada. Jack viu que estava com a navalha escondida na mão, antigo hábito que não permitira cair em desuso nos meses anteriores.

— Não façam nenhuma burrice, rapazes — murmurou Jack quando a linha de soldados em marcha se aproximou. Ele podia ver o estandarte do xerife tremulando entre eles, e não pôde conter um sorriso ao se lembrar do anterior.

Os três amigos ficaram parados e ameaçadores enquanto os soldados se espalhavam, formando um semicírculo em torno deles. O homem que apeou no centro usava uma barba preta e curta e era quase tão grande quanto Jack e Paddy.

— Boa tarde — saudou, sorrindo. — Eu me chamo Alexander Iden. Tenho a honra de ser o xerife deste condado.

— Sabemos quem é — avisou Jack. — Também nos lembramos do anterior.

Uma sombra atravessou o rosto de Iden com essa resposta.

— Pois é, pobre homem. Então o senhor é Jack Cade?

— Sou, sim. O senhor também está em minhas terras, e eu agradeceria se dissesse o que deseja e fosse embora. Como pode ver pela casa, tenho trabalho a fazer.

— Acho que não — respondeu Iden. Enquanto Jack observava, ele puxou uma espada comprida da bainha na cintura. — Jack Cade, você está preso por ordem da Coroa. As acusações são formação de quadrilha, traição e homicídio de autoridades do rei. Agora, irá para Londres com calma ou com violência? Diga logo; dará na mesma.

Jack sentiu uma grande calma inundá-lo, uma frieza que saiu das entranhas e deixou seus braços e pernas dormentes. Sentiu uma onda de fúria por ter confiado que os nobres e os lordes de Londres manteriam a palavra. Haviam escrito e selado o perdão! Palavras escritas; palavras com autoridade. Ele pedira a um escriturário local que as lesse para ele uma dezena de vezes, tão sólidas e reais como tudo no mundo. Depois de voltar a Kent, Jack guardara o documento com um prestamista da cidade e desde então pedira para vê-lo duas vezes, só para passar a mão sobre as letras escuras e saber que era verdade. Mesmo com o coração batendo com força no peito e o rosto corando, ele se agarrou àquele junco esguio.

— Eu fui perdoado, Iden. Um papel com o selo e a assinatura da própria rainha está guardado num cofre na cidade. Meu nome está nele, e isso significa que você não pode tocar num fio de minha cabeça.

Jack levantou o machado, segurando o cabo com ambas as mãos e apontando a grande lâmina para o xerife.

— Tenho minhas ordens — retrucou Iden dando de ombros. Parecia quase divertido com a indignação que via no rebelde. — Então não virá em paz?

Jack podia sentir a tensão em seus dois amigos. Olhou de relance para Paddy e viu que o homenzarrão suava profusamente. Ecclestone estava imóvel como uma estátua, fitando com ódio a garganta do xerife.

— Vocês dois deviam ir embora — murmurou Jack. — Seja o que for que esse quebrador de juramentos quer, não é com vocês. Vão.

Paddy olhou o amigo como se tivesse levado um tapa, os olhos arregalados.

— Estou cansado de fugir, Jack — disse em voz baixa.

Naqueles últimos meses, os três puderam ter um vislumbre de uma vida diferente, uma vida em que não precisavam ter medo das autoridades do rei, com os homens do condado de olho neles, obrigando-os a mendigar. Haviam lutado em Londres, e isso os mudara. Ecclestone e Paddy se entreolharam e ambos balançaram a cabeça em negativa.

— Tudo bem então, rapazes — disse Jack, e sorriu para os dois amigos, ignorando os soldados que os encaravam.

O xerife vinha observando a conversa com atenção. Como os três homens não mostraram sinais de se render, fez com a mão um gesto como se picasse algo com uma faca. Os soldados avançaram com espadas e escudos prontos. Não houve aviso, mas Jack esperava o ataque e girou selvagemente o machado, destruindo um escudo e esmagando a costela do primeiro a lhe pôr a mão. O homem gritou, um som repentino e chocante no jardim.

Ecclestone se moveu depressa, virando os ombros e se enfiando entre dois homens com cota de malha na tentativa de alcançar o xerife. Jack berrou de pesar ao ver o amigo ser derrubado por um grande golpe, a espada do xerife cortando-o profundamente no pescoço. Paddy rugia, a grande mão esquerda apertada nas vestes de alguém enquanto usava o martelo para esmagar o rosto e a cabeça de um soldado. Jack continuava a girar e atingir, já sabendo que não havia esperança, que nunca houve esperança. A respiração ficou pesada. Sentiu que os soldados a sua volta tentavam não desferir golpes fatais, porém um deles o atingiu nas costas com a lâmina, estocando-o com selvageria. Ouviu Paddy gemer ao ser derrubado, as pernas lançadas no ar quando foi atingido pelo flanco.

Outra faca foi enfiada entre as costelas de Jack e lá ficou quando ele se contorceu de dor. Com uma sensação de choque e assombro, sentiu sua grande força sumir. Desmoronou, rapidamente chutado e surrado até ficar tonto, com os dedos quebrados e o machado arrancado das mãos.

Jack estava apenas semiconsciente ao ser arrastado para que o xerife Iden o examinasse. Havia sangue no rosto e na boca de Jack. Ele cuspiu fraco enquanto estranhos o seguravam com firmeza. Os amigos foram mortos, deixados no próprio sangue onde caíram. Jack praguejou ao ver o corpo dos dois e amaldiçoou os homens do rei em volta.

— Idiotas, qual de vocês o esfaqueou? — Jack ouviu Iden ralhar. O xerife estava furioso, e os soldados olharam o chão, corados e ofegantes. — Maldição! Ele não viverá até Londres com esse ferimento.

Jack sorriu ao ouvir isso, embora doesse. Conseguia sentir a vida se esvaindo para o chão de terra, e só lamentava Ecclestone não ter cortado a garganta do xerife.

— Amarrem esse traidor num cavalo — continuou Iden, furioso. — Meu Deus, eu não disse que ele tinha de ser levado com vida?

Jack balançou a cabeça, sentindo um frio estranho apesar do calor do sol. Por um instante, pensou ter ouvido vozes de crianças, mas então desapareceram e ele amoleceu nos braços dos homens que o seguravam.