Pássaro da Tempestade

Conn Iggulden · Capítulo 15 de 43

Páginas do PDF

Pássaro da Tempestade

Capítulo 10

 

 

Na escuridão uivante, Derry Brewer sentou-se e esperou, tendo de descobrir se era uma armadilha. Estava convencido de que somente uma coruja o veria se mover a essa hora, mas ainda assim resistiu à vontade de enxugar a àgua da chuva dos olhos. Apesar da visão borrada, permaneceu perfeitamente imóvel, só piscando devagar enquanto os céus se abriam e o encharcavam. Ele estava com uma capa escura de linho encerado, mas descobriu que era permeável, e os regatos que chegavam a sua pele eram congelantes. Estava naquele lugar havia horas, com as costas e os joelhos ficando gradualmente mais doloridos.

Houvera um pouco de luar antes que as nuvens de tempestade fervessem enraivecidamente acima de sua cabeça e as primeiras gotas grossas tamborilassem nas folhas. Ele vira que o terreno em torno da fazenda havia sido limpo e arrumado por mãos cuidadosas. À primeira vista, parecia uma casa bastante normal, mas os arbustos e a estrada tinham sido dispostos de tal modo que só havia um caminho evidente até a porta — uma trajetória que um par de arqueiros guardaria contra um exército. Derry sorriu para si mesmo, recordando outras épocas, outros lugares. Avistara a pilha de lenha deixada ao ar livre. Estava exatamente no lugar certo para usá-la como barricada e depois retornar à casa principal. Thomas Woodchurch era um homem cuidadoso, assim como Derry. Ser cuidadoso e paciente salvara a vida de ambos mais de uma vez.

A chuva se reduzia, mas o vento ainda gemia pelas árvores, enchendo o ar de folhas que giravam e dançavam como moedas molhadas. Ainda assim ele esperava, reduzido a um ponto brilhante de consciência num corpo trêmulo. No casebre, observou quais cômodos mostravam sombras em movimento e tentava adivinhar quanta gente poderia esperar lá dentro.

Sem aviso, uma sensação súbita de mal-estar o tocou, fazendo o estômago embrulhar e os testículos se contraírem. Nada ouvira, nada vira, mas na escuridão Derry percebeu que ocupava o único lugar que lhe dava uma ampla visão da porta da frente e dos principais cômodos da casa. O coração começou a disparar no peito, e ele se perguntou se conseguiria correr depois de tanto tempo agachado. Praguejou em silêncio, pensando mais depressa que nunca. Levou a mão até o pesado facão na cintura, o punho escorregadio sob os dedos em garra. No vento e na chuva, sabia que ninguém o escutaria expirar demoradamente. O orgulho o fez levar a voz a um tom normal, confiando no próprio instinto.

— Quanto tempo você vai esperar aqui comigo? — perguntou Derry em voz alta.

Tinha certeza de que o palpite era bom, mas mesmo assim quase pulou de susto quando alguém riu baixo atrás dele. Derry se tensionou para se mover, fosse para correr, fosse para se jogar naquela direção.

— Estava pensando o mesmo, Derry — disse Thomas. — Está um frio dos diabos e há comida e cerveja dentro de casa. Se já terminou seu jogo aqui fora, por que não entra?

Derry soltou um palavrão.

— Há alguns homens na França que adorariam saber onde eu estou hoje — declarou. Ele se levantou, os joelhos e os quadris protestando. — Precisava descobrir se não se juntara a eles.

— Se tivesse, você estaria engolindo uma flecha agora — avisou Thomas. — Tinha de descobrir se você estava sozinho pela mesma razão. Também tenho alguns inimigos, Derry.

— Bons homens como nós sempre têm — respondeu. Embora já soubesse onde Thomas estava, ainda assim era difícil percebê-lo na escuridão.

— Não sou um bom homem, Brewer. E sei que você também não é. Paz, meu velho. Entre e divida o pão comigo. Vou lhe dizer o que quero.

Thomas andou sobre as folhas mortas e deu um tapinha no ombro de Derry, passando por ele rumo a casa.

— Como soube que eu estava lá? — perguntou Thomas por sobre o ombro.

— Lembrei que você adorava caçar — explicou Derry, seguindo-o. — Como chegou tão perto sem que eu o ouvisse?

Ele escutou o riso abafado do velho amigo no escuro.

— Como disse, sou um caçador, Derry. Veados ou homens, é tudo igual.

— Não, de verdade. Como fez isso?

Os dois homens andaram juntos pelo campo aberto e passaram pela pilha de lenha ao se aproximarem da casa.

— Usei o vento como cobertura, mas não é só isso. Se tiver uns vinte anos livres, posso lhe ensinar.

Quando chegaram à porta, a luz das janelas iluminadas permitiu a Derry ver o rosto do amigo pela primeira vez desde que se reencontraram. Observou Thomas dar um assovio baixo para o terreno escuro.

— Mais alguém? — indagou Derry.

— Meu filho Rowan — respondeu Thomas, sorrindo ao ver a irritação no rosto do amigo. — Esta terra é minha, Derry, e dele. Não dá para me vigiar sem que eu saiba.

— Então você não deve dormir muito — murmurou Derry.

Em meio ao vento e à chuva apareceu um rapaz alto com uma capa parecida com a de Derry. Sem dizer uma palavra, Rowan pegou o arco e a aljava do pai. As armas estavam mais embrulhadas e protegidas que os donos.

— Esfregue-as bem com óleo e verifique se as hastes empenaram — gritou Thomas quando o filho se virou e se afastou. Recebeu como resposta um grunhido que o fez sorrir.

— Você está com uma ótima aparência — comentou Derry, falando sério. — Ser fazendeiro pôs um pouco de carne em seus ossos.

— Estou muito bem. Agora entre, saia da chuva. Tenho uma proposta a lhe fazer.

A cozinha da casa estava abençoadamente quente, com um pequeno fogo ardendo na lareira. Derry removeu a capa coberta de cera antes que formasse uma poça no chão de pedra e baixou a cabeça com respeito para a mulher de aparência austera sentada à mesa. Ela o ignorou enquanto pegava um pano e removia uma chaleira preta de ferro de onde pendia acima das chamas.

— Esta é minha esposa Joan — apresentou Thomas. — Uma doce menina dos cortiços que certa vez se arriscou a se casar com um arqueiro. — Ele sorriu para ela, embora a expressão da mulher continuasse desconfiada. — Joan, esse é Derry Brewer. Já fomos amigos.

— Ainda somos, senão eu não arriscaria meu couro vindo aqui. Você enviou uma mensagem a John Gilpin, em Calais, e aqui estou, nessa chuva torrencial.

— Por que devemos confiar num homem que fica lá fora nos vigiando durante horas? — questionou Joan. Apesar dos anos na França, o sotaque era puramente londrino, como se tivesse saído dos cortiços da capital no dia anterior.

— Tudo bem, Joan, ele é só um homem cauteloso — respondeu Thomas, enquanto Derry piscava e desviava os olhos da mulher que o encarava. — Sempre foi.

Ela soltou um som ríspido de desdém no fundo da garganta e despejou água quente numa dose de conhaque em cada caneca. Derry notou que sua dose era apenas metade da dose do marido, mas achou melhor não falar nada.

— Pode ir se deitar agora, Joan, se quiser — avisou Thomas. — Não há mais ninguém lá fora; eu teria visto.

A mulher franziu o cenho para o marido.

— Não gosto de me sentir prisioneira em minha própria casa, Thomas Woodchurch. Vou levar as meninas amanhã. Quando voltar, quero isso resolvido. Não vou mais ficar olhando sobre o ombro, não vou mesmo. E cuide direito de Rowan. Ele é só um menino, apesar de todo aquele tamanho.

— Vou mantê-lo a salvo, amor. Não se preocupe com isso.

Thomas beijou a esposa na bochecha que lhe foi oferecida, embora a mulher ainda observasse o hóspede com frieza no olhar.

Quando ela saiu, Derry estendeu a mão para a garrafa de conhaque e serviu-se de mais um pouco para manter o frio longe dos ossos.

— Você se casou com um dragãozinho, hein, Tom? — insinuou, instalando-se numa cadeira. Era bem-feita, notou ele, e aceitou seu peso sem nenhum rangido. A cozinha inteira tinha a marca de um lugar que exalava amor, de um lar. Provocou uma pontada de tristeza em Derry saber que ele não possuía um lugar como aquele.

— Agradeço se guardar para si sua opinião sobre minha mulher, Derry. Temos outras coisas para conversar e você vai querer partir antes do amanhecer.

— Está me mandando embora? Estava esperando por um jantar e uma cama. Fiquei uma semana na estrada para chegar aqui.

— Tudo bem — disse Thomas, de má vontade. — Há um guisado naquela panela grande. Carne de cavalo. Quanto a ficar debaixo de meu teto, talvez dependa do que poderá me dizer.

Derry tomou um gole da bebida quente, sentindo-a pôr um pouco de calor de volta nas veias.

— Justo. Então, o que foi tão importante que fez você se lembrar de seu velho amigo? Gilpin quase não me encontrou. Eu estava nas docas, a caminho da Inglaterra. Foi bom ele conhecer meus bares, senão eu não estaria aqui.

Thomas olhou o homem que passara 14 anos sem ver. O tempo e as preocupações desgastaram Derry Brewer. Mas ele ainda parecia forte e em boa forma, mesmo com os cabelos molhados e grudados na cabeça, cobertos de folhas vermelhas e amarelas.

— Soube que você se deu bem, Derry, lá em Londres.

— Estou me virando — corrigiu, cauteloso. — Do que precisa?

— Nada para mim. Só quero saber o que acontecerá se os homens de Maine lutarem, Derry. O rei Henrique mandará homens para nos defender ou estamos por conta própria?

Derry engasgou com a bebida e tossiu até ficar com o rosto vermelho.

— Há um exército francês acampado em Anjou, Tom. Quando avançarem na próxima primavera, você mandará sua mulher brandir a vassoura para ele?

Thomas fitou os olhos cinza do velho amigo e suspirou.

— Veja bem, eu gostaria que não fosse assim, mas Maine e Anjou foram o preço do armistício. Entende? Está feito, comprado e vendido. Seu filho não terá de ir à guerra antes de criar uma barba decente, do jeito que tivemos de fazer. Esse é o preço.

— São minhas terras, Derry. Minhas terras que foram cedidas sem um aviso sequer.

— O que é isso agora? Não são suas malditas terras, Tom! O rei Henrique é dono desta fazenda e de 60 mil iguais a ela. Ele é dono desta casa e desta caneca que estou segurando. Parece-me que se esqueceu disso. Mas você paga o dízimo todo ano. Achou que fosse voluntário? O rei Henrique e a Igreja são os únicos que possuem terras, ou você é um daqueles que acham que ela deveria ser toda dividida? É isso? Você é um incitador, Tom? Um agitador? Então parece que ter uma fazenda o mudou muito.

Thomas olhou irritado o homem que um dia chamara de amigo.

— Talvez tenha me mudado, na verdade. É meu suor que produz a lã, Derry. Somos eu e meu filho lá fora, a qualquer tempo, mantendo os cordeiros vivos. Eu não trabalho para encher os bolsos de um lorde, isso posso lhe dizer. Trabalho por minha família e por minhas terras, porque o homem tem de trabalhar, senão não é homem. Se já tivesse tentado, não zombaria de mim. Saberia que lamento cada moeda que pago de dízimo, todo maldito ano. Cada moeda que eu ganhei. Meu trabalho torna minhas estas terras, Derry. Minhas escolhas e minha habilidade. Jesus Cristo, não é como se fosse algum antigo lote em Kent, dominado há gerações pela família de um lorde. Aqui não é a Inglaterra, Derry! É uma nova terra, com um novo povo.

Derry tomou um gole da caneca, balançando a cabeça com a fúria de Woodchurch.

— Há mais coisa em jogo do que alguns morros, Tom. Nenhuma ajuda virá, pode acreditar em mim. O melhor que pode fazer é pôr numa carroça tudo o que for capaz de carregar e seguir para o norte antes que as estradas fiquem lotadas. Se é o que queria saber, estou lhe fazendo a cortesia de lhe dizer às claras.

Thomas ficou um tempo sem responder enquanto terminava a bebida e voltava a encher as duas canecas. Foi mais generoso do que a esposa com o conhaque, e Derry observou com interesse ele esfarelar um pouco de canela nas canecas antes de lhe devolver a sua.

— Então, por cortesia, Derry, vou lhe dizer que vamos lutar — anunciou Thomas. As palavras não eram presunçosas. Ele afirmou aquilo com tranquilidade e por isso Derry se sentou ereto, deixando de lado o cansaço e o efeito da bebida.

— Vocês vão se matar. Há 2 ou 3 mil franceses vindo para cá, Thomas Woodchurch. O que vocês têm em Maine? Algumas dezenas de fazendeiros e veteranos? Será um massacre, e ainda assim eles ficarão com sua fazenda quando terminar. Escute bem. Está feito, entende? Não posso mudar nada, nem que minha vida dependesse disso. A sua depende. Quer ver seu menino morto por algum cavaleiro francês? Que idade ele tem? Dezessete? Dezoito? Jesus. Há ocasiões em que um homem tem de desistir e fugir. Sei que você não gosta de ser forçado, Tom. Mas corremos quando aquela tropa de cavalaria nos avistou, não corremos? Só nós três contra cinquenta? Corremos como coelhos de merda daquela vez, e não houve vergonha nisso porque sobrevivemos e lutamos de novo. É a mesma coisa aqui. Os reis comandam. O restante de nós só continua levando a vida e torce para sobreviver.

— Terminou? Ótimo. Agora escute você, Derry. Você disse que não haverá ajuda, e o escutei. Estou lhe dizendo que resistiremos. Estas terras são minhas, e não me importa que o rei Henrique venha pessoalmente me mandar sair. Eu cuspiria no rosto dele também. Não vou fugir desta vez.

— Então você está morto — retorquiu Derry —, e que Deus o ajude, porque não posso ajudá-lo.

Ambos ficaram sentados, olhando enfurecidos um para o outro, sem que nenhum deles cedesse. Dali a algum tempo, Derry esvaziou a caneca e continuou:

— Se lutarem, matarão seus homens. Pior, romperão o acordo pelo qual trabalhei antes mesmo que o maldito armistício comece de fato. Entende isso, Tom? Se é como falam, preciso que você vá a seus amigos e lhes diga o que lhe contei. Diga-lhes que esqueçam isso. Diga-lhes que é melhor continuarem vivo para recomeçar do que jogar tudo fora e acabar como mais um cadáver na vala. Há mais coisa em jogo nisso do que pensa. Se arruinar tudo por algumas terras cobertas de mato, eu mesmo acabo com você.

Thomas riu, embora sem júbilo algum.

— Não acaba, não. Você me deve a vida, Derry. Você me deve mais que suas advertências de mãe.

— Estou salvando sua vida ao lhe dizer para fugir! — rugiu Derry. — Uma só vez que seja, porque simplesmente não escuta, seu verme teimoso?

— Todas as nossas flechas tinham acabado, lembra?

— Tom, por favor...

— Você estava com um baita corte na perna, não podia correr... e aquele cavaleiro francês o viu no mato alto e voltou, lembra?

— Lembro — respondeu Derry lastimosamente.

— E não me viu, então pulei nele e o derrubei antes que cortasse sua cabeça com uma linda espada francesa. Peguei minha faquinha e a enfiei no olho esquerdo do infeliz, Derry, enquanto você ficava lá parado, olhando. E agora está sentado em minha cozinha, em minhas terras, e me diz que não vai ajudar? Eu fazia uma ideia melhor de você, fazia mesmo. Lutamos juntos uma vez, e isso significou alguma coisa.

— O rei não sabe lutar, Tom. Ele não é como o pai e não sabe lutar nem liderar homens que saibam. É como uma criança, e é meu pescoço que está em jogo se você disser que fui eu que lhe contei. Quando meu rei pediu que eu lhe conseguisse um armistício, obedeci. Porque era a coisa certa a fazer. Porque senão perderíamos a França toda de qualquer modo. Sinto muito, porque o conheço e é como enfiar uma faca em mim ficar em sua cozinha e lhe dizer que não há esperanças, mas não há.

Thomas o fitou por cima da borda da caneca.

— Está me dizendo que isso tudo foi ideia sua? — questionou ele, espantado. — Quem diabos você é, Derry Brewer?

— Sou um homem cujo caminho você nunca vai querer cruzar, Tom. Nunca. Sou alguém a quem deveria dar ouvidos, porque sei o que estou falando e não perdoo facilmente. Já lhe disse o que sei. Se começar uma guerra por alguns morros e ovelhas... Não faça isso, é só. Arranjo-lhe com que comprar outra propriedade no norte, pelos velhos tempos. Isso eu posso fazer.

— Esmolas para os pobres? Não quero sua caridade — refutou Thomas, quase cuspindo a última palavra. — Conquistei minhas terras aqui. Conquistei com sangue, dor e morte. São todas minhas, Derry, sem dívidas, nada. Você está sentado em minha casa, e estas são as mãos que a construíram.

— É apenas outra fazenda de rendeiros — rosnou Derry, zangando-se outra vez. — Desapegue-se dela.

— Não. É melhor você ir, Derry. Já disse tudo o que havia a dizer.

— Está me mandando embora? — perguntou Derry, incrédulo. Cerrou os punhos e Thomas baixou a cabeça, olhando-o com uma expressão ameaçadora.

— Estou. Esperava mais de você, mas seu comportamento já foi bastante claro.

— Tudo bem.

Derry se levantou e Thomas o acompanhou, de modo que se encararam na pequena cozinha, a raiva dos dois preenchendo todo o cômodo. Derry estendeu a mão para a capa coberta de cera e se cobriu com ela com movimentos bruscos e furiosos.

— O rei queria um armistício, Tom — comentou ele enquanto ia até a porta e a escancarava. — Em troca, ele cedeu algumas terras suas e pronto. Não fique no caminho como um tolo. Salve sua família.

O vento uivou na cozinha, fazendo o fogo tremular e soltar fagulhas. Derry deixou a porta aberta e desapareceu na noite. Depois de a algum tempo, Thomas foi fechá-la contra o vendaval.

O navio mergulhou, caindo numa onda de maneira tão súbita que pareceu deixar para trás o estômago de Margarida. A espuma respingou no convés, aumentando a crosta de sal que faiscava na balaustrada e em toda madeira exposta. As velas estalavam e se enfunavam acima da cabeça, e Margarida não se lembrava de já ter se divertido tanto. O segundo imediato rugiu uma ordem e os marinheiros começaram a içar cabos tão grossos quanto seus pulsos, movendo as vergas de madeira para manter as velas tesas e cheias. Ela viu William caminhar pelo convés, uma das grandes mãos pairando perto da balaustrada ao se aproximar.

— Uma das mãos pelo navio, uma por si mesmo — murmurou, deliciada com a expressão inglesa e a noção de conhecimento náutico que lhe dava. Como podia ter chegado aos 14 anos e nunca ter estado no mar? Aquilo ficava bem longe do Castelo de Saumur, em todos os sentidos puro. O comandante a tratava com respeito acima do normal, curvando-se e escutando cada palavra sua como se fosse uma pedra preciosa a ser guardada. Ela só desejava que os irmãos pudessem ver aquilo, ou, melhor ainda, Iolanda. A lembrança da irmã lhe provocou uma dor no peito, mas Margarida resistiu, mantendo a cabeça erguida e inspirando um ar tão frio e puro que ardia nos pulmões. O pai se recusara a lhe mandar sequer uma criada, deixando William tão irritado e corado que ela achou que o homem grandalhão bateria em Renato de Anjou.

Não havia sido uma despedida agradável, mas William deixara a indignação de lado e, do próprio bolso, contratara duas criadas em Calais para cuidarem dela.

Margarida sorriu quando Suffolk cambaleou e segurou a balaustrada. O navio balançava no mar cinzento, golpeado pelo frio vento de outono a oeste. A própria Calais proporcionara tantas experiências novas que a deixara assoberbada. O porto e a fortaleza estavam lotados de ingleses dentro de suas muralhas. Ela vira mendigos e comerciantes, além de centenas de marinheiros grosseiros por toda parte, correndo daqui para lá com seus baús e suas cargas. Quando pagaram o último cocheiro, William a empurrara depressa por algumas mulheres maquiadas, como se Margarida nunca tivesse ouvido falar de meretrizes. Ela riu ao recordar seu constrangimento tão inglês ao tentar impedir que as avistasse.

Uma gaivota chilreou no alto e, para o deleite de Margarida, pousou numa das cordas que se espalhavam por a toda parte, quase ao alcance de sua mão. Observava-a com olhinhos brilhantes, e Margaret ficou triste por não ter uma migalha de bolo ou pão seco para alimentar o pássaro.

A gaivota se espantou e saiu voando com um grito áspero quando William se aproximou de Margarida. Ele sorriu ao ver a expressão no rosto dela.

— Milady, achei que poderia gostar de ter seu primeiro vislumbre da Inglaterra. Se mantiver a mão na balaustrada o tempo todo, o comandante diz que podemos ir até a proa, a frente do navio.

Margarida tropeçou de ansiedade ao andar, e ele pôs a mão forte sobre a dela para estabilizá-la.

— Desculpe a impertinência, milady. Está bem aquecida? — perguntou ele. — Nenhum enjoo?

— Ainda não — respondeu Margarida. — Um estômago de ferro, lorde Suffolk!

Ele deu uma risada e a levou pelo convés inclinado. Margarida conseguia escutar o sibilo do mar passando debaixo deles. Quanta velocidade! Era extraordinário e estimulante. Ela decidiu voltar ao mar depois de estar devidamente casada na Inglaterra. Uma rainha poderia ter seu próprio navio, por certo?

— Uma rainha pode ter seu próprio navio? — perguntou, elevando a voz acima do vento e do grito das gaivotas.

— Tenho certeza de que uma rainha pode ter sua própria frota, se quiser — berrou William em resposta, sorrindo por sobre o ombro.

O vento refrescava, e os imediatos gritavam ordens. Os marinheiros voltaram a se mover, ocupados, afrouxando cabos e dobrando grandes seções de velas molhadas e depois amarrando-as antes de deixar tudo bem retesado outra vez.

Margarida alcançou a proa do navio, com a mão de William firme em seu ombro. Além do estai que sustentava a vela lá no alto, só o gurupés de madeira e algumas redes avançavam mais, baixando quase até as ondas e depois subindo de novo, várias vezes. Ela arfou de prazer com as falésias brancas que assomavam a distância, claras e limpas contra a maresia. Margarida inspirou e prendeu a respiração, sabendo que era ar inglês. Nunca saíra da França. Nunca saíra sequer de Anjou. Seus sentidos flutuavam com tantas experiências e ideias novas.

— São lindas, monsieur! Magnifiques!

Os marinheiros a ouviram. Sorriram e se alegraram, já afeiçoados à menina que seria rainha e que amava o mar tanto quanto eles.

— Olhe lá embaixo, milady — indicou William.

Margarida baixou o olhar e ficou boquiaberta ao ver golfinhos cinzentos singrando o mar pela superfície, acompanhando com perfeição o navio. Eles disparavam e pulavam como se brincassem, desafiando-se uns aos outros para ver qual se aproximaria mais. Enquanto ela olhava, uma vara e uma corrente presas ao gurupés mergulharam o suficiente para tocar um deles. Em confusão súbita, todos sumiram nas profundezas como se nunca tivessem existido. Margarida ficou com uma sensação de assombro e contemplação com o que vira. William riu, contente de ser capaz de lhe mostrar essas coisas.

— É por isso que chamam aquilo ali de açoite dos golfinhos — comentou ele, sorrindo. — Não os machuca. — O vento uivava, e Suffolk teve de se inclinar para mais perto e gritar no ouvido dela. — Agora, ainda temos algumas horas antes de atracar. Devo chamar suas criadas para lhe arrumar roupas secas?

Margarida fitou as falésias brancas, a terra cujo rei não conhecia, mas com quem se casaria duas vezes. Inglaterra, sua Inglaterra.

— Ainda não, William — respondeu ela. — Antes, deixe-me ficar aqui mais um pouco.