Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 9 de 43

Páginas do PDF

Pássaro da Tempestade

Capítulo 4

 

 

Reuben sentiu o gosto de sangue ao cambalear de lado pela estrada. Sentia o cheiro da multidão suja que vaiava e cuspia nele, chamando-o de “assassino de Cristo” e “blasfemo”, com o rosto corado de indignação moralista. Alguns jogaram nele pedras e lixo frio e úmido que o atingiu no peito e deslizou para dentro da camisa aberta.

Reuben ignorou os cidadãos indignados. Não podiam feri-lo mais do que já o tinham feito. Todas as partes de seu corpo estavam roxas ou machucadas, e um dos olhos era apenas uma massa cega e grudenta que soltava um rastro de fluido pelo rosto. Mancava ao ser empurrado pela rua de Nantes, gritando enquanto os pés sangravam pelas ataduras e deixavam pegadas rubras nas pedras.

Ele havia perdido algo nos meses de tortura e prisão. Não sua fé. Nunca duvidou um minuto de que seus inimigos receberiam a mesma punição. Deus os perseguiria e os faria curvarem as cabeças com ferro em brasa. Mas sua crença em alguma noção de decência dos homens fora esmagada da mesma forma que seus pés. Ninguém tinha ido defendê-lo nem tirá-lo dos tribunais. Conhecia pelo menos uma dezena de homens com riqueza e autoridade suficientes para obter sua libertação, mas todos se calaram quando souberam da notícia de seus terríveis crimes. Reuben, cansado, balançou a cabeça, inundado de fatalismo. Nada daquilo fazia sentido. Como se um homem de sua posição fosse passar as noites bebendo o sangue de crianças cristãs! Não quando havia bom vinho tinto na adega.

As acusações foram tão monstruosas que, a princípio, teve certeza de que a verdade viria à tona. Nenhum homem sensato acreditaria em nada daquilo. Os juízes da cidade, porém, tinham retorcido os lábios gordos ao fitar a figura surrada e alquebrada arrastada desde a masmorra. Olharam-no com nojo evidente, como se ele tivesse escolhido virar a coisa trêmula e fedorenta em que os inquisidores do tribunal o transformaram. De gorro preto, os juízes pronunciaram a pena de morte por açoitamento, com todos os sinais de satisfação por um serviço bem-executado.

Reuben havia aprendido na cela um novo tipo de coragem, com a bota que o forçaram a usar, que podia ser apertada cada vez mais até os ossos rangerem e se quebrarem. Em toda a vida, nunca tivera força nem vontade para lutar. Com o que Deus lhe dera, havia enriquecido: com seu intelecto, zombando em segredo dos que se gabavam da capacidade de levantar e balançar barras de ferro no ar. Mas nem quando a dor se tornou insuportável, depois de deixar a garganta em carne viva de tanto gritar, ele confessou. Era uma teimosia que não sabia ter em si, talvez a única maneira que lhe restava de mostrar seu desprezo. Quisera enfrentar a execução com esse farrapo de orgulho ainda intacto, como um último fio de ouro numa capa gasta.

O juiz-mor de Nantes fora a sua cela após muitos dias. Jean Marisse parecia um cadáver, segurando um pomander de pétalas secas junto ao nariz contra o fedor. Mascarado de sangue seco e fezes, Reuben o havia olhado com raiva pelo único olho bom, na esperança de envergonhar Marisse com algo como dignidade. Ele já não conseguia falar. Todos os dentes foram quebrados, e ele mal conseguia engolir a porção de mingau de aveia que lhe davam todo dia para mantê-lo vivo.

— Vejo que o orgulho do demônio ainda está nele — dissera Jean Marisse aos guardas.

Reuben o fitara com ódio cego. Conhecia Jean Marisse, como conhecia todas as autoridades da região. Já parecera um empreendimento lucrativo aprender seus hábitos, embora isso não o salvasse. Entre as meretrizes da cidade, o homem tinha fama de preferir açoitá-las a beijá-las. Falava-se até de uma moça que havia morrido depois de uma noite com ele. A esposa de Marisse ficaria escandalizada com a notícia, Reuben tinha certeza. Sua mente girava com as acusações que faria, mas não havia ninguém para o escutar, e sua língua fora totalmente esticada e mutilada com pinças especialmente projetadas para isso.

— Seus inquisidores me dizem que não confessará seus pecados — tinha dito Jean Marisse. — Consegue me ouvir, monsieur Moselle? Dizem que não assinará nada, embora tenham lhe deixado a mão direita intacta com esse propósito. Não entende que tudo isso terminaria? Seu destino já está escrito, tão certo quanto o pôr do sol. Nada lhe resta. Confesse e busque a absolvição. Nosso Senhor é um Deus misericordioso, ainda que eu não espere que um de vocês, abraâmicos, entenda isso. Está escrito que têm de queimar por suas heresias, mas quem sabe, não é verdade? Caso se arrependa, caso confesse, Ele ainda pode poupá-lo do fogo do inferno.

Reuben se lembrou de tê-lo encarado. Havia sentido que conseguiria canalizar toda sua dor naquele olhar até despir as mentiras do outro e abri-lo até os ossos. Marisse já parecia um cadáver, com o rosto magro e a pele igual a um pergaminho amarelo e enrugado. Mas Deus não o fulminou. Jean Marisse ergueu o queixo, como se o próprio silêncio fosse um desafio a sua autoridade.

— Suas propriedades foram confiscadas, compreende? Nenhum homem pode lucrar com a associação com o demônio. Sua esposa e seus filhos terão de encontrar o próprio caminho pelo mundo. Você já dificultou bastante a vida deles com seus ritos e suas magias secretas. Temos uma testemunha, monsieur Moselle, um cristão de boa reputação e honra impecável. Compreende? Não há esperança para o senhor neste mundo. Quem cuidará de sua família agora, quando o senhor se for? Continuarão a sofrer pelo que fez? O céu grita, Reuben Moselle. Grita contra a dor dos inocentes. Confesse, homem, e isso acaba!

Na rua, Reuben cambaleou contra um camponês que berrava, traído pelo pé quebrado. Imediatamente, o homem corpulento o golpeou e jogou a cabeça de Reuben para trás, fazendo um novo fluxo de sangue respingar de seu nariz. Ele viu as gotas de cor viva brilharem na palha e na imundície que formavam a rua até a praça da cidade. Um dos guardas rosnou para o camponês, empurrando-o para trás na multidão com a lança cruzada sobre o peito. Mesmo assim, Reuben ouviu o homem rir, contente de poder contar aos amigos que batera na cabeça do judeu.

Ele continuou aos tropeços, a mente perdendo e recuperando a clareza. A rua parecia continuar infinitamente, e cada passo era acompanhado por moradores da cidade que iam vê-lo morrer. Um menino de rua de nariz catarrento esticou o pé e Reuben caiu com um gemido, os joelhos atingindo as pedras e fazendo uma pontada de dor subir por suas pernas. A multidão riu, alegre porque parte da cena se desenrolava a sua frente. Os que se acotovelavam em seis filas ao longo do caminho até o palco não tinham dinheiro para comprar um lugar na praça principal.

Reuben sentiu um braço forte erguê-lo, acompanhado pelo cheiro de alho e cebola que conhecia bem da prisão. Tentou agradecer ao guarda pela ajuda, mas as palavras saíram ininteligíveis.

— De pé — grunhiu o homem. — Agora já está perto.

Reuben recordou Jean Marisse se inclinando sobre ele na cela, como um corvo que examinava um corpo atrás de alguma parte que ainda valesse a pena comer.

— Alguns se perguntam como um judeu conseguia realizar esses feitiços e rituais imundos sem que a esposa e os filhos soubessem. Está me entendendo, monsieur Moselle? Há quem diga que a esposa é tão culpada quanto o marido, que os filhos devem estar tão contaminados quanto o pai. Dizem que seria um crime deixá-los em liberdade. Se não confessar, será meu dever trazê-los para cá, para essas celas, e interrogá-los. Consegue imaginar como seria para uma mulher, monsieur Moselle? Ou uma criança? Consegue conceber seu terror? Mas não se pode permitir que o mal crie raízes. As ervas daninhas têm de ser arrancadas e lançadas ao fogo antes que espalhem suas sementes ao vento. Entende, monsieur? Assine a confissão e isso acabará. Tudo isso acabará.

Apenas um ano antes, Reuben teria zombado de uma ameaça dessas. Tinha amigos e riqueza então, e até influência. O mundo era um lugar em ordem, onde homens inocentes não se viam agarrados aos berros enquanto estranhos faziam seu trabalho, sem que ninguém viesse ajudar, sem nenhuma palavra de consolo. Aprendera o que era realmente o mal nas celas sob o pátio da prisão de Nantes. A esperança havia morrido nele à medida que sua carne era queimada e despedaçada.

Ele assinou. A lembrança estava clara em sua mente, olhando a própria mão trêmula ao pôr o nome abaixo de mentiras sem se dar ao trabalho de lê-las. Jean Marisse sorrira, os lábios se descolando dos dentes podres quando se aproximara. Reuben ainda se lembrara de seu fôlego acalorado e da voz do juiz, que havia ficado quase gentil.

— Agiu bem, monsieur — comentara Marisse. — Não há vergonha em finalmente dizer a verdade. Console-se com isso.

A praça da cidade estava lotada de espectadores, deixando apenas um caminho estreito entre fileiras de guardas. Reuben tremeu ao ver caldeirões de água fervente nos dois lados de uma plataforma elevada. Com muito gosto os torturadores lhe descreveram como iria morrer. Divertiram-se com a certeza de que ele entendia o que o esperava. Derramariam água fervente sobre sua pele, para queimá-la e soltá-la dos ossos e tornar mais fácil arrancar tiras compridas de carne fumegante de seus braços e de seu peito. Seriam horas de tormento intolerável para o prazer da multidão. Reuben soube, com um calafrio, que não conseguiria suportar. Viu-se transformado num animal aos berros diante de todos, despido de toda sua dignidade. Não ousou pensar na esposa nem nas filhas. Não ficariam abandonadas, disse a si mesmo, tremendo. Sem dúvida, o irmão as abrigaria.

Até as lembranças de seus inimigos tiveram de ser esmagadas num canto da mente. Ele tinha quase certeza de saber quem havia arquitetado sua queda, apesar de todo o bem que lhe fizera antes. O duque Renato de Anjou lhe pedira fortunas emprestadas nos meses anteriores à prisão, dando como garantia o Castelo de Saumur. A primeira prestação deveria ser paga mais ou menos na época em que os soldados foram prendê-lo. A esposa de Reuben havia sido contra o empréstimo, dizendo que todos sabiam que a família Anjou não possuía dinheiro, mas um nobre como Renato poderia arruinar um homem com a mesma facilidade por causa de uma recusa.

Enquanto era amarrado a mastros voltados para a multidão, Reuben tentou resistir ao terror balbuciante que gritava dentro de si. Aquilo seria brutal, o mais brutal que conseguissem. Ele só podia desejar que o coração desistisse, aquela coisa assustada e saltitante que batia com força em seu peito.

Os homens na plataforma eram todos moradores locais que tinham recebido alguns deniers de prata pelo trabalho. Reuben não conhecia o rosto de ninguém, e se sentiu grato por isso. Já era bastante difícil ter estranhos uivando e berrando para ele. Não achava que suportaria ver rostos de homens conhecidos. Enquanto seus membros eram presos com severidade, a multidão se aproximou para ver seus ferimentos, apontando-os com fascínio.

Seu olhar varreu os rostos vazios que berravam e então parou de repente, a névoa se limpando do olho bom. Um balcão pendia acima da praça, e um pequeno grupo de homens e mulheres estava lá, assistindo aos procedimentos e conversando entre si. Reuben reconheceu lorde York antes mesmo que o homem visse que ele o fitava e encarasse seu olhar com interesse. Reuben viu o homem chamar a atenção da esposa e ela também olhou por cima da balaustrada, apertando a mão na boca com um temor disfarçado quando seu peito ossudo foi revelado.

Reuben baixou os olhos, a humilhação completa. Os homens da plataforma tinham-lhe arrancado a camisa, revelando uma massa de hematomas em todos os tons de amarelo e roxo, chegando quase ao preto onde as costelas tinham sido chutadas e quebradas.

— Baruch dayan emet — murmurou Reuben, pronunciando as palavras com dificuldade. A multidão não o ouviu abençoar o único e verdadeiro juiz que importava. Tentou não pensar nas pessoas que o rodeavam, fechando os olhos quando as primeiras jarras de barro foram mergulhadas na água borbulhante e as longas facas mostradas à multidão. Ele sabia que não suportaria mas também não poderia morrer enquanto eles não permitissem.

Portsmouth era barulhenta, com o burburinho e os gritos nas ruas de um dos grandes portos do reino. Apesar do anonimato da via movimentada, Derry Brewer insistira em esvaziar a estalagem de todos os fregueses e empregados antes de dizer uma só palavra sobre assuntos particulares. Três guardas corpulentos do lado de fora fitavam os homens irritados que nem puderam terminar as cervejas.

Derry foi até o balcão e cheirou uma jarra antes de despejar a cerveja escura numa grande caneca de madeira. Ergueu-a num falso brinde enquanto voltava a se sentar e tomava um longo gole. Lorde Suffolk se serviu da jarra d’água sobre a mesa, esvaziou o copo e estalou os lábios ao voltar a enchê-lo. Ao mesmo tempo que o olhava, Derry puxou um saco das costas e remexeu em suas profundezas. Tirou um rolo de pergaminho selado com cera e envolto numa fita dourada.

— Parece que o papa está bastante receptivo, William. Fico espantado quando um homem tão espiritual encontra propósito para o cofre de prata que lhe mandamos, mas talvez vá para os pobres, não é?

Suffolk preferiu não honrar a pergunta zombeteira com uma resposta. Tomou outro longo gole para tirar o gosto de sal do mar da boca. Passara os últimos seis meses indo e voltando da França com tanta frequência que os trabalhadores do porto o cumprimentavam pelo nome ao tirar o chapéu. Estava absolutamente exausto, cansado de discussões e debates bilíngues. Olhou o rolo amarrado nas mãos de Derry, ciente de que isso assinalava a aproximação veloz da realidade.

— Sem felicitações? — perguntou Derry alegremente. — Sem “muito bem, Derry”? Estou desapontado com você, William Pole. Não há muitos homens capazes de conseguir isso nesta época, mas consegui, não foi? Os franceses procuraram raposas e só encontraram pintinhos inocentes, exatamente como queríamos. O casamento vai acontecer e só precisamos mencionar casualmente aos ingleses que moram em Maine e Anjou que seu serviço não é mais apreciado pela Coroa. Em resumo, eles que vão se foder.

Suffolk fez uma careta, tanto pela palavra, quanto pela verdade que continha. Os ingleses de Anjou e Maine tinham empreendimentos e propriedades imensas. Desde os lordes, nobres com poder e influência, até os mais reles aprendizes, todos ficariam enfurecidos quando o exército francês chegasse para expulsá-los.

— Mas tem uma coisa, William. Um problema delicado que hesito em trazer a um nobre de sua posição.

— O que é, Derry? — quis saber Suffolk, cansado de joguinhos. O copo d’água estava vazio de novo, mas a jarra secara. Derry girou a cerveja na caneca, fitando o líquido em movimento.

— Pediram que o casamento se realizasse na Catedral de Tours, é isso. Terra que terá o exército francês acampado do lado de fora, pronto para tomar posse do preço do armistício, é isso! Não vou deixar Henrique entrar lá, William, não enquanto meu coração bater.

— Você não vai deixar? — retrucou Suffolk, erguendo a sobrancelha.

— Você sabe o que quero dizer. Seria como pendurar um pedaço de carne na frente de um gato. Não deixarão que saia de suas garras, é o que estou lhe dizendo.

— Então mude o lugar. Insista em Calais, talvez. Se ele não estiver em segurança lá, tampouco estaria em segurança se casando na Inglaterra.

— Aquelas cartas que você levou durante meses não eram só contrapeso, William Pole. Não aceitariam Calais, onde sua realeza estaria cercada por um exército inglês. Gostaria de saber por que isso. Eis uma ideia. A razão é a mesma para não concordarmos com Tours? Pode me dar crédito por ter alguma inteligência, William. Tentei insistir, mas eles não cederam nem uma maldita polegada. Seja como for, não importa o lugar da cerimônia, temos outro problema, não temos? Não é possível permitir que nosso Henrique converse com o rei francês. Basta uma breve conversa com o cordeiro e eles começarão a tocar as malditas trombetas e olhar para o outro lado do canal da Mancha.

— Ah, sim, isso é um problema. Em Tours ou em Calais. Não vejo... Não haverá alguma posição neutra, a meio caminho entre os dois?

Derry ergueu os olhos desdenhosos para o homem mais velho.

— Que vergonha nunca ter tido à disposição sua mente afiada para me ajudar enquanto eu suava sobre os mapas procurando exatamente um lugar desses. A resposta é não, William. Há território inglês e território francês. Não há nada intermediário. Ou nós cedemos ou eles cedem, senão a coisa toda emperra e não haverá casamento nem armistício. Ah, também não resolvemos o problema do cordeiro ter de ficar calado a missa inteira. Você acha que o rei aceitará isso, William? Ou é mais provável que ele lhes diga que mantém seus navios afastados com as malditas mãos toda noite? O que acha?

William viu que Derry sorria ao mesmo tempo que anunciava o fracasso evidente de meses de trabalho.

— Você tem uma solução — declarou. — É isso?

Derry ergueu a caneca de novo, tomando goles generosos e pousando-a vazia.

— Belo gole, esse. É, tenho a resposta a suas preces, William Pole. Ou a resposta às preces reais, talvez. Ele se casará em Tours, tudo bem. Só que não estará lá.

— O quê? Isso é uma charada, Derry? — William viu os olhos do outro esfriarem e engoliu em seco.

— Não gosto de que duvidem de mim, William Pole. Eu lhe disse que tinha uma resposta e não há na Inglaterra mais três homens que conseguiriam abrir caminho pela neblina com que os franceses embrulharam a situação. Você sabe como eles são, tão convencidos da própria superioridade que mal conseguem acreditar que continuamos a surrá-los. É preciso uma arrogância muito especial para ignorar que suas costas foram lanhadas tantas vezes, mas eles conseguem. Não me pergunte como.

Ele viu a confusão na expressão de lorde Suffolk e balançou a cabeça.

— Você é bondoso demais para isso, William — continuou. — É disso que gosto em você, principalmente, mas é preciso ser um crápula com língua de cobra para passar a perna num desses sodomitas. Concordaremos com a igreja em Tours, mas nosso cordeiro ficará doente no último instante, quando for tarde demais para cancelar. É o tipo de notícia que fará a língua deles coçar de empolgação. — Ele continuou fingindo um sotaque francês atroz. — Comme o pai dele! Il est doente! Peut-être ele non sobreviva. Mas você estará lá para trocar alianças e votos no lugar dele, William. Você se casará com a pequena Margarida no lugar dele.

— Eu não — retrucou Suffolk com firmeza. — Já sou casado! Como uma coisa dessas seria sequer legal? Tenho 47 anos, Derry, e sou casado!

— É, você já disse. Gostaria de ter pensado nisso antes. Francamente, William, não acho que você tenha cérebro de peixe. É só na aparência, não é? Uma cerimônia em Tours, com você representando Henrique; depois, um casamento de verdade quando ela estiver a salvo na Inglaterra. Tudo dentro da lei. Eles aceitarão porque terão levado meses só para escolher os lugares à mesa no banquete de casamento. Vamos apresentar a coisa de modo que não lhes reste nenhuma opção além dessa.

— Meu Deus! — exclamou William com voz fraca. — Alguém terá de avisá-la, a garota.

— Não, essa é uma coisa que não faremos. Se ela souber antes do dia do casamento, o rei francês terá tempo de cancelar. Agora, veja bem, William. Trouxemos esse pavão dourado até a mesa. Não vou deixar que fuja agora. Não, essa é a única maneira. Eles descobrem no dia e a cerimônia acontece com você. Não é uma boa razão para tomar uma cerveja só uma vezinha, William? É cerveja maltada de Kent, sabe, um centavo a caneca se eu estivesse pagando. Também preparam boas costeletas e rins aqui, depois que eu deixar que entrem. Vamos brindar a seu segundo casamento, William Pole. Seu coração não canta como uma maldita cotovia com a ideia? O meu certamente canta.