Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 34 de 43

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Pássaro da Tempestade

Capítulo 27

 

Ricardo Neville começava a entender a exatidão dos avisos de Brewer. Sua corrida impetuosa pela cidade fora atrapalhada por multidões de homens bêbados e violentos e até mulheres que gritavam e zombavam de seus soldados. Ruas inteiras foram bloqueadas por barricadas improvisadas, e ele teve de se desviar várias vezes, guiado por seus capitães nascidos em Londres rumo aos Homens Livres de Kent.

Não conseguia entender o estado de espírito das ruas, sentia apenas um desprezo frio pelos oportunistas e imbecis iludidos. O exército de Cade era uma ameaça a Londres, e lá estava Warwick, correndo em sua defesa, sendo atingido com imundície, pedras e tijolos sempre que uma turba se reunia em seu caminho. Era enfurecedor, mas eles ainda não eram suficientes para obstruir completamente sua passagem. Estava disposto a dar a ordem de puxar a espada contra quaisquer vagabundos e desordeiros, mas, por enquanto, seus capitães o levavam por uma trajetória sinuosa pelo centro, seguindo para o sul com seiscentos homens.

Os cavaleiros e os homens de armas que levara a Londres não eram suficientes para atacar Cade diretamente, ele sabia disso. Mas seus capitães lhe asseguraram que o ajuntamento de Cade seria dispersado por quilômetros de ruas e vielas. O jovem conde sabia que sua melhor chance seria cortar caminho em algum ponto e recuar rapidamente para atacar de novo em outro lugar. Sabia que devia evitar um choque maior; a quantidade dos que invadiam a cidade simplesmente era grande demais.

A primeira oportunidade apareceu como havia imaginado, quando Warwick virou uma esquina, olhou por uma pequena ladeira abaixo até um cruzamento e parou ao avistar homens armados correndo com muita pressa. Ficou ali debaixo do aguaceiro em relativa segurança, a menos de 20 metros das tropas principais de Cade, que seguiam, sem perceber, por sua rota. Alguns chegaram a olhar para a esquerda ao passar pela entrada da rua, vislumbrando os soldados de Warwick na escura via lateral, observando-os. Pegos na fila de homens irritados, foram forçados a avançar antes que pudessem parar.

— Mantenham uma linha de retirada — ordenou Warwick. Para seu desagrado, a voz tremeu, e ele pigarreou antes de continuar com as ordens. — São todos traidores. Entramos, matamos o máximo que pudermos enquanto estiverem surpresos e recuamos para... — Ele olhou em volta e viu uma placa de madeira. Inclinou-se um pouco para ler e, por um instante, revirou os olhos. — Para Shiteburn Lane... a travessa onde se queima merda.

Ao menos o nome ajudava a explicar em que ele afundara até os tornozelos. Pensou por um momento, com saudade, nos tamancos de madeira que o ergueriam acima da imundície, embora dificilmente conseguisse lutar com eles. As botas teriam de ser queimadas depois.

Ele puxou a espada, o punho ainda novo, com a cota de armas de Warwick esmaltada em prata. A chuva corria por ela, juntando uma lama de sujeira a seus pés. Ajustou o escudo no antebraço esquerdo e tocou de leve a viseira de ferro sobre a testa. Inconscientemente, balançou a cabeça, quase tremendo ao pensar que iria sumir naquela massa de homens armados com apenas uma nesga de luz para enxergar. Deixou a viseira erguida e se virou para os homens.

— Cortem a linha, cavalheiros. Vejamos se conseguimos manter uma única rua. Comigo agora.

Com a espada erguida, Warwick avançou para o cruzamento de ruas, os homens se formando em torno dele para o primeiro golpe.

Thomas andava a trote por ruas que recordava da juventude, e momentos de saudade o atingiam, contrapostos à realidade insana de seguir Jack Cade e sua ralé ensanguentada pelo coração de Londres. Mantinha Rowan por perto ao avançar, e ambos levavam no ombro os arcos longos encordoados, inúteis agora, com as cordas alongadas pela chuva e todas as flechas perdidas na ponte. As espadas eram escassas, e Thomas tinha apenas uma clava de carvalho robusta que tirara de um moribundo. Rowan estava armado com uma adaga tirada de um dos soldados que foi tolo a ponto de ficar em seu caminho.

Os homens de Jack pegavam armas melhores de cada grupo que encontravam; venciam as fileiras de soldados e depois saqueavam os corpos, substituindo adagas por espadas, escudos de madeira por escudos de verdade, fossem quais fossem as cores. Mesmo assim, não eram suficientes para todos os que vinham atrás e ainda clamavam por um bom pedaço de ferro afiado.

A tempestade enfraquecia e a lua estava alta no céu, emprestando sua luz às ruas que seguiam diretamente abaixo dela. A violência que Thomas vira na hora anterior havia sido simplesmente estarrecedora, enquanto os homens de Cade faziam em pedaços quem estivesse em sua frente e depois andavam sobre os mortos. Os soldados que defendiam a cidade estavam desorganizados, surgindo em ruas laterais ou parando em pânico ao perceberem que foram parar no caminho de Cade. Os homens do rei tinham terreno demais para cobrir. Mesmo que adivinhassem a intenção de Cade pela trajetória rumo ao Guildhall, não poderiam se comunicar com cada uma das forças nas ruas. Os grupos de soldados que perambulavam protegiam barricadas nos lugares errados ou seguiam o som da luta o melhor que podiam naquele labirinto.

A vanguarda de Cade encontrara um grupo de cerca de oitenta homens trajando cota de malha, parados numa rua vazia ao luar, com as cabeças inclinadas como se escutassem o ruído noturno da cidade. Foram derrubados e depois sofreram a indignidade de ter as túnicas de metal engordurado arrancadas dos corpos ainda quentes.

A fila de homens de Kent e Essex se espalhara conforme as ruas se ramificavam, acrescentando novas caudas e rotas enquanto os homens se perdiam na escuridão. A direção comum era o norte, para o interior da cidade, com a Cannon Street e a Pedra de Londres ficando para trás.

Thomas forçou a memória, verificando cada cruzamento atrás de sinais de que estava no caminho certo. Sabia que Jack contava com ele para encontrar o caminho, mas a verdade era que fazia vinte anos que não ia à cidade e as ruas sempre pareciam diferentes à noite. Deu uma leve risada ao pensar na reação de Jack se os levasse num grande círculo e vissem o Tâmisa de novo.

Uma rua mais larga que as outras permitiu que Thomas se orientasse pela lua e, assim que teve certeza, encorajou os homens a avançar. Sentia que deviam continuar avançando, que as tropas do rei estariam se acumulando em algum lugar ali perto. Thomas queria ver o Guildhall, aquele símbolo da riqueza e da força da cidade. Queria que o rei e seus lordes soubessem que estavam num combate de verdade, não numa pequena rixa com comerciantes irritados fazendo discursos e batendo os pés.

Ecclestone deu um solavanco e tropeçou para a frente. Thomas ergueu os olhos a tempo de ver uma forma escura passar correndo pelos pés de Ecclestone, guinchando de terror antes que alguém conseguisse atingi-la.

— Um porco! Só um maldito porco de merda — murmurou Ecclestone para si, baixando a navalha.

Ninguém riu do modo como ele havia pulado e xingado. Havia algo terrível e assustador em Ecclestone e em sua lâmina curta e sangrenta. Ele não era o tipo de homem que convidava ao humor zombeteiro à própria custa, de jeito nenhum. Thomas observou que Ecclestone ficava de olho em Jack o tempo inteiro, vigiando suas costas. Isso o fez procurar o irlandês grandalhão, mas, para variar, Paddy não estava em lugar nenhum.

Quando passaram por uma rua lateral, Thomas olhou automaticamente, quase parando em choque ao ver as fileiras de homens armados que ali aguardavam, a apenas vinte passos. Teve um vislumbre de ferro e soldados de barba escura antes de ser levado adiante.

— Cuidado à esquerda! — gritou para os que ficaram para trás, tentando se segurar um momento contra a correria de homens em movimento antes de ser arrastado.

Thomas se moveu mais depressa para alcançar Rowan e o grupo em torno de Jack.

— Soldados atrás, Jack! — gritou Thomas.

Ele viu o grandalhão olhar por sobre o ombro mas também estava no meio da torrente e todos avançavam, incapazes de parar ou desacelerar. Ouviram o choque e os berros começarem, no entanto já a 100 metros na retaguarda, e eles só puderam continuar em frente.

As ruas estavam tão cheias de lama espessa sob os pés quanto na hora em que entraram em Londres, mas Thomas podia ver que agora algumas casas eram de pedra, com sarjetas melhores correndo ao longo da rua principal, de modo que os homens se inclinavam ao pôr o pé nelas. Um sopro de lembrança lhe disse onde estava, e ele teve tempo de gritar um alerta antes que a vanguarda chegasse aos tropeços a uma praça de pedra mais larga.

O Guildhall de Londres estava à frente deles, sob a chuva, com deliberada imponência, embora tivesse menos de 12 anos. Thomas viu Jack levantar a cabeça com instinto rebelde ao avistá-lo, sabendo apenas que representava riqueza e poder e tudo o que nunca conhecera. O ritmo se acelerou, e Thomas avistou soldados do rei correndo em torno das grandes portas de carvalho, gritando ordens uns aos outros com desespero ao verem centenas de homens se despejarem sobre eles vindo das ruas escuras.

Do outro lado, apareceram fileiras de guerreiros em marcha, as linhas organizadas vacilando ao ver o exército de Cade inchar no espaço aberto como uma bolha estourada. Em ambas as extremidades da pequena praça, capitães berraram ordens e homens começaram a correr uns contra os outros, erguendo armas e uivando. A chuva tamborilava com força nas lajes largas e o som ecoou nas construções por todos os lados, ampliado e assustador ao luar.

Derry estava quatro ruas a leste do Guildhall quando ouviu o som do novo combate. Ainda se sentia grogue pelo golpe recebido de algum grande agricultor que praguejava num beco lateral enquanto corria pela cidade. Derry balançou a cabeça, sentindo o olho e a bochecha incharem até mal conseguir enxergar do lado direito. Furara o canalha, mas o abandonara gemendo de dor quando mais homens de Cade apareceram.

O espião conseguia ouvir lorde Scales ofegando a sua direita. O barão deixara de lado o ressentimento pouco antes, depois que Derry havia tirado os soldados de uma emboscada, percorrendo com exatidão impecável becos que eram um pouco mais largos que os ombros de um homem. Passaram por uma imundície fedorenta que, em certos pontos, chegava quase aos joelhos, disparando por esquinas e afastando roupas molhadas e penduradas que batiam em seu rosto. Saíram do outro lado de uma barricada improvisada e mataram uma dezena de desordeiros antes mesmo que percebessem que haviam sido flanqueados.

Essa deveria ter sido uma vantagem maior, disse Derry a si mesmo. Ele conhecia a cidade tão bem quanto qualquer menino de rua acostumado a fugir de comerciantes e quadrilhas. Os defensores do rei deveriam ter sido capazes de usar esse conhecimento para formar anéis em torno da turba de Cade. O problema era que a maioria deles tinha sido convocada a Londres e viera dos condados ou de lugares mais distantes ainda. Poucos conheciam as ruas que percorriam. Mais de uma vez naquela noite, Derry e Scales foram detidos por homens de armadura e acabavam descobrindo que estavam do mesmo lado. Fazia frio, com sujeira e caos, e Derry não duvidava que Cade se aproveitava ao máximo da fraca defesa. Se tivessem um único homem no comando teria sido mais fácil, porém, com o rei fora da cidade, 11 ou 12 lordes detinham a autoridade sobre as forças que comandavam. Derry praguejou, sentindo os pulmões arderem. Mesmo que o rei Henrique em pessoa estivesse ali, duvidava que os lordes a favor de York se pusessem sob as ordens de outra pessoa. Não naquela noite.

— Próxima à esquerda! — gritou Scales para os que o cercavam. — Rumo ao Guildhall!

Derry fez as contas mentalmente. Acabara de passar por duas ruas secundárias e tinha certeza de que não era mais do que isso.

— O Guildhall está a duas ruas daqui — corrigiu Derry, a voz pouco mais que um grasnido.

Não conseguiu ver com clareza a expressão do barão, mas os soldados que corriam com eles sabiam que não deviam questionar o comando de seu senhor. Entraram à esquerda em ordem, pisoteando carroças abandonadas e uma pilha de corpos decorrentes de algum encontro anterior naquela noite. Derry achou que seus pulmões iam explodir, cambaleando sobre uma massa escura de mortos, estremecendo ao ouvir ossos estalarem e se quebrarem sob suas botas.

— Que Deus me perdoe — sussurrou, com a certeza súbita de ter sentido um deles se mexer e gemer sob seu peso.

Havia tochas em movimento à frente e o som de uma mulher gritando. O rosto de Derry ardia, e a saliva na boca era grossa como sopa de ervilha, mas ele trincou os dentes e ficou junto dos outros. Disse a si mesmo que seria seu fim se deixasse soldados jovens ultrapassá-lo na corrida, mas estava fora de forma e isso começava a pesar.

— Quem estiver saqueando ou estuprando pode ser atacado, rapazes — gritou Derry.

Ele sentiu lorde Scales virar a cabeça, porém não fora uma ordem de verdade. O grunhido de concordância dos soldados deixou claro o que pensavam, mas Scales aproveitou para responder acima do cansaço e da frustração.

— Os homens de Cade são prioridade — declarou com firmeza. — Qualquer outra coisa, qualquer uma, pode esperar pelo amanhecer.

Derry se perguntou o que Scales achava que seus oitenta homens poderiam fazer contra milhares, mas manteve o silêncio quando a luz à frente cresceu e eles viram homens passarem correndo. Não importava quem fosse Scales, ele não sabia o que era medo. Não diminuiu o ritmo de modo nenhum ao chegar ao cruzamento. Derry conseguia apenas arfar enquanto o restante dos homens o acompanhava, chocando-se com a multidão aos berros com um estrondo seguido instantaneamente pelos primeiros gritos. Os soldados de Scales usavam peitorais e cota de malha. Cortaram a multidão como a ponta de uma lança, derrubando tudo em seu caminho. A sua volta, os homens de Cade recuaram, amontoados ao se afastar de soldados que usavam a armadura como arma, enfiando cotovelos cobertos de metal nos dentes dos homens a cada passo.

Derry se viu mergulhando no fluxo como se pulasse num rio. Bloqueou um bastão que girava e transpassou o agressor com um bom pedaço de ferro afiado que já era usado havia um século ou mais. Os homens de Scales brandiam espadas e martelos de cabo longo como se tivessem enlouquecido num grande massacre, atravessando a procissão iluminada por tochas. Defenderam uma posição no centro da rua, bloqueando o avanço enquanto enfrentavam os que ainda vinham atrás.

Derry olhou rapidamente para a esquerda e para a direita, vendo a linha se estender até o Guildhall numa direção e dobrar uma esquina do outro lado. Os homens corados de Kent pareciam não ter fim, e percebeu que Scales havia encontrado a fonte. Pelo que Derry sabia, essa aglomeração se estendia até o rio. Na primeira corrida ensandecida, Scales e seus homens levaram consigo tudo a sua frente e bloquearam a rua. Agora resistiam juntos, eriçados de armas, desafiando a multidão agitada a tentar recuperar o terreno.

Derry riu entre os dentes ao ver a falta de vontade dos homens de Cade. Tinham seguido alegremente os que iam na vanguarda, não muito dispostos a agir por conta própria, pelo menos não naquele momento. A vanguarda continuou avançando, com as fileiras da retaguarda olhando para trás e gritando zombarias e insultos, mas ainda preferindo avançar em vez de se virar e lutar. Com apenas oitenta homens, Scales havia parado a multidão a seco, porém Derry viu que se deslocavam pelas ruas laterais enquanto pensava.

— Cuidado com os flancos! — gritou.

Não havia um caminho único para o Guildhall, e, por instinto ou conhecimento local, os homens de Cade já abriam caminho, levando consigo as tochas, e a luz da rua começou a diminuir. Derry olhou Scales, mas o lorde hesitava, a indecisão escrita claramente em seu rosto. Podiam manter aquele ponto ou perseguir as torrentes de homens em movimento. Derry tentou pensar. Apenas oitenta soldados não eram capazes de enfrentar a força principal de Cade, embora as ruas estreitas impedissem que fossem facilmente esmagados pelo imenso efetivo. Derry sabia que o Guildhall estava mal defendido, com metade dos lordes de Londres supondo que Cade iria para a Torre. Quando percebessem a verdade, o Guildhall teria sido estripado e a multidão já estaria longe há tempos.

Esfregando o rosto inchado, Derry viu a inundação de homens de Cade começar a correr, enquanto mais deles sumiam nas ruas laterais. O espião esticou o pescoço, desejando mais luz, no entanto havia gritos de dor e fúria não muito distantes, e os sons pareciam se aproximar.

— O que está acontecendo lá atrás? — gritou-lhe Scales.

Derry balançou a cabeça, confuso, e franziu o cenho. Uma fileira de cavaleiros de armadura e homens de armas dobrava a esquina e subia a rua, marchando sob o comando de alguém que trazia o escudo da família Warwick. A via continuou a se esvaziar entre os dois grupos, com os últimos homens entre eles sendo ocasionalmente atravessados por espadas enquanto tentavam e não conseguiam sair da confusão. Após algumas batidas do coração, Derry viu uma dezena de homens ser derrubada e morta antes que os dois grupos se encarassem, ofegantes.

— Boas graças, Warwick — anunciou Scales com prazer a seu jovem líder. — Quantos você tem?

Ricardo Neville avistou Derry observando-o e ergueu uma sobrancelha. Ele também recebera golpes na armadura polida, mas, na flor da juventude, parecia mais extasiado que exausto. Fez questão de encarar Scales ao responder, ignorando o olhar taciturno de Derry.

— Tenho meus seiscentos, lorde Scales. Suficientes para limpar as ruas dessa ralé. É sua intenção ficar aí parado até o sol nascer ou podemos passar?

Mesmo ao luar e nas sombras, Derry conseguiu ver Scales corar. O homem era orgulhoso, e seu queixo se ergueu. Não houve convite para unirem forças, e Scales nada pediria depois de um comentário daqueles de um homem mais jovem.

— O Guildhall fica à frente — avisou Scales com frieza. — Recuem, homens. Para trás, aqui. Deixem lorde Warwick passar.

Derry recuou com os outros, observando os soldados do conde passarem marchando de cabeça erguida. Warwick levou seus seiscentos homens de armadura por entre eles sem um único olhar de relance para o lado, seguindo a retaguarda dos Homens Livres de Cade que já desaparecia.

— Que Deus nos salve de jovens tolos. — Derry ouviu Scales dizer baixinho quando passaram, o que o fez sorrir.

— Para onde agora, milorde? — perguntou Derry, contente porque pelo menos respirar estava ficando mais fácil.

Scales o olhou. Ambos podiam ouvir o ruído de homens em movimento por todos os lados, esgueirando-se como ratos num celeiro em torno de sua pequena tropa. Scales franziu a testa.

— Se o próprio Cade segue para o Guildhall, a escolha é bastante clara, embora eu prefira não ir atrás de um galinho Neville como aquele. Tem certeza de que a Torre e a rainha estão a salvo?

Derry pensou.

— Não posso ter certeza, milorde, ainda que haja homens do rei para guardá-la. Tenho mensageiros e não duvido que estejam procurando por mim. Enquanto não chegar a um dos pontos de encontro, estou tão cego quanto aquele jovem Neville, com o povo de Cade perambulando por Londres inteira. Não sei dizer onde atacarão em seguida.

Scales mostrou cansaço ao esfregar o rosto com a mão.

— Por mais tentador que seja pensar em lorde Warwick correndo para os garotos agressivos de Cade, devo ajudá-lo. Não posso dividir ainda mais uma força tão pequena. Maldição, Brewer, eles são muitos! Teremos de caçá-los a noite inteira?

Derry olhou em volta a tempo de ver um grupo de guerreiros se esgueirar por uma esquina à frente deles. Com um grande berro, começaram a atacar os homens de armas, brandindo espadas e podões.

— Parece que eles vieram a nós, milorde — gritou Derry, preparando-se. — Como são prestativos!

Paddy brandia um martelo como se sua vida dependesse daquilo, o que, tinha de admitir, era verdade. Ele havia se surpreendido quando Jack o chamara a um canto em Southwark na noite anterior, mas depois conseguiu entender por quê. Jack levaria os homens do rei numa caçada pela cidade, porém entrar na Torre exigiria um tempo precioso. Correr direto para lá e esmurrar o portão enquanto todos os soldados de Londres convergiam para aquele ponto seria um caminho rápido para as forcas de Tyburn na manhã seguinte — e gargantas cortadas para a maioria.

Ele parou um instante para limpar o suor que escorria para os olhos e ardia.

— Jesus, eles construíram esse portão como uma montanha.

Os homens em volta enfiavam machados pesados na madeira antiga, torcendo as lâminas de um lado para o outro, lançando nas pedras lascas da grossura de um braço. Estavam nisso havia uma hora de trabalho constante, com homens descansados tomando as armas conforme cada grupo se esgotava. Era o terceiro turno de Paddy no martelo, e aqueles em torno dele haviam aprendido a lhe dar espaço depois que ele derrubara um sujeito com costelas quebradas.

Quando começou de novo o movimento, Paddy se inclinou para trás e tentou escutar os passos do outro lado da torre do portão. Sabia que estariam à espera e não tinha como descobrir se havia algumas dezenas ou milhares de homens se preparando para recebê-lo. A torre do portão tinha um ponto fraco, e ele agradeceu a Deus por isso. Separada da muralha principal, a massa de pedra da própria torre protegia seus homens de flechas e dardos. Ele já ouvira o matraquear de uma grade sendo baixada pouco mais adiante, porém alguns rapazes seus tinham cruzado o fosso a nado e enfiado barras de ferro nas correntes da ponte levadiça. Ela ficaria baixada e, a julgar pelas avarias causadas ao portão externo, Woodchurch acertara numa coisa. Homens suficientes com martelos e machados conseguiriam abrir caminho praticamente por qualquer coisa. Paddy sentiu o portão ceder quando pôs toda a sua força e peso em mais um golpe. Os robustos homens com machados tinham aberto um buraco comprido e estreito numa das vigas reforçadas com ferro. Havia luzes se mexendo no interior, do outro lado do fosso, e Paddy tentou não pensar nos danos que os arqueiros poderiam causar atirando nele enquanto martelava uma grade de ferro. Seria um serviço violento, e ele chamou alguns homens com escudos para entrarem em ação da melhor maneira possível. Não era muito, mas poderia salvar algumas vidas, a sua inclusive.

Com um grande estalo, uma das dobradiças de ferro cedeu. Mas a fechadura central se aguentou no lugar, então o portão se inclinou para dentro na parte de cima. Com outros dois martelando entre seus golpes, Paddy atacou ainda mais depressa as presilhas de ferro, sentindo grandes tremores subirem pelos braços e a força no cabo do martelo diminuir.

— Vamos, menino — disse, tanto para si quanto para o portão.

Paddy viu a tranca de ferro se romper, limpa e resplandecente, e, com a força do último golpe, quase caiu na ponte levadiça travada.

— Minha Nossa! — exclamou com assombro, olhando do outro lado da passagem uma grade de ferro com o dobro de sua altura.

As flechas tamborilaram nela, vindas do pátio mais além. Apenas algumas passaram, porém os homens de Paddy estavam amontoados em torno do portão quebrado e dois caíram, praguejando e gritando de dor.

— Escudos, aqui! — chamou Paddy. — Sigam o ritmo: os rapazes golpeiam, depois vocês vêm com os escudos para nos proteger entre os golpes. Derrubaremos essa belezinha de ferro num piscar de olhos.

Eles correram à frente, rugindo para assustar os defensores enquanto se lançavam contra a grade fria. Ela era feita de tiras de ferro negro, rebitadas com cabeças pontudas e polidas que se destacavam em cada junção. Paddy descansou a mão no metal. Com força suficiente contra as junções, achou que os rebites poderiam ser quebrados.

Pela grade, conseguia ver as torres internas da fortaleza. Acima de todas elas, a Torre Branca se elevava alta e pálida ao luar, com sombras escuras enxameando em volta. Seus olhos cintilaram, tanto com a ideia da violência prestes a acontecer quanto com a Casa da Moeda Real. Nunca chegaria tão perto de tanta riqueza novamente, nem que vivesse cem anos.

Margarida sentiu arrepios subirem pelos braços enquanto tremia olhando para baixo. Finalmente a chuva cessara, deixando o chão como um atoleiro sob os pés. Pisando com força e ofegando no frio, quatrocentos homens do rei aguardavam que os sitiantes invadissem. Do alto da entrada da Torre Branca, ela podia vê-los enegrecidos contra as tochas, fileiras e fileiras de soldados em pé. Assistira a sua preparação, assombrada com a calma deles. Talvez fosse por isso que os ingleses esmagaram tantos exércitos franceses, pensou. Não entravam em pânico nem quando a probabilidade e o efetivo estavam contra eles.

O comandante-chefe era um alto capitão da guarda chamado Brown. Vestido com um tabardo branco sobre a cota de malha, com a espada pendurada no quadril, era uma figura impetuosa, facilmente visível. Apresentara-se a ela mais cedo com uma elaborada reverência, um homem jovem para tanta autoridade, que parecia pensar que a chance de Cade alcançar a Torre era mínima. Margarida se comovera com as tentativas do rapaz de tranquilizá-la. Ela observou que o capitão Brown cultivava grandes costeletas negras, quase tão bonitas quanto as do cunhado Frederick. A lembrança delas se eriçando quando ele movia os lábios lhe dava vontade de sorrir toda vez que o via. Mesmo quando chegou a notícia das tropas que se aproximavam, Brown se manteve confiante, pelo menos ao lhe fazer seu relatório. Em pouco tempo, Margarida passou a apreciar os breves momentos em que ele voltava ao pé da escada, o rosto corado após conferir todos os postos da guarda. Com a cabeça inclinada, erguia os olhos para ver se Margarida ainda estava lá, e sorria quando ela aparecia. Somados, todos aqueles instantes dariam menos de uma hora, mas ainda assim sentia conhecê-lo.

Margarida vira o desapontamento do capitão quando seus arqueiros nas muralhas descobriram que tinham poucos alvos. A multidão lá fora havia enviado apenas um pequeno grupo para martelar o portão da frente e quebrar a grade, o restante ficava para trás como uma mancha escura, aguardando para vir rugindo quando tivesse oportunidade. Enquanto a lua subia, Margarida conseguia escutar ganidos ocasionais quando um dardo de besta atingia o alvo, mas era difícil mirar bem na escuridão, e as marteladas lá fora não paravam, primeiro contra madeira, depois com o tom mais agudo e retinido dos golpes no ferro.

O capitão Brown havia gritado para um grupo de besteiros descer das muralhas e fazer seu serviço lá embaixo. Margarida percebeu que tremia no ar noturno quando ele os mandou diretamente à grade, de modo que posicionassem as armas quase junto à treliça de ferro antes de soltar as travas. Por algum tempo, o martelar se reduzira a nada quando os homens que estavam do lado de fora arrumavam os escudos contra o ferro. A velocidade dos golpes sem dúvida se reduziu, mas mesmo assim continuaram. Um a um, os rebites e as junções se romperam com uma nota aguda diferente dos golpes. Margarida pulava a cada um que se soltava, forçando-se a sorrir e se manter ereta nos degraus.

Quando as fileiras de homens do rei assumiram posição para receber o primeiro ataque, Margarida notou o tabardo branco do capitão Brown quando ele veio andando na direção oposta, erguendo os olhos para sua rainha do outro lado do espaço vazio. Ela o aguardou, as mãos segurando com força a balaustrada de madeira.

— Vossa Alteza Real — gritou ele. — Eu esperava reforços, mas, sem um milagre, creio que esses homens estarão sobre nós a qualquer momento.

— O que quer que eu faça? — perguntou Margarida, satisfeita por também conseguir fingir calma e sua voz não estar trêmula.

— Com vossa permissão, milady, mandarei alguns homens destruírem essa escada. Se a senhora não se importar de recuar, a derrubaremos num instante. Deixei seis bons homens para guardar o portal da Torre Branca. A senhora tem minha palavra de que estará a salvo, contanto que fique aí em cima.

Margarida mordeu o lábio, passando os olhos do rosto sério do jovem oficial para os que aguardavam para suportar a inundação.

— O senhor não pode se unir a seus homens aqui na torre, capitão? Eu... — Ela corou, sem saber como fazer a oferta de proteção sem ofendê-lo. Para sua surpresa, ele lhe lançou um sorriso, satisfeito com alguma coisa.

— A senhora poderia ordenar, milady, mas... hã... se não se importa, prefiro que não. Meu lugar é aqui embaixo e, quem sabe, talvez ainda consigamos fazê-los fugir.

Antes que Margarida pudesse voltar a falar, uma dezena de homens com martelos e machados apareceu correndo e o capitão Brown se ocupou dando instruções.

— Afaste-se agora, por favor, Vossa Alteza — gritou ele de baixo.

Margarida deu um passo para trás, passando da escada de madeira para a porta de pedra aberta da torre, enquanto os degraus começavam a tremer e se sacudir. Não demorou para que toda a estrutura desmoronasse, e Margarida assistiu do alto aos homens se ocuparem em reduzir cada pedaço a lascas inúteis. Ela descobriu que tinha lágrimas nos olhos quando o capitão Brown a saudou antes de retornar a seus homens, todos aguardando que a grade cedesse e o combate começasse.